20200316

covid

Hoje é, apenas, o primeiro dia. E parece já uma eternidade! Basta a ideia de ter que ficar confinado a um espaço - que é o Meu espaço, o Nosso espaço - para que o tempo corra mais devagar. Pela primeira vez, de há imensos anos, não sinto a obrigatoriedade do ter que fazer. Normalmente, mesmo em tempo de férias, tenho imensas coisas a cumprir: aproveita-se o tempo para fazer o que foi adiado, arquiva-se a imensidão de papéis acumulados em cima da secretária, mudam-se lâmpadas, fazem-se limpezas. No restante tempo cumpre-se a obrigatoriedade de descanso e diversão. Todo o tempo é, assim, tempo útil, que sinto a responsabilidade de rentabilizar, onde mesmo o “não fazer nada” cumpre o seu papel de nada fazer, faz parte. Agora, hoje, deparo-me com “ o que irei fazer com todo este tempo?”.
Se isso é assim no Meu espaço, no Nosso espaço, como se sentirá um presidiário?

20200312

de corpo e alma


Estávamos ambos em silêncio e eu apercebi-me que esse mesmo silêncio nos era confortável. E de como era incomum isso acontecer. E como é importante isso voltar a acontecer.

O silêncio é um excelente barómetro, porque é um amplificador, não de sons, mas de sentimentos. Quando estamos bem connosco próprios, quando sentimos que usamos a pele certa em cima do corpo, quando os outros nos são desejados e queridos, quando a harmonia acontece, o silêncio acentua essa mesma harmonia. Dispensam-se as palavras, a conversa de circunstância, e o diálogo acontece de dentro para fora, transbordando nos sentires, escasseando nos pareceres. 

Adoro quando essa é a sensação prevalecente. Quando a intimidade nos é tão transbordante que não precisa de ser artificialmente enchida, quando nos basta o pulsar do coração do outro, quando se consultam os olhos e os toques e tudo é carinho. Íntimo e profundo carinho.

Acredito que é este o ecossistema da intimidade. Quando eu sou eu, de corpo e alma, em ti.

20200310

silêncio



Ontem, na catequese, desafiei-os a ver o que tínhamos todos diante do olhar: uma tenda, uma fonte, um cântaro, uma cruz, uma ramo de videira. Lentamente, juntos, partimos à descoberta da quaresma e da páscoa, da dinâmica do provisório, do que somos e fazemos por cá. Acabamos na capela, por entre silêncios e conversas, a falar da vida, dos sacramentos, da morte, da santa unção, mais particularmente.

Por vezes provoco-nos esta espécie de abandono ao silêncio. Que, quando estamos juntos, desemboca inevitavelmente na procura e na descoberta intencional de Deus. Calculo o que se passará naquelas cabeças pensantes quando estamos em silêncio. No início devem fervilhar de testes e matérias, quando não são brincadeiras e parvas partidas pregadas. Mas se der algum tempo, se esperar, se resistir à tentação de abrir a boca, eles acabam por se sintonizar e por querer saber o que de verdade importa saber. E por perguntar. Então aí sim, é quando a catequese acontece, nuns escassos 10 minutos depois de terminar o nosso tempo, que eles roubam ao seu tempo porque querem saber. 

Enquanto olhávamos a tenda, escutávamos a fonte, ao frio, certamente se perguntaram o que faziam ali, se não poderíamos fazer a mesma coisa olhando a partir de dentro, do quentinho, do confortável. Vão sabendo, no entanto, que há coisas que apenas o desconforto físico permite perceber. E que há palavras que apenas ganham sentido quando inauditas, no silêncio do encontro.

A de Deus, por exemplo.

20200306

deserto


Creio que gostaria de fazer uma experiência de deserto. O mais próximo que estive foi um retiro de três dias de silêncio. E gostei imenso! Poder estar apenas com os meus pensamentos e as minhas orações, não ter que elaborar para partilhar, preocupar-me apenas em receber os ensinamentos de quem orienta os trabalhos, não é muito comum na minha vida pessoal e de fé, o que muitas vezes me leva a ansiar essa experiência de solidão. Claro que a solidão voluntária nada tem a ver com a solidão imposta, pelo que havia, na minha experiência de retiro, uma espécie de artifício que implicava que a solidão tenha necessariamente um peso muito menor. Até porque a solidão era apenas interior, uma vez que estava em retiro com outros.

Uma das melhores memórias que tenho do retiro nada teve a ver com o retiro em si. Como aconteceu numa altura em que estava cheio de trabalho e de noites mal dormidas por causa do trabalho, recordo o conforto que foi poder dormir sempre que quisesse. Recordo-me que apenas ao fim de dois ou três somos fora de horas consegui a concentração e a vontade necessárias para poder rezar o que me era pedido para rezar. Curiosamente, em Taizé aconteceu-me isso mesmo. Apenas ao final do terceiro dia conseguia aguentar o silêncio da oração sem sentir o esforço de me manter acordado. E apenas aí a oração começou a frutificar. Uma das descobertas que o silêncio me impõe é justamente a sua exigência física: o corpo precisa de estar bem para que a alma possa dialogar.

Talvez seja por tudo isto que gostaria de fazer uma experiência (controlada) de deserto. Poder ser eu e apenas eu a pautar os ritmos, as horas, os pensamentos e procedimentos soa a tentação quase irresistível.

Ainda que, com toda a probabilidade, ao fim de uma hora já estivesse cheio de vontade de regressar aos meus.

20200305

rezar





Há, no ver a rezar, uma experiência de comunhão que ainda me é difícil entender e explicar. 

