20180614


Tenho o meu dia ganho quando me emociono. Com a bondade natural, com o belo (para o qual me encontro cada vez mais desperto), com o mimo e o cuidado, com o desconhecimento da mão esquerda daquilo que faz a direita.
Ontem emocionei-me. Várias vezes. Com uma conversa, com uma disponibilidade para acolher quem tanto precisa de acolhimento, com uma entrega, com uma belíssima dança numa eucaristia cheia de vida, com a serenidade de uma outra eucaristia, com uma conversa matinal, com um encontro depois de um desencontro. Ontem foi um dia cheio. De trabalho, de sol, de vida, de partilha, de momentos que me fazem sentir que a vida vale a pena.
Há dias assim. Em que apenas tenho motivo para dar Graças pelos que me rodeiam!

20180613

Há partes de nós que não são de ninguém. Nem sequer nossas. Partes feitas de pedaços mal contados e ainda pior resolvidos, palavras que não dissemos por falta de coragem, sentimentos afogados, que escondemos e dos quais nos escondemos, por medo ou vergonha, porventura à espera de uma outra vida que possa ser vivida de forma diferente. São partes de nós que não são nossas porque não as queremos nossas, porque teimamos que não são nossas, e teimamos tanto que as temos por indesejada e permanente companhia. São partes tão não nossas que se nos entranham na alma e no peito e na vida. São partes tão não nossas que, somadas às partes orgulhosamente nossas, constituem a amálgama do nós que nos habita.

20180609


Ontem, naquele final de tarde delicioso junto ao mar, notava-se que, a poucos metros, se iniciava um concerto. Era ainda maior o número de estrangeiros(?) na casa dos trintas que aproveitavam a beleza, o sol e o cheiro do mar, que metiam os pés na água ainda gelada da foz, devidamente acompanhados daquela coisa a que chamam jantar: fruta e vinho verde. Há de sempre fazer-me alguma confusão a sua dificuldade em sentar á mesa nas horas em que o deviam fazer! Quando vinha para cima, vi junto a tabela de basquete dois espanhóis a fazerem umas jogadas, despreocupadamente. Passados alguns minutos chegaram dois rapazes britânicos e ficaram a olhar. Juntou-se-lhes pouco depois um casal que devia ser oriundo de um dos países nórdicos. Alguns minutos mais tarde, estavam todos a jogar juntos, entendendo-se naquele inglês macarrónico que é agora a primeira língua de muitos jovens europeus.
Olhava-os, admirando-os e ao mundo que habito. Esta é daquelas raras alturas em que eu gostaria de ter menos duas décadas. A facilidade com que viajam, a forma como sentem a europa como sendo a sua casa, a normalidade com que comunicam, tudo isso é, para mim, motivo para encarar o século XXI com um sorriso, como diz um sábio amigo. Nada - a não ser o pudor que o bom senso ainda me fornece - me impediria de participar naquela improvisada partida de basquete. O pudor e a consciência que, no entanto, é um outro mundo, a kms do meu, aquele que eles protagonizam. Um mundo que respira uma outra forma e facilidade de comunicar, de viajar, de conhecer, de interpretar o mundo à volta, uma outra cultura de vida. Um mundo porventura com menores raízes e maiores aberturas, menos bafiento, maior permeabilidade. Não necessariamente melhor, mas indiscutivelmente diferente, ao ponto de nos ser tremendamente difícil avaliar. O seu paradigma é outro, o que nos levanta muitas questões, enquanto pais, por exemplo, quando queremos perceber algumas das escolhas dos nossos filhos. Vemos essas escolhas com os olhos do séc. XX quando eles têm que as viver numa era completamente diferente da nossa!
Orgulho-me que tenha sido precisamente a minha geração, com todas as contradições, erros e hesitações, a possibilitar que eles vivam nesse mundo. Que é o mundo dos meus filhos, dos miúdos cujo crescimento acompanhamos atentamente ao longo dos últimos anos.
É um mundo fabuloso, este, que eu tenho o verdadeiro privilégio de ver sedimentar.

20180608


Lembrei-me logo de alguns amigos meus, a quem o mesmo acabou por acontecer.

Enquanto novos, tudo gira. E tudo é muito giro. De noite em noite, de borga em borga, de experiência em experiência, vivem numa rede de amigos flutuantes, de acordo com as mútuas conveniências. Na superficialidade dos encontros e fins de semana radicais, são de todos e de ninguém. Vivem, mais que uma felicidade, um gozo permanente, ajudado pelos rendimentos que vão esbanjando alegremente, sobretudo quando o investimento é feito no hoje, aqui e agora. O que importa é viver!

