20230813

Depois de uma Jornada que, por todos os motivos e mais um, me encheu a medida, estou, finalmente! de férias. Como sempre acontece, ontem fui à missa. Uma igreja pequenina, fora dos grandes centros, predominantemente com avós e alguns netos. No altar, um sacerdote que poderia ser avô, a debitar, solene e profusamente, sobre o que aconteceu na JMJ: a maravilha que é ter tanta juventude reunida, a enorme importância do silêncio - que, segundo ele, os jovens não conseguem fazer (e ele não se calou um segundo!) - a organização da Igreja, capaz de congregar gente de todo o mundo, e sobretudo a centralidade da eucaristia dominical pois sem a paróquia nada se consegue. E termina a homilia assim: vamos rezar pelos nossos jovens, para que eles descubram que é possível a alegria na Igreja. Como se a alegria em que vivi mergulhado na semana passada acontecesse por causa deles e não apesar deles!

Confesso que me torci todo com aquela homilia autoreferencial. Como é possível, depois do que vivi, depois do que vivemos todos, depois do que vibramos e cantamos e mergulharmos em louvor numa multidão nunca antes vista, deitarmos da boca para fora que nós é que temos que ensinar e nada temos a aprender? Só por muito medo da eventual irrelevância!

Eu acredito muito na Igreja. É uma parte importante do que sou, de como vivo, com quem quero viver, e estou em total sintonia com o Papa Francisco quando ele diz que todos têm lugar na Igreja. Todos. Os novos, os velhos, os modernos, os conservadores… todos. Mas temos que mudar. Rapidamente. Temos que regressar a Jesus, ao Evangelho, ao simples e pequeno. Temos de regressar à alegria genuína da pertença, nas circunstâncias concretas de cada um porque é aí, nessas circunstâncias, que se dá o Encontro. Temos que regressar ao silêncio, revelador, rico, próprio e partilhado, sem o encher com palavras, que são importantes mas demasiadas vezes castradoras. Sobretudo, temos que regressar ao olhar de Jesus. Que ver como Ele nos ensinou a ver, a amar como Ele nos ensinou a amar, a colocar-nos perante os outros como Ele se colocou: sob e não sobre. 

Estamos, todos, tão longe!

20230613

fagilidades

Tenho a sorte de trabalhar num sítio de fragilidades. De e com pessoas com uma carência de tudo: amor próprio, perspetiva de vida, sentido, objetivos, motivações, não falta nada no cardápio da miséria humana. Pessoas que nem sequer andam já à procura, tal é o desânimo e a perda. Nem sabem sequer que perderam porque já não têm há tanto tempo que esqueceram que alguma vez tiveram. Dos miúdos que chegam às nossas mãos, por volta dos seis anos, quando entram para a escola, perdemos sempre demasiados. Quando chegam aos pós 15, perdemos com certeza muitos mais que aqueles que conseguimos agarrar, com ambas as mãos, com muita força, muitas vezes sendo apenas nossa a única vontade de os retirar dos escombros da vida. É, por isso, muitas vezes, uma batalha inglória, em que temos que lidar com a perda e a frustração e o nosso próprio desânimo. Que se agudiza quando, numa das alturas como esta em que, chegando já cansado ao trabalho, me deparo com o olhar sempre doce e meigo - e completamente perdido - de um dos nossos miúdos, agora adulto e pai de filhos, que se arrasta na venda e consumo de droga. Andará, agora, na casa dos trinta, mas o que vejo sempre que o vejo - e fico sempre feliz quando o vejo - são aqueles olhos doces, meigos e completamente perdidos de menino traquina com quem tive grandes conversas. e que baixam agora quando me vê e o interpelo, a sorrir, e sorri de volta apenas quando lhe pergunto pelo filho e responde perguntando pelos meus. "Já sou avô, vê lá tu" "que bom, stor, grande abraço!" 

