Uma das minhas esquisitices é que não sou muito dado a orgulhos nacionalistas. Mesmo no futebol, vibro muitíssimo mais com o meu FCP que com a seleção. Da mesma forma, muito dificilmente adiro às coisas das bandeiras nas janelas, particularmente se tiverem sido feitas na china e tiverem a esfera armilar mal feita.
No entanto, hoje de manhã, tive orgulho em nós, no nossos modo de ser português. A verdade é que ao longo desta semana o nosso quotidiano se transfigurou de uma maneira que eu não julgava possível acontecer em tão pouco tempo. Ficamos efetivamente em casa, abstemo-nos de participar em acontecimentos grupais, e acatamos as diretivas que nos são indicadas por aqueles de quem normalmente desconfiamos mas a quem concedemos essa autoridade moral. Mobilizamo-nos e aos nossos recursos pessoais e materiais, disponibilizamo-nos a ajudar, sem que seja ficando em casa. Passamos horas nas filas das farmácias e supermercados e rezamos todos, no silêncio, para que todos sejamos pouco afetados.
Ser parte de um país assim enche-me de orgulho. Não acontece muitas vezes.
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Fui muitas vezes contestado a propósito do uso das redes sociais. Particularmente na minha área de evangelização, junto dos mais novos, nunca consegui entender o temor que esta forma de comunicação levantava. Na verdade, sempre que discutia isso com alguém, cheirava-me mais a medo e preguiça que a qualquer outra coisa. Medo de um mundo transfronteiriço, inteiramente novo, e preguiça de aprender como se vive nesse mundo, onde a novidade é permanente e onde nós, os mais velhos, andamos sempre a correr atrás do prejuízo. Este mundo das tecnologias, que nós apenas visitamos, é na verdade o mundo que os mais jovens habitam, é lá que eles vivem, e é lá que os encontramos.
No entanto, apesar desta realidade, não é nesse mundo que os devemos deixar viver. É um pouco como se eles, os mais jovens, habitassem as margens e nós os fôssemos lá buscar para habitar a realidade. Porque - é isto é algo que muita gente não entendeu em mim - conhecer e frequentar as redes sociais não implica necessariamente que nos deixemos ficar por lá. Significa apenas que é lá que os encontramos. Mas que o encontro físico, o toque, barroca de olhares, o calor humano presencial, o abraço forte e o tom de voz - mesmo quando se gagueja- é absolutamente insubstituível para todos nós.
No domingo estive pela primeira vez numa eucaristia online. E esta semana numa oração de Taizé online. Face às circunstâncias que vivemos nesta altura, são alternativas razoáveis, mas são sempre, sempre, escolhas menores. Porque bom mesmo, seria ter estado na minha assembleia, na minha comunidade, com os meus, em oração.
No entanto, apesar desta realidade, não é nesse mundo que os devemos deixar viver. É um pouco como se eles, os mais jovens, habitassem as margens e nós os fôssemos lá buscar para habitar a realidade. Porque - é isto é algo que muita gente não entendeu em mim - conhecer e frequentar as redes sociais não implica necessariamente que nos deixemos ficar por lá. Significa apenas que é lá que os encontramos. Mas que o encontro físico, o toque, barroca de olhares, o calor humano presencial, o abraço forte e o tom de voz - mesmo quando se gagueja- é absolutamente insubstituível para todos nós.
No domingo estive pela primeira vez numa eucaristia online. E esta semana numa oração de Taizé online. Face às circunstâncias que vivemos nesta altura, são alternativas razoáveis, mas são sempre, sempre, escolhas menores. Porque bom mesmo, seria ter estado na minha assembleia, na minha comunidade, com os meus, em oração.
20200318
covidisses 1006
Mais uma manhã, mais um acordar com esta nova perspetiva de posse. É uma sensação enganadora, claro, porque nem o dia nem a vida se compadecem com posses, mas em mim é inevitável esta sensação mista de liberdade e procura.
Na verdade, todos temos andado ocupados. Eu não tenho - como a Isabel - aulas para dar nem trabalhos para corrigir a partir de casa, mas tenho mantido o contacto com os miúdos e com as minhas equipas. Um “bom dia” através das redes sociais, uma resposta bem disposta, uma brincadeira online que nos ligue a todos, são refrescantes, não tanto porque eventualmente cortam e dividem a solidão, mas sobretudo porque me traz à memória o sorriso de cada um. E isso é muito bom. Para todos nós.
Na verdade, todos temos andado ocupados. Eu não tenho - como a Isabel - aulas para dar nem trabalhos para corrigir a partir de casa, mas tenho mantido o contacto com os miúdos e com as minhas equipas. Um “bom dia” através das redes sociais, uma resposta bem disposta, uma brincadeira online que nos ligue a todos, são refrescantes, não tanto porque eventualmente cortam e dividem a solidão, mas sobretudo porque me traz à memória o sorriso de cada um. E isso é muito bom. Para todos nós.
