20120422


Eu acredito nisto. Ainda esta semana tive a prova em como, naturalmente, sou assim.

Esta semana a minha mais-que-tudo esteve fora. Todos dos dias da semana estive sem ela, apenas comigo, recolhido, no meu canto. Como sempre acontece, isso causou estranheza a muita gente, que se entreteve a descobrir motivos para o meu quase isolamento: saudade, tristeza, solidão...

Dou-me muito bem comigo próprio. Por vezes (tantas vezes!) gosto de estar só, de caminhar sozinho, de comer sozinho, e quando tenho que estar num acontecimento mais social, a minha condição natural é a de me refugiar a um canto, observando, sozinho, a vida (dos outros) a acontecer.  Não é solidão, é por opção, por escolha, por conhecimento de mim e, essencialmente, por conforto. Não gosto, não sei, não quero saber fazer aquelas conversas de circunstância, para deitar fora, para ocupar tempo. Talvez seja por gaguejar e cada palavra dita implicar um determinado esforço da minha parte, mas adoro conversar mesmo, com assuntos sérios, que são capazes de transmitir algo de substancial, e normalmente o que as pessoas querem nestas alturas é espairecer, é falar de coisa nenhuma, e isso não é fácil para mim - a não ser com aqueles que me conhecem verdadeiramente bem.

Quando eu não consigo ser assim, como realmente sou, só digo e faço disparates. Quando começo a deitar conversa fora, quando me apercebo que a estranheza passa a incómodo, então desato a falar, a brincar, a exceder-me nas brincadeiras e nas palavras e, por norma, arrependo-me das minhas figuras de urso. 

E são tantas!

20120419


Não tem sido uma semana fácil, esta. E ontem, então, todo o dia sem noticias porque o Costa Serena estava em alto mar, foi mesmo muito difícil. 

Não estamos nada habituados a vivermos separados. Uma parte importante do nosso quotidiano é vivido a (pelo menos) dois, onde tudo vai sendo partilhado, tudo vai sendo conversado, num rame-rame feito de continuidade com o mínimo de sobressaltos possível. O chegar ao fim de um dia e não a ter junto a mim, ou à minha espera, ou não estar eu à espera dela, o não poder ouvir tudo aquilo que se passou no seu dia - eu sou muito mais de escutar - não a poder admirar em toda a sua imensa capacidade de se entregar aos outros como um bombeiro em serviço permanente, é sentir esvaziar esse dia, é perder-lhe o sentido, é perder-me no sentido que o dia devia ter.

Eu sei que nenhum de nós é imortal, sei que o nosso casamento é tudo menos garantido - é preciso regar as flores... - sei que a separação, se não muito longa, nos faz muito bem, sei que ambos precisamos do nosso espaço, que reivindicamos esse espaço, sei que precisamos de respirar, um sem o outro, e que o fazemos bem porque temos muitos amigos com quem o podemos fazer, sei que ambos precisamos por vezes de apanhar um outro ar que seja apenas nosso. Mas sei também que temos sempre para quem voltar, ansiamos voltar, e sabemos que nos esperam, ansiosos, para escutar aqueles coisas cujo valor reside essencialmente na possibilidade de as partilhar com quem nos ama.

Olho para a sms acabadinha de chegar "... é só mais uma noite sem ti..." 
Sorrio. 
Já falta pouco.
Deus seja louvado! Vou voltar a sentir-me completo.

20120417



Deparei-me hoje com este cartaz. E fez-me - como sempre me faz - alguma impressão o último ponto. O que se quer dizer com "God First"? Como pensa alguém que é capaz de pedir isso? 

Lembro-me de uma altura da minha vida em que não era mesmo capaz de dizer isso. Eu, que sou obsessivo em conhecer o que penso e porque o penso, em saber o que sinto e porque o sinto, não conseguia colocar Deus acima de todos aqueles que amo. Nem encontrar qualquer sentido em fazê-lo. Sei perfeitamente que, apesar de ser um homem de fé, de estudar a minha fé, de a ter enraizada na minha vida, não conseguiria renunciar aos meus em nome de um deus que o exigisse. 

