20151014


O melhor de uma conversa, de um encontro, de uma pessoa, acontece quando permitimos que ela nos habite, nos mexa por dentro, nos faça companhia - muitas vezes quando menos o esperamos - nos remexa as entranhas e nos lance naquela inquietude onde nasce a sabedoria. 

Na conversa com os meus filhos, uma delas disse, às tantas, que não tinha a certeza que aquilo que sentia em Taizé ou quando rezava com os amigos ou quando estava no Fé e Luz com os deficientes ou em qualquer outra situação do género, era por ser católica ou se sentiria o mesmo independentemente de ter ou não ter fé, de sentir ou não a presença de Deus. Sorri. A importância que colocamos às etiquetas é verdadeiramente desmesurada. Não me parece nada importante para quem está com ela, para quem vive com ela, para quem experiencia estas coisas com ela, se ela é católica ou não, se é por Deus ou não. As etiquetas servem para uma coisa apenas: separar. Porque somos naturalmente limitados e não conseguimos abarcar todas as coisas, separamo-las por classes, ou funções, ou cores, ou religiões, ou o que quer que seja, apenas para que possamos lidar com elas com maior segurança, apenas para que as possamos utilizar melhor, apenas para que nos possamos defender melhor. Conscientemente ou não, agimos de determinada forma, preconcebida, em função das etiquetas que colocamos, fechando-nos e fechando-as à imensidão do que poderia acontecer se não tivéssemos colocado - ou deixado colocar - as nossas tão preciosas etiquetas.

Mas não foi isto, no entanto, o que fez caminho em mim. Foi outra coisa.

Não me parece que Deus faça incidir um raio de luz sobre a cabeça de cada um nem que o Espírito Santo e entretenha a distribuir línguas de fogo segundo a sua vontade. Acredito que Deus nos fala de muitas formas, mas nessas formas está sempre envolvido o outro. Há alturas em que Deus nos sussurra na alma e a alma transborda contagiando quem está à nossa volta. É quando deixamos que Deus atue em nós e somos luz e caminho, muitas vezes sem sequer nos apercebermos disso. E há alturas em que Deus nos fala pelo que nos envolve, seja a natureza, sejam as pessoas, seja uma situação nos remexe as entranhas - porque Deus é sempre uma coisa de entranhas! - seja uma inesquecível oração da luz em Taizé que nunca deixa de nos iluminar as noites escuras. É quando nos deixamos contagiar pelo transbordar de Deus no que nos rodeia. 

Não precisamos de ser católicos para sentirmos que Deus nos fala. Não precisamos sequer de ser cristãos. É mais fácil senti-lo sendo-o, porque O conhecemos, mas não é absolutamente necessário. Não podemos é retirar Deus da equação das nossas vidas. Se, quando nos sentimos em paz, quando nos sentimos em sintonia, quando nos sentimos parte de algo maior que nós - e sentimo-lo muitas vezes - procuramos apenas explicações lógicas para o que sentimos e não damos lugar ao que nos transcende, estamos a colocar-nos etiquetas, e aos melhores momentos das nossas vidas. 

E estamos a roubar-nos a nós próprios a imensidão que somos.

20151013


Hoje, o caminho de ida não chegou. Continuava a precisar do silêncio, de ter o mar diante dos olhos, do seu som a bater nas rochas, hoje suave, muito suave, precisava da sua companhia por mais algum tempo e não do barulho dos automóveis e da paisagem citadina que me costuma fazer companhia no caminho de volta. Hoje precisava de ver apenas a linha do horizonte que é definida pelo mar, e que me transmite sempre aquela sensação de infinito, de eterno, onde me posso perder com facilidade sem que ninguém me encontre. Hoje precisava de algum tempo mais, precisava de dar tempo ao que estava na minha cabeça, ao que gritava na minha cabeça, para que, lentamente, suavemente, como quem não quer a coisa, começasse a dar lugar ao serenar do coração, para que, lentamente, suavemente, começasse a ecoar o que me ia na alma. Hoje precisava mais do meu olhar que do olhar daqueles que se cruzam comigo, a passo de corrida uns, a passo de passeio outros, a passo todos, auscultadores nos ouvidos, olhos postos no chão, num visível esforço de se ultrapassarem todos Como eu, aliás, atento ao meu olhar, escutando a minha voz, tentando discernir algo que valesse a pena por entre a gritaria, tentando encontrar um qualquer fio condutor que hoje, e apenas hoje, me pudesse servir de rumo.

