20140107



 
Do Evangelho de hoje: Mas Ele perguntou: «Quantos pães tendes? Ide ver.» Depois de se informarem, responderam: «Cinco pães e dois peixes.»

Por vezes há coisas que testemunhei, que escutei de alguém, e depois armam tenda cá por dentro à espera de uma oportunidade de se fazerem vida. Os cinco pães e dois peixes fazem parte desse imenso rol que ainda não consegui tornar realidade. Lembro-me muito vagamente de uma reunião ligada à Pastoral Familiar, ou aos CPM, em que se procurava encontrar uma forma de os casais mais velhos apoiarem os casais mais novos quando eles estivessem em dificuldades. Alguém referiu então que numa paróquia lá para cima a comunidade se organizava nos cinco pães e dois peixes. Cinco casais apoiavam dois na vida quotidiana, cinco famílias apoiavam duas com bens alimentares, cinco jovens apoiavam dois com explicações, cinco escuteiros apoiavam dois idosos nas suas casas... e assim sucessivamente. Ao que parece, essa paróquia encontrou neste número a fórmula certa: dividindo-se a responsabilidade do cuidado por cinco tornava-se menos penoso quer para quem se voluntariava, quer para quem recebia pois não havia aquela pressão tutelar que acontece quando uma pessoa se responsabiliza por outra. Além disso, como tudo era trabalhado em rede, as pessoas sentiam-se envolvidas na comunidade.

Sempre me pareceu uma excelente forma de chegar, efetivamente, aos outros.



Estamos aqui hoje, todos engalanados, porque, há mais dois mil anos atrás Deus, quis, mais uma vez, vir ao nosso encontro. Esse Deus, omnipotente que poderia ter escolhido qualquer outra forma de transformar o mundo, decidiu nascer no meio de nós, fazer-se menino, pobre entre os pobres, desprotegido entre os desprotegidos, amparado apenas por aqueles que o amavam contra tudo e contra todos. Porque seria? Porque é que, de entre todas as possibilidades que o seu poder lhe permitia, deus decidiu justamente fazer-se um de nós para vir ao nosso encontro? Se fossemos nós, provavelmente teríamos permanecido sentados no sofá, na nossa zona do conforto, como agora está na moda dizer-se, e, a partir do nosso conforto, teríamos debitado meia dúzia de opiniões, teríamos enchido o mundo de pretensas verdades, teríamos julgado cada um dos que não pensava como nós, dito que o melhor era fazer isto, ou aquilo … e, naturalmente, porque não teríamos metido as mãos na massa, nada de especial teria acontecido

Se Deus não tivesse escolhido nascer menino que depois, tal como todos nós, cresceu e se fez adulto, a Samaritana nunca teria saciado a sua sede, Zaqueu nunca teria subido á árvore e a mulher pecadora teria morrido, como tantas outras mulheres, soterrada sob as pedras lançadas por uma multidão sem consciência dos seus próprios erros. Se Deus não tivesse escolhido vir ao nosso encontro, nem sequer nós próprios estaríamos aqui, esta noite, todo engalanados. Até poderíamos, por qualquer disposição universal, estar juntos, mas não estaríamos certamente a celebrar o amor, a entrega, o viver para os outros, porque tudo isso (re)descobrimos a partir daquele menino. Se Deus não tivesse escolhido vir ao nosso encontro nós próprios não saberíamos ir ao encontro daqueles que temos diante de nós, todos os dias, sejam eles da Foz, de Ramalde, ou dormitem nas ruas escuras da noite portuense.

É Deus quem nos diz que temos que ir ao encontro. E como fazemos isso? Fazendo justamente o que Deus fez: tornando-nos próximos e por isso, este é um lema muito feliz. Partir ao encontro do outro, ver nele a fragilidade de um menino que acaba de nascer, encher-se de deslumbramento e compaixão, é um desafio para cada um de nós. O Espaço RAIZ, com todas as suas valências, é já uma resposta nossa - a possível nesta altura - a este desafio que nos é lançado por Deus. E este é um desafio que exige persistência, temperança e caridade, que, na linguagem de Deus, se traduz por Amor. Nesse Espaço, que é já uma segunda casa para muitos daqueles que a escolhem, em vez de outros lugares no Bairro, as nossas crianças, jovens e velhinhos são desafiados a ir mais longe, a perceber que há mais vida para além daquela que os circunda no Bairro, que estudar vale a pena, que trabalhar vale a pena, que manter o seu espaço limpo e ordenado vale a pena, que dizer “por favor” e “obrigado” vale a pena, que, apesar dos desgaste provocado pelos anos vividos, vale a pena viver a vida no seu pleno, já a passando a acreditar que com o seu esforço e empenho poderão conquistar um lugar diferente no mundo, em vez de ficarem à espera que o futuro se transforme num presente envenenado.

