20200827

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Recordo uma deliciosa conversa de muitos anos: eu, um padre e um amigo então ligado à comunicação social. Eu, na altura como sempre à procura de segurança, perguntei se não seria melhor termos orgãos de comunicação social confessadamente católicos. Dessa forma, argumentava eu, saberíamos exactamente em que acreditar. O padre encolheu os ombros e o meu amigo, então ligado à comunicação social, disse logo que não, que o melhor era que os católicos que trabalham na comunicação social fossem verdadeiros e dessa forma tudo seria melhor. Serviu-me de exemplo e desde então tomo essa maneira de fazer como boa para tudo: é-se testemunho no que fazemos qualquer que seja o lugar, altura ou disposição.

Ontem lembrei-me desta conversa quando vi que um partido que eu desconhecia mas se intitula democrata cristão se vai aliar ao Chega. Incomodou-me, claro. Não tem tanto a ver com o Chega - mas tem um bocado, confesso - mas com a audácia de um partido se auto-intitular democrata cristão. Eu entendo que um cristão pode e deve ser político, no sentido de procurar e contribuir para uma sociedade onde cada um possa encontrar, em total liberdade, o seu lugar. Pode fazê-lo dentro ou fora de um partido, nas maiores e mais pequenas realizações da sua vida. Este olhar atento sobre o mundo que nos rodeia faz parte do ser cristão, é-nos intrínseco, sem possibilidade de menorização. Como o Papa Francisco não se cansa de referir, é importante ver e agir. Em todos os momentos da nossa vida. Por isso, desde que, há largos anos, iniciei os meus estudos nesta área, me parece que a a bitola de um cristão não é um partido político mas a Doutrina Social da Igreja, o seu olhar atento e as pistas que, sucessivamente, vai dando para que possamos contribuir para viver num mundo melhor. E quando eu olho para os partidos - e olho com alguma atenção para todos - consigo encontrar em quase todos pequenos pedaços da DSI, ainda que não explicitamente referenciada. E um daqueles que me parece estar mais longe é justamente o Chega com o seu incentivo ao medo, a sua aposta na exclusão, a sua necessidade de construir muros. Daí que não entenda como um partido que se diz democrata cristão possa querer fazer parte de uma estrutura assim. E isso incomoda-me.

 


20200824

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Penso em demasia. Sempre. Desde sempre. Tempos houve em que isso era uma bênção. Noutros, uma maldição. Agora, como outras realidades em mim, tento aceitar tal como são para as poder trabalhar. Vem isto a propósito da oração da manhã de hoje, que a dado momento pergunta se obedeço à minha consciência, não a traindo para agradar aos amigos. Comecei logo a divagar: o que forma a minha consciência? É algo que vem comigo, que nasce de dentro, ou que vem de fora, do que vejo e escuto? E o que vem de dentro é sempre mais importante que o que vem de fora? E sou melhor quando escuto o que vem de fora ou o que vem de dentro? A qual das duas vozes - entre tantas outra que me habitam - devo obedecer? Sendo assim, não é demasiado simplista dizer-me que devo obedecer à minha consciência? 

Admiro muito os corações simples, os que pouco questionam, os que são suficientemente seguros de si para não sentirem esta necessidade de se questionarem. Muitas vezes quis eu próprio ser assim, com as certezas das coisas simples, com a sabedoria das pessoas simples. Mas esse não sou eu. E é comigo que tenho que me entender. E um bom princípio base para o fazer, todos os dias, é, perante a dúvida, ter a presença de espírito para me perguntar o que faria Jesus. Talvez dessa forma, descortinando a sua consciência, consiga estar mais perto da minha consciência. Mais perto da perfeição estarei com toda a certeza.