Hoje, o caminho de ida não chegou. Fiz o de volta, contrariamente ao habitual, vendo uma outra paisagem completamente diferente, trocando as voltas às minhas costas, presenteando um novo horizonte ao meu olhar, vendo outras pessoas, as que normalmente fazem daquele o caminho de volta e que permanecem longe do meu olhar quando faço de outro caminho o caminho de volta. Tive mais mar, mais vento, mais gaivotas, mais silêncio, mais paz. E tive mais tempo para me (re)encontrar.

Bom dia

20151012


Apesar de ter uma consciência muito apurada - sinto-me sempre culpado até prova em contrário - e de ter feito uma série considerável de asneiras ao longo da vida, voltar atrás nunca foi algo que desejasse muito. As decisões que tomo tomo-as sempre segundo as circunstâncias - as que me são externas e, fundamentalmente, as paranóicas - e sempre tive a noção que não adiantaria de muito voltar ao mesmo lugar porque, provavelmente, voltaria a cometer os mesmos erros.

Há, no entanto, uma série de episódios que uma mão cheia de dedos pode contar que preferiria que não tivessem acontecido. O que têm em comum é que neles magoei mais do que fui magoado. O que têm em comum é que não cheguei a pedir-lhes desculpa pelo que fui, pelo que fiz, ou pelo que disse. O que têm em comum é que a sua recordação nunca me deixou reconciliar-me comigo mesmo.

Durante anos imaginei uma outra conversa, uma outra forma de fazer, até uma outra forma de ser. Tomada a decisão, parti para a ação, alicerçado numa imaturidade que me acompanhou até algo tarde, na minha vida. Como sempre, tinha escolhido não confrontar, para não magoar. Como sempre, acabei por magoar muito mais que se tivesse sido o homenzinho que já deveria ser na altura. Durante anos esse episódio - e as suas consequências - acompanhou-me. Imaginava, sonhava, uma outra conversa, calma, serena, onde apresentava as minhas justificações e depois seguiríamos ambos, cada um para o seu lado, lambendo as feridas mas prosseguindo com as suas vidas, como tinha que acontecer. Como acabou por acontecer. Voltamos a estar juntos na semana passada, fruto do acaso. Desta vez a situação forçou-nos a algo mais que o distante "olá" que já tinha acontecido antes, e tivemos mesmo que trocar algumas palavras que fossem para além da simples circunstância. Não foi necessário mais. Não foi necessário o pedido de desculpas formal - que, no entanto, acredito que ainda possa vir a acontecer - que me sossegaria a alma, mas já ame permitiu ver que não há ressentimentos, que a vida prosseguiu, como tinha que acontecer.

Sou feito de muitas pessoas. Algumas delas ocuparam pouco espaço, cá por dentro. Outras, no entanto, são ainda interlocutores privilegiados das minhas conversas solitárias enquanto caminho. Essas, seja por bons ou maus motivos, nunca deixaram de fazer parte de mim. Chegaram, acamparam, e por aqui continuam. Algumas delas até à altura em que possa dizer mais um "olá" circunstancial, que me assegure que a vida prosseguiu. Como tem que acontecer.

20151011


Ontem tivemos uma daquelas longas conversas acerca da fé. Quando a começamos estávamos ainda a jantar e quando a terminamos olhei com espanto para o relógio e vi que passava da meia-noite. Os meus filhos sabem que eu adoro conversar com eles acerca da Igreja e das coisas da fé. Sabem que eu estudei e estudo para tentar saber um pouco mais, mas, mais importante que isso, sabem que têm toda a liberdade para colocarem todas as dúvidas que quiserem e de as manter até que a vida as consiga esclarecer. Não sou, nunca fui, nada proselitista talvez porque, como ainda ontem lhes disse, acredito muito pouco que alguém se converta à fé apenas por causa do que dizemos. Acredito sim, que Deus faz o seu caminho para chegar a todos nós e que, na melhor das hipóteses, nós deixamos que Deus actue em nós, aceitamos ser parte desse caminho, mas sempre através do que vamos conseguindo ser todos os momentos da nossa vida. Nada disto é novidade para eles, já foi dito muitas vezes, e por isso fico mesmo feliz quando eles me procuram para conversarmos, dando-me a oportunidade de os conhecer um pouco melhor e, de certa forma, se o desejarem, de crescermos um pouco mais.

