Fosse eu ao que publiquei sempre por volta desta altura e tenho a certeza que o momento se repetiria. Passado o primeiro embate, superadas as primeiras dificuldades, entro no ritmo como se lá permanecesse desde sempre e para sempre. A rotina instala-se, as soluções procuram-se encontram-se, e os dias sucedem às noites a uma velocidade vertiginosa. E por volta desta altura, focado que estou no eficaz, como que acordo da letargia e sinto uma terrível falta do belo. As coisas da cabeça, apesar de fundamentais, sabem a pouco, a muito pouco, e estão longe de esgotar o sentido do que procuro. Mesmo agora, que faço aquilo para que acredito que nasci, o que faço não é, de todo, o que eu sou. Porque gosto de escutar - e isso deve transparecer - oiço frequentemente, daqueles com quem trabalho, que se sentem meras peças de engrenagem, ferramentas cuja única função é permitir que a máquina funcione. Quando lhes pergunto o que fazem, o que pensam, a que se dedicam para além do trabalho, a resposta não surge facilmente, e vem invariavelmente acompanhada do factor tempo... e culpa. O belo faz imensa falta. Sobretudo em tempos de pandemia, quando nos sentimos coartados na expressão dos nossos sentimentos, nos abraços, nos sorrisos adivinhados por detrás das máscaras - vá lá, recordamos que os olhos também sorriem - e tudo é e deve ser contido.
20201013
202010130932
20200923
202009231053
Corro muitas vezes atrás de coisas que não interessam para coisa nenhuma. Discussões, ideiais, espumas, que ao fim de quinze dias já nem na memória ocupam lugar ou espaço. Puras perdas de tempo. Uma das minhas filhas é assim e eu espanto-me sempre que constato nela essa ânsia de correr atrás de moinhos de vento. Assume todas as discussões como se fossem fundamentais e, como eu instintivamente faço o mesmo, acabamos quase sempre em alta voz a debatermo-nos sobre coisa nenhuma, sem sequer nos apercebermos que estamos em concordância. A idade, no entanto, volta e meia vai-me permitindo algum juízo e já consigo ir distinguindo o essencial do acessório.
Lembrei-me disto ao ler um artigo acerca da descoberta do sexo por puro prazer, sem amor, depois dos quarenta. Aquele que pretendia ser um artigo liberalizador da mulher eu li como uma rendição. O artigo terminava com a constatação que a mulher em causa não era tão feliz (como era quando o sexo não era apenas prazer mas também afetividade) mas era livre, e isso era imenso. Pensei que esteé um tema de conversa recorrente com os meus filhos e como, para facilitar, lhes recomendo uma escala de valores em forma de pirâmide. Nessa escala, a felicidade está mais perto da base que a liberdade, o que significa que a liberdade é caminho (para mim, fundamental) para a felicidade e não o contrário. Na maior parte das vezes, inverter as coisas é uma armadilha que conduz à perda de ambas, a um solitário enredamento que vagueia entre auto-aprisionamento e estados de espírito fugazmente satisfatórios mas longe, muito longe, da felicidade.
Estou mesmo a ver a quantidade de ses e mas com que vou ter que lidar, mas parece-me uma boa conversa a ter com os meus filhos :-)
20200909
202009091034
Uma das formas de avaliar o impactante na minha vida é o distanciamento. Eu, que tenho a propensão para o inebriamento do momento, normalmente preciso desse hiato de tempo para discernir os acontecimentos verdadeiramente importantes.
Diz-se que longe da vista é equivalente a longe do coração, e assim seria se não fosse essa coisa que, segundo alguns, é apenas nossa, que é a saudade, essa coisa boa que aquece o coração, torna presentes os ausentes, menosprezando o tempo.
Nas eucaristias começa-me a faltar o tempo para recordar aqueles que partiram. Antes, nesse momento, recordava uma ou duas pessoas e agora são já tantas que quase sempre a eucaristia continua sem mim. Parece que de repente a morte passa a fazer parte da vida, não permitindo remetê-la para as calendas, para o ainda falta muito, para o terei muito tempo para pensar nisso. Todas as semanas morre alguém que carrega consigo uma parte das minhas memórias, e já sei que a cada notícia de morte são as memórias conjuntas que fazem a sua aparição, não como estertor mas como gratidão.