Com os entas chegam algumas dificuldades até então desconhecidas. As articulações, as noites mal dormidas, o estômago, o peso, mesmo o próprio gozo com o que se fazia e com quem se fazia, tudo isso se começa a ressentir das escolhas que se fizeram antes, noutros tempos. Chega-se a casa mais cedo, apetece sair cada vez menos, demora-se mais a recuperar, e às tantas começa-se a apensar - e a sentir - que uma noite bem dormida é um requisito fundamental para uma boa semana. Olha-se para o lado com maior profundidade, em busca dessa mesma profundidade, de uma maior sintonia. As coisas ganham um outro sentido. Uma outra leitura. Anseia-se um outro presente que prepare um futuro. Já não é tanto o hoje, aqui e agora, mas também o amanhã, que adquire uma outra importância.

Descobre-se a solidão. Redescobre-se a solidão. Uma nova solidão. Porque agora é mais difícil adiar, porque agora o futuro é mais curto, porque agora tudo ganha um outro peso na vida. Uma solidão sempre feita de ninguém ao nosso lado. Podemos até ter a casa cheia de amigos, podemos até ter um casamento de muitos anos, podemos até ter os miúdos aos saltos pela casa toda. A solidão é sempre feita de ninguém.

À medida que os entas se vão sucedendo, vai ganhando importância a escolha criteriosa daqueles com quem partilhamos a nossa vida. Importa ter companheiros de jornada, qualquer que seja o laço que nos une. A família, o casamento, a amizade, os filhos, são ecossistemas, formas de viver o amor, de partilhar o amor, de intensificar o amor, de nos sabermos amados e amantes, de termos e sermos testemunhas de vidas vividas, de sermos e termos contadores da história pessoal de cada um. Não são garantias de coisa nenhuma, muito menos de facilidades e simplificações inócuas.

Ouvi o seu desabafo, agora que convalescia, sozinho em casa, de uma intervenção cirúrgica, e lembrei-me logo de alguns amigos meus, a quem o mesmo acabou por acontecer. Alguns deles com casamentos de anos. Mas recordei também outros que, ao longo da vida, teceram uma rede de amizades profundas, sentidas, testemunhadas e partilhadas, recheadas de cumplicidades, que nessas alturas lhes roubavam a solidão e os enchiam de vida e de esperança.

De facto,à medida que os entas se vão sucedendo, vai ganhando superior importância a escolha criteriosa daqueles com quem partilhamos a nossa vida.

20180607


Já não o fazia há muito tempo. Demasiado tempo! Não percebo as pessoas que não gostam de estar sem fazer nada. Estar só. Estar. Só. Eu sentei-me no jardim, uma manta em cima do corpo, apesar do sol, e deixei-me estar. Fechei os olhos, deixei que os sons me invadissem e fui identificando-os. Um a um. Até deixar de os ouvir. Depois os pensamentos. Em catadupa no início, fila indiana depois, de longe a longe, mais tarde. Não sei quanto tempo estive ali, no meu jardim, longe da vida. Mergulhado na vida. Creio que adormeci. Ou então, estava tudo tão entorpecido que posso ou não ter adormecido. Se calhar adormeci de olhos abertos. Sonhei de olhos abertos. repousei de olhos abertos. E alma fechada. Pelo menos para tudo aquilo que me era exterior. Só eu. Eu e a minha alma. Eu e os meus pensamentos. Eu e os meus sentimentos. Eu e os que amo. Eu e o meu Deus. Sem que uns ou outros disso saibam. Dir-se-ia que estava a perder tempo. Eu próprio, às tantas, sentia-me um tanto ou quanto culpado porque estava a perder tempo. Não estava a perder tempo. Estava. Apenas. Deixando que a vida flua. Que a alma flua. Que eu flua. No final, nada tinha mudado, Nada se tinha alterado. O que tu tinha para fazer continuava por fazer. O lugar onde eu tinha que ir continuava lá. Exatamente no mesmo lugar. e nem sequer o relógio mostrou grande preocupação e continuou a contar o tempo exatamente ao mesmo compasso. Nada perdi, afinal. Nada ganhei, também, na verdade. Apenas estive, num parêntesis de não acontecimento, de não fazer, de apenas ser, naquele bocado daquela tarde daquele sábado. 

