20240502

202405020900

Todo o evangelho de domingo fala de amar. Não tanto de amor, mas de amar. É muito diferente. Amar implica-me, é ativo, é carne, é dia, é vida vivida, não é apenas uma palavra bonita mas é ação. Á qual se podem juntar palavras ou silêncios, mas tem sempre presença. Que até pode nem ser física, pode estar do outro lado do mundo - na Amazónia, por exemplo - que não perde intensidade, que não ganha racionalidade. Amar não fala a linguagem da possibilidade, mas da inevitabilidade. Eu não consigo deixar de te amar, apesar de, racionalmente, tudo me empurrar em sentido oposto. Amo apesar de mim. Sempre. Das minhas conveniências, do meu interesse, da minha racionalidade. Amo muitas vezes com o incómodo de ter de sair do meu lugar, do meu sofá, do meu conforto, da minha indisponibilidade mental e emocional, porque o abalo é tanto que não importa nada o que eu quero ou o que me é mais conveniente. E quando importa, é sinal que amo mais a mim que a ti, que me ponho no centro do amor, que sou o alvo privilegiado desse amor. E isso não é amar.

202405020800

 

0800 

A esta hora, na Sala dos Professores, o que mais se ouve é “Bom dia”. Para muitos, é mais um ritual daqueles que usamos sem pensar. Para outros, no entanto, é mesmo a formulação de um desejo: que este seja, efetivamente, um bom dia. E logo de seguida tudo fervilha a um ritmo alucinante. Olhos nos computadores, breves conversas para concertar mútuos procedimentos, arranjos de última hora para que apenas falhe o mínimo possível, pedidos e aceitações de propostas de trabalho com as turmas. A Sala dos Professores é um lugar muito interessante, assim como a mesa de uma família. Aqui estamos à vontade, aqui acontecem encontros e desencontros, aqui se dizem coisas que dificilmente serão repetidas fora desta sala pois não são mais que meros desabafos mais ou menos sentidos. E estamos a chegar àquela altura do ano em que o que mais se vê são rostos fechados e o que mais se ouve são grunhidos guturais de quem está focado no que tem que fazer. Está aí a pressão do final do ano, uma pressão quase insuportável que advém da consciência da responsabilidade da construção do futuro dos miúdos que temos diante de nós. Por vezes quase cedo à tentação de me sentar a um canto da Sala dos Professores e olhar. Apenas olhar. E deixar que a admiração por quem se empenha assim na sua profissão me sirva de alento.

20240425

A Isabel disse-me que me sentiu com menos energia na oração de envio para o Rumos. É verdade. Eu também a sinto. A idade é lixada. Já não é o mesmo frenesim, a mesma garra, a mesma alegria esfuziante. As coisas até se fazem, mas é mais a custo, menos natural. É giro como a idade nos vai moldando. A sensação é que vida vai pedindo coisas diferentes. A dificuldade maior não é aceitar que esse processo está em curso. A dificuldade maior está na gestão desse processo. Entender e fazer entender que as coisas não são como dantes. Nem voltarão a ser. Porque mexe com hábitos - próprios e dos outros - expectativas - próprias e dos outros - compromissos - próprios e dos outros. E quase sempre com a gestão própria posso bem. Difícil é gerir os outros, sobretudo as suas expectativas.

20231227

Tenho vindo pouco aqui. E quase sempre apenas de visita. Por vezes perguntam-me porquê, o que se passa para que eu escreva tão pouco. Fico sempre surpreendido. Para começar, que me leiam. Depois, que isso possa ser significativo. Finalmente, que me perguntem. Porque nesse momento - e apenas nesse momento - coloco a mim mesmo essa pergunta. Porque normalmente os dias se sucedem uns aos outros sem que eu sequer me aperceba se escrevi ou não. Normalmente é nessas alturas que eu acordo e percebo que tenho sido mais fazedor que pensador. E não sei se isso é bom. Claro que penso nas coisas, mas normalmente canalizo o que penso para formas de fazer e menos para formas de ser. Penso, mas não me penso. E quando me penso é relativamente a algo que tenho que preparar: uma oração, uma formação, uma catequese, um encontro. E a distância acentua-se. E às tantas vejo-me mais a dizer coisas bonitas que refletidas. E genuínas. E isso, sim, é mau.

Numa destas noites mal dormidas senti necessidade de fazer um glossário. De convicções. Das minhas convicções. Algo a que pudesse recorrer rapidamente quando leio alguma coisa, quando penso alguma coisa, quando digo alguma coisa. Sim. Por vezes é esse o meu nível de perdido. Lembrei-me disso ontem quando estava a observar o meu neto entretido com os seus dedos e lhe trouxeram meia dúzia de brinquedos. Ele ficou mais agitado. Pegava em dois ao mesmo tempo e chorava pelos que não conseguia pegar. Eu estou mais ou menos assim. Tenho que voltar a olhar para os meus dedos. Que serenar interiormente. E fazer o meu glossário. De vida.


20231110

 “Um transexual – mesmo quem se submeteu a um tratamento hormonal e a uma cirurgia de mudança de sexo – pode receber o batismo, nas mesmas condições dos outros fiéis, se não houver situações em que haja o risco de gerar escândalo público ou desorientação entre os fiéis”, indica o documento, divulgado online e aprovado pelo Papa, informa o Vaticano.

