20241231

Bambora

 


Não é estranho que nos digam que «ser homem é muitas vezes uma experiência de frustração». Mas não é essa toda a verdade. Apesar de todos os fracassos e frustrações, o homem volta a recompor-se, volta a esperar, volta a por-se em marcha em direcção a algo. Há no ser humano algo que o chama uma e outra vez à vida e à esperança. Há sempre uma estrela que volta a acender. 

https://www.gruposdejesus.com/epifania-do-senhor-c-mateus-21-12-3/


É tão inevitável como a passagem do ano: chegado a esta altura, faço listagens e propósitos e compromissos, porque desta vez é que é. Cheio de certezas, registo tudo: estados de alma, condição física, horários de sono, contas… para que de hoje a um ano possa ver, ufano, o extraordinário progresso que fiz a nível pessoal, familiar e profissional. 2025 vai ser espetacular! Pego no excel, abro uma tabela nova, cheia de cálculos e esquemas , com horários, ajustando tudo ao nível do sonho. Claro que na segunda feira, mergulhado no que não consegui prever, tendo que me ajustar à vida vivida, já esqueci completamente o que tinha programado. Mas não importa, lá para finais de julho, em pleno tempo de férias, faço o balanço do ano letivo e preparo o próximo com novas tabelas, novos esquemas, porque aí é que vai ser.

Muda alguma coisa? Claro que sim. É como estar aqui a escrever. Fazer as tabelas, programar, escrever, é trazer cá para fora o que está dentro. E precisa de ser escrito, mesmo, porque senão fica uma nuvem cinzenta a pairar em cima da cabeça, onde tudo se mistura e nada se clarifica. E é muito importante para mim trazer essas coisas cá para fora. É muito importante o processo de recordar e avaliar o que aconteceu para que possa servir de impulso para o que gostaria que acontecesse. É muito importante para mim este parar, olhar, apreciar, saborear, para poder ajustar processos e caminhos, reorientar destinos e poder avançar um pouco melhor. Sim, por vezes os avanços não são significativos; sim os recuos são imensos e desanimadores; sim, isso tudo. Mas quando olho para trás vejo um rumo. Nem sempre cumprido, nem sempre linear, nem sempre progressivo, mas um rumo, isto é: um ponto de partida e um destino, que nós não somos de chegadas - eu, pelo menos, não sou.

O único cuidado que tenho de ter é libertar-me da culpa do não cumprido. É não esquecer que uma projeção é apenas uma projeção, não é uma fatalidade. E eu nisso sou muito português, sou muito fadista, tendo a procurar motivos para não ter cumprido e, invariavelmente, tropeço nas minhas enormes insuficiências. Portanto, não me posso esquecer: as listagens que este ano fiz e tenho diante de mim são apenas isso: listagens, rumos traçados, agulhas que apontam o caminho. Mas o que importa, mesmo, o que torna uma vida bem ou mal vivida, é o caminho. E esse é para se saborear. Passo a passo. Momento a momento. Intensamente. As coisas boas e as coisas más. Gargalhar quando é de rir; Chorar baba e ranho quando é de sofrer. A cada momento o seu momento. Inteiro. Intenso. Haverá tempo para ajustar o rumo.

Hoje termina 2024. Bambora!

Um excelente 2025 para todos!

20241208

"...é exactamente quando deixamos de esperar que a vida começa a valer a pena."

 https://www.publico.pt/2024/12/08/impar/cronica/dizelo-cantando-gente-2114734

Tenho lido muita coisa boa. Crónicas, sobretudo. Gosto imenso de crónicas, de textos de opinião, de partilhas em textos pequenos que, quando bem escritos, têm a capacidade de me fazer poesia: levam-me a ver o que, distraidamente, apenas olho. Claro que não substitui o intrincado enredo de um bom romance, mas têm outra coisa. São-me quase familiares, provocam aquela sensação de "eu já estive aqui" que me permitem identificar com o que leio. 