20180606


Ele é daquelas pessoas que admiro profundamente. Há muitos anos. Provavelmente não devido aos motivos que ele achará, mas ele sabe que o admiro profundamente. É uma daquelas pessoas com um conhecimento que admiro, o tipo de conhecimento que, nem que eu vivesse cem anos, conseguiria alcançar. Junta fé a poesia e literatura, devidamente salpicadas com boa música, tudo envolvido numa profundidade e (às vezes) serenidade que me é tremendamente sedutora. Porque inacessível.
Hoje escutava-o, embevecido, e apetecia-me abraçá-lo. Mas, mais que isso, a vontade que tinha mesmo era de sentar e conversarmos.

Um dos meus maiores enigmas é perceber porque raio por vezes não damos o melhor de nós aos outros. É como se nos encolhêssemos, se nos apresentássemos pela metade, baixado sistematicamente a fasquia. No meu caso, andará provavelmente por aqui, uma vez que duas coisas me assustam de morte: as exacerbadas expectativas dos outros - que eu sei que algures no tempo irei defraudar; e que pensem que eu me coloco em bicos de pés - talvez porque às vezes me coloco mesmo e invariavelmente dou com os queixos no chão. Daí que, frequentemente, me sinta assoberbado pelo que os outros esperam que eu faça, querem que eu faça, e sobretudo, têm a esperança que eu faça bem feito, e nada melhor para combater isso que ir avisando. O problema é que volta e meia, a muito custo, lá vou cumprindo as expectativas e ninguém acredita nos meus avisos. Até um dia.

Pensava tudo isto enquanto o escutava. Porque por vezes também ele mostra uma faceta da qual nem ele próprio gosta. Nessas alturas penso - talvez com um pequeno grau de satisfação egocentrista - que ele, como eu, também anda à procura. Por outros caminhos, claro, muito mais adiante, mas também à procura. Talvez seja um pouco isso o que nos une: a procura.

20180604


Li recentemente, num artigo de um padre cuja opinião eu respeito, que somos habitados pelo infinito. Que a nossa sede de Deus advém justamente dessa sede de infinito, dessa insaciável e incomensurável incompletude, que por vezes apenas encontra algum repouso na confiança e entrega totais. Eu, por exemplo, apenas encontro o meu repouso autêntico quando recordo Jesus: "faça-se a Tua vontade e não a minha". É na entrega abandonada, confiante e recheada de esperança que descubro o reconfortante colo do Pai. Mas não acontece muito, confesso. Apenas nas situações de desespero total e absoluto. Fora desses momentos é o infinito que inapelavelmente me habita. É a procura constante, o fazer e refazer, o encontro e desencontro, o toca e foge permanente que me faz sentir que ora sou, inteiro, de corpo e alma, ora vou sendo, corpo e alma em permanente desavinda.

Ler de um padre que a incompletude pode ser fome de Deus é importante para mim. Porque muitas vezes caio na tentação de invejar aqueles que, pelo menos à minha vista desarmada, são um feliz bloco monolítico, onde tudo está devidamente acomodado onde devia estar, sem lugar a dúvidas existenciais. Invejo a sua serenidade, a sua clareza, as suas certezas absolutas, a tranquilidade do seu sono, a sua (para mim tão inacessível) coerência de vida. A minha coerência reside apenas na permanência da procura... e na constante insuficiência da resposta.

Há uns anos fiquei muito feliz quando, em Taizé, me possibilitaram uma outra leitura de Lucas 7, 47: "pois digo-te que lhe são perdoados os seus muitos pecados, porque muito amou; mas àquele a quem pouco se perdoa pouco ama". Sempre li o perdão como grande recompensa ao grande amor. Mas em Taizé colocaram a tónica no amor: peca muito quem ama muito. E o perdão, que nunca é recompensa, é uma dádiva ao que muito ama justamente porque quem ama  aceita viver no risco de amar. Ao que pouco se tem a perdoar é porque pouco arriscou viver, preferindo enterrar o seu tesouro à eventualidade de o perder.

Resta-me esta confiança. Que o olhar incompreensível dos homens dê lugar ao olhar amoroso do Pai.

Bambora

  Não é estranho que nos digam que «ser homem é muitas vezes uma experiência de frustração». Mas não é essa toda a verdade. Apesar de todos ...