20151027



Passo uma música, dez segundos depois escolho outra, tento concentrar-me, seja como for. Em vão! Hoje tudo é em vão! Enquanto ele estiver nos cuidados intensivos, enquanto não souber ao certo o que se passa, enquanto não conseguir lidar com esta inquietação que me habita as entranhas, tudo é em vão. A aparência da normalidade, que se impõe nestas alturas, deixa um intenso sabor a fel. A sensação que não é aqui que deveria estar, a certeza que deveria ser lá, mais perto dele, ainda que tão impotente quanto aqui, ainda que tão inútil como aqui, entorpece-me os sentidos e não consigo pensar nada, fazer nada, sentir outra coisa que não esta impotência que me tolhe os movimentos.

Esperávamo-lo ontem para, como sempre, festejar connosco mais um aniversário de mais um dos nossos filhos. Sabíamos que desta vez não viria, como veio tantas outras, apenas para se sentar no canto do sofá, apenas para aí estar, sem abrir a boca, sem olhar para coisa nenhuma, bebendo dos nossos sons, absorvendo da nossa vida, porventura tentando reencontrar aí um pedaço da sua vida. Sabíamos que se reerguera, há alguns anos, já caminhava, já recomeçara, já conseguíamos ver nele o Jorge que nos acompanhava há mais de trinta anos, padrinho de um dos meus filhos, amigo de todos eles, íntimo de todos nós, já mobília da casa, desde sempre parte de todos nós. O Jorge não é como um irmão, é um irmão, que a vida foi dando, que a vida foi construindo, que a vida foi cimentando e consolidando e crescendo até não o distinguir dos meus irmãos, até não ser distinguido dos seus irmãos.

Fomos a correr para o hospital. Eu e o meu filho, seu afilhado, muitas vezes seu confidente. Ficamos lá até tarde, como ficaram outros, sedentos de notícias, num silêncio contido, à espera que um qualquer milagre nos pudesse mandar de volta para casa com a hipótese de nos reconciliarmos com o sono. Que não chegou. "Está nos cuidados intensivos. Lá permanecerá até conseguirmos avaliar a dimensão dos estragos que o atropelamento provocou." Regressamos a casa, em silêncio, desalentados, sem grande esperança, dolorosamente refugiados nas memórias que teimam em invadir-nos nestas alturas.  Em silêncio. Cada um com a sua dor.    


20151026




... e, de repente, acordas.

Fui visitar a minha avó. E, como tem acontecido a longo deste último ano, a viagem de regresso a casa gira em torno dela, da rápida aceleração do seu processo de envelhecimento, da passagem tão difícil do cérebro à boca que torna as suas palavras tão entarameladas, do seu olhar que ora está vivo como antes, ora, de repente, se embacia, da sua consciência da progressiva perda de consciência, do fatídico "estou mortainha por morrer"... Se os seus 94 anos tinham já repercussão no seu corpo, a sua cabeça, até há pouco tempo, permanecia tão lúcida como antes. Dizia mal das mesmas pessoas, mandava as suas piadas - invariavelmente entrecortadas com as caralhadas que eram a sua imagem de marca - perguntava por mim e pelos meus sabendo que perguntava por mim e pelos meus conseguindo identificar quem eram os meus. Agora, quando finalmente sabe o meu nome, confunde-me com o meu pai, ou com um dos meus filhos, alternando sucessivamente as suas conversas comigo como se estivesse a falar com qualquer um dos outros.

Em nada a ternura que sinto por ela se diminui. Apesar de não termos tido uma história de vida bonita juntos, a determinada altura, quando me apercebi que não a teria junto de mim por muito tempo - e quando já apenas dependeria de mim estreitarmos laços porque ela já não conseguia sair de casa - comecei a ir visitá-la, não numa tentativa de recuperar tempo, mas de agradecer o ainda tempo. E aprender.

Tenho lidado muito com velhos - não gosto de "idosos" e muito menos de "séniores", que me parecem eufemismos para disfarçar a nossa obsessão pelo novo - que me têm colocado a vida em perspetiva. São uma lição, por isso, para mim e para os meus filhos. Nem sempre positiva, confesso. A imagem romântica e confiante que eu tinha em relação ao futuro vai-se desvanecendo à medida que vou tendo que lidar com parkinsons e alzheimers e demências e falência do corpo e da mente, arrastando consigo, ladeira abaixo, a falência do espírito.