No nosso GEP temos falado da espera. De como é bom esperar, de como é bom aproveitar a espera para vivermos antecipadamente o que sabemos que vai acontecer. Não tenho vida para deitar fora e a espera faz parte da vida, logo há que a saber aproveitar e vive-la bem. E eu, que tenho imensa dificuldade com os tempos intermédios - os que são entre uma coisa e outra - tenho aprendido a viver a espera. Sim, eu sei que normalmente o tempo mais importante não é o da espera mas o do acontecimento. Mas quanto mais importante é o acontecimento, mais importante se torna a sua espera. E a sua memória, depois. Quando bem vivida, esta tríade - espera, acontecimento e memória - forma um todo intimamente ligado e é esse todo que se transforma, eventualmente, num grande acontecimento da nossa vida. 

O problema, então, não é o da espera. O problema tem outro nome, que se incidia na espera, perturba o acontecimento e estraga a memória. O problema é a expectativa. Essa é que, se tiver rédea solta, toma conta de tudo. E dá cabo de tudo.

20241201

Sentar e conversar. Nem sempre resulta. Aliás, é um processo, um caminho com várias etapas, sendo que apenas resulta no final. Mas até chegarmos lá, sentamos e conversamos várias vezes. Portanto, não é propriamente o sentar e conversar mas o conversarmos sentados. Uma das minhas experiências mais marcantes em Quelimane, Moçambique - é uma das maiores aprendizagens - teve justamente a ver com isso: sempre que chegava a casa de alguém eram colocadas duas cadeiras debaixo de uma árvore. Por muito que eu dissesse que iria ser rápido, insistiam sempre para que sentássemos. Mais tarde aprendi que era um sinal de respeito, que significava que eu era tão importante que me concediam o seu tempo. Sentar e conversar. Até hoje, sempre que consegui dar início a esse processo, com tempo, com calma e olhos nos olhos, nunca terminou mal. Houve alturas em que concordamos, houve alturas em que continuamos discordantes, mas acabamos sempre mais próximos um do outro e, sobretudo, respeitando-nos e admirando-nos mutuamente. E esse é o verdadeiro caminho, não o concordarmos, mas o aproximarmo-nos. É só para isso que sentamos e conversamos.

20241130

 Ontem tive encontro do CoMTigo. Não saí satisfeito comigo. Não estava claro o percurso, de onde iria partir e sobretudo onde queria chegar. E quando os miúdos começaram a colocar as suas questões à procura de respostas eu patinei, transferi a minha falta de clareza para eles. Agora mesmo perguntava-me porque é que isso aconteceu. Não costumo patinar assim, não costumo não ser claro em mim para poder ser claro para os outros. Diria até que essa clareza, esse mastigar para poder alimentar é uma das minhas melhores capacidades. E percebi: eu rezei pouco isto. Certo, não tive tempo para caminhar com isto na cabeça, estive mental e espiritualmente envolvido noutras lides, tudo boas justificações, mas que são apenas isso: justificações. O que importa mesmo é que fui, de certa forma, sobranceiro, confiei excessivamente nas minhas capacidades, no trabalho sem rede, no desenrascanço. E eu não posso não rezar o que vou dizer, o que vou transmitir, o que vou rezar com os outros. E rezar o que vou dizer é pensar nisso sob o guarda chuva da fé, é deixar que acampe cá por dentro e faça caminho, é permitir que o Espírito me trabalhe e me conduza, torne as coisas mais claras em mim para que eu as possa tornar mais claras para os outros. Ontem faltou-me isto. Não acaba o mundo. Mas não pode voltar a acontecer.

20241128

Por pouco ficava encurralado. A intenção não era má, talvez nem fosse consciente, mas tentaram encurralar-me. A propósito de uma discussão que tem tanto de atual como de superficial e estúpida: a da cor dos boletins de saúde. A pergunta que me colocaram era mais ou menos esta: se isso é assim tão importante, mais importante ainda é o nome que se dá à criança. Então não se dê nome para que ela o possa escolher quando quiser. Era mais ou menos isto.