20200810

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Aprendo muitíssimo com a interioridade. Não é apenas em termos de reflexão, ou serenidade momentânea enquanto a pratico, mas na vida, nas escolhas que vou fazendo ou na forma como vou escolhendo. Talvez a coisa mais importante que aprendi foi a chamar a mim o que me rodeia. Antes de a conhecer e de a praticar, tinha a ideia que precisava de tirar o mundo de mim para que me pudesse encontrar. Cedo aprendi, no entanto, que o primeiro passo para um bom recolhimento é fazer o movimento oposto, é chamar a mim o que me rodeia para que me possa habitar. Um movimento simples, que acontece logo no início, é justamente escutar atentamente e assimilar, incorporar, o que se escuta. Apenas assim, tornando-o meu, o som que escuto pode ser reorganizado. Este gesto, este movimento, não me afasta do mundo mas coloca o mundo em mim. 

 

20200727

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A vida é o que é e vou percebendo que, apesar das minhas fantasias, saber ler as circunstâncias permite-me traçar rumos e calcorrear melhores caminhos. Ontem foi dia dos avós e não pensei nos meus mas nos dos meus filhos. Quanto aos meus, não há muito a dizer. A Teta tem o património exclusivo da ternura dos avós na minha vida, e mesmo nesse caso, foi porque, por minha iniciativa, nos aproximamos no final da sua vida. Fora isso, não haveria muito a dizer. Não tenho memória alguma do avô materno, tenho uma memória muitíssimo ténue do meu avô paterno e a que tenho da avó paterna é tudo menos agradável... apesar de ser minha madrinha. Houve alturas - muitas! - em que o meu maior desejo era ter avós e pais normais, como os dos meus amigos, como via nos filmes, como lia nos livros. Não era isso que acontecia, nunca foi, a não ser quando tivemos a nossa própria família, que pudemos construir e educar segundo aquilo que entendemos como o melhor. E foi, durante muito tempo, uma mágoa. Que se acentua invariavelmente nos dias especiais. Nestes dias - do pai, da mãe, dos avós - à medida que vou vendo as partilhas na redes sociais, que vou vendo e lendo as reportagens que proliferam na comunicação social, acabo sempre a concluir que o defeito é meu. Que devo ter uma hipersensibilidade qualquer que me impediu sempre de os ver como devem ser vistos, que, nisto como em muitas outras coisas, há uma certa baralhação entre o real e o imaginário que me habita. Á medida que o tempo passa por mim vou assentando os pés na terra e vou-me esforçando por valorizar o que tive - e terei não por muito tempo. Faço uma releitura dos acontecimentos mais marcantes e tento fazer incidir sobre eles uma outra luz, que me permita ver o que até então permaneceu escondido. Nem sempre o consigo. Nem sempre permito que a mágoa dê lugar a boas memórias. Provavelmente porque nem sempre as consigo descortinar por entre os acontecimentos, ou a memória que tenho deles. No entanto, é um exercício importante. Porque mesmo quando a mágoa permanece, incorporo-a, dou-lhe as boas vindas, torno-a parte de mim. Porque a mágoa, particularmente no que diz respeito à família que era antes da minha, faz parte de mim. E eu tenho que viver com ela. O melhor que sei.

20200723

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Ultimamente tenho tido exemplos e conversas acerca desses exemplos de pessoas que têm tido atitudes diversas quando chegam ao fim da linha profissional. Umas, pacificadas, preparam e aceitam esse momento com tremenda tranquilidade, transpirando paz de espírito. Outros ficam angustiados, arrastando-se pelos corredores lembrando-me os zombies, que apesar de caírem aos pedaços, ainda se mantém em pé contra tudo e contra todos.
Sempre tive o meu pai como um destes: trabalhou desde menino, primeiro nos campos de Mouriz e depois nas muitas atividades que foi desempenhando ao longo dos anos. Reformou-se aos 65 anos mas apenas no ano passos, com 7e anos, deixou de trabalhar. Para se dedicar a minha mãe. Nos primeiros meses correu espantosamente bem, mas recentemente tive ecos de que estaria com alguns sintomas de depressão.Que não me surpreendem. Cuidar da minha mãe, apesar de ser um trabalho de quase 24 horas, é pouco para quem toda a vida saía de manha e regressava à noite. Vamos ter que conversar acerca disto. Não sei como, ainda, porque as nossas conversas sérias implicam sempre alguma dor e bastante desconforto, mas terá que acontecer.
É curioso como à medida que o tempo passa vou ficando mais atento a essa altura da vida. Espero sinceramente ir-me preparando para que, chegado o momento, possa ser daqueles que transpiram serenidade. Um bom amigo, daqueles a quem dedico uma atenção especial para poder calcorrear os seus caminhos, dizia-me esta semana que, quando se está de bem com a vida e rodeado das pessoas certas, tudo é mais fácil. E isso enche-me de esperança: sempre tive a bênção de ter na minha vida as pessoas certas e, agora, vou-me sentindo cada vez mais de paz com a vida. Gosto de pensar que poderei estar no caminho certo.