Estou habituado, desde sempre, ao confronto comigo mesmo, ao contínuo perscrutar do que se vai passando cá por dentro, tentando discernir, a cada momento, o melhor caminho. Mas este é um outro tipo de confronto: o da finitude de todos nós, dos que amamos, dos que acompanhamos ao longo da nossa vida, de nós próprios. No definhar dos outros assistimos ao nosso próprio definhar, à medida que a sua memória se vai apagando, vamos sendo cada vez menos memória, nos outros... dos outros... de nós. Não são apenas eles que não são o que eram, somos também nós que não somos o que sempre pensávamos que éramos. E isso pode ser duro. Quando pensamos a sério, isso é duro. Porque nos coloca em perspetiva.

A tentação de irmos respondendo ao seu progressivo desligamento com o nosso próprio desligamento é enorme, ainda para mais quando temos a pressão do quotidiano a berrar-nos ao ouvido a falta de tempo e de disponibilidade, mental e física, para lidarmos com o lado b da vida. Lidar com velhos é, no entanto, uma experiência profundamente transformadora.

Resta-nos saber conduzir o sentido dessa transformação.

Não é fácil.

20151024




Sinto sempre um respeito e responsabilidade profundos por aqueles que são capazes de fazer aquela que é, para mim, a mais difícil das partilhas: a dos momentos difíceis.

Aconteceu num destes dias. Cruzáramo-nos várias vezes nos corredores da vida, com cordialidade nos cumprimentos e no olhar, apercebendo-nos do bom acolhimento mútuo. Mas nunca conversáramos, a sério, nunca tínhamos feito nada juntos, nunca tivéramos sequer oportunidade de trocar mais que o mecanizado e mecanizante "tudo bem?" da praxe.

Mas aconteceu num destes dias. Calhou ter-se proporcionado um momento para conversarmos e, passada aquela barreira que nos permite confirmar ou não a intuição sentida, partilhou. As suas dores, as suas dificuldades, a sua solidão, porventura o seu desespero em conseguir lidar com a situação, a sua profunda solidão, mais uma vez, numa manifesta incapacidade de gerir - sem julgar poder contar com mais ninguém! - o céu que teima em desabar sobre a sua cabeça.

Impressiona-me sempre a dor escondida. E impressiona-me sempre por vários motivos. Invariavelmente, o primeiro é instintivamente auto-punitivo: não percebo como pude não me ter apercebido antes, como pude não ter visto, como pude ter andado tão distraído. É instintivo, e reduz fortemente assim que permito que a cabeça funcione: não posso respeitar a distância que nos é - ainda que tacitamente - pedida e, ao mesmo tempo, invadir o que não querem ver invadido. "Não podes dar o que não querem receber." Ponto. O segundo motivo é mais racional. Mas mais duro. Impressiona-me a capacidade que algumas pessoas têm de continuar apesar de..., de persistir, de combater, de andar de cabeça erguida e ainda - espante-se! - sorrir, tentando conciliar o turbilhão interior com a aparente calmaria exterior, refugiando-se cada vez mais, escondendo-se cada vez mais, isolando-se cada vez mais. E impressiona-me sempre, sempre a solidão. Que nunca escolhe idades ou géneros, que não escolhe contas bancárias ou aspectos físicos, que muitas vezes não escolhe sequer acontecimentos específicos, mas que entra, subrepticiamente, e subrepticiamente se instala sem pedir licença, e se deixa ficar por lá, minando, minando, no silêncio, até que alguém ceda.

Aconteceu num destes dias. Cedeu. Foi comigo - improvavelmente comigo - mas cedeu. E eu estava lá, a escutar atentamente, cuidadosamente calado, porque, como concordamos mais tarde, há dores que não podem nunca ser menorizadas ou suavizadas. Apenas partilhadas.

Aconteceu num dia destes.

20151022


Esta noite foi passada na companhia da minha velha amiga insónia.

Muitas vezes não é assim tão amiga: deixa que eu me enrede nos meus próprios pensamentos como peixe na rede, sem me conseguir soltar de mim próprio, sem avançar noutro sentido que não seja o círculo perfeito, voltando uma e outra vez ao mesmo lugar, sem progredir coisa nenhuma.