O Espaço RAIZ é feito de encontros. Encontros de sonhos, encontros de projetos, encontros de pessoas que precisam de apoio e outras que se querem dar e que em conjunto, descobrem que afinal, não são assim tão diferentes nos seus anseios mais profundos, na sua busca de felicidade, pois todos tentamos, por entre os acontecimentos da nossa vida, a forma mais ou menos eficaz, de sermos felizes. O espaço Raiz foi sonhado para que possa ser um espaço que possa potenciar uma transformação estruturante na vida dos que o frequentam de forma. Sinto que ela está a acontecer. Tenhamos nós a capacidade  de, seguindo o exemplo do menino do presépio, nos fazermos presentes junto dos que são o seu rosto.

 
Texto para  celebração de Natal 2013

20140106


Duas coisas que li hoje: Eusébio morreu e Gandhi aquando da sua morte, tinha de bens pessoais acumulados durante toda a sua vida, o equivalente a dois dólares.

Desde sempre que tendo a admirar quem consegue ser simples. Particularmente aqueles que tinham tudo para o não ser, porque isto de se ser simples por circunstâncias da vida não causa espanto a ninguém, é uma fatalidade como qualquer outra. No entanto, ter o dinheiro, ter o reconhecimento público, ter o poder para se poder pairar acima dos comuns e escolher não o fazer, é algo divino. Não por acaso, foi justamente essa a forma que Deus escolheu para nascer: fazer-se pequeno.

Ainda ontem, na costumeira confusão do almoço dominical falávamos, em tom de brincadeira, o que faríamos se nos saísse o euromilhões. E a realidade é que manter a sanidade mental nessas alturas deve ser mesmo difícil. Ter à mão de semear uma enorme quantidade de dinheiro deve dar a volta a qualquer um. São muitos os casos conhecidos de pessoas que se transformaram completamente a tal ponto que um acontecimento que tinha tudo para ser positivo se tornou num pretexto para a perdição.

No entanto, gostava de ser testado nessa situação. Só para ver em que tipo de pessoa me transformaria com uns milhões no bolso. Só por isso. Nem era por mis nada.

20140105


“Entre as numerosas novas situações que exigem a atenção e o compromisso pastoral da Igreja, será suficiente recordar: os matrimónios mistos ou inter-religiosos; a família monoparental; a poligamia; os matrimónios combinados, com a consequente problemática do dote, por vezes entendido como preço de compra da mulher; o sistema das castas; a cultura do não-comprometimento e da presumível instabilidade do vínculo; as formas de feminismo hostis à Igreja; os fenómenos migratórios e reformulação da própria ideia de família; o pluralismo relativista na noção de matrimónio; a influência dos meios de comunicação sobre a cultura popular na compreensão do matrimónio e da vida familiar; as tendências de pensamento subjacentes a propostas legislativas que desvalorizam a permanência e a fidelidade do pacto matrimonial; o difundir-se do fenómeno das mães de substituição (“barriga de aluguer”); e as novas interpretações dos direitos humanos. Mas sobretudo no âmbito mais estritamente eclesial, o enfraquecimento ou abandono da fé na sacramentalidade do matrimónio e no poder terapêutico da penitência sacramental.”

“Os desafios pastorais sobre a família no contexto da evangelização – Documento Preparatório”

 

Estamos no Natal. Festa do Encontro com o Menino que nasceu numa manjedoura, pobre entre os pobres, humilde entre os humildes e, ainda assim, rei entre os reis. Por causa desse Encontro, estamos nesta altura a preparar o encontro com os nossos, numa azáfama que mistura batatas com bacalhau, presentes e alegria, muita alegria. A partir do que aconteceu há mais de dois mil anos com a chegada daquele Menino àquela família, preparamo-nos para acolher a nossa própria família.