20200722

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Tentar descobrir Jesus nos outros, a cada momento, é um exercício que tem tanto de belo como de difícil. É certo que logo que consciencializo a intenção de o fazer já percorri mais de meio caminho: altera-se a atenção, o cuidado, e o propósito fica mais perto do alcance. Mas continua longe de me ser natural. E fácil. Uma parte importante dos meus dias e do meu trabalho é servir as pessoas. Servir mesmo, porque nenhuma delas paga e a nenhuma delas é mais pedido que a presença e, uma vez presente, que saiba estar. Volta e meia, quando corre bem lá vem uma palavra de gratidão ou reconhecimento, o que, não sendo o nosso propósito, serve também de alento. Mas na outra meia volta lidamos também com pessoas que , sendo-lhes dado tudo, acham-se ainda no direito de cobrar, de exigir, de se queixarem. E é com estas e nestas que é mais difícil descortinar Jesus, que se deve entreter a brincar às escondidinhas algures dentro delas. A estas apetece logo responder curto e grosso - uma linguagem que é a sua e que entendem muito bem - mas contenho-me, procuro-O, e tento, ainda assim, enveredar pela docilidade e atenção. Não é fácil, nunca é, mas ainda assim parece-me ser o caminho a seguir. Ou a tentar, pelo menos.

20200717

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Levei muitos anos, travei muitas inglórias batalhas contra imaginários moínhos, para perceber a minha forma de ser inteiro. Pensava eu que para ser inteiro deveria ser granítico, monobloco, sem rachadelas ou quebras, um pedaço que, pelo menos à vista desarmada, se apresentasse perfeito, incólume, sem falhas. E cada falha era tida por mim como um atentado a essa pretensão, como um desastre, como algo que deveria ser removido, o que normalmente significava ter que ser escondido do olhar, meu e dos outros. Tarde, mais ainda muito a tempo, o Meus fizeram-me perceber a minha idiotice. Que todos viam as minhas falhas, sabiam delas, e que, embora não gostassem particularmente delas, disseram que me amavam com elas, apesar delas, já que essas falhas são também o que eu sou.
O curioso é que eu sempre gostei mais do antigo que do moderno. Sempre gostei das casas que apresentam marcas de uso, falhas e fendas, que interpreto sempre como marcas de vida. Gosto imenso das páginas amarelecidas dos livros antigos, dobradas, sarrabiscadas, patentes do espanto, da curiosidade e dos ensinamentos que proporcionaram a alguém antes de mim. Aprecio jarras e pratos daqueles do campo, que se põem na parede e onde a água é ainda mais fresca. O novo e o perfeito, portanto, para mim nunca ganharam aos efeitos do tempo, à história, ao uso que as coisas e a vida devem ter. Tal como diz o Padre Almiro, "mais vale uma vida gasta que uma vida enferrujada". E tudo isto sempre foi mais importante para mim. Exceto quando eu era o alvo da minha atenção.
Agora vou lidando um pouco melhor com as minhas falhas. Já não as escondo, já as assumo perante os outros, já percebo que nem todos gostam e têm direito a não gostar sem por em causa o seu e o meu direito a ser. É uma aprendizagem, claro. Até porque é um caminho. Que só agora comecei a percorrer.

Bambora

  Não é estranho que nos digam que «ser homem é muitas vezes uma experiência de frustração». Mas não é essa toda a verdade. Apesar de todos ...