20111004
Não posso afirmar, em boa verdade, que tenha orgulho em mim. Quando olho para a minha vida vejo, isso sim, muitos motivos de orgulho nos meus, naquilo que eles conseguem... apesar de mim. Agora já não, porque nestes últimos anos cresci e serenei o espírito, mas houve uma altura em que o que mais temia era que aqueles que me amam descobrissem quem eu sou e que, por isso, deixassem de me amar.
Apesar de tudo, uma das coisas de que me orgulho, porque sempre fez parte de mim quaisquer que fossem as circunstâncias, é a minha vontade de ir sempre mais longe. Quase nunca é na direcção que alguns esperariam, mas o Mestre Tempo tem revelado que é na direcção certa. Esse desejo muito íntimo, muito meu, muito latente, de ser cada vez mais foi o que me permitiu sair do bairro, ter uma verdadeira fixação por aprender com tudo e com todos, e, acima de tudo, desenvolver uma boa dose de resiliência - que não poucos entendem como sendo loucura, e talvez com razão - que me tornou num sempre-em-pé.
Outra consequência dessa vontade de ir sendo cada vez mais é a minha propensão para me ligar a pessoas que, não sendo propriamente fáceis, são no entanto imensamente ricas. O melhor exemplo é, naturalmente, a minha mais-que-tudo, que por vezes me tira do sério como mais ninguém mas a quem devo quase tudo o que sou e tenho. Gosto naturalmente de pessoas complicadas, exigentes, que me desafiam a ir mais longe e às quais não posso, por este motivo ou por outro, dizer não.
Afinal, são elas que me levam mais longe.
20110930
Quando digo que gosto de envelhecer olham-me de lado. Numa cultura que endeusa o novo, o eternamente novo, bonito e saudável, de sorriso estúpido na boca, nem que seja à custa de toneladas de silicone, próteses dentárias e fortunas que colocariam um país africano no Primeiro Mundo, gostar de ficar velho soa a imperdoável anacronismo.
Paciência!
Uma das coisas boas da passagem do tempo é justamente a de nos podermos dar ao luxo de sermos quem somos. Podermos dizer o que nos vai na alma tendo apenas o cuidado de não magoar aqueles de quem gostamos mas com o desassombro de quem vai sabendo o que quer graças às escolhas que se foi fazendo ao longo da vida.
Este desassombro - que por vezes é pelos outros tido como "cara de pau", "granda lata" ou "convencido como o caraças". Paciência! - é o que me permite dizer por exemplo que me sinto muito feliz quando sinto que faço alguém feliz, que contribuo de alguma forma para que o dia de alguém seja mais sorridente, ou para que um qualquer problema seja ultrapassado. Pode parecer meio totó - paciência! - mas sinto nessas alturas que, se quiser, se estiver atento, e, sobretudo, se não me armar aos cágados - o que também por vezes acontece - posso ser um bocado da face e das mãos de Deus para os outros.
E isso deixa-me verdadeiramente feliz.
20110927
Quando estávamos em Moçambique passei os primeiros dias a tentar explicar que eu sou naturalmente sossegado. Normalmente quem contacta comigo não fica com essa impressão: ando sempre com a minha guitarra às costas, sorrio muito, gosto muito de ambientes descontraídos e bem dispostos e volta e meia digo até algumas larachas para gente rir. Não é, contudo, por muito tempo. Quando estou rodeado de pessoas, sejam elas amigas ou não, o meu ambiente natural, onde me sinto mais confortável, é num canto qualquer, sossegado, a olhar, a ver e a ouvir quem me rodeia. Apesar de estar só não me sinto só, nada disso. Vou vendo uns e outros, ouvindo uns e outros, lendo uns e outros. E sorrio muito, à medida que os vou vendo e descobrindo. Sempre.
No início, esta minha forma de ser causou alguma confusão, mas cedo confirmaram que eu sou mesmo assim. Gosto muito de pensar, de dialogar comigo próprio, de me colocar em causa, de saber exactamente o que sinto quando sinto e porque sinto. E isso apenas pode ser feito com um certo recolhimento. Tento sempre, contudo, não me fechar aos que me rodeiam, estar atento a eles, às suas necessidades, às suas alegrias e tristezas. É através desse olhar aos outros que eu me encontro comigo próprio, me confronto, tento estabelecer a minha medida justa de ser, tento até encontrar a medida do ser de Deus, que se me revela naqueles que me rodeiam. E tento crescer, nos outros e com os outros.
Ás vezes consigo, outras não, mas tento sempre.
20110923
andaimes
Voltei a senti-lo ontem.