Mas também, por que raio haveria esse deus de o fazer? Com que intenção esvaziaria a minha vida, secaria a minha fonte privilegiada e mais abundante de amor e felicidade? Não faz sentido. Nada disso faz sentido. Por isso nunca afirmo que coloco Deus em primeiro lugar, acima de todas as coisas. Nunca digo que me podem tirar tudo, que eu fico bem desde que tenha Deus do meu lado. É história. Tirem-me os meus, tirem-me os amigos, tirem-me esta partilha de que é feito o meu quotidiano e tiram-me Deus. Porque o meu Deus, Aquele que amo, Aquele que estudo, Aquele no qual acredito profundamente, não é uma entidade abstracta que se entretém a por e a dispor da vida das pessoas. O Deus em quem acredito está nas pessoas do meu quotidiano, vivo, actuante, incarnado. E acredito que apenas posso colocar "God First" se o fizer com as pessoas.

O resto é conversa para freguês ver.

20120413

Medo


Passei por esta foto de relance e os pensamentos que me assaltaram fizeram com que voltasse atrás.

Creio que uma das coisas que definem uma pessoa é o medo. A forma como o enfrenta ou o evita, a forma como assola a noite, a forma como modela os sonhos transformando-os em pesadelos...

Já tive noites bem escuras por medo. Já tive ataques de pânico onde o próprio respirar constituía um desafio. Já acordei de pesadelos com vontade de regressar porque me deparava com uma realidade bem mais assustadora. É incrível a violência do medo. É incrível o permanente sobressalto, a mera impossibilidade do repouso e o desgaste que tudo isso provoca, a penosidade de uma vida assim vivida. Desde essa altura o suicídio deixou de me espantar, embora o continue a considerar uma forma demasiado fácil de fugir a uma realidade bem mais dura.
É... a vida pode ser bem mais dura que a morte.

A vida encarregou-se de me demonstrar, contudo, que o medo é autofágico e que, uma vez enfrentado, desaparece quase que por magia. Que tende a multiplicar-se, a reimaginar-se, a conjecturar futuros tenebrosos que, mesmo que por absurdo se concretizassem, constituiriam realidades bem menos penosas que as temidas.

Todo o processo da entrega de Jesus foi-me servindo de guia nesses momentos mais difíceis. Aquele homem, que sabe já da sua missão, que tão bem conhece o Pai e que ainda assim lhe pede para não ter de enfrentar o futuro, humaniza o medo, torna-o natural, mas também lhe retira importância. Porque me ensina que a melhor forma de o combater é trocar-lhe as voltas, é entregar voluntariamente o que o medo ameaça roubar. E confiar. Sempre. Naqueles que nos rodeiam, nos que connosco caminham, nos que nos amam de tal forma que ficam felizes por nos ampararem as quedas.

Não é fácil, mas é possível.

Eu que o diga!

20120412


Penso frequentemente que a minha situação quotidiana natural é de espantamento. Um pouco como quando era puto e passava em frente ao Bazar Paris, em Sá da Bandeira, e via a imensidão de brinquedos, absolutamente inacessíveis, que estavam na montra, e depois me atrevia a espreitar, da porta - da qual nunca passei - aquele imenso céu de bonecada com a qual eu nem sequer sonhava, de tal forma me era interdita.

Hoje, esse espantamento não desapareceu. Anda por cá dando cor aos meus dias e fazendo-me acreditar no futuro. Naturalmente, já não tem como objecto brinquedos mas pessoas, de todas as idades, de todas as situações, com quem todos os dias me vou deparando e com quem vou aprendendo tanto!

Quando lhes digo como as admiro - há já muito tempo que aprendi como é bom dizer às pessoas o que gostamos nelas - invariavelmente olham para mim incrédulas como que à espera do que lhes vou pedir a seguir. A verdade, contudo, é que sinto mesmo admiração pelas suas capacidades, pela sua entrega, por serem capazes de fazerem das suas vidas muito mais que mera rotina.

E o melhor é que, particularmente nos últimos anos, tenho vivido rodeado de pessoas assim.
Que me ensinam todos os dias.


20120329

A nossa cruz


Ontem à noite tive um momento particularmente rico desta quaresma. Fui com o meu filho à Capela, um lugar que tem para mim um significado muito especial porque foi lá que me iniciei, por volta dos 15 anos, nestas coisas da fé foi lá que a comecei a transmitir e é lá que estão as minhas raízes profundas, a ponto de me sentir sempre em casa.

A determinado momento da celebração colocaram uma cruz no chão, ao jeito de Taizé, e convidaram as pessoas a irem rezar um pouco junto dela. Como sempre, estava num dos lugares do fundo e daí pude ver, à vez, a minha irmã, o meu irmão e o meu pai de joelhos junto à cruz. Depois também acabei por ir.

