20190320






Tenho o meu sogro como um dos sábios com quem me cruzei na vida. O facto de ele, pelo menos aparentemente, nunca ter morrido de amores por mim - pelo menos nunca o manifestou e nunca o senti - apenas confirma essa sabedoria: via mais longe. Uma das suas frases que retive para a vida foi que as pessoas são caminho de salvação. Quando ele o disse referia-se aos doentes e velhinhos, particularmente aos acamados e difíceis de tratar, que são caminho de salvação para todos os que os visitam ou deles cuidam.
Hoje, enquanto caminhava e me preparava para enfrentar o meu Deus daqui a pouco, pensava na grande questão que tanto me abalou há uns anos: como me apresentarei ao meu Deus? Que Zé é este? E pensava naqueles que, particularmente nestes últimos anos, fizeram e fazem parte desta caminhada. E pensava naquela frase do meu sogro.
O discernimento dos outros, o "já chega", o forçar-me, ainda que por falta de alternativas, a mudar de direção, o permanecer junto de mim, o acolher partes de mim rejeitando outras forçando à transformação, os pequenos e grandes toques, as pequenas e grandes conversas, as pequenas e grandes decisões, as pequenas e grandes e incompreensíveis loucuras, tudo isso são caminhos que, por percursos mais ou menos enviesados, me permitem enfrentar o meu Deus confiando-me mais ao Seu Amor. Se hoje me sinto amado, se hoje me sinto em construção, se hoje me encontro em caminho, se hoje consigo olhar para o meu destino carregando inteiro o que eu sou inteiro devo também a todos os que me amaram o suficiente para me salvarem de mim próprio. Não é questão de gostar mais ou menos de mim, é questão de confiar que isso é irrelevante para Aquele que me acolhe. É aceitar-me. Assim. Como sou. Exatamente como sou: alguém que tem ainda muito para caminhar.

20190318









Tenho aprendido que quando se educa nada se consegue se não for trabalhado por dentro. É também por isso que adoro Jesus. E é por isso que recorro a Jesus quando tenho a serenidade e a sabedoria de conseguir preparar um confronto. O meu instinto mais primário, mais antigo, mais consolidado, é o do bairro: assumir a contenda, de peito feito, como se habitasse constantemente uma arena. Olhos nos olhos, corpo no corpo, braço no braço. sai melhor quem melhor aguenta as pancadas do adversário. Isso é o que sou, se me deixar ir. Mas há o que eu quero ser, o que sou chamado a ser: fazer com que os outros sejam. E para isso, a pedagogia de Jesus é imbatível: acolher a primeira pancada, transformá-la, responder com o que há de verdade positiva no contendor, transformá-lo desarmando a sua ira, retribuindo fazendo sentir que essa ira não tem lugar entre nós.

É quando consigo isto que me consigo sentir mais cristão, melhor seguidor de Jesus. Não é porque me sinta intrinsecamente bom - nunca sinto - não é quando O estudo, não e quando ando à procura das respostas. É aqui. Quando me contrario, quando tomo conta dos meus instintos, quando consigo ter a ilusão que, por escassos momentos, consigo fazer o que imagino que Ele faria. Que é, invariavelmente, fazer-me pequeno.

20190301








Do Livro de Ben Sirá 6, 5-17

A palavra amável multiplica os amigos
e uma língua afável atrai saudações agradáveis.
Sejam muitos os que te saúdam,
mas por conselheiro escolhe um entre mil.
Se quiseres um amigo, tens de o pôr à prova
e não tenhas pressa em lhe dar a tua confiança.
Porque há amigos de ocasião,
que não serão fiéis no dia da adversidade.
Há amigos que se tornam inimigos,
revelando as vossas contendas para tua humilhação.
Há amigos para a mesa,
que não serão fiéis no dia da desgraça.
Na tua prosperidade estará contigo,
falando livremente aos teus familiares;
mas se fores humilhado, será contra ti e esconder-se-á da tua presença.
Afasta-te dos teus inimigos e acautela-te dos teus amigos.
O amigo fiel é abrigo seguro: quem o encontrou descobriu um tesouro.
O amigo fiel não tem preço: não se pode medir o seu valor.
O amigo fiel é remédio da vida: os que temem o Senhor hão de encontrá-lo.
Quem teme o Senhor orienta bem a sua amizade,

porque tal como ele é, assim é o seu amigo.