Sou todo cheio de faladuras, de teorias, de leituras, de aprendizagens, e todas as faladuras se calam quando estou diante daquele olhar. Tudo o que leio, tudo o que aprendo, tudo o que julgo que sei se desmorona diante daquele e dos outros olhares que rodeiam o Espaço e que são nossos, são ainda nossos, apesar de estarem colocados em caras gastas e chupadas de miúdos de vintes e trintas e pais de filhos mas que nunca deixam de ser nossos. Os olhos, os miúdos, as suas vidas, as suas fragilidades.

É. Tenho a sorte de trabalhar num sítio de fragilidades. Que é pródiga em me dar chapadas na cara e em me dizer que somos, que eu sou, fragilidade. Tudo o resto é conversa para entreter meninos.

20230603

Recentemente, acusaram-me de, teimosamente, pedir o impossível. Sem pensar, respondi que, se não sonho o impossível valerá a pena sonhar? Tinha respondido imediatamente, naquela, em mim, demasiado frequente via que vai do coração à boca sem dar a volta ao circuito cá por cima, como deveria ser. E ficou a pairar, como invariavelmente fica o surpreendente, cá por dentro, à espera da luz que lhe dê sentido - é curioso como eu, muitas vezes, procuro o sentido do que digo apenas depois de ter sido dito e não o contrário, que é o que faz o sensato. 

Quando digo uma coisa destas - e sobretudo desta maneira - faço-o instintivamente, e a sua origem normalmente reflete o que me acontecia antes de saber que deveria pensar o que me acontecia. Na verdade, sonhei sempre o impossível, desejei e batalhei sempre pelo impossível, enquanto me entretinha a viver a realidade que a vida me tinha destinado. Sim, porque há uma realidade que é inalterável: não alteramos o lugar onde nascemos e crescemos, não alteramos a família, não alteramos as nossas circunstâncias sociais, as pessoas que, até determinada altura nos rodeiam. Algum desse entorno em que estamos mergulhados podemos alterar mais tarde, quando fazemos as primeiras escolhas - no meu caso muitas vezes mais ou menos inconscientes, aprendidas e absorvidas nos imensos livros que ia lendo - mas as pessoas que deram e fizeram a nossa vida, a não ser que estejamos dispostos à rutura definitiva - e eu nunca estive - são-nos tão constitutivas quanto nós próprios. São âncoras, desempenhando o duplo papel das âncoras que, se nos prendem ao seguro, também nos impedem de levantar voo rumo ao sonho de futuro. Nestas circunstâncias, que foram e são as minhas, o futuro que sonhamos ganha um lugar absolutamente fundamental para que consigamos ver para além do que se nos apresenta diante do olhar. 

O curioso é que a vida que, em termos profissionais, me caiu no colo, veio possibilitar este encontro do sentido naquilo que eu, intuitivamente, sempre fui sendo. Agora, quase todos os dias, encontro - e se não encontro, instalo - nos miúdos do bairro esse sonho de futuro que as suas circunstâncias teimam coartar. E confirmo, todos os dias, como o sonho desempenha um papel absolutamente fundamental no despertar do seu desejo de ir mais além.

Sim. Eu sonho. Ainda sonho. E reafirmo o que, sem pensar, me saiu: se não sonho o impossível, valerá a pena sonhar?

20230401

202304 Artigo para O Poço

Mt 17 1Seis dias depois, Jesus tomou consigo Pedro, Tiago e o seu irmão João, e fê-los subir, a sós, a um alto monte. 2Transfigurou-se então diante deles: o seu rosto ficou brilhante como o sol, e as suas vestes tornaram-se brancas como a luz. 3E eis que lhes apareceram Moisés e Elias a conversar com Ele. 4Em resposta, Pedro disse a Jesus: «Senhor, que bom é nós estarmos aqui! Se quiseres, farei aqui três tendas: uma para ti, uma para Moisés e uma para Elias».

Nós somos muito Pedro!