E há mortes e mortes. Há aquelas que se prevêem e dão tempo para nos despedirmos nem que seja interiormente, e há aquelas que nos desabam em cima e nos fazem desabar com elas. A notícia da morte de um miúdo com quem tenho boas memórias é daquelas que, se fosse eu a mandar, nunca teria lugar. Não sou. Resta-me a inevitabilidade da memória, que às vezes é também dor. Resta-me a humildade da dor, que às vezes é também memória.
20200904
Acolher, Discernir, Transformar, Retribuir, Agradecer
Os meus começos são sempre sonho. Depois poderão passar a projetos, mas em primeiríssimo lugar são sonhos. E gosto que o sejam. Porventura não demasiado ligados à realidade, porventura prenhes de impossibilidade, porventura irrealizáveis. Pouco importa. A vida vivida encarregar-se-à de me recolocar no lugar, de ajustar as expectativas, de me confrontar com os meus limites.
Os meus começos têm sempre um percurso idealizado, com etapas mentais onde, no começo - e quase sempre apenas no começo - tudo encaixo para que tudo faça sentido, para que eu possa crescer, para que eu possa manter a ilusão que o tempo traz consigo mais sabedoria. Este ano, este começo, tem também o seu percurso, uma espécie de mantra que procurarei recordar em cada dia: Acolher, Discernir, Transformar, Retribuir, Agradecer.
Ontem, enquanto arrumava a cozinha, olhava para a esponja que tinha na mão. A forma como o líquido da loiça desaparece em si e se mistura com a água que cai da torneira, como a mistura que daí resulta serve para desengordurar e limpar a loiça, por mais suja que ela esteja e, finalmente, o seu retorno à essência, depois de se voltar a passar por água. Posso aprender com a esponja este deixar-me impregnar, este tornar-me prenhe do que me é dado; esta permissão para a permeabilidade sem perder a essência, esta capacidade de transformar e de devolver, retribuir, para tornar as coisas melhores, mais limpas, mais ricas, prontas para nova vida.
Acredito que a capacidade de acolher, sejam pessoas, sejam acontecimentos, é mais que meio caminho andado para a felicidade, Tornar meu, incorporar, interiorizar, ao invés de batalhar contra o que vem ao meu encontro, permite-me a serenidade imprescindível para o discernimento. Deste acontecimento, desta pessoa, desta palavra, o que é para guardar, o que é para deitar fora, o que é para transformar e enriquecer? E como o posso fazer, como o posso transmitir, com que gestos, com que palavras, com que atitudes posso envolver os outros nessa aprendizagem? E, no final, Agradecer, a outra mais de metade do caminho para a felicidade. Quem agradece, quem sente, vive e transmite a gratidão que emana das entranhas sabe-se mútuo, sabe-se companheiro e acompanhado, sabe-se mestre e aprendiz, sabe-se caminhante e caminho, sabe-se legado e herdeiro, parte imprescindível de uma realidade que vai infinitamente para além do próprio umbigo.
Acolher, Discernir, Transformar, Retribuir, Agradecer. Eu avisei: os meus começos são sempre sonho! Qualquer coincidência com a realidade é pura teocidência.
20200827
202008271453
Recordo uma deliciosa conversa de muitos anos: eu, um padre e um amigo então ligado à comunicação social. Eu, na altura como sempre à procura de segurança, perguntei se não seria melhor termos orgãos de comunicação social confessadamente católicos. Dessa forma, argumentava eu, saberíamos exactamente em que acreditar. O padre encolheu os ombros e o meu amigo, então ligado à comunicação social, disse logo que não, que o melhor era que os católicos que trabalham na comunicação social fossem verdadeiros e dessa forma tudo seria melhor. Serviu-me de exemplo e desde então tomo essa maneira de fazer como boa para tudo: é-se testemunho no que fazemos qualquer que seja o lugar, altura ou disposição.