Não consigo entender. Quer dizer: entendo as dúvidas acerca da transexualidade. Mais as minhas, que tenho que fazer um esforço para as passar do coração à cabeça, ou seja, da aceitação natural que cada um  possa escolher quem é (sendo que, nestes casos de transexualidade ou homossexualidade, nem sequer se pode falar de escolha), para a naturalidade do tratamento (refiro-me ao nome escolhido, ao pronome pessoal a utilizar...) que as da Igreja, que deve acolher de braços abertos todos, todos, todos. 

O que não consigo, de todo, entender, é a condicionalidade da aceitação ao risco de escândalo público ou desorientação. Não aprendemos nada com os abusos? Porque temos tanto medo do escândalo público nalguns casos e tão pouco noutros? Porque escolhemos esconder quem prevarica nos abusos, ignorando o imenso sofrimento provocado e escancaramos despudoradamente, recorrendo a artifícios, opiniões sobre as mulheres na Igreja? Como é que o acolhimento, por amor, de alguém, na Igreja, pode estar sujeito ao escândalo que isso pode provocar?. É bom que provoque escândalo. É bom que acorde as pessoas. É bom que nos coloque a todos, enquanto comunidade cristã, atarantados quando estamos longe de Jesus. Ou entendemos nós que Jesus não nos falaria como aos fariseus? Ou estamos tão enfarinhados que não percebemos que, em muitas coisas, é justamente para nós que Jesus fala quando se dirige aos fariseus perguntando se não vemos a trave no nosso olho quando apontamos o argueiro no olho dos transexuais? Mas que moral temos nós, sobretudo nesta altura, para apontarmos o dedo a quem escolhe, muitas vezes contra tudo e contra todos, à custa de enorme sofrimento, corajosamente, viver a sua verdade?

Não entendo!

20231023

Ultimamente tenho andado a pensar que as questões da moral, na Igreja ou fora dela, deveriam ser exclusivamente auto impostas. Que tudo o que não seja aplicar em mim e não nos outros, tem forte tendência para a asneira. 

Já estou cansado de saber como a vida me finta. Em mim aplicam-se na perfeição os telhados de vidro ou o cuspo para o ar que inevitavelmente me cai no meio da testa. têm sido imensas as situações que, em alguma altura da vida me arroguei a dar postas de pescada e agora apanho com elas nos queixos. Sempre que isso acontece, encolho-me todo de vergonha e rezo duas coisas: que eu não volte a repetir; que as pessoas visadas por essa minha arrogância já a tenham esquecido. 

Gostaria de pensar que esta é uma coisa que vai passando com a idade, mas não é verdade. Basta-me estar um pouco mais cheio de mim e lá caio na esparrela de mi próprio. Ontem, na eucaristia, rezava isso: vou esforçar-me mesmo por aplicar apenas a moral a mim próprio, porque apenas eu e Deus conhecemos as minhas idiossincrasias, as minhas dificuldades, os meus percursos interiores, as motivações das minhas manifestações exteriores do que sou. No que me diz respeito: exigência; no que aos outros diz respeito: acolhimento. 


20231019

Dizia eu ontem a um miúdo - estou na idade em que todos abaixo dos 30 são miúdos - que o "Para Sempre" me assusta. E desde sempre que assustou. Porque este sempre nem sequer é exatamente verdadeiro quanto ao passado - provavelmente houve alturas em que o para sempre não me assustava assim tanto - quanto mais quando perspetivamos ou nos comprometemos com o futuro. O Para Sempre é a manifestação de um desejo e, nas melhores hipóteses, um compromisso. Mas na verdade não faz grande sentido. Porque nos aprisiona, porque nos rouba a liberdade de, a cada dia, podermos escolher, porque nos obriga a cumprir algo que foi decidido ao passado independentemente das circunstâncias do presente. E eu, se aprecio imenso o compromisso, não gosto da obrigatoriedade. Há uns anos pediram-me para fazer um breve discurso para dois amigos que tinham casa há pouco tempo. E eu, de improviso, disse-lhes que não acreditava em casamentos para sempre, mas em casamentos de todos os dias. Porque é todos os dias que vivemos, é todos os dias que fazemos escolhas, é todos os dias que nos comprometemos ou não, é todos os dias que fazemos o balanço do que tem sido a nossa vida até ali e projetamos o amanhã. Claro que não renascemos a cada dia nem apagamos a nossa história assim que adormecemos. Seria terrível se isso acontecesse. Claro que há pessoas que estão e estarão na nossa vida para sempre, por pouco que as consigamos ver no quotidiano. Claro que há corações e almas e interiores que habitamos e temos o privilégio de sermos habitados por outros. E que isso acontece, dias a fio, semanas a fio, anos a fio, com cada um dos que nos habitam a montarem tenda cá por dentro. Mas nenhuma dessas pessoas que me habitam decorre do Para Sempre mas das boas e más memórias, das longas ou curtas conversas, dos gestos, dos olhares, da caminhadas que a vida nos permitiu.

Bambora

  Não é estranho que nos digam que «ser homem é muitas vezes uma experiência de frustração». Mas não é essa toda a verdade. Apesar de todos ...