Que família? Sim, que família? Hoje, de que falamos quando falamos de família? Qual é o nosso conceito atual de família?

As questões que são levantadas pela Igreja no Documento Preparatório do Sínodo sobre  Família e Evangelização – que circula na internet e do qual é publicado um curto extrato no início deste texto – são tão pertinentes que não dizem respeito apenas à Igreja ou aos cristãos, mas deveriam ser de todos, enquanto civilização que se vai reconstruindo todos os dias. Há bem pouco tempo, se perguntássemos a uma criança o que é uma família, a sua resposta seria clara: um pai e uma mãe, os filhos, eventualmente os avós, os primos… Hoje, se colocássemos a mesma questão a uma criança, a resposta seria bem mais diversa, bem mais confusa, e, sobretudo, bem menos edificadora. O que nos aconteceu entretanto?

Ao longo dos tempos, a forma como nos construímos em família é reveladora da forma como nos construímos em Deus. Porque a família é o lugar onde nos descobrimos, onde descobrimos os outros, onde aprendemos que há mais alguém para além de nós próprios. É na família que aprendemos a partilhar, que aprendemos que a alegria de quem recebe compensa largamente a nossa tristeza de largarmos algo de que gostamos, é onde aprendemos que estar é fundamental, que nada substitui o encontro dos olhares, a partilha profunda dos sentimentos. É na família que aprendemos a permanecer custe o que custar, que queremos ficar quando precisam de nós, ainda que o nosso universo pessoal desabe, que aprendemos que se ri com todos, que se chora com todos, e descobrimos que rir e chorar faz parte do que somos enquanto pessoas, enquanto família, enquanto comunidade. É na família que descobrimos que não somos senhores de coisa nenhuma e estamos dependentes uns dos outros, que aprendemos a fazer-nos pequenos para que outros possam ser grandes, e aprendemos a ser grandes para que os outros possam ser pequenos. É na família que aprendemos o amor, e que, por amor o “nós” é muito maior que a mera soma dos “eu”.

A nossa essência é o amor. E também esse, como a família, se configura com a nossa relação com Deus. É por amor que somos criados, é por amor que somos resgatados, é por amor que todos ansiamos, e acordamos, e respiramos. Todos os dias! É por amor que fazemos o impensável, que nos entregamos de olhos fechados, que nos abandonamos, livremente, confiadamente, nas mãos de quem nos ama. É por amor que somos livres, é no amor que somos livres, e aprendemos que a liberdade não é uma coisa minha mas nos implica a todos, depende de todos e em todos tem consequências.

Não é o amor que está a falhar, embora estejamos cada vez mais tateantes, cada vez mais confusos, e cada vez menos ligados a Deus. É o compromisso que falha. É a capacidade de sermos para além de nós próprios, dos nossos desejos e dos nossos caprichos. É a capacidade de ficar, de permanecer ainda que o nosso mundo desabe. É a capacidade de dizer “escolhi-te porque te amo; amo-te porque te escolhi.” É aí que estamos a falhar enquanto pessoas, enquanto famílias, enquanto comunidade. A vontade de ficar porque te amo transformou-se em liberdade de partir porque me amo. O compromisso contigo transformou-se em compromisso comigo. Do ser para os outros que nos foi sendo sabiamente transmitido ao longo de gerações, especializamo-nos em ser para nós próprios, e o nosso mundo foi-se reduzindo progressivamente ao nosso próprio umbigo, paradoxalmente o que nos ligava à nossa mãe e, por intermédio dela, á nossa família.

Por isso, a preocupação com a família não deveria ser uma inquietação apenas da Igreja mas de todos, enquanto civilização. Porque à medida que vamos perdendo esse valor que nos foi deixado por herança ao longo de toda a nossa existência é a nós próprios que nos vamos perdendo, sempre a troco de coisa nenhuma, de uma felicidade que tem tanto de aparente como de efémero e vazio. Porque, à medida que nos vamos desligando da Família, vamo-nos desligando de Deus, e à medida que nos vamos desligando de Deus, vamo-nos desligando da família, e uns dos outros, e de nós próprios.

