20200306

deserto


Creio que gostaria de fazer uma experiência de deserto. O mais próximo que estive foi um retiro de três dias de silêncio. E gostei imenso! Poder estar apenas com os meus pensamentos e as minhas orações, não ter que elaborar para partilhar, preocupar-me apenas em receber os ensinamentos de quem orienta os trabalhos, não é muito comum na minha vida pessoal e de fé, o que muitas vezes me leva a ansiar essa experiência de solidão. Claro que a solidão voluntária nada tem a ver com a solidão imposta, pelo que havia, na minha experiência de retiro, uma espécie de artifício que implicava que a solidão tenha necessariamente um peso muito menor. Até porque a solidão era apenas interior, uma vez que estava em retiro com outros.

Uma das melhores memórias que tenho do retiro nada teve a ver com o retiro em si. Como aconteceu numa altura em que estava cheio de trabalho e de noites mal dormidas por causa do trabalho, recordo o conforto que foi poder dormir sempre que quisesse. Recordo-me que apenas ao fim de dois ou três somos fora de horas consegui a concentração e a vontade necessárias para poder rezar o que me era pedido para rezar. Curiosamente, em Taizé aconteceu-me isso mesmo. Apenas ao final do terceiro dia conseguia aguentar o silêncio da oração sem sentir o esforço de me manter acordado. E apenas aí a oração começou a frutificar. Uma das descobertas que o silêncio me impõe é justamente a sua exigência física: o corpo precisa de estar bem para que a alma possa dialogar.

Talvez seja por tudo isto que gostaria de fazer uma experiência (controlada) de deserto. Poder ser eu e apenas eu a pautar os ritmos, as horas, os pensamentos e procedimentos soa a tentação quase irresistível.

Ainda que, com toda a probabilidade, ao fim de uma hora já estivesse cheio de vontade de regressar aos meus.

20200305

rezar





Há, no ver a rezar, uma experiência de comunhão que ainda me é difícil entender e explicar. 

Entramos na Capela do Silêncio, em Taizé. Agora remodelada, a Capela do Silêncio faz ainda mais jus ao seu nome. Não somos já perturbados nem pela pancada da porta a abrir e fechar, nem pela invasão da luz exterior num espaço que é permanentemente pouco iluminado. Tudo aqui privilegia o Encontro. A luz baixa, o silêncio sepulcral, a forma como todos se deslocam, fazem com que qualquer movimento, qualquer som, por ínfimo que seja, perturbe. Em conversa com um dos nossos miúdos ele dizia que se tinha sentido mal lá porque o som do fecho a abrir o seu estojo lhe era quase insuportável. Na realidade, tudo ali nos conduz ao silêncio, ao nada dizer, ao nada fazer, ao simplesmente escutar, a mais das vezes o diálogo ensurdecedor que apenas acontece dentro da nossa cabeça. 

Entramos na Capela do Silêncio, em Taizé. A um canto estava o indivíduo da foto, em silêncio, de olhos fechados, presumivelmente a rezar. Não o conheço, não o tinha visto antes, e provavelmente, ainda que nos reencontremos algures na vida, não o reconhecerei porque na verdade nada mais vi senão o seu perfil. Não sei se é católico, protestante ou ortodoxo. Não faço ideia sequer se é homem de fé ou se apenas se foi abrigar da chuva intensa que caía lá fora. Não conheço o seu percurso de vida, os valores por que se pauta, se é de esquerda ou direita, a sua orientação sexual, os seus defeitos e virtudes. Dele, nada sei e, com toda a probabilidade, nada saberei. 

E, no entanto, é imenso o que nos une!

20200304

propósitos


Nunca fui muito de propósitos quaresmais. Como nunca percebi porque se faziam apenas nesta altura e não sempre - se eram assim tão importantes, porque não mantê-los? - nunca me dei ao trabalho de os fazer e muito menos de os cumprir. No entanto, na prática o que acontece é que nem os faço na quaresma nem os faço em qualquer outra altura e os propósitos acabam por me passar ao lado.

Este ano, no nosso grupo de reflexão em Taizé, estava um padre, excelente, por sinal, que nos falou do seu propósito quaresmal. Como havia entre nós quem não entendesse a sua utilidade, ele lá explicou a importância, para ele, de ter um período da vida em que se provava a si mesmo ser senhor do seu corpo não cedendo a vícios. Depois, mais tarde, retomava-os, mas com a certeza que era ainda ele quem mandava. 

Hoje veio-me parar ao olhar o texto quaresmal do papa Francisco do ano passado. A certa altura ele escrevia a importância do seguinte: "Jejuar, isto é, aprender a modificar a nossa atitude para com os outros e as criaturas: passar da tentação de «devorar» tudo para satisfazer a nossa voracidade, à capacidade de sofrer por amor, que pode preencher o vazio do nosso coração. Orar, para saber renunciar à idolatria e à autossuficiência do nosso eu, e nos declararmos necessitados do Senhor e da sua misericórdia. Dar esmola, para sair da insensatez de viver e acumular tudo para nós mesmos, com a ilusão de assegurarmos um futuro que não nos pertence. E, assim, reencontrar a alegria do projeto que Deus colocou na criação e no nosso coração: o projeto de amá-Lo a Ele, aos nossos irmãos e ao mundo inteiro, encontrando neste amor a verdadeira felicidade."

Eu leio quase todos os escritos do Papa. O que não significa