Entramos na Capela do Silêncio, em Taizé. Agora remodelada, a Capela do Silêncio faz ainda mais jus ao seu nome. Não somos já perturbados nem pela pancada da porta a abrir e fechar, nem pela invasão da luz exterior num espaço que é permanentemente pouco iluminado. Tudo aqui privilegia o Encontro. A luz baixa, o silêncio sepulcral, a forma como todos se deslocam, fazem com que qualquer movimento, qualquer som, por ínfimo que seja, perturbe. Em conversa com um dos nossos miúdos ele dizia que se tinha sentido mal lá porque o som do fecho a abrir o seu estojo lhe era quase insuportável. Na realidade, tudo ali nos conduz ao silêncio, ao nada dizer, ao nada fazer, ao simplesmente escutar, a mais das vezes o diálogo ensurdecedor que apenas acontece dentro da nossa cabeça. 

Entramos na Capela do Silêncio, em Taizé. A um canto estava o indivíduo da foto, em silêncio, de olhos fechados, presumivelmente a rezar. Não o conheço, não o tinha visto antes, e provavelmente, ainda que nos reencontremos algures na vida, não o reconhecerei porque na verdade nada mais vi senão o seu perfil. Não sei se é católico, protestante ou ortodoxo. Não faço ideia sequer se é homem de fé ou se apenas se foi abrigar da chuva intensa que caía lá fora. Não conheço o seu percurso de vida, os valores por que se pauta, se é de esquerda ou direita, a sua orientação sexual, os seus defeitos e virtudes. Dele, nada sei e, com toda a probabilidade, nada saberei. 

E, no entanto, é imenso o que nos une!

20200304

propósitos


Nunca fui muito de propósitos quaresmais. Como nunca percebi porque se faziam apenas nesta altura e não sempre - se eram assim tão importantes, porque não mantê-los? - nunca me dei ao trabalho de os fazer e muito menos de os cumprir. No entanto, na prática o que acontece é que nem os faço na quaresma nem os faço em qualquer outra altura e os propósitos acabam por me passar ao lado.

Este ano, no nosso grupo de reflexão em Taizé, estava um padre, excelente, por sinal, que nos falou do seu propósito quaresmal. Como havia entre nós quem não entendesse a sua utilidade, ele lá explicou a importância, para ele, de ter um período da vida em que se provava a si mesmo ser senhor do seu corpo não cedendo a vícios. Depois, mais tarde, retomava-os, mas com a certeza que era ainda ele quem mandava. 

Hoje veio-me parar ao olhar o texto quaresmal do papa Francisco do ano passado. A certa altura ele escrevia a importância do seguinte: "Jejuar, isto é, aprender a modificar a nossa atitude para com os outros e as criaturas: passar da tentação de «devorar» tudo para satisfazer a nossa voracidade, à capacidade de sofrer por amor, que pode preencher o vazio do nosso coração. Orar, para saber renunciar à idolatria e à autossuficiência do nosso eu, e nos declararmos necessitados do Senhor e da sua misericórdia. Dar esmola, para sair da insensatez de viver e acumular tudo para nós mesmos, com a ilusão de assegurarmos um futuro que não nos pertence. E, assim, reencontrar a alegria do projeto que Deus colocou na criação e no nosso coração: o projeto de amá-Lo a Ele, aos nossos irmãos e ao mundo inteiro, encontrando neste amor a verdadeira felicidade."

Eu leio quase todos os escritos do Papa. O que não significa que os incorpore todos. Hoje, ao ler aquilo que já tinha lido no ano passado, encontrei um eco diferente. Talvez porque conversamos acerca disso em Taizé, talvez porque a minha disposição interior seja um pouco diferente, talvez porque a minha necessidade seja outra, talvez por causa da maturidade, seja lá porque for, o que importa é que o que há um ano me passou despercebido, hoje faz sentido.

Ao ponto de, pela primeira vez, ter feito alguns propósitos para esta Quaresma.

Se os cumpro, é outra conversa.

20200303

simples e serena


Ficaram espantados quando lhes disse que gosto mais de mim em Taizé. "Não devia ser assim:" Não, não devia. Na verdade, num mundo ideal teria sempre tempo para começar o dia a meditar as leituras, teria sempre formação bíblica, teria sempre alguém muito interessante com quem aprender, teria sempre imenso tempo para me poder reencontrar, para passear, para apreciar devidamente a beleza da natureza e a vida que Deus coloca à minha disposição todos os dias. 

Creio que gosto mais de mim em Taizé porque estou mais sintonizado. Em Taizé tudo me encaminha para a vivência natural, simples, enraizada da fé porque tudo gravita à volta do encontro profundo. Não é que as minhas atitudes se alterem radicalmente, que os meus pensamentos sejam mais santos, que eu seja uma pessoa diferente. É mais porque tenho a consciência da pessoa que sou, da Palavra com que me meço e, reconhecendo-me com maior evidência, reconheço mais facilmente o amor que o Pai me tem. E recordo como é viver no amor e na simplicidade.

Refiro muitas vezes que desde pequenito armazeno livros para ler quando for reformado. Começo agora a reservar vidas para quando for reformado. Vidas simples e serenas, imerso numa natureza que e vai parecendo cada vez mais bela, alicerçado num sereno e permanecente amor que me é cada vez mais precioso. 

E a verdade é que isso de reveste a ânsia de futuro de tremendo otimismo.


Bambora

  Não é estranho que nos digam que «ser homem é muitas vezes uma experiência de frustração». Mas não é essa toda a verdade. Apesar de todos ...