Este Natal o presépio deverá reocupar o centro das atenções nas nossas casas. Assim, quando olharmos para o nosso presépio, quando olharmos para aquela família que, tal como a nossa, no aparentemente nada afinal era tudo, tenhamos a coragem de nos interrogarmos profundamente. Quanto de nós se tem vindo a perder no desvalorizar progressivo da Família de Nazaré? Quanto de nós se tem vindo a perder nesta ânsia de felicidade a todo o custo? Quanto de nós se tem vindo a perder no desligar progressivo de Deus?

Deus escolheu nascer no seio de uma família.
Terá sido por mero acaso?

Artigo publicado no Jornal Paroquial O Poço, em dezembro de 2013

20131217


"Só o silêncio do rebentamento das ondas quebra o silêncio da espera." Podia ser uma daquelas frases bonitas que por esta alturas aparecem em inúmeros power points que todos os dias recebo alusivos ao Advento. Podia ser uma das belíssimas orações da manhã da Renascença com que tento começar os meus dias. Infelizmente, não é nada disso. É o título da notícia dos familiares que desesperam pelo aparecimento dos seus na praia do Meco.

Não consigo imaginar um desespero maior que aquele que aguarda que o corpo de um filho dê à costa. Não consigo imaginar como é possível viver depois disso, como as noites são imensas noites, como os dias deixam de ser dias. Não consigo imaginar a dor superior a qualquer outra dor que é perder um filho, qualquer que seja a circunstância em que isso acontece.

Silêncio e o barulho do mar. Duas situações que normalmente procuro quando preciso de me reencontrar, de me recolocar perante a vida. Duas situações que são o meu caminho seguro para encontrar a paz e a felicidade. Duas situações que, afinal, não passam de circunstâncias, de invólucros de uma interioridade que já lá está, que espera apenas que a desembrulhemos e a saboreemos como se fossemos íntimos do Mestre Tempo. Duas situações que assumem agora uma carga impossível de suportar para aqueles que esperam pelos seus no silêncio do mar.

Como lhes falará Deus hoje?
Como lhes será possível esperar outro que não seja o seu menino ou a sua menina que desapareceu no mar?

20131206


Hoje, o Gusto faria anos. Faria já não faz, porque morreu há pouco tempo sozinho, no hospital. Na altura as minhas filhas souberam que ele estava no hospital com prognóstico muito reservado: a vida que escolhera levar rebentara-o todo por dentro. E ele sabia-o. Dissera-mo há alguns anos quando, numa das minhas idas aos sem abrigo, estivéramos juntos na estação de S. Bento. Eu sempre gostei dele, ele sempre gostou de mim e dos meus, e no entanto, apesar da insistência delas, não consegui ir vê-lo ao hospital. Por falta de tempo, dizia eu para mim e para os outros, sabendo no entanto que, se quisesse mesmo ir, tempo era o que não me faltava.

Neste tempo do Advento tenho andado com a mochila na cabeça. O que carrego eu, todos os dias, na minha mochila? Para que é que reservo eu espaço na minha vida? Que coisas são apenas coisas, são apenas imensos nadas, que servem para rigorosamente nada, que servem apenas para me atrapalhar o passo e me darem a sensação de vida importante, ocupada, cheia, ainda que de coisa nenhuma?

Hoje, a minha mochila pesa-me, está cheia e não é de boa coisa. Também por causa do Gusto. Por vezes, quando me atrevo a olhar para dentro da minha mochila com olhos de ver, sem ficções, sem pinturas embelezadoras da realidade, fico envergonhado. Porque adiei o inadiável, porque me quis convencer que não era assim tão importante, porque me convenci que era muito importante, porque deixei que o marfim corresse sem tomar uma decisão, sem assumir uma atitude, fugindo por entre os pingos da chuva, porque não fui suficientemente coerente para olhar a responsabilidade nos olhos... são momentos importantes, que fazem tão parte do que sou como aqueles em que sou orgulhosamente feliz nos meus gestos e nas minhas atitudes. São momentos que faço por esquecer, por varrer para debaixo do tapete, mas que volta e meia me revisitam e têm o condão de me por no lugar.