Tivemos aqui a entrega dos diplomas do ano passado e voltei a senti-lo ontem.
Como a nossa presença na sua vida é fugaz! Bastam alguns dias de distância, uma mudança de paradigma, os olhos postos num qualquer outro futuro, e tudo muda. O olhar, o sorriso, a cumplicidade, tudo é feito agora de uma forma mais distante, mais fria, muito mais impessoal.
É normal que assim seja. Arriscaria a dizer até que é bom que assim seja. Temos que ter a capacidade de avançar, de continuar caminho, de fazermos nossas outras vidas e de sermos nós próprios vidas de outros. Tudo isso seria impossível de acontecer sem essa capacidade de avançarmos, transportando as nossas memórias, integrando-as naquele que queremos seja o nosso futuro.
A nossa tentação de nos estabelecermos no cimo da montanha, montarmos a tenda e apreciarmos a paisagem é enorme. Queremos sempre guardar as pessoas que nos são mais queridas, os momentos mais marcantes, as experiências mais profundas de forma a vivermos delas, da sua eterna e constante repetição. Quando o fazemos esquecemos que apenas nos ligamos a outros porque em algum momento da nossa vida nos fomos desligando dos nosso pais, dos nossos amigos da infância, dos nossos primeiros professores, e que todos eles, uns mais outros menos, fazem parte agora do património que constitui o que verdadeiramente somos. E que se tivermos sorte nos voltaremos a ligar a umas outras pessoas que terão um papel tão importante e tão fundamental na nossa vida como o tiveram aqueles de quem tanto nos custa desligar hoje.
Quando olhamos para um edifício vemos apenas o que está acima da superfície. Vemos a sua cor, a sua beleza, o tempo que por ele já passou. Se gostarmos verdadeiramente desse edifício até nos podemos dar ao trabalho de o conhecer melhor e investigamos os seus alicerces, a planta que o tornou possível, conseguindo até adivinhar a ideia do arquitecto quando o concebeu. Podemos ver quase tudo o que tornou aquele edifício possível. Excepto uma coisa sem a qual a construção não seria possível: os andaimes. Estavam lá desde o início da construção, acompanharam toda a construção, foram a última coisa a ser retirada terminada a construção. Apesar de imprescindíveis, não há contudo qualquer registo da sua presença. Colocam-se quando ainda não há nada para apreciar e são retirados para não esconder o que é para ser apreciado. No final, ou são entulho ou então, na melhor das hipóteses, servirão de suporte a uma outra obra.
Sempre que penso em andaimes penso no Sr. Vicente. Marcou-me muito,pelo que dizia, pelo que não dizia, pelo prazer que tinha em servir os outros. Ensinou-me muito, principalmente a beleza de ser andaime. A determinada altura os nossos caminhos separaram-se e nunca mais nos vimos. Soube há alguns anos que ele tinha falecido e não me tinham dito nada. Chorei baba e ranho.
Por vezes gosto de pensar em mim como andaime.
Se no fim mais alguém o fizer, já valeu a pena.
20110921
Leio e oiço muitas vezes que o melhor mesmo é não nos envolvermos, não nos incomodarmos, fazermos de conta que o que ouvimos e vemos não é nada connosco. Assobiamos e passamos ao lado.
Não, obrigado. Não consigo, não quero, não se faz, não tem nada a ver comigo. No dia em que isso acontecer, internem-me, que eu já não faço nada aqui.
Incomoda-me? Ainda bem, porque eu tenho mesmo a tendência para me acomodar, refastelar, vegetar, o que quer que seja, e por vezes preciso mesmo de uma qualquer abanão que me faça avançar.
Comove-me? Ainda bem, porque me move ao encontro do outro, daquele que comigo todos os dias partilha um pouco de si e leva em troca um pouco de mim.
Poderia eu, porventura, trocar estas formas de estar e de viver e fazer de conta que não era nada comigo?
Não consigo.
Ainda bem.
Estou vivo.
20110920
Lembrei-me hoje de uma coisa que sempre dizia aos meus filhos quando eram pequenos: "o não consigo não existe." Ainda na semana passa ouvi da boca do Nuno algo parecido, mas melhor: "existem apenas dois tipos de pessoas: os que conseguem e os que nunca tentaram."