Os meus filhos estão quase todos naquela fase da vida em que começam a assumir a responsabilidade pelas suas próprias decisões. Não que eu não queira saber o que se passa com eles, mas por uma questão de respeito. Acredito que o essencial do que lhes tínhamos a transmitir enquanto pais já foi feito, preocupo-me bastante em fazê-los sentir que cometer erros de percurso é normal e quando isso acontecer eles têm sempre para onde voltar sem que nada lhes seja atirado à cara, mas agora é chegado o tempo de serem eles próprios a fazerem o seu caminho. Sob o nosso olhar atento, como sempre, mas é o seu caminho.

Nos dias bons, chego a ter algum orgulho no percurso que fiz. Muita indefinição, muitas dúvidas, algumas asneiras, muita solidão, muito caminho nas pernas, muita procura, algumas chegadas... Ontem, quando me deitei depois daquela conversa, dei Graças. Porque, pelo menos por eles, ainda que mais não houvesse, viver já teria valido a pena.

20151008


Bem cedo deixei de acreditar que existiam alturas certas para estarmos com quem amamos. E passei a acreditar que o tempo, quando é inteiramente dedicado por nós, é muito relativo. Tenho escassos mas absolutamente deliciosos e até decisivos minutos com cada um dos meus filhos enquanto estamos a ir ou a vir para ou de qualquer lado. Não é necessária uma grande viagem, não precisamos de momentos especiais, grandes dias ou acontecimentos importantes. Basta estarmos só nós, quando nada mais interfere ou distrai a nossa atenção, e temos as mais deliciosas conversas, e muitas vezes as mais profundas revelações.

É frequente ouvir os meus amigos que são pais ou mães queixarem-se que ao fim do dia ou ao fim de semana são motoristas. Algumas das melhores partilhas com os meus filhos aconteceram justamente quando os estava a levar para o futebol ou para a música, ou vínhamos da equitação, ou agora do andebol. O facto de estarmos apenas os dois no carro fazia-os sentirem-se únicos, possuidores da minha total disponibilidade naquela altura, o que, numa casa com pelo menos sete pessoas, é um privilégio. E depois, enquanto estou à espera deles, babo-me completamente ao assistir aos seus desempenhos, envolvo-me na sua forma de estar nas actividades e, não raras vezes, descubro neles uma outra forma de ser pessoa, que me era impedida pelo meu olhar paterno.

Em Hollywood existe a máxima "não há papeis pequenos; há actores pequenos." Aplico-a muitas vezes na minha vida, no meu contacto com as pessoas, na forma como vivo os aparentemente pequenos acontecimentos que ao fim do dia se revelam muitas vezes muito importantes. Porque a vida acontece todos os dias, a toda a hora, e não apenas nos momentos especiais. E às vezes não a conseguimos ver. E como é muito importante educarmos o olhar! E sairmos do centro da nossa atenção.

20151007




Há um motivo para temer sempre um olhar de desilusão dirigido a mim: já vi vários. Dolorosos. Todos eles.

Quando me interesso o suficiente por alguém - e é-me sempre muito fácil interessar-me por alguém - não costumo ter grande dificuldade em saber lê-lo. E quando essa dificuldade existe, rapidamente constitui um desafio que exige ainda uma maior entrega e atenção da minha parte. E, se estivermos ambos em contacto o tempo suficiente - e se a pessoa em causa for interessante - dou ao tempo o tempo necessário para aprender a lê-la. Antecipar os seus olhares, conseguir perceber quando está bem ou mal, e guardar ainda assim a distância necessária para ser chamado sem me impor, é vivido por mim quase como uma missão e, tarde ou cedo, a vida acaba por promover o encontro mútuo, quase sempre mutuamente enriquecedor.