 

Façamos a contextualização desta passagem bíblica, que escutamos na eucaristia há pouco tempo. No capítulo anterior (Mt 16) podemos ler o que se passara seis dias antes deste grandioso acontecimento:  Jesus perguntara quem os apóstolos dizem que Ele é. Pedro, sempre com o coração perto da boca, facilmente diz que Jesus é o Messias. No entanto, assim que Jesus explica qual o verdadeiro sentido de ser o Cristo, a dor, o sacrifício, o serviço, a necessidade e a vontade de estar entre os últimos, Pedro protesta. E recebe uma reprimenda do próprio Jesus: «Vai para trás de mim, Satanás! És para mim motivo de escândalo, porque não tens em mente as coisas de Deus, mas as dos homens» (Mt 16, 23). Não espanta, por isso, que passados seis dias deste episódio Pedro, perante a maravilha da Luz, tenha sugerido a Jesus ficar no conforto dos seus e a não assumir a cruz. Para quê ir para o mundo, se o mundo o recusaria?

 

Nós, Igreja, somos tão Pedro! Adoramos o Jesus, mas custa-nos o Cristo. Adoramos o brilho, a festa, a grandiosidade que nos coloca a cara no chão, tecemos loas à sabedoria profunda de Jesus, à forma como fala para as pessoas e restaura a sua dignidade, e facilmente nos deixamos contagiar por essa alegria profunda e transformadora que nos faz sentir que somos tão amados, cuidados e restaurados quanto a mulher pecadora e tão dignos como Zaqueu. E bradamos ao mundo, felizes, entusiasmados, e ensinamos na catequese como Jesus é bom e como é o modelo que teremos de adotar se quisermos um mundo melhor ao som de aleluias e cânticos de alegria. Quando ao Cristo, ao sofrimento, à dor, ao caminho da cruz que é fundamental para que haja aleluias que possam ser cantados, esse quase que destinamos à clandestinidade, quase que escondemos, porque a dor não cativa ninguém e os sinais dos tempos vão no sentido oposto.

 

Sabemos que esse é, sobretudo agora, o pulsar do mundo. Basta estarmos minimamente atentos ao que diz o Papa Francisco para o confirmarmos: o mundo foge da dor. E nós com ele. Refiro-me, por exemplo, ao esforço hercúleo – e vão - de pouparmos os nossos filhos às agruras da vida. Se, quando comparada com a dos nossos pais, a vida nos foi favorável, desunhamo-nos para que a dos nossos filhos seja muito melhor que a nossa. Apresentamos-lhes as luzes e escondemos as sombras. E, reverso da medalha, eles têm menor capacidade de lidar com as adversidades que a vida, inevitavelmente, nos e lhes coloca. Habituados a ter tudo aqui e agora,  vivem mergulhados na cultura do imediato que o Papa Francisco tantas vezes refere e cuja responsabilidade apenas pode ser nossa. Quisemos aliviar tanto a carga negativa que às tantas falseamos a verdade da vida. E a verdade da vida encarrega-se, inevitavelmente, de vir ter connosco.

 

Era essa a verdade que, para Pedro, se afigurava intolerável! Como é que o seu Mestre, aquele homem bom e sábio, o Messias, poderia humilhar-se a esse ponto? (Sim, podemos imaginar aquela nossa voz egocêntrica por nós silenciada, mas sempre presente: se Ele vai ser humilhado, eu serei com Ele. Foi por isto que deixei a minha família?). Na verdade, Pedro, como nós demasiadas vezes, preferia a meia verdade. E não era difícil: bastava ignorar os que tinham ficado no sopé do monte, desviar um pouco o olhar focando-o apenas em Elias e Moisés e na luz grandiosa que vinha de Jesus, que Pedro tanto amava. Não havia qualquer maldade nisto: apenas o desejo de poupar o seu amigo e Mestre à dor. Que mal tinha? A resposta estava implícita na recomendação seguinte de Jesus: “Não faleis a ninguém desta visão, até que o Filho do Homem ressuscite dos mortos”.

