20200217

cabeça



Não me é fácil manter a cabeça em cima dos ombros. Nunca foi. Por entre vontades de agradar e obcecadas e intermináveis procuras de pontos de vista, fico muitas vezes como o tolo no meio da ponte: leio isto e concordo, vejo aquilo e concordo, oiço aqueloutro e parece-me carregado de razão. Frequentemente chego à conclusão que a posição certa é algures entre todas aquelas que conheci, mas ainda assim não a consigo formular convenientemente, e, não raras vezes, fico caladinho como um chasco. E nunca gosto disso.

Desta vez é a eutanásia, o Marega e o racismo, o casamento dos padres, a ordenação das mulheres... tudo quase que me exige uma tomada de posição. E há tantas variantes a considerar!

Ontem, na eucaristia, aconteceu-me o que me acontece muitas vezes: a sabedoria profunda do meu pároco leva-me, na homilia, a reconsiderar pensamentos e posicionamentos. A eucaristia é, desde há uns anos para cá, como que um barómetro. Diz-me como estou, ressintoniza-me, reorienta-me, recoloca-me no lugar onde deveria estar mas quase nunca estou Por vezes há demasiado mundo em mim para tão pouca teologia. Não que isso me preocupe em demasia - é ao mundo que pertenço, é no mundo que eu vivo, é mergulhado no mundo que eu testemunho e vivo a fé - mas volta e meia é importante que eu volta a olhar com os olhos da fé. 

É que é apenas a partir dessa conjugação - mundo e fé - eu consigo descortinar o meu lugar. E manter a cabeça em cima dos ombros.

20200212

Diabo


Mal cheguei perguntou-me: será que existe o diabo? Tivesse sido colocada esta questão há poucos meses e diria convictamente que não. Hoje, sorri e respondi: se acreditamos no Espírito Santo, acreditamos no diabo. Cheguei aqui há muito pouco tempo. Num daqueles percursos mentais que me abrem o olhar ao novo. Vou percebendo que a movimentação do Espírito é em tudo semelhante à do diabo, mas em oposição. Que se acredito que o Espírito é aquela voz de Deus que me arde cá por dentro e me leva a querer fazer e a querer ser mais, por oposição eu também escuto muitas vezes essa outra voz que, pelo contrário, me leva a permanecer na minha mediocridade. 

A quem irei eu dar ouvidos hoje? Não quando estou concentrado e intencionado mas quando o dia corre, por entre afazeres e faltas de tempo? A quem irei dar ouvidos, hoje? De quem será a voz que os outros escutarão de mim? Do Espírito, que une, ou do que separa (diabolo = o que separa)?

20200129

decidir


Dirigir é, naturalmente, inevitavelmente, um processo solitário. 

Quando trabalho em equipa - algo que não me é natural mas imposto por mim - distingo três momentos distintivos: o da chuva de ideias, o da discussão de ideias e o da aplicação das ideias. De todos, o meu preferido é o da chuva, onde cada um diz o que lhe vem à cabeça, mesmo que seja completamente estapafúrdio. Daqui, por entre risos e descobertas, nasce sempre o fora da caixa, o impensado, o imprevisível, e o que deixa marcas naqueles para quem trabalhamos, que é o mais importante. Aquele em que tenho mais dificuldade - e que exige uma maior concentração da minha parte - é o da concretização. Porque não me é instintivamente tão natural, tenho que apontar tudo e estar permanentemente a impor-me ligar à terra, e agir. 

No entanto, independentemente da equipa, há um momento de solidão. Breve e agradável, quando a equipa funciona, longo e penoso quando algo falha. É quando olho em volta e tento perceber com quem posso contar, quem irá ter dificuldades, quem tem outras motivações que não as comuns à equipa. É quando analiso o discutido e antevejo o resultado. Quando a equipa funciona, dura segundos. Quando tem problemas, dura imenso tempo. Que é sempre difícil.

E depois, quem tem a responsabilidade de decidir não pode ter a expectativa de agradar. Não a todos. Haverá sempre cedências e compromissos e, inevitavelmente, falhas, que, uma vez constatadas, nos fazem perguntar - muito antes de o ouvirmos - se fizemos o que deveríamos ter feito. O que, quando corre mal, nunca foi o caso.

20200108

permanecer



Permanecer, depois da realidade, é uma das grandes maravilhas do amor. 

Tenho visto uma série que me tem lançado algumas interrogações: Messiah. Não tanto porque aborda a eventual revisita do Messias, mas mais por causa das tramas relacionais e afectivas que giram à volta desse acontecimento. De amor e de desamor. Numa delas - a que conta para aqui - é entre um pai e a sua filha que, com o apoio da mãe, fez um aborto.

Há no amor uma forte carga de encantamento, de alguma ilusão até. Quando estamos apaixonados, quando amamos, sentimo-nos capazes de mover montanhas, ainda que por vezes nos tenhamos que render mais ao projecto que à realidade. Na fase de encantamento tudo é possível, tudo é desejável, tudo é bom e maravilhoso. À medida que o tempo passa, no entanto, a realidade vai alternando com o encantamento e nessa altura dá-se a prova dos nove. Quando se ama, verdadeiramente, permanece-se, ainda que possa ser necessário ajustar o amor à realidade: reconfigura-se o amor e nós com ele de forma a permitir que sejamos habitados por dentro por aqueles que amamos. 

