20160916


Os ingredientes de um bom amigo são fáceis de imaginar: amar muito, aceitar algumas coisas, vontade de mudar as mais graves, frontalidade, clareza e meiguice em doses generosas e convenientemente aplicadas, amar muito, amar muito amar muito. Não é fácil que tudo isto coexista numa pessoa só. É extremamente raro que essa pessoa nos conheça e ainda por cima goste de nós o suficiente para aplicar aquela ou outra fórmula qualquer que faça de nós pessoas melhores. Por isso um bom amigo (sem qualquer distinção de género ou idade) nos é tão precioso!

Conheço pessoas que fazem uma gestão racional dos amigos. Escolhem o que dizem, quando o dizem, reservam lugares e direitos, num cuidadoso e perspicaz jogo de luzes e sombras com o intuito de salvaguardar posições interiores. Eu, nestas como em todas as coisas importantes, sou um completo estouvado. Digo o que me vai na alma, falo de mais ou de menos, ajo incoerentemente, sem qualquer apetência para a avaliação cuidadosa das consequência dos meus atos ou palavras, genuina e ingenuamente confiante que um bom abraço sentido, um beijo na testa e um encontro do olhar é na esmagadora maioria das vezes a resposta mais eficaz para os problemas do mundo. Pelo menos comigo funciona. Particularmente quando cometo as minhas maiores camelices. Que são frequentes. 

20160914


"Não faço isto por promessa. É apenas para limpar a cabeça. Enquanto caminho não penso em mais nada."

Tirando o amor que nos temos, eu e o meu irmão não temos muito em comum. Dez anos mais novo que eu, é de uma outra geração e ainda por cima apanhou uma dinâmica familiar muito diferente daquela que eu apanhei, com todas as coisas boas e menos boas que isso implica. Não nos vemos nem conversamos muitas vezes - à semelhança do que acontece também com os meus pais e a minha irmã - porque existimos em mundos diferentes, mas sabemos da importância que temos uns nos outros.

Desta vez o pretexto do encontro foi uma festa de aniversário e às tantas a conversa fluiu para as nossas peregrinações a pé: Fátima, a dele; Santiago, a minha. Apesar de ambos termos uma vivência cristã assídua e importante para as nossas vidas sabemos que "peregrinação" é um termo exagerado para o que fazemos. Caminhamos, sobretudo, para nos encontrarmos no caminho e se nesse  encontro reencontramos e recentramos a nossa fé é mais por consequência que por causa. Nenhum de nós acredita num Deus que se compadece pela dor auto-infligida mas num Deus que nos habita e espera que Lhe demos espaço e oportunidade para fazer caminho em nós.

Não sei se será pela antecipação desse encontro profundo, mas existe em mim uma alegria interior quando estou de mochila às costas que dificilmente encontro noutra situação. O facto de apenas ter que me preocupar com que um pé suceda ao outro e deixar com isso que a cabeça, o coração e a alma e todo o meus ser se preencha com o que vai acontecendo dentro e fora de mim, faz com que aceite com toda a naturalidade as dores de pés, de articulações, de costas, de músculos - que nestas circunstâncias até nos são mais "visíveis" - como um suave preço a pagar por tamanho mergulho.

Porque o que conta. mesmo, são os quilómetros que fazemos em cada jornada. Dentro de nós.

20160913


Hoje andamos à volta do recomeçar.

As pessoas certinhas na vida e seguras nas convicções normalmente não precisam de recomeçar nada. Mesmo quando cometem erros encaram-nos com absoluta normalidade - eventualmente recriminando-se com severidade - e retomam o seu caminho com a mesma normalidade. Não entendem por isso a necessidade de recomeçar. Para elas, as regras são claras e distintas e quem falha deve ser naturalmente penalizado por isso - como elas próprias se autopenalizam por isso. Recomeçar implica um corte e esse corte não permite entender que se fez mal e não entender que se fez mal propicia um novo erro. Simples e eficaz.