 

A Páscoa de Jesus ensina-nos a imperatividade do todo. Jesus não se entregou um bocadinho, Jesus não amou um bocadinho, Jesus não sofreu um bocadinho nem disse um bocadinho da verdade diante do Sinédrio e de Pilatos. Jesus não perdoou um bocadinho do bom ladrão. Jesus não ressuscitou um bocadinho. O que a Páscoa de Jesus nos ensina é que ou nos entregamos todos, inteiros, com as nossas particularidades boas e más, com as nossas qualidades e defeitos, com os nossos dons e pecados, ou não seremos restaurados. E que é fundamental que este seja um movimento absolutamente constante na nossa participação na Igreja de Cristo. O que nos pode perdoar Cristo no Sacramento da Reconciliação se escondemos o nosso pecado mais profundo e doloroso? E a quem o confiamos, se não o fizermos a Cristo? Não ficamos nós com esse peso, na solidão da nossa consciência, no mais profundo da nossa interioridade, se não o entregamos a Cristo? Não é na nossa enorme fragilidade, na nossa maior vergonha, na nossa dor mais imensa, que damos lugar ao Amor do Pai? Ou teremos nós a ilusão que o Pai não nos conhece e que, à imagem do Éden, nos podemos esconder quando o Pai vem ao nosso encontro?

 

Não poderia esta passagem bíblica ser mais atual: é quando a nossa vergonha e a nossa dor é maior que mais precisamos de a assumir na sua totalidade para que a possamos confiar toda ao Amor do Pai. Em Igreja não pode haver meias verdades.

 

Para a Igreja que somos, é imperioso fazermos, todos, batizados, qualquer que seja a nossa circunstância de serviço, esta reflexão conjunta. Sem desviarmos o olhar dos que estão no sopé do monte. Sem desviarmos o olhar de todos aqueles que sofreram os horrores dos abusos por parte daqueles que tinham a mais nobre missão de apresentarem um Deus que é Amor. Sem varrermos para debaixo do tapete, sem atitudes titubeantes, sem desvalorizações ou tentativas de menorização daqueles a quem devíamos ter protegido. A Igreja de Jesus Cristo ou se alicerça na verdade - sobretudo quando, como é o caso, a verdade implica uma dor profunda e imensa acompanhada de imensa e profunda vergonha – ou estará a ser infiel ao próprio Cristo.

 

E é imperioso que nós, leigos, sejamos escutados. Somos também nós – juntamente com imensos presbíteros e homens e mulheres consagrados - quem está a fazer a preparação da JMJ junto dos mais novos, somos nós quem dormirá com eles no chão durante essa semana, somos nós quem com eles lida todos os dias, é connosco que eles conversam, com quem partilham as suas dúvidas e, sobretudo as suas dificuldades em se afirmarem católicos diante dos amigos e colegas e uma sociedade global a quem demos o pretexto ideal para nos apontar o dedo. Somos nós quem defendemos, todos os dias, a Igreja que amamos e de que fazemos parte e batalhamos para que eles sintam que, apesar de tudo, vale a pena ser Igreja. Não nos colocamos de fora na assunção das responsabilidades que, porque somos Igreja, são também nossas, mas não nos coloque a hierarquia de fora, atribuindo-nos um atestado de menoridade que é desatualizado, inadequado e profundamente injusto. Precisamos de confiar nos nossos bispos. Por isso, precisamos que os nossos bispos nos apresentem a verdade, toda a verdade, nos ajudem a  enfrentá-la, para a podermos confiar na totalidade a Cristo. Se não o fizermos, mais que estarmos a dar um sinal errado à sociedade, estaremos a trair tudo aquilo que Jesus nos ensinou e fez por nós. Também a Sua cruz foi motivo de escândalo, mas isso não O impediu de se entregar todo até ao fim do princípio.