Não dei seguimento. Neguei-me a seguir com a discussão. Não que a questão de fundo não seja importante – acredito que seja motivo de sofrimento para muitos – mas porque, se é importante, deve ser discutida seriamente. E só se discute seriamente com quem não está – voluntariamente ou não – entrincheirado. 


Discutir é dirimir argumentos. E isso apenas é possível com quem não está impermeabilizado, enquistado em si mesmo, mas põe a hipótese de não saber tudo. Por isso, não discuto com quem apenas tem certezas. São extremistas. Discuto com quem, como eu, anda sempre à procura. E que, ainda que no calor da discussão se diga disparates – dizem-se sempre disparates – permite que o que foi dito faça caminho dentro de si. E que tenha consciência que cada conclusão é passível de nova discussão. 


Hoje não me deixei encurralar. Pura e simplesmente disse que os termos da discussão eram tolos e que não discuto com tolos. Correu bem, como podem calcular . Paciência.

Mais um GEP. Mais uma consciencialização que somos de etapas, não de destinos. E como é importante termos essa consciência que somos etapas! Sobretudo se nos impedir de ficarmos ancorados ou na dor ou na euforia do sucesso. Ambos são momentos que se pretendem passageiros, não são a vida comum do dia a dia. Se entendermos a dor e a euforia como uma etapa sabemos que amanhã as coisas serão diferentes e que será retomada a normalidade. É importante, então, viver o momento - chorar quando é de chorar, celebrar quando é de celebrar - mas avançar. Avançar sempre. Pôr os pés no chão, encarar a realidade e fazer dela o nosso ponto de partida rumo a uma nova etapa. Sim, o rumo é importante. Não somos da deriva.

20241127

Há expressões que não deveriam constar do meu vocabulário. Expressões como "nunca mais" ou "para sempre" pura e simplesmente não deveriam existir. Porque são sempre ditas num contexto, numa circunstância, numa situação emocional que tem tudo para ser irrepetível. O contexto muda mas o peso dessas palavras, uma vez ditas, permanece. São expressões que doem porque assim que são ditas implicam perda. O que se perde porque "nunca mais"; o que se deixa para trás porque é "para sempre". E são ilusórias. Ambas. Servem para sossegar o espírito. Por isso, quanto mais inquieto sinto o meu espírito, maior a veemência com que são por mim utilizadas. Nunca levianamente, conheço-lhes bem o peso e a exigência. Mas sempre com algum grau de mágoa, ainda que silenciosa. Porque amordaçada. Emudecida. Por isso há recuos, também magoados, que me deixam-me um amargo de boca que seria absolutamente evitável se estivesse sempre consciente que a vida é tudo menos linear. Não é linear. Eu sei que não é linear. É muito mais como as ondas do mar, num vai e vem constante, que umas vezes é suave enquanto noutras arrasta tudo o que apanha à frente. A mim, principalmente. 

Primeira lapalissada: a dor dói. Não há dor que não doa. Não há dor que provoque alegria, ou risos, muito menos gargalhadas. Não há dor que seja felicidade, ou agradável, nem sequer bem disposta. Por isso não a procuramos, por isso a evitamos, tentamos fugir dela a sete pés. Segunda lapalissada: não adianta fugir. Não adianta escondermo-nos da dor, esconde-la de nós próprios, fazermos de conta que não existe, imaginarmos uma qualquer outra realidade onde ela não esteja. Quando a dor vem, faz-se sentir. Muitas vezes sem se fazer anunciar, sem avisos prévios, sem preparação, sem conjecturas. Quando chega, é. E quase sempre é, impedindo que qualquer outra coisa seja. Quando dói, e dói mesmo, dói que se farta. Por isso, o melhor mesmo é acolhe-la. Sem reservas nem pudor. É para sofrer? Sofre-se. É para chorar? Chora-se. É para rasgar vestes? Rasga-se. Terceira lapalissada: a vida não é dor. Não é para ficar por aí. Então, acolhe-se a dor, vive-se o momento, mas avança-se. Lentamente, se possível com a ajuda de alguém - é fundamental deixarmos-nos ajudar - vai-se colocando os pés no chão e parte-se dai: da realidade, por muito nua que seja, por muito crua que seja, por muito dolorosa que seja. Quarta lapalissada: a dor não se esquece. Quando a coisa corre bem, identifica-se a sua origem, cataloga-se, arquiva-se, sabendo que na fragilidade ela se encarrega de aparecer. Com intensidades variáveis, mas está sempre lá. Fica sempre lá. Se tiver sido corretamente identificada, devidamente catalogada, vale pelo que é: aquela dor. Não cresce em nós, não provoca angústias, medos das possibilidades do futuro: é aquela, tem nome próprio, tem lugar próprio, tem circunstâncias próprias e, ainda que tudo se conjugue para que se volte a manifestar, já a conhecemos. E porque a conhecemos já sabemos lidar um pouco melhor com ela. Faz parte de nós. Tão parte quanto os momentos felizes. E podemos avançar.