Vem isto a propósito da conversa que acabamos de ter, eu a minha mais-que-tudo, durante o habitual périplo que costumávamos ter e tentamos retomar. Mais uma das nossas filhas entrou esta semana para a Faculdade. Não houve stress nenhum, entrou na primeira opção, no local onde queria, sem o mínimo constrangimento ou dificuldade. O mau da coisa é que quando soubemos o resultado dissemos "ah e parabéns e tal" sem fazermos nenhuma festa, nada de especial. Apercebemo-nos disso apenas quando contamos aos amigos e estes nos dão os parabéns e dizemos que temos muita sorte, e quem lhes dera ter uns filhos assim, e nos deixam inchados como perus em véspera de Natal.
É triste. Eu acho triste. Claro que é o resultado de muitos anos de trabalho, de canseiras, de tentar educar o melhor que se pode, de abdicar de muita coisa secundária para que eles possam alcançar o essencial com esta facilidade.
Mas ainda assim é triste.
Logo tenho que lhe dar um beijinho
Vem isto a propósito da conversa que acabamos de ter, eu a minha mais-que-tudo, durante o habitual périplo que costumávamos ter e tentamos retomar. Mais uma das nossas filhas entrou esta semana para a Faculdade. Não houve stress nenhum, entrou na primeira opção, no local onde queria, sem o mínimo constrangimento ou dificuldade. O mau da coisa é que quando soubemos o resultado dissemos "ah e parabéns e tal" sem fazermos nenhuma festa, nada de especial. Apercebemo-nos disso apenas quando contamos aos amigos e estes nos dão os parabéns e dizemos que temos muita sorte, e quem lhes dera ter uns filhos assim, e nos deixam inchados como perus em véspera de Natal.
É triste. Eu acho triste. Claro que é o resultado de muitos anos de trabalho, de canseiras, de tentar educar o melhor que se pode, de abdicar de muita coisa secundária para que eles possam alcançar o essencial com esta facilidade.
Mas ainda assim é triste.
Logo tenho que lhe dar um beijinho
20110915
Não sou particularmente fã de reencontros. De grupo, nomeadamente. Sei que invariavelmente têm lugar, acontecem sempre, particularmente depois de uma experiência de comunidade forte, como foi a de Moçambique, é a de Taizé, Compostela, Colónias, etc. Apesar disso, quase nunca falto. Nem faço sacrifício algum em ir. Mas vou preparado.
Ontem tive um desses momentos: um jantar de Moçambique com as nossas famílias. Foi bom estarmos juntos, foi bom darmos rostos aos nomes das pessoas de quem tínhamos saudades, foi muito bom voltarmos a jogar ao lobo. Mas foi apenas isso: bom. Nada que se compare com a experiência extraordinária, arrebatadora, que tivemos em Moçambique. E que, por isso, tudo teria mesmo que saber a pouco.
É por isso que ofereço alguma resistência a estas tentativas de reencontro. Gosto muito de os ver, de voltar a estar com eles, e, particularmente em relação aos que não andam cá, tenho mesmo que aproveitar estas alturas para os poder rever. Mas o tempo para conversarmos é sempre muito curto, já se passaram muitas outras coisas entretanto, a própria disponibilidade mental é outra, e acabamos por ficar com demasiadas conversas a meio, arranhando a superfície, mas não ousando ir mais longe que isso. Prefiro sempre, por isso, escolher as alturas para voltar a conversar, olhos nos olhos, com mais calma, mais de encontro e menos, muito menos, de circunstância, que é algo que eu detesto.
Creio que nestas coisas, como noutras, a idade e a experiência são muito importantes. Apesar de me ser sempre muito difícil passar de um estado a outro, já consigo fazer o luto de algumas experiências e pessoas de uma forma mais integrada e, se calhar, menos dolorosa. Já vivi o suficiente para perceber que a vida se encarrega de colocar no nosso caminho aquelas pessoas que são importantes para nós, nem que seja à distância de um click.
Claro que continuo, todos os dias, à espera dos seus sorrisos, dos seus olhares, das suas mensagens, dos seus "faces".
Mas já consigo esperar sentado.
Calma e pacientemente sentado.
É a idade!
Subscrever:
Mensagens (Atom)
Bambora
Não é estranho que nos digam que «ser homem é muitas vezes uma experiência de frustração». Mas não é essa toda a verdade. Apesar de todos ...
-
Uma das coisas que mas aprecio naquilo que agora vou fazendo - a que tenho muita dificuldade em chamar trabalho, tal é o gozo que me tem ...
-
Não é estranho que nos digam que «ser homem é muitas vezes uma experiência de frustração». Mas não é essa toda a verdade. Apesar de todos ...
-
Se me dissessem, há 23 anos atrás, que acordar estes anos todos ao lado da mesma pessoa seria motivo de felicidade, eu rir-me-ia. De nerv...