A maravilha é que este amor, reconfigurado, recondicionado, realizado (confrontado com a  realidade), não é em nada menor que quando encantado. Justamente porque foi já provado, porque porventura já teve justificação para terminar ou não existir, justamente porque superou a fase de encantamento, ganha agora uma nova importância que decorre do lugar que cada um ocupa dentro de quem ama. Não é a idealização que se ama, é a pessoa em si, inteira, exactamente como é, com as suas qualidades e imperfeições, que, por ser assim, assume uma importância fundamental na vida de quem ama. qualquer que seja a forma que esse amor reveste. Ama-se e é-se amado como e pelo que se é.

E isso é verdadeiramente libertador!

20200107


Nas parcas mensagens de votos de feliz ano que enviei no último dia do ano que passou, formulei os votos de sabedoria e tranquilidade. Se a estas adicionarmos serenidade, temos a minha busca mais permanente. É recorrente desejar aos que me são importantes aquilo de que mais necessito. Talvez seja porque me são importantes - as pessoas e os desejos - talvez seja porque tenho esperança no retorno, talvez seja porque não consigo ver senão pelos meus olhos e projeto-me nos que me rodeiam.

Quando penso em sabedoria e serenidade penso sempre em Jesus. Ontem, enquanto descobria o "Ei-lo" de Samuel Úria, desejei, mais uma vez, essa força. A capacidade de esperar, de dar lugar e ouvidos e vez, de estar suficientemente seguro para que os outros possam ter lugar em mim, de permitir que os outros sejam. É-me sempre difícil fazê-lo, principalmente quando estou numa posição que exige orientação e assumção de responsabilidades, sobretudo quando impera o medo infantil de desiludir alguém que confiou em mim. 

Não têm sido muito fáceis os tempos e nestas alturas vem-me sempre à memória o postal que o Padre Ferreira me deu no 9º ano: "o homem mede-se com o obstáculo." Eu normalmente fujo correndo e arranjando mil e uma boas justificações para o fazer. Agora, pelo contrário, não pretendo ir a lado nenhum. Cá estou e cá estarei enquanto mo permitirem. E estar, ficar, permanecer, implica a abertura à exigência do melhor de mim neste momento.

É uma aprendizagem, uma nova e uma outra aprendizagem, que, confio, contribuirá para que eu me apresente a Deus mais próximo das Suas expectativas.

20191210


Não é sempre, mas há dias em que a Palavra, que todas as manhãs escutamos durante a viagem para o trabalho, vem mesmo ao encontro do que precisava. Hoje veio. Graças a Deus! Porque eu estava mesmo a precisar dela.

Ainda esta semana disse na catequese, a uma das miúdas mais à procura que conheço - e que está na fase do "não" a tudo, que a Bíblia iria ser o livro mais importante da vida dela. Olhou para mim com aquele ar de incredulidade que a caracteriza, como se eu tivesse dito a maior barbaridade que jamais tinha ouvido. Mas a verdade é que eu, conhecendo-a como a conheço, acredito mesmo nisso. 

Sobretudo para quem se questiona, sobretudo para quem não se conforma, sobretudo para quem anda sempre à procura de ser mais, a Palavra é absolutamente fundamental. Aí encontramos tudo: todas as dores, todos os desesperos, todas as escuridões. E aí encontramos todas as curas, todas as esperanças, toda a luz. A Palavra é resposta confiada de muita vida vivida e, apesar da ilusão tecnológica onde vivemos, nada há de essencial de nós e da vida que não esteja aí presente, seja na forma de história, na forma de conselho, na forma de meta.

Por isso, hoje, veio ao meu encontro. Porque a sensação que me acompanha é a da incerteza de buscar a ovelha perdida. O medo que me acompanha é o de perder o rebanho justamente por causa dessa ovelha. A tranquilidade que me deu a Palavra, hoje, foi a de saber que é justamente isso que me é pedido.

 

20191206


Não me lembro de ter tido um dia tão complicado quanto o de ontem. De problema em problema, de urgência em urgência, de inesperado em inesperado, sempre a correr atrás do prejuízo, sempre em reação, sempre em cima do joelho. E sempre com alguma dose de conflitualidade. Tudo o que eu detesto esteve ontem concentrado no meu dia de trabalho. Cheguei ao final do dia como se tivesse apanhado uma coça: cabeça a rebentar, dores no corpo, completamente esgotado.

No final de um dia assim, nada há de melhor que regressar. Que ter para onde regressar. Que ter para quem regressar. Chegar ao carro, pôr uma musica calma que abafe o trânsito, uma boa dose de conversa, chegar a casa como se chega a um refúgio, com a confiança que aquele é o nosso lugar, que aqueles são o nosso lar. A partilha das nossas vidas, à mesa, por entre gargalhadas, conversas e brincadeiras, com as tecnologias fazendo perto quem já vive longe, traz-me de volta ao essencial, ao fundamental, que é o mesmo que dizer à minha essência e aos meus fundamentos.

Poder regressar, no final do dia, faz com que qualquer tempestade seja sempre passageira.

Bambora

  Não é estranho que nos digam que «ser homem é muitas vezes uma experiência de frustração». Mas não é essa toda a verdade. Apesar de todos ...