Enquanto lá estava senti como nunca que aquela cruz tinha sido o que nos manteve unidos. Apesar de tudo. Em tempos tivemos todos um negócio pelo qual batalhamos muito durante anos a fio mas que não conseguiu escapar a uma crise que então dava os primeiros passos. Todos dependíamos daquela empresa e todos ficamos com a vida muito atrapalhada. No entanto, nunca se ouviu uma palavra de recriminação mútua, uma acusação de menor empenho ou sabedoria. Nunca deixamos de nos encontrar, de festejarmos juntos quando era de festejar, de chorar juntos o que era de chorar. Sempre nos demos lindamente e fizemos questão que o mesmo acontecesse com os nossos filhos. Em tudo isto a nossa fé em Jesus Cristo - que vivemos de formas muito diferentes mas igualmente intensas e assumidas - foi a cola que nos manteve profundamente unidos, muitas vezes contra tudo e contra todos.

Ontem, quando eu próprio estava junto à cruz, senti como nunca que aquela era também a nossa cruz, que Jesus assumiu as nossas falhas de tal forma que possibilitou que nos mantivéssemos verdadeiramente unidos, amando-nos como sempre nos amamos, apesar das dificuldades. E que essa nossa cruz assumida por Jesus não era algo de figurado ou transcendente, mas muito real, muito efectivo, muito (ainda) dor partilhada por todos nós de cada vez que nos perguntamos como vai correndo a vida.

Nunca, como ontem, agradeci a Jesus por ter assumido a nossa cruz. É que os meus pais e os meus irmãos são uma parte muito importante de mim. E de forma alguma conseguiria viver sem a sua presença constante cá por dentro.

Dar a vida por amor é também isto: permitir que nós nos tenhamos uns aos outros.

20120307


Gosto de pensar que tenho algum pudor em invocar o argumento de Deus.

Alguns amigos meus vivem tempos difíceis. Despedimentos, fim dos subsídios, separações, doenças... parece que vivem tempos em que tudo o que é mau se junta para atacar ao mesmo tempo, explorando os limites da sua própria fragilidade. Como sabem que eu gosto de pensar as coisas, questionam-me muitas vezes qual o sentido de todas estas dificuldades, um sentido que eles não conseguem descobrir perante problemas de resolução tão difícil e que esperam que eu ajude a encontrar.

Eu tento, a sério que tento, mas não tem sido fácil. Por um lado é para mim evidente que colhemos o que semeamos, e que a memória é uma coisa muito gira, que tende a esquecer com enorme facilidade as coisas menos boas que fazemos e as oportunidades que desperdiçamos. Por outro lado, a falta de confiança uns nos outros, que se acentua enormemente em tempos de crise, multiplica o medo e conduz aos maiores disparates e ao cada um por si agravando o desamparo da solidão.

Depois... bem. Há coisas que para mim são claras, que aprendi à custa de bofetada da vida, mas que gostaria que não tivesse sido assim. E se me tivessem dito, naquela altura, enquanto a alma ardia, que era uma oportunidade para aprender e para mudar de vida, que daí viria algo de muito positivo, o mais provável é que eu desatasse a disparatar. Porque há aprendizagens que são apenas nossas, que devem ser apenas nossas, que são descobertas, que apenas fazem sentido porque nos implicam até ao tutano, porque nos remexem as entranhas tão intensamente que somos obrigados a repensar tudo, a reorientar tudo. E não há ninguém que esteja de fora, por mais sensato que pareça, que as consiga sequer entender, quanto mais tentar justificar. Até porque há situações em que apenas o silêncio partilhado é a mais sábia das respostas.

Essa descoberta, a do tempo de Deus na nossa vida, no nosso tempo, é um caminho feito na intimidade de cada um, no silêncio de cada um, no encontro de cada um com Aquele que tem sempre a mão estendida, à procura da nossa mão. Mas não é fácil entender. Tal como ensina Job, temos que saber esperar, contra todas as aparências, contra todas as evidências, que as coisas, um dia, farão sentido. 


Até lá... resta-nos confiar.

Bambora

  Não é estranho que nos digam que «ser homem é muitas vezes uma experiência de frustração». Mas não é essa toda a verdade. Apesar de todos ...