 

Façamo-lo nós também. O Senhor é o nosso Pastor, que haveremos nós de temer? Mesmo que andemos por vales tenebrosos não temeremos mal algum porque Tu, Senhor, estás connosco!

 

20230330

20230330

Hoje, no GEP3M - Grupo que Escuta a Palavra e a Põe em Prática como Maria - que tem sido uma excelente forma de refletir e rezar o evangelho de cada domingo próximo, dizia que Jesus amou sem limites, que ninguém lhe tirou nada porque, antes, Ele já o tinha oferecido. Embalado, como fico sempre que falo do que verdadeiramente me apaixona, dizia ainda que Amar até ao limite é essa dispensa do compromisso, do que tem que ser, em favor da pura gratuidade do amor, do dar absolutamente de borla, sem exigir nada em troca. 

Acontece-me muitas vezes encher a boca com coisas destas, que são tão bonitas de dizer quanto difíceis de realizar. Na prática, até o podemos dizer, olhos nos olhos, convictos que essa é, na realidade, a mais bela maneira de amar: querendo apenas o bem da pessoa amada, em total liberdade, fazendo vida do velho ditado do pássaro libertado que, se voltar, será nosso para sempre. A questão é o que fica a corroer a alma assim que largamos a mão de quem amamos, e lhe sentimos a falta. É a desolação que acontece quando a esperança dá lugar à dúvida e nos abre a possibilidade de, afinal, estando a gaiola aberta, nunca mais escutarmos a doce melodia do pássaro. No fundo, no fundo, duvidamos, questionamos se apenas nós amávamos, se tudo o mais era mero compromisso.

No entanto, acredito que é justamente neste momento limite, em que a vida nos obriga a escolher entre a dúvida e a esperança, que o amor se prova. A verdade é que, se o pássaro realmente não voltar, é porque não era de amor recíproco que se tratava, mas de qualquer outra coisa. Posse, comiseração, obrigação, pena ou comodismo, até o direito natural de empreender novos voos, conhecer novos horizontes, o que quer que seja, que é certamente altamente justificável mas é sempre, sempre, infinitamente menos que amar. O paradoxo é que a dor da ausência, a improbabilidade do regresso, apenas confirma que aquela foi, afinal, a decisão mais acertada. Porque nenhum amor pode sobreviver sem a liberdade inteira, plena, absoluta, de amar. E a maravilha divina de se sentir amado.

20230327

20230327

Ainda que não o desejemos, ainda que o recusemos, ainda que não tenhamos disso consciência, a nossa vida configura-se com a vida de Jesus. Ou melhor, é a Sua vida que se configura com a nossa própria vida. Talvez por isso, o período da Quaresma me seja tão significativo e a Via Sacra seja, provavelmente, o meu ritual preferido. Sendo sempre doloroso, não me é nada difícil reconhecer-me naquele caminho. Também eu caí bem mais que uma vez, também eu tive (mais que) um cireneu, também eu tive quem, recorrentemente, me limpasse o rosto, e também eu, depois de chorar baba e ranho e ter duvidado de tudo e de todos na maior das solidões (sempre auto-infligida e auto-imposta), acabei por ressuscitar. Por isso, nada na Via Sacra me é estranho. E nada em Jesus me é estranho. A não ser a responsabilidade, que é sempre minha, exclusivamente minha, feita à custa de escassa racionalidade e de um certo embarcar na fantasia ignorando a realidade do chão que piso. Não me recordo de alguma vez ter podido sacudir o pó da responsabilidade de cada vez que mergulhei nos meus infernos. Estivesse eu mais atento, estivesse eu menos convencido da minha razão, estivesse eu mais aberto à escuta dos que me amam, e ter-me-ia apercebido, primeiro, que era amado, e, depois, que nos momentos escuros nada há de melhor, mais sensato e mais corajoso que abandonar-me aos que me amam. Tivesse eu a capacidade de fazer isso e teria evitado muita dor, sobretudo aos que, como Maria e João, nunca arredaram pé de junto da minha cruz.