As pessoas erradas na vida e sempre à procura de novas convicções precisam de recomeçar sempre. Para quem vive na procura, os erros são mais frequentes que as certezas encontradas e a auto-satisfação é sempre efémera. Todo o ponto de chegada rapidamente se torna novo ponto de partida e necessidade de... recomeçar. A frustração do erro é rapidamente substituída pelas possibilidades de futuro que fervilham e impulsionam para novo risco, novo arrojo e certeza de que agora é que é... até à próxima!

20160912


Não acredito em coincidências. Nem sei bem quantas vezes comecei com esta afirmação. Porque não acredito mesmo em coincidências. Acredito em pessoas e situações e momentos que Deus nos vai colocando no caminho deixando-nos a parte da resposta que queremos dar a essas pessoas, situações ou momentos.

Se há algo que tenho imensa dificuldade em discernir é o papel das pessoas na minha vida. O meu papel nas suas vidas já está despido de ilusões - salvo algumas raridades, chego, permaneço por curto espaço de tempo, e seguem à sua vidinha, como deve ser. Muito mais complexa é a sua presença cá por dentro, que teima em permanecer apesar do longe e da distância, a operar mudanças significativas na forma como vejo e vivo a vida. Não chegam de visita mas instalam-se, de armas e bagagens, no seu espaço próprio, nunca desocupado pelas memórias comuns.

Nunca consegui deixar ir. Por mais que possa ser a atitude certa, por mais que eventualmente magoe menos, por mais argumentos racionais que possa ter, deixar ir é tarefa impossível para mim. Acabo sempre por mascarar a ausência, fantasiar a presença, numa tentativa por vezes idiota de prolongar a presença, ainda que meramente ilusória, ainda que apenas cá por dentro.

20160911

Terminado mais um Santiago, inicia-se mais um ano. Aponto no meu calendário as minhas atividades já marcadas e assusto-me. Como sempre, vejo-o carregado de várias cores e antecipo um ano carregado de sem tempo, de correria, de dificuldade para a introspeção, meditação e oração. À semelhança no ano passado, e do ano anterior, empenhar-me-ei em conseguir um espaço apenas meu, um espaço de encontro comigo próprio, essencial para sopesar o que se passa dentro com o que se passa fora.
Essencial, meu caro Zé. Independentemente do que te possam dizer!

20160815


Recordo o verão da minha infância com saudade. Não apenas as intermináveis brincadeiras de rua, que terminavam já a noite ia alta, ou as idas à praia com o tijolo a tocar a altos berros no velhinho 88 que ia de São Roque ao Castelo do Queijo. Nem sequer os naturais e desejáveis amores de verão, que tinham tanto de intensos como de fugazes, inevitavelmente levados pelas águas das primeiras chuvas. Recordo particularmente os imensos momentos que tinha apenas comigo, e os meus livros e os dias inteiros para ler. Recordo as descobertas que fiz através da literatura, as coleções que comprava e vendia no velho alfarrabista do Bonjardim, que me devia achar alguma piada porque me dava mais livros que aqueles que eu lhe entregava. E depois, começada a escola, recordo o caminho interminável, sempre percorrido a pé porque não havia autocarro, pelo menos duas vezes por dia, outros bem mais, ou porque vinha almoçar a casa, ou porque ia aos treinos de uma das muitas atividades desportivas que fui tendo. Naqueles três quilómetros aprendi a viajar cá por dentro, a rever histórias, a preparar futuros, a fazer planos mil vezes desfeitos e refeitos porque cada caminhada era suficientemente longa para imaginar mil vidas. E como eu as imaginava!
Desse tempo ficaram estas minhas duas vertentes da minha personalidade, tão antagónicas quanto imprescindíveis para o meu equilíbrio: a alegria de estar com os outros quando estou com os outros; a necessidade de estar comigo quando estou comigo. Por vezes penso que a segunda, a da reclusão do mundo, é prevalente, é mais importante, é mais eu. Que eu estou melhor quando estou apenas comigo próprio, com as minhas memórias, com os meus sonhos e fantasmas. No entanto, fazem-me sentir muitas vezes que sou melhor com os outros, quando não me recluo mas deixo-me ser nos outros e deixo que os outros sejam em mim. É aí que se revela sempre o melhor de mim, e chego à conclusão que é aí que me aligeiro e me liberto de mim próprio.
As minhas últimas insónias têm sido preenchidas por Santiago. Faço e desfaço mochilas, aponto mentalmente o que não pode faltar, engendro esquemas para que caiba tudo e pese pouco. Santiago ocupa já uma boa parte do meu consciente e inconsciente. Num isto de memória e projeção, vejo-me a caminhar, invariavelmente no fim da fila, a conversar brevemente com quem me acompanha na ocasião e a deixar a mente esvoaçar por entre passadas mais ou menos ritmadas e paisagens mais ou menos deslumbrantes. Talvez por isso goste tanto da ida a Santiago: permite-me um misto de isolamento e partilha, devidamente acompanhado pela oração interior e exterior; permite-me ter gente boa à minha volta sem no entanto comprometer a minha necessidade de caminhar comigo mesmo; permite-me sair de mim a qualquer momento quando sou necessário e acolher quem se apercebe que também eu preciso de ajuda.
Santiago aproxima-se.
Deus seja louvado!