20241126

No outro dia alguém disse-me que me lia. E que gostava de me ler. Assusta-me sempre. Nunca escrevo para ser lido. Escrevo para escrever. Para organizar as ideias, os sentimentos, para me confrontar comigo. Para tentar descortinar um qualquer sentido no desejo quase secreto de descobrir esse sentido em mim e no que faço. Às vezes resulta. Às vezes descubro o Ahhh!!! por entre as palavras que vão aparecendo no ecrã do computador. Um Ahhh!!! tão genuíno que às vezes desconfio que essas palavras não foram escritas por mim mas por um dos vários eus que me habitam (como eu entendo o Dr Jekyll and Mr Hyde!) Mas lá está. Para que isso aconteça não posso estar preocupado com a construção das frases, com a correção linguística, com as normas a que devo obedecer para que a coisa seja bonita. Não é para ser bonita. Ou clara. Muito menos para quem lê. É para escrever. Só isso. Por isso nunca regresso. Nunca releio. Nunca corrijo para além daquilo que o computador sublinha a vermelho - sublinhasse ele a azul e provavelmente ficaria orgulhosamente evidenciado. 

20241120

Chegou aqui a pedido institucional. Dez anos, e a vida já num emaranhado de complicações: maus tratos, impedimento judicial de aproximação dos pais, mudança de lugar, de casa, de escola... Como é possível! O nosso primeiro embate não foi famoso. Não reagiu bem a mim. Não reagi bem a ele. É normal. em casos destes o equilíbrio é tudo menos fácil: fica algures entre o mimo, o cuidado e a exigência. É um triunviriato precioso que precisa ser administrado com parcimónia para que nenhum nem ninguém se perca algures no caminho. Passado o primeiro embate, com muitos mais gestos que palavras, lá nos fomos entendendo. A custo, muito devagar, mútua cedência aqui e acolá, e vamos fazendo caminho. Hoje, pela primeira vez, falávamos um pouco mais e ele olhava para mim com aquele ar que conheço bem. Sorri e disse-lhe: sabes que gaguejo, certo? Ele nem pestanejou: não tem problema,stor. Eu percebo bem o que diz.

Acredito que todos somos habitados por uma humanidade que o tempo e a vida muitas vezes se encarrega de distorcer. Infelizmente, conheço os suficientes para saber que aos dez anos essa humanidade se vai esboroando à força de pancada, de maus tratos, de abandonos. Mas por vezes percebo que em alguns casos - alguns deles bem improváveis - vai permanecendo, contra todas as evidências, contra todas as expectativas, contra todas as pancadas. E essas vezes são sempre motivos para sorrir. E dar Graças pelos milagres que todos os dias acontecem. Mesmo aqui. Ou sobretudo aqui.