Há quem chame a isso inteligência emocional. Seja! Até concedo que poderá ter tudo de emocional, mas não terá grande coisa de inteligência. Porque o olhar que incide sobre os outros transforma-se em completa cegueira quando incide sobre mim próprio. Não é nada raro andar completamente enganado acerca do que penso ser a minha realidade, completamente iludido, completamente no mundo da lua, sem qualquer sintonia com o que efetivamente se passa. Todos à minha volta vêem que é alhos e espantam-se quando eu vivo como se fossem bugalhos. Mas com o seu ar de espanto permanente posso eu bem. O pior mesmo é quando a inteligência finalmente carbura e eu descubro a verdade. Que, quase sempre, não queria ver e por isso a fantasiava tão cuidadosamente. Que, quase sempre, acerta na mouche e exige medidas duras, que evitava tão cuidadosamente.

Já vivi o suficiente e já tive que aprender o suficiente para perceber que há feridas que nunca passam, que permanecem, apesar dos esforços, apesar dos curativos, apesar de toda a vontade do mundo em alcançar a cura. Mas que devem ser enfrentadas, para que, finalmente, possa entrar alguma luz.  

20151003


Nunca fui muito de ter os pés na terra. Creio agora, olhando para trás, que em determinada altura era porque não podia. A minha terra era demasiado dura para que eu me permitisse manter-me em terra firme, que se não me agarrasse ao ilusório, ao sonho, ao que poderia ser, jamais teria saído do buraco onde me encontrava. Noutras alturas, porém, não quis ter os pés na terra. Não por causa do que me envolvia mas por causa do que sentia, da minha falta de orgulho em ser eu, e fugir da terra era a única maneira que encontrava de conseguir sobreviver a mim próprio. E por vezes ainda acho que nunca de lá saí.

Manter os pés na terra é um luxo. De quem sabe o terreno que pisa, de quem olha momentaneamente para o caminho percorrido e gosta do que vê, de quem consegue lidar, em paz, com o rasto deixado pelas suas pegadas. Não é o meu caso. Pelo menos não tem sido, ultimamente. E sempre que sinto que não é o meu caso eu questiono-me se alguma vez o foi. Se, nas vezes que eu pensei que era o meu caso, não estava justamente com os pés fora da terra, não estava a colorir a realidade, não estava num estado de euforia tal que me impedia de ver o que realmente era e projetava o que desejava que fosse.

Ainda penso, algumas vezes, talvez por defesa, que os pés na terra são demasiado sobrevalorizados. Outras vezes penso, por pura estupidez, que os pés na terra têm um problema de compatibilidade com a fé, como se a fé pudesse ser algo etéreo e desligada da vida e ter os pés na terra não fosse condição necessária para se poder ter uma vida de fé. A forma como vivo a fé chama-me forçosamente à terra. Chama-me a ser realista, a ver as pessoas com olhos de ver, mas a adotar uma visão larga, sem me render ao momento, procurando enquadrar toda a sua história, toda a nossa história comum, feita sempre de caminhos partilhados, conversas partilhadas, confissões mútuas de alegrias e tristezas. E ver as pessoas assim, ler as pessoas assim, é, na melhor das hipóteses, entendida como ter os pés meios fora da terra, para muita gente.

Creio que todos somos mais brandos com os fantasmas alheios que com os nossos próprios fantasmas. Que lhes damos mais largura, mais abertura, que os toleramos melhor, os conseguimos ler melhor, até pela maior distância, encarando-os com a naturalidade de quem sabe que as pessoas se amam apesar dos seus fantasmas. E creio que todos somos demasiado severos com os nossos próprios fantasmas, que nos são demasiado visíveis, demasiado presentes, por vezes até demasiado castradores. E todos conhecemos pessoas que conhecem os nossos fantasmas pelo nome, são mais íntimos deles que nós próprios, e até têm a autoridade de os colocar no seu lugar. E nos dizem, com a doçura proveniente de uma sabedoria profunda, que temos que por os pés na terra.

Bambora

  Não é estranho que nos digam que «ser homem é muitas vezes uma experiência de frustração». Mas não é essa toda a verdade. Apesar de todos ...