Não foi isso que aconteceu esta noite. Desta vez fartamo-nos de conversar. Das coisas da alma, principalmente. Disse-me que eu estava enganado havia muito tempo. Que a alma não é uma só, presa ao corpo, amarrada à vontade, rendida aos nossos desejos mas tem vida própria. Que prender e amarrar e render fazem parte de um outro vocabulário, que é estranho à linguagem da alma. Que refere a um outro mundo: o das coisas, das quais o corpo faz parte. E disse-me ainda - para me tentar fazer perceber - que a alma é um pouco como Deus que, sendo um, não é apenas um, e não sendo apenas um, não deixa no entanto de ser um. E que, sendo um, habita em muitos lugares, preenche muitos lugares e se preenche em todos os lugares, sem se sentir dividido mas multiplicado, complementado por todos os lugares que habita, em si tão diferentes, mas dentro de si tão únicos... tão unos! E disse-me ainda que é por isso que a linguagem de Deus é a linguagem da alma, que apenas a tornamos corpo, apenas a coisificamos, porque estamos sempre à procura de aprender a escutar, e a ver, e a sentir, e a valorizar o que escutamos e o que vemos e o que sentimos. Depois olhou-me atentamente e disse-me, lentamente, para que eu entendesse bem - ela sabe bem, até pelas horas tardias em que me visita, que eu com sono sou ainda mais lerdinho - que não havia motivo para preocupação. Que sossegasse e deixasse a minha alma sossegar. E que confiasse. Porque a minha alma, bem melhor que eu, reconhece o amor, reconhece-se no amor, até porque habita aí nesse lugar onde também habita Deus.

Estremunhado, olhei para a minha velha amiga insónia, agradeci, e disse que tinha que me levantar cedo. Ela sorriu, anuiu,e foi tratar da vidinha dela para outro lado. Com a minha alma, desconfio, porque dormi sossegado até de manhã.

20151021


Apenas duas coisas em mim provocam o silêncio involuntário: o peito vazio e o peito cheio.

Quando vazio, não tenho nada para dizer. Tudo é turbilhão de ideias e imagens e momentos e frases e gritaria em alvoroço, provocando o alvoroço, impedindo qualquer pensamento claro, obstruindo qualquer discernimento. Nada sai porque tudo acontece ao mesmo tempo, e o silêncio é ensurdecedor.

Quando cheio, não consigo dizer nada. Tudo é turbilhão de ideias e imagens e momentos e frases e gritaria em alvoroço, provocando o alvoroço, impedindo qualquer pensamento claro, obstruindo qualquer discernimento. Nada sai porque tudo acontece ao mesmo tempo, e o silêncio é ensurdecedor.

Apenas aparentemente o vazio e o cheio são a mesma coisa.

Quando o peito está vazio, o meu percurso é descendente. Tudo é colocado em causa, todas as decisões, todas as atitudes, todas as palavras, são passadas pelo crivo, frequentemente impiedoso, da minha racionalidade em busca de uma razão, de um motivo, de algo que possa alterar. É um silêncio solitário, de uma solidão provocada, absolutamente necessária para que possa, sozinho, descer aos confins de mim mesmo tentando encontrar aí uma saída. E nesses dias, como sabiamente diz a canção, eu não me recomendo.

O peito cheio é feito de presença, de companhia, de palavras que me deixam sem palavras, de imensidão, de futuro, de memórias de conversas de partilhas que sempre serão partilhas porque me impulsionam os sonhos e esta extraordinária sensação que o universo está em sintonia com a minha alma. O peito cheio é feito de olhares, concretos e definidos, de momentos que serão eternos porque se querem eternos, guardados bem fundo, na prateleira dos inolvidáveis, na pasta dos repetíveis desejados, bem ao lado dos sonhos realizados e a realizar. E nesses momentos, como sabiamente diz a canção, deixai-me ir, que o mundo vai sorrir ao ver-me passar.

Algures no meio, eu. Permanentemente embasbacado, permanentemente grato, permanentemente aturdido, à procura de saber transmitir o que acontece cá por dentro.

20151020


Nunca entendi bem o que leva as pessoas a chegarem à minha vida.
E a saírem.
Permanecendo... ou não.

Umas entram de rompante e provocam tumultos, remexendo, revirando, saindo depois com a mesma impetuosidade, indiferentes ao rasto que deixam atrás de si. E o que deixam é quase sempre uma marca de saudade dos futuros que nunca o chegaram a ser, de tudo o que poderia ter sido, das loucuras que poderia ter cometido mas que, por decisão própria, falta de coragem, falta de arrojo, excesso de comodidade, foram por mim preteridos em favor de outros caminhos escolhidos. Volta e meia cruzamo-nos novamente, normalmente num rede social, e ficamos mutuamente felizes por sabermos que a vida nos conduziu a lugares que, sendo diferentes, são os de cada um de nós.