20241106

 0751 Viver o despojamento que Jesus viveu é viver de acordo com uma convicção profunda acima de tudo. A convicção profunda de Jesus era a do Reino dos Céus: somos filhos amados pelo Pai. Esta era a sua convicção e foi em nome dela que viveu e morreu. Viver assim pressupõe uma escolha profunda e uma certeza capaz de combater todas as noites escuras. E Jesus também as teve, como no Getsémani, também rezou para não ter de as enfrentar e também se resignou a ter de o fazer. Até nisso partilhou da nossa humanidade. Uma humanidade em que o único verdadeiro privilégio é ser filho do Pai. Se até a mim, que tento viver mergulhado na fé, o sentido de tudo isto se me escapa tantas vezes, como não há de escapar àqueles para quem a fé não é mais que uma vaga ideia? Sobretudo quando o despojamento que nos é pedido nos toca naquilo que nos é mais fundamental: a necessidade absoluta de sermos reconhecidos. Note-se como também nisto a vida e morte de Jesus foi absolutamente paradigmática: Jesus só fez o bem e até pelos seus (exceção feita à Mãe, a Maria Madalena e a João) foi abandonado. E não foi só por medo, mas pela certeza que o reconhecimento de que seriam alvo - seria tudo menos positivo: “Nós pensávamos que…” diziam quando regressavam a Emaús. Quando perceberam que afinal não havia lugares à Sua direita mas perseguições, apressaram-se a negá-lo. É deste despojamento que nos falam as leituras do próximo domingo. O despojamento da viúva de Sarepta, o despojamento do sacerdote que apenas serve, o despojamento da viúva anónima que entrega o seu único garante de sustento - e de existência social. É este o despojamento que eu não consigo ter. Na verdade, se não tiver os meus do meu lado, o que vale a pena?

20241105

Deus está no leme poderia ser uma boa alegoria para a minha vida. E assim evitar o pânico. Ainda esta noite acordei às 4 e tive dificuldade em voltar a adormecer por causa do pânico provocado pela imensidão de coisas que tenho de fazer. E tudo para ontem! Mas preciso acalmar, serenar-me interiormente e confiar. Nada tenho de fazer que não seja capaz de fazer. Essa é a constatação do meu limite, da minha vulnerabilidade, da minha humanidade. Eu sou limitado. A minha medida é a do possível. Do irremediavelmente pequeno. Desde que por Amor.

 A propósito de Lc 14, 15-24: a única coisa que posso fazer é convidar. E não posso fazer outras coisas: ficar zangado se não participam; duvidar das suas justificações; deixar de convidar. O convite deve existir sempre, o acolhimento deve existir sempre, o aliviar da carga da culpa deve existir sempre. Mesmo sabendo que, se alguém escolhe não participar, ficarei e ficaremos todos mais pobres. Mas não sei, de todo, as dinâmicas familiares de cada um. Não sei de “estás sempre fora de casa”, não sei de “preciso de ti aqui”, não sei de “estou tão esgotado”, não sei de “se hoje for, rebento”. Não sei, não posso saber, e, francamente, não adiantaria de nada saber. A não ser para consolar. E para dizer “fica. Sem problema. Não faltarão oportunidades”

20241101

Acabo de chegar do cemitério. É tradição, cá por casa. Anos houve em que me custava imenso estar lá de pé, no meio de uma multidão da terra, durante a eucaristia ao ar livro. Á medida que os anos vão passando, a sensação é que me vai custando menos. Antes, junto à campa, éramos imensos. Agora já passaram bastantes para o outro lado. Ou melhor, para uns palmos mais abaixo. Mas continuamos a estar juntos neste dia. No final, o padre disse para rezarmos pelos que tínhamos diante de nós. Não consegui deixar de sorrir. Acredito muito que o contrário acontece: são os que estão junto do Pai que rezam por nós, pela nossa cegueira, pela nossa apetência, persistência e competência para a asneira. Não precisam que rezemos por eles. Parece-me sempre muito esquisita esta ideia de um Deus que precisaria que rezemos pelas almas para que Ele se lembre delas. Esquisita e muito contra tudo aquilo que Jesus testemunho: por acaso o Pai se esquece do Seu filho? Enfim! São coisas mais da mentalidade humana, viciada na recompensa, que do Amor. Talvez seja por isso que, pelo menos até aqui não temo a morte. Porque confio inteiramente no amor do Pai. Se assim não for, se estou à espera que sejam os meus méritos a fazer alguma coisa para me garantir a salvação, o melhor é despachar já a coisa: quanto menos viver mesmo asneiras faço. 