Hoje rezei-te. Rezei-nos. Agradecendo. Louvando. Trazendo à mente as nossas memórias, as nossas conversas, as nossas caminhadas, aquelas imensamente pequenas coisas que nos fazem pertença. As vezes que fomos escuta mútua, partilha, divisão, multiplicidade, sintonia, cumplicidade. Revisitei o sol que nos queimava, a lua que nos iluminava, as manhãs frias e as noites quentes, os cheiros, os sabores. Recordei os choros e os risos e as palavras, a imensas palavras trocadas quase em surdina ou vociferadas por entre brincadeiras disparatadas. As palavras sábias, certeiras, na hora certa, no momento exato, e aquelas completamente ao lado, completamente fora do contexto, que provocaram espanto e ira. Ambas, as palavras, incómodas, desinstaladoras, abanadoras de consciências, despertadoras de mundos interiores até então nunca pensados, são também o nosso património, pertença nossa, pertença mútua. Pensei nos para sempre e nos nunca mais que volta e meia semeamos e depois morrem de fome e de sede porque nunca mais os alimentamos. Pensei em como o deixar correr, deixar que o tempo seja tempo, deixar que a vida faça vida, não nos separa nem nos une, que o nosso lugar comum é exatamente aquele que sempre foi, que sempre será, sem qualquer alteração, com uma estranheza desvanecida após os cinco segundos em que os nossos olhares se encontram e se reconhecem e rejubilam por nos voltarmos a encontrar. 
Hoje rezei-te. Rezei-nos. Agradecendo a Deus. Louvando a Deus.
Por te ter na minha vida.
Desde sempre.
Para sempre.

Obrigado

20190227






Não me recordo de uma única vez em que tenhamos conversado sobre o que quer que  seja em que eu tenha ficado na mesma. No sábado, em Fátima, voltei a ver um dos meus mestres e claro que tinha que ir ter com ele. "Então como andas?" "Bem. Sem ressentimentos", disse-me, enquanto, como é seu timbre, o seu olhar vagueia. "E isso é o mais importante, não ter ressentimentos. Aceita-se o que nos acontece e vive-se com isso." Vindo de alguém que vi a primeira vez com meia centena de miúdos à volta a fazer a caça ao leão, isto não é resignação. É aceitação, mesmo. É sabedoria.
Viver com ressentimento é desperdício. Podemos sentar e lamentar, podemos chorar, podemos até perguntar porquê eu, não podemos permanecer aí. É desperdício. Não é que nos acontece que determina quem somos, mas o que fazemos com o que nos acontece. A forma como reagimos ou não, a forma como levantamos, a forma como vivemos depois de levantados, isso sim é determinante, não apenas para nós mas sobretudo para quem nos rodeia, e ainda mais para quem nos viu caído. Não é por vingança ou revanchismo ou orgulho. É fé. Esperança. Confiança. Em Deus, nos outros, em si próprio. É aqui que reside a força imensa que não permite que deixemos de caçar o leão. Porque é sobretudo na dificuldade que podemos ser mestres. De nós próprios. Dos outros. O Gaspar é um dos meus. Deus seja louvado!