Ontem lembrei-me desta conversa quando vi que um partido que eu desconhecia mas se intitula democrata cristão se vai aliar ao Chega. Incomodou-me, claro. Não tem tanto a ver com o Chega - mas tem um bocado, confesso - mas com a audácia de um partido se auto-intitular democrata cristão. Eu entendo que um cristão pode e deve ser político, no sentido de procurar e contribuir para uma sociedade onde cada um possa encontrar, em total liberdade, o seu lugar. Pode fazê-lo dentro ou fora de um partido, nas maiores e mais pequenas realizações da sua vida. Este olhar atento sobre o mundo que nos rodeia faz parte do ser cristão, é-nos intrínseco, sem possibilidade de menorização. Como o Papa Francisco não se cansa de referir, é importante ver e agir. Em todos os momentos da nossa vida. Por isso, desde que, há largos anos, iniciei os meus estudos nesta área, me parece que a a bitola de um cristão não é um partido político mas a Doutrina Social da Igreja, o seu olhar atento e as pistas que, sucessivamente, vai dando para que possamos contribuir para viver num mundo melhor. E quando eu olho para os partidos - e olho com alguma atenção para todos - consigo encontrar em quase todos pequenos pedaços da DSI, ainda que não explicitamente referenciada. E um daqueles que me parece estar mais longe é justamente o Chega com o seu incentivo ao medo, a sua aposta na exclusão, a sua necessidade de construir muros. Daí que não entenda como um partido que se diz democrata cristão possa querer fazer parte de uma estrutura assim. E isso incomoda-me.
20200824
202008241056
Penso em demasia. Sempre. Desde sempre. Tempos houve em que isso era uma bênção. Noutros, uma maldição. Agora, como outras realidades em mim, tento aceitar tal como são para as poder trabalhar. Vem isto a propósito da oração da manhã de hoje, que a dado momento pergunta se obedeço à minha consciência, não a traindo para agradar aos amigos. Comecei logo a divagar: o que forma a minha consciência? É algo que vem comigo, que nasce de dentro, ou que vem de fora, do que vejo e escuto? E o que vem de dentro é sempre mais importante que o que vem de fora? E sou melhor quando escuto o que vem de fora ou o que vem de dentro? A qual das duas vozes - entre tantas outra que me habitam - devo obedecer? Sendo assim, não é demasiado simplista dizer-me que devo obedecer à minha consciência?
Admiro muito os corações simples, os que pouco questionam, os que são suficientemente seguros de si para não sentirem esta necessidade de se questionarem. Muitas vezes quis eu próprio ser assim, com as certezas das coisas simples, com a sabedoria das pessoas simples. Mas esse não sou eu. E é comigo que tenho que me entender. E um bom princípio base para o fazer, todos os dias, é, perante a dúvida, ter a presença de espírito para me perguntar o que faria Jesus. Talvez dessa forma, descortinando a sua consciência, consiga estar mais perto da minha consciência. Mais perto da perfeição estarei com toda a certeza.
20200810
202008100939
Aprendo muitíssimo com a interioridade. Não é apenas em termos de reflexão, ou serenidade momentânea enquanto a pratico, mas na vida, nas escolhas que vou fazendo ou na forma como vou escolhendo. Talvez a coisa mais importante que aprendi foi a chamar a mim o que me rodeia. Antes de a conhecer e de a praticar, tinha a ideia que precisava de tirar o mundo de mim para que me pudesse encontrar. Cedo aprendi, no entanto, que o primeiro passo para um bom recolhimento é fazer o movimento oposto, é chamar a mim o que me rodeia para que me possa habitar. Um movimento simples, que acontece logo no início, é justamente escutar atentamente e assimilar, incorporar, o que se escuta. Apenas assim, tornando-o meu, o som que escuto pode ser reorganizado. Este gesto, este movimento, não me afasta do mundo mas coloca o mundo em mim.
Bambora
Não é estranho que nos digam que «ser homem é muitas vezes uma experiência de frustração». Mas não é essa toda a verdade. Apesar de todos ...
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Uma das coisas que mas aprecio naquilo que agora vou fazendo - a que tenho muita dificuldade em chamar trabalho, tal é o gozo que me tem ...
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Se me dissessem, há 23 anos atrás, que acordar estes anos todos ao lado da mesma pessoa seria motivo de felicidade, eu rir-me-ia. De nerv...