20241031

Ainda me espanto! Perante o desafio de pensar num adulto que tenha sido significativo na minha infância e adolescência - no sentido de me ter feito sentir amado, desejado, acarinhado - o que senti foi uma inesperada mas profunda solidão. E dor. Há perguntas que ainda não suporto. Há questões que ainda prefiro deixar arrumadas, bem ou mal arrumadas, para que não tenha de mexer nelas. Porque nada de bom daí virá se o fizer. Não tenho nada a ideia que se deve falar de tudo, pôr tudo a descoberto, para se resolver. Há coisas que não têm resolução possível. E há coisas cujo custo de resolução seria demasiado alto para muita gente, e eu não tenho o direito de, para ficar bem, pôr outras pessoas mal. É tão simples como isso. É até lógico. Ficaria eu bem sabendo que, para aliviar a minha pressão estaria apenas a enviá-la para outros? Claro que não. Então... Mais vale ficar quietinho no meu canto. Normalmente lido bem com estas dores: remeto-as para os confins e não penso nelas. Algures no tempo - nem que seja quando morrer - elas serão resolvidas. Ou não. É lidar.

 Gosto menso da ideia da serenidade. Gosto imenso do silêncio, da quietude, do abandono à aparentemente coisa nenhuma que a maior parte das vezes se transforma no mergulho na imensidão. Gosto do escuro, do recolhimento, do olhar para dentro e aí permanecer. Gosto do tempo, do dar tempo, do ter tempo, para poder acampar dentro de mim e deixar fluir e fruir, serenamente, do que me habita. 

O problema é que raramente consigo essa serenidade. Nos dias bons até posso procurar um lugar calmo e propício, até me posso isolar, até posso encontrar o silêncio exterior que me proporcionaria esse encontro profundo comigo mesmo. O problema é que nem sempre a cabeça se cala. Mal me acomodo, mal me aconchego, lá começa a sua berraria com a imensidão do que tenho para fazer, do que tenho para resolver do que ainda não fiz…

Hoje é um dia desses. Complicados. E preciso de serenar. Muito.

20241024


 

Nunca mais esqueci o filme Crash (Colisão), de Paul Haggis. Naquele filme não há maus absolutos nem bons imaculados: há pessoas e circunstâncias, há pequenos acontecimentos que vão envolvendo uns e outros, sendo que uns e outros são capazes de coisas boas e más dependendo das respostas que vão conseguindo dar ao que vai sucedendo. Há como que uma cozedura progressiva, um progressivo adormecimento da razão e dos sentidos que, tal como acontece com a rã, mantém a todos indiferentes a uma água que vai sendo, progressivamente, mais quente. Tenho-me lembrado tanto deste filme!

De acordo com a informação que vou conseguindo ter, não encontro grandes culpados nos acontecimentos mais recentes de Lisboa. Encontro medo. Encontro sofrimento. Encontro respostas ao medo e ao sofrimento. Por isso encontro tragédia. A tragédia de uns polícias cansados e a maioria das vezes frustrados face ao que, dia após dia, noite após noite, têm de enfrentar; a tragédia de pessoas remetidas para uma berma, cansados de tanto lutar para chegar a lado nenhum, para se sentirem coisa nenhuma. A tragédia do medo, que perpassa o dia de uns e de outros, um medo em tudo semelhante, que em tudo os une: medo do que possa acontecer aos que os esperam em casa e que uns e outros querem proteger; medo do que possa acontecer a eles próprios, medo da impotência, da irrelevância da sua própria vida.