“Não podemos ignorar que, nas cidades, facilmente se desenvolve o tráfico de drogas e de pessoas, o abuso e a exploração de menores, o abandono de idosos e doentes, várias formas de corrupção e crime. Ao mesmo tempo, o que poderia ser um precioso espaço de encontro e solidariedade, transforma-se muitas vezes num lugar de retraimento e desconfiança mútua. As casas e os bairros constroem-se mais para isolar e proteger do que para unir e integrar.  (…) O sentido unitário e completo da vida humana proposto pelo Evangelho é o melhor remédio para os males urbanos, embora devamos reparar que um programa e um estilo uniformes e rígidos de evangelização não são adequados para esta realidade. Mas viver a fundo a realidade humana e inserir-se no coração dos desafios como fermento de testemunho, em qualquer cultura, em qualquer cidade, melhora o cristão e fecunda a cidade.”

Evangelli Gaudium, 75

 

Nunca é fácil falar ou escrever do que nos mexe cá por dentro. E o Espaço RAIZ mexe cá por dentro. Partilhar a vida com quem, para o bem e para o mal, não tem filtros, para quem tudo é genuíno, todas as emoções e reflexos estão sempre à flor da pele, deixa marcas profundas. Conquistar o respeito e o carinho de quem se habituou a ser mantido nas bordas de uma sociedade que teima em ser madrasta, é uma tarefa que implica uma entrega e uma perseverança que não se compadece com caprichos momentâneos ou fugazes estados de alma. Não que seja tarefa para super homens ou super mulheres, mas porque é uma vida feita de avanços e recuos, onde cada dia é um dia, onde cada manhã é uma oportunidade para recomeçar tudo de novo, como se não tivesse existido ontem.

O Espaço RAIZ pretende ser - tem que ser! - justamente esse espaço onde é permitido recomeçar sempre, todos os dias, a todas as horas, qualquer que seja a falta cometida. Onde um castigo  - porque também os há – não pode durar mais que um reforço positivo, para que cada um perceba que há uma outra forma de ser, de fazer, de se fazer, que escapa às garras daqueles que, do outro lado da avenida, traficam a vida em pequenos pacotes de dependência e miséria.

O Espaço RAIZ pretende ser – tem que ser! – um lugar onde as pessoas se sintam seguras, acarinhadas, dignas de serem respeitadas e amadas. Um lugar onde coisas tão básicas como a partilha das dificuldades e das alegrias, o respeito pelo outro, a manutenção do espaço e até a preocupação com a higiene - coisas que, em condições normais, acontecem no seio familiar - se fazem quotidianas até encontrarem o seu lugar na normalidade do dia a dia.

O Espaço RAIZ pretende ser – tem que ser! – um lugar de descoberta e de encontro, pessoal e comunitário, de trocas de experiências, de aprendizagens mútuas, de olhares cruzados entre crianças, jovens, adultos e idosos, por forma a se conseguirem ler uns nos outros, identificar uns nos outros, conviver uns com os outros, numa (re)descoberta feita de muitas vidas que, apesar de serem fisicamente tão próximas, são separadas por um mar de dificuldades e conflitos.

Não conheço outra forma de tentar fazer isto tudo que não seja o de meter a mão na massa, o de estar lá, o de partilhar as suas conversas e brincadeiras, o de ir tentando, discretamente, com tempo, com muito tempo, sem imposições, fazer com que acreditem em si e nas suas capacidades. Que acreditem que ir à escola vale a pena, que estudar vale a pena, que trabalhar vale a pena, que empenhar-se a fundo para crescer vale a pena, e que, cedo ou tarde, todos nós, qualquer que seja a nossa circunstância pessoal, precisamos de aprender a fazer e a respeitar compromissos. E, fundamentalmente, fazê-los acreditar que são dignos de construir o seu futuro, que não estão condenados, à partida, a viver nas bordas, a viver das bordas, e que, no lado certa da avenida, encontram quem se preocupa genuinamente porque os ama genuinamente.
 
Texto escrito para a revista do Colégio
 

Bambora

  Não é estranho que nos digam que «ser homem é muitas vezes uma experiência de frustração». Mas não é essa toda a verdade. Apesar de todos ...