Outras pessoas, no entanto, entram de mansinho. Por algumas delas espero bastante tempo. Intuo que há qualquer coisa, que a vida se encarregará de confirmar ou desmentir, e vou ficando atento, pelo canto do olho, aos seus sinais, ao seu percurso, às alturas em que nos cruzamos, esporádicas umas, mais assíduas outras, mas deixando que as suas impressões façam caminho. Algumas dessas esperas tornam-se demasiado longas, demasiado inconclusivas, não atam nem desatam, e às tantas apercebo-me que são passado, que também elas ficaram no que poderia ter sido. Mas há esperas que têm uma outra consistência, uma outra sede de possibilidade de futuro, cujos sinais persistem no tempo e podem durar anos inteiros a viver de pequenas respirações, de pequenos nadas, que volta e meia, um gesto aqui, uma palavra acolá, um olhar mais atento, impedem que a possibilidade de futuro dê lugar à memória do passado.

E, às tantas, acontece. Uma fragilidade mútua, uma coincidência no tempo, e no lugar, e na vontade, e nas circunstâncias, uma partilha sincera, e vemos confirmado tudo aquilo que subentendíamos há tanto tempo, tudo aquilo que pressentíramos, tudo aquilo que eventualmente sonháramos e é agora confirmado pela batida acelerada da pulsação, pelo sorriso franco que temos diante de nós, pela alegria mútua da alma, pela franca partilha das fragilidades.

A vida tem o seu ritmo próprio (Eclesiastes 3, 1-8). Nós é que somos ainda demasiado cheios de nós próprios para acreditarmos que a controlamos.


20151015



Todos os dias, antes de começar, olho para trás, na esperança que chegue.
Todos os dias, antes de acabar, olho par a frente, na esperança que chegue.
Todos os dias, ainda que nunca chegue, espero que amanhã seja o dia em que chega.

Eu gosto de esperar. Gosto que combinem, antecipadamente, de marcar o dia, e o local, e a hora. Gosto de acordar antes, de chegar antes, de viver antes o que calculo que irei viver a seguir. Gosto daquela sensação de aperto, de expectativa, de imaginar as conversas, o percurso interior que iremos fazer, o percurso exterior que iremos fazer, de antecipar as paisagens e os sons e as cores que irão colorir aquele momento que será apenas nosso. Gosto de confiar que chegue, que depois, pouco antes de chegar, rapidamente se transforma em duvidar que chegue, rapidamente dá lugar ao perscrutar do horizonte, numa tentativa de ver, primeiro a silhueta, depois o andar, a forma como caminha e se dirige a mim, depois, mais perto, o olhar, o sorriso - se o motivo da espera for bom - a rigidez do rosto - se o motivo não for bom - e de tentar ler, logo aí, enquanto não chega, o seu estado de espírito e logo aí, enquanto não chega, refazer percursos interiores, refazer percursos exteriores e diálogos e formas de começar a conversar, e mentalizações para o caso de as coisas não correrem bem.

Já apanhei autênticos banhos de desilusão, já antecipei conversas que nunca aconteceram, já tive percursos que foram bruscamente interrompidos, já enfrentei olhares que jurava amigáveis e se revelaram frios, e distantes, e surpreendentemente frios e distantes, e dolorosamente frios e distantes. Já pedi, interiormente, que me tirassem daquele filme, à medida que ia constatando que afinal eu estava só, sempre estivera só, sempre fora uma coisa só minha, cuidadosamente camuflada por mim próprio, laboriosamente construída por mim próprio, impiedosamente ignorada por quem esperava. Já tive vontade de desmarcar, à posteriori, de me esconder, à posteriori, de fazer de conta que tinha sido um engano, uma confusão, que afinal não era bem assim, sempre à posteriori, negando as mais profundas evidências interiores, em vão contrariando as maiores evidências exteriores.

Já me aconteceu de tudo, depois da espera. Inclusivamente o céu. E pela hipótese de céu, nem que seja pela ínfima hipótese de céu, valeu sempre a pena esperar.

Por isso, espero. Todos os dias. Na esperança que chegue.

Bambora

  Não é estranho que nos digam que «ser homem é muitas vezes uma experiência de frustração». Mas não é essa toda a verdade. Apesar de todos ...