Nada disto começou esta semana. Nada disto é absolutamente inesperado por nenhum de nós. E estamos, de certeza, a fazer qualquer coisa muito errada, para permitirmos, todos, que um caldo destes vá sendo cozinhado enquanto escolhemos não ver, não agir, não aliviar o sofrimento. De todos. Porque é de sofrimento que se trata. De todos. Sofrimento antes dos acontecimentos, sofrimento durante os acontecimentos, sofrimento depois dos acontecimentos. Um sofrimento que eu poderia aliviar, à medida das minhas possibilidades. Um sofrimento que cada um de eus poderia aliviar, à medida das possibilidades de cada um dos eus. Porque não adianta, agora, vociferar. Não é pela gritaria que chegamos lá. Nem pela massificação. É por aquilo que eu, hoje, aqui e agora, escolho fazer. Para aliviar o sofrimento daquele que está a escassos metros de mim. O resto são desculpas.

20241017

 Devemos passar de um “ser de” e um “ser para” para um “ser com”. Há uma verticalidade no "ser de" e "ser para" que é mais consentânea com uma relação de poder que com uma relação de amor. Na verdade, eu não sou "para" nem "de" Deus ou dos outros mas sou "com" Deus e "com" os outros. Esta horizontalidade, este "com", apela a uma comunhão, uma ausência de posse, uma aprendizagem mútua que conduz ao aprofundamento da relação, ao crescimento da intimidade e, por conseguinte, do amor. E ao reconhecimento. Tão importante!

No filme do Avatar o que retive mais não foi a tecnologia fabulosa mas o Na'vi "Oel ngati kameie" (I see you). O "eu vejo-te", sendo aparentemente simples, tem em si uma série de implicações absolutamente determinantes. O Papa Francisco chama-nos muitas a vezes a ver os invisíveis, aqueles por quem passamos e nem reparamos. E atrevo-me a dizer que esses nem sequer são os difíceis. Os particularmente complicados são aqueles com quem nos cruzamos frequentemente e que escolhemos ignorar, fazer de conta que não vemos, desejar que não existissem na nossa vida, Esses é que são o nosso desafio. Porque exigem uma proatividade que, para além da nossa atenção, apela à nossa vontade, ao esquecermos o ressentimento, e isso não é partir do zero mas do menos qualquer coisa para tentar construir algo de positivo. Neste caso, o eu vejo-te alia-se ao eu escuto-te e isso é já o eu sou contigo. Até o posso ser na discordância profunda, no desentendimento, mas isso é também aprendizagem, é mútuo contributo para o mútuo crescimento, é também "ser com".

20241016

Seguíamos para o aeroporto. A minha filha é coordenadora de uma equipa numa multinacional e volta e meia sou um pai Uber de todos os meus filhos. No caminho falava com ela de algo que me inquietou: na despedida do congresso das escolas católicas os dirigentes estavam em cima do palco. Só homens. Da área do ensino onde, como sabemos, as mulheres estão em larga maioria. A estranheza foi tanta que eu, que normalmente não ligo puto a isso, reparei. Só homens. O que significa uma de duas coisas: ou elas não são competentes para estar lá, ou são impedidas de lá chegar. Não gosto das quotas, não ligo se são homens ou mulheres, parto sempre do princípio que a competência fala mais alto. Sou ingénuo, claro. E partilhei isso com a minha filha. E ela, que nessa mesma semana tinha estado numa operação da Team Building da sua empresa, disse que o mesmo se passava lá: nas chefias superiores, só homens. Daí para baixo, quase só mulheres. Não entendo. Para mim nunca foi importante quem me dirigia, a não ser a sua competência. Não é importante o género, a orientação sexual, a altura, o peso, o nome, a condição... ninguém me merece mais ou menos respeito por causa das suas circunstâncias ou escolhas pessoais. E não tenho qualquer dúvida que é um erro considerar tudo isso um obstáculo para o que quer que seja num clima organizacional (já para não falar do âmbito das relações pessoais). Eu, que fico solenemente irritado com os "portugueses e portuguesas" dos nossos políticos, percebo que as mulheres se possam sentir relegadas para segundo plano quando me deparo com estas coisas. Mas acredito que não será por muito tempo. Nem elas deixam.

Bambora

  Não é estranho que nos digam que «ser homem é muitas vezes uma experiência de frustração». Mas não é essa toda a verdade. Apesar de todos ...