20200317
covidisses
Dois dos nossos cinco filhos são médicos. Não são super-heróis. São profissionais. De corpo inteiro, dedicados, com um orgulho e entrega à sua profissão apenas equiparável à frustração que sentiam pela escassez de meios e pela desorganização com que todos os dias se deparavam. Sim, este é o tempo verbal correto. Porque agora não se queixam e não se sentem frustrados. Ao vê-los lembro-me dos soldados, ansiosos por chegarem à frente da batalha.
Outro dos filhos - filha - "mora" noutro campo de batalha. Para ela, jurista de formação e política de vocação - no que a política tem do dever de acautelar e cuidar a causa comum - a saúde é muitíssimo importante e em tempo de guerra não se limpam armas, mas... pensa sobretudo nos sobreviventes, no que ficará desta batalha, nas marcas quotidianas que transportaremos anos a fio, provavelmente décadas a fio. A sua preocupação maior é o efeito na democracia, se aproveitamos para nos voltarmos a fechar ou se reforçamos os sentido de comunidade; se as liberdades, tão duramente conquistadas, estão asseguradas, ou se retrocedemos ao início do século passado; se a economia nos permitirá viver, ou se a tudo será feito um reset, game over, wellcome to a new game, a new life.
Manhã do segundo dia de covid.
20200316
covid
Hoje é, apenas, o primeiro dia. E parece já uma eternidade! Basta a ideia de ter que ficar confinado a um espaço - que é o Meu espaço, o Nosso espaço - para que o tempo corra mais devagar. Pela primeira vez, de há imensos anos, não sinto a obrigatoriedade do ter que fazer. Normalmente, mesmo em tempo de férias, tenho imensas coisas a cumprir: aproveita-se o tempo para fazer o que foi adiado, arquiva-se a imensidão de papéis acumulados em cima da secretária, mudam-se lâmpadas, fazem-se limpezas. No restante tempo cumpre-se a obrigatoriedade de descanso e diversão. Todo o tempo é, assim, tempo útil, que sinto a responsabilidade de rentabilizar, onde mesmo o “não fazer nada” cumpre o seu papel de nada fazer, faz parte. Agora, hoje, deparo-me com “ o que irei fazer com todo este tempo?”.
Se isso é assim no Meu espaço, no Nosso espaço, como se sentirá um presidiário?
Se isso é assim no Meu espaço, no Nosso espaço, como se sentirá um presidiário?
20200312
de corpo e alma
Estávamos ambos em silêncio e eu apercebi-me que esse mesmo silêncio nos era confortável. E de como era incomum isso acontecer. E como é importante isso voltar a acontecer.
O silêncio é um excelente barómetro, porque é um amplificador, não de sons, mas de sentimentos. Quando estamos bem connosco próprios, quando sentimos que usamos a pele certa em cima do corpo, quando os outros nos são desejados e queridos, quando a harmonia acontece, o silêncio acentua essa mesma harmonia. Dispensam-se as palavras, a conversa de circunstância, e o diálogo acontece de dentro para fora, transbordando nos sentires, escasseando nos pareceres.
Adoro quando essa é a sensação prevalecente. Quando a intimidade nos é tão transbordante que não precisa de ser artificialmente enchida, quando nos basta o pulsar do coração do outro, quando se consultam os olhos e os toques e tudo é carinho. Íntimo e profundo carinho.
Acredito que é este o ecossistema da intimidade. Quando eu sou eu, de corpo e alma, em ti.
20200310
silêncio
Ontem, na catequese, desafiei-os a ver o que tínhamos todos diante do olhar: uma tenda, uma fonte, um cântaro, uma cruz, uma ramo de videira. Lentamente, juntos, partimos à descoberta da quaresma e da páscoa, da dinâmica do provisório, do que somos e fazemos por cá. Acabamos na capela, por entre silêncios e conversas, a falar da vida, dos sacramentos, da morte, da santa unção, mais particularmente.
Por vezes provoco-nos esta espécie de abandono ao silêncio. Que, quando estamos juntos, desemboca inevitavelmente na procura e na descoberta intencional de Deus. Calculo o que se passará naquelas cabeças pensantes quando estamos em silêncio. No início devem fervilhar de testes e matérias, quando não são brincadeiras e parvas partidas pregadas. Mas se der algum tempo, se esperar, se resistir à tentação de abrir a boca, eles acabam por se sintonizar e por querer saber o que de verdade importa saber. E por perguntar. Então aí sim, é quando a catequese acontece, nuns escassos 10 minutos depois de terminar o nosso tempo, que eles roubam ao seu tempo porque querem saber.
Enquanto olhávamos a tenda, escutávamos a fonte, ao frio, certamente se perguntaram o que faziam ali, se não poderíamos fazer a mesma coisa olhando a partir de dentro, do quentinho, do confortável. Vão sabendo, no entanto, que há coisas que apenas o desconforto físico permite perceber. E que há palavras que apenas ganham sentido quando inauditas, no silêncio do encontro.
A de Deus, por exemplo.
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Bambora
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