Caminhávamos ontem, depois do jantar, nas ruas desertas, quando, de uma churrasqueira perto de nós, me veio ao nariz um dos cheiros que mais me despertam os sentidos. Falámos disso, como falamos sempre de coisas nenhumas, naquele que é, para mim, o mais verdadeiro comprovativo da verdadeira intimidade. Como tínhamos acabado de jantar, a Isabel não percebeu como aquele aroma me despertava os sentidos. Na restante parte do caminho, matutei. Na realidade, não era comer o churrasco que me punha a sonhar, era a imagem do churrasco, era o imaginar a carne suculenta no prato, as batatas estaladiças, o arroz perfeito na soltura e no sabor, era sobretudo a algazarra à volta da mesa, para a qual o churrasco é mero pretexto lá em casa. É frequente ser enganado pelos sentidos. De facto, é provável que a carne afinal viesse algo queimada, as batatas embebidas em azeite e já amolecidas pelo calor, o arroz empapado, e, sem dúvida, não teríamos a algazarra do costume, agora que metade dos filhos andam lá por fora. Mas os sonhos, esses, nunca me enganaram. Sempre me permitiram que vivesse na perfeição, no melhor dos mundos, com o sol a aquecer-me a eira enquanto a chuva cai refrescante no nabal. Esta manhã, enquanto não me sabia se acordado se a dormir e sonho e realidade se confundem numa mistura por vezes explosiva, confirmei a importância do sonho na minha vida. Na infância, confinado à minha rua, viajava a partir dos inúmeros livros que devorava, sozinho no meu quarto. Hoje, sonho de olhos abertos, fruindo a minha realidade - que está além do que sempre me atrevi a sonhar - mantendo inapelavelmente, no entanto, o "e se..." sob a pele da alma.
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