Hoje, porque o conversamos no caminho, rezei pelo sr Mário. Na verdade não o conhecia bem. Vira-o meia dúzia de vezes, sem lhe prestar grande atenção, enquanto tratava do jardim lá de casa.  Eu tenho impregnada na vida esta coisa dos outros serem apenas outros e, enquanto não faço o esforço consciente de passarem a ser meus, são sempre outros. E a verdade é que o Sr Mário nunca foi dos meus. Por isso não posso dizer que tenha sentido grande comoção quando soube que se tinha suicidado. Mas hoje falamos disso e rezei por ele. Sobretudo pela família dele. Há muitos anos, um bom amigo morreu. Num determinado período tinha sido fundamental na minha vida. Foi com ele que aprendi a cantar e a tocar em eucaristias e partilhamos deliciosas memórias de retiros e encontros e brincadeiras parvas que se têm apenas com aqueles com quem nos sentimos nós próprios, sem qualquer receio. Uma amizade que se estendeu com facilidade aos seus pais e irmãos, que têm, ainda, hoje, um lugar especial cá por dentro. Quando morreu, correu à boca fechada que se teria suicidado. Recordo-me do tremendo sentimento de culpa que se abateu sobre mim. Na altura, a vida já nos tinha enviado por caminhos diferentes e só nos víamos ocasionalmente e sempre de corrida. Já não sentávamos e já não conversávamos. E eu já não sentia essa disponibilidade interior para o fazer. Recordo-me que, quando soube da sua morte, senti pela primeira vez uma enorme necessidade de estar num velório e num funeral, de o acompanhar e à sua família. E, mais tarde, senti necessidade de pedir perdão aos seus pais e irmãos por não ter estado lá quando teria sido necessário.

Não haverá maior profundeza do inferno que o desespero que leva ao suicídio. É necessária uma solidão, uma desesperança, uma escuridão, que apenas conseguimos imaginar. E uma total ausência de sentido. Não creio que seja um ato de egoísmo, mas de libertação, enraizado no erro de pensar que os que nos amam ficarão melhor sem nós. Nunca ficam. Sobretudo se nos amam verdadeiramente.

20230316

20230316

Por vezes, a tentação de ser de novo é enorme!. Fazer reset, como se de um computador eu me tratasse, limpando o histórico sem deixar rasto, podendo-me apresentar ao mundo de cara nova. Por vezes há a ilusão que o perdão é isso mesmo, um recomeçar total e absoluto, a partir da raiz, deitando fora tudo o que já provocamos. Não é isso que somos. Não é assim que somos. Muito menos é a isso que somos chamados a ser. Se se tratasse apenas de nós, se nos focássemos apenas em nós, se apenas nós contássemos, isso até seria possível. Mas nunca somos apenas nós. As consequências nunca são apenas nossas. Por isso, nunca somos de novo, carregamos a nossa vida e a imperiosidade de viver a partir da nossa vida. O que não seja isto é ilusão. E alienação. Quando magoo e me arrependo, quando não sou digno e me arrependo, quando estou errado e me arrependo, não posso fingir que não magoei, falhei ou errei. Não o posso apagar nem de mim nem dos outros, mas tenho que tentar refazer, reconstruir a partir dessa realidade, que é sempre dolorosa, mas é sempre realidade. Tenho que incluir essa dor, essa vergonha, naquilo que há a ser perdoado e aprender a viver com essa mágoa até que, um dia, consiga sentir-me restaurado pela bondade e no alívio do perdão. Até lá, até que me sinta perdoado, olhos baixos e consciência que, por muito que o deseje, não posso alterar o curso da água que já passou. E tentar aprender. E entregar-me. A Deus. Ao Seu Amor. Que me chega sempre pelo amor dos outros. Também quando me perdoam.

Bambora

  Não é estranho que nos digam que «ser homem é muitas vezes uma experiência de frustração». Mas não é essa toda a verdade. Apesar de todos ...