Não me recordo de um único dia de aniversário feliz até me casar. Dado o meu espírito reservado, sonhador e solitário - que ainda hoje se mantém, para surpresa dos que me conhecem da superfície - os meus pais sempre pensaram que eu não ligava nenhuma a isso, que era feliz com e no meu mundo e que por isso não precisava de festa de aniversário para nada. Daí até se esquecerem que eu faço anos foi um pulo - o que se mantém até hoje, a não ser que sejam convidados para a minha festa - e eu habituei-me a passar exteriormente o meu aniversário como se fosse um outro dia qualquer. Interiormente, ficava felicíssimo quando alguém se lembrava que aquele era o meu dia.
Quando me casei, a Isabel fez de tudo para alterar a situação. Com alguma resistência da minha parte, confesso. Quando nasceram os filhos,a coisa ganhou um outro cariz, muito mais agradável, e agora é verdadeiramente um dia especial. E a Isabel empenha-se fortemente para que assim aconteça!
Quando vim trabalhar para o CNSR, o paradigma alterou-se ainda mais. No meu aniversário recebo sempre imensas mensagens nas redes sociais, no telemóvel, e até telefonemas atendo - eu que nunca atendo telefonemas! Recordo amigos e conversas e momentos e terraços e caminhadas e fico mesmo feliz pela oportunidade de os poder recordar. O meu dia de aniversário ganha assim uma espécie de balanço de vida, recheado de memórias de pessoas fabulosas, de vidas fabulosas que, malgré tout, me fazem estar aqui, hoje, como estou aqui, hoje. E isso é uma enorme constatação de felicidade. E gratidão.
Provavelmente esperaria que aos 51 estas coisas me fossem um bocadinho mais indiferentes, ou menos importantes. Não são. Conservo ainda a alegria de pensar que alguém, pelo menos neste dia, me dedica um bocadinho do seu dia para me enviar os parabéns. E que, pelo menos nos instantes em que o faz, recorda um pedacinho das nossas vidas em comum. Que, de alguma forma. justifica o trabalho de querer viver esse dia comigo. E isso é, verdadeiramente, uma Graça!
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Bambora
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