20190226


Durante anos a fio não soube o que era morrer-me gente. Agora, a sensação é que a morte veio para ficar. Todas as semanas é o pai de alguém, o irmão, a mãe, uma irmã que conhecia bem, o amigo... a morte veio para ficar. Provavelmente faz parte do meu próprio envelhecimento, que acompanha o envelhecimento dos outros, e por isso talvez seja o natural, o expectável. Seja o que for, a morte é para mim sempre uma lição. Sempre. Um alerta. Que pode dar para os dois lados: ou o para quê consumir-me, o que importa é gozar a vida; ou o oposto, para quê a pressa em gozar, o que importa é o sentido último e a memória que deixamos. Que são as questões que me acompanharam desde sempre mas que à medida que o tempo passa o tempo torna mais pertinente. Que fazer da própria vida? Prazer ou dever? Ou o se soubesse que viveria apenas mais seis meses o que faria com o tempo? São questões velhas da humanidade, estas que a morte nas proximidades acicata. Temos que ter os pés bem assentes, saber bem que terrenos pisamos, os que queremos pisar, para lhes conseguir sobreviver. Temos que ter os olhos postos na globalidade do tempo, passado, presente e futuro, e não apenas do nosso tempo mas no daqueles que amamos, para tentar descortinar um sentido compatível com esta permanente sede de vida plena. A morte é uma lição. Sempre. Decisiva na escolha da vida.

20190219




Tenho rezado bastante. Como quem procura. Sobretudo o repouso confiante nos braços do Pai. Pedindo a confiança de me deixar ser eu e fazer as coisas à minha maneira. À maneira de ser eu. Por vezes titubeante, noutras confiante, se possível não demasiado confiante porque sempre que me sinto demasiado confiante sai asneira da grossa. Hoje comecei a caminhar zangado e terminei a sorrir. Também porque rezei. Porque me rezei. Lembrei-me da minha dificuldade em perceber, no retiro, o que me pediam quando nos pediam para rezarmos uma determinada situação. Hoje rezei a minha situação. Concreta. O ter acordado zangado comigo, a falta de confiança, a falta do repouso confiante no Pai. Mudei o que metia pelos ouvidos dentro, conversei, tentei resolver o mal resolvido cá por dentro e por fora, e rezei. Permiti-me ver e sentir o que me envolvia nesta manhã gelada de fevereiro à beira mar. Permiti-me ser conduzido, deixar-me levar, confiar que o melhor será sempre o melhor se não me armar em carapau de corrida. Preciso de aprender. A deixar-me levar. A deixar-me conduzir. A confiar-me. A quem me ama. Em quem me ama.







20190213






Os meus dias têm sido melhores que as minhas noites. O que é muito esquisito, dada a imensidão de trabalho. Mas é justamente por causa dessa imensidão de trabalho que isso acontece. De dia sei o que tenho que fazer, programo o que tenho que fazer, preparo-me bem, tento encaixar as várias dimensões que reclamam a minha presença e a minha dedicação e chego ao final do dia exausto mas, normalmente, feliz, com a sensação do dever cumprido ou, no mínimo, com a sensação que não podia ter feito mais. E tenho muitos retornos positivos, dos miúdos, mais e menos novos, com quem trabalho, dos colegas e amigos, dos meus, de quem me ama. Tudo isso, metido naquele saco que, no final do dia perscruto atentamente, confere um saldo positivo. E deito-me. Exausto, mas, normalmente, feliz.
Mas eu não sou eu apenas acordado. E as minhas dormidas têm sido muito ocupadas, muito populosas, muito reclamadas, muito preenchidas de gentes e trabalhos e programações, coisas que correm mal e me afligem E acordo com aquele sabor estranho e fico feliz porque a minha realidade acordado, apesar de tudo, é menos complicada que aquela enquanto durmo.
Já tive alguns períodos na minha vida em que, por muito maus que fosse o meu sonho, a realidade vivida era bem pior. E então o meu desejo mais profundo era mesmo poder dormir sempre.
Homenzinho esquisito!!!!

Tenho o meu sogro como um dos sábios com quem me cruzei na vida. O facto de ele, pelo menos aparentemente, nunca ter morrido de amore...