20160804


"Olá. O meu nome é Zé Pinho. Sou casado, tenho cinco filhos."

Já muitos miúdos e graúdos ouviram isto da minha boca. É fácil de dizer e diz o essencial de mim - como é dito num contexto de formação católica, a outra parte que me é essencial está subentendida.

Desde sempre que tivemos muitos filhos. Que agora estão um pouco espalhados. Na próxima semana terei uma em Vila Real, outra nem sei bem mas sei que é numa aldeia do interior (um pai não consegue saber tudo!) outra no Algarve a trabalhar e outro na Tanzánia, em missão. E o mais novo já disse que tem que arranjar maneira de se por ao fresco, que não está para servir de velinha as férias todas. Mesmo aquela tradicional semana de todos juntos não foi possível este ano. Uns iam e outros vinham mas nunca estivemos todos ao mesmo tempo.

Viver com os filhos longe é uma aprendizagem. Mais uma. Se por um lado ansiávamos ambos que esta altura chegasse, se ansiávamos pelo nosso tempo, sem darmos justificações, sem pensarmos em  jantares a horas e em roupas e em limpezas; por outro lado vemo-nos agora recuados aos tempos em que namorávamos: os passeios a dois, os jantares a dois, as caminhadas a dois, só que desta vez por entre mensagens de facebook e chamadas para e dos nossos filhos. É bom. É muito bom. Mas não deixa de ser um bocadinho esquisito. E inteiramente novo!

Viver a dois é sempre uma aprendizagem. Exige ajustamento constante, descoberta constante, redescoberta constante, não sendo para isso muito relevante se estamos juntos há três ou há trinta anos. Os desafios que se nos colocam hoje são muito diferentes daqueles que se se nos colocaram ao longo dos últimos trinta anos. São novos, são diferentes, são outros, que nos exigem novas avaliações e novas respostas... e novos ajustes. Constantemente.

Na semana passada pensava acerca de uma frase que deito muitas vezes da boca para fora: "não acredito em casamentos para sempre; acredito em casamentos de todos os dias." É verdade. Mas não é menos verdade que um casamento de todos os dias ao longo de trinta anos tem um outro peso, um outro lastro, uma história feita de cuidar mútuo que dá outro tipo de retorno.... e de desafios... e de segurança!

Estas férias têm sido também isso: um tempo de redescoberta. Mútua e de cada um de nós nos outros. Umas ricas férias!

Bambora

  Não é estranho que nos digam que «ser homem é muitas vezes uma experiência de frustração». Mas não é essa toda a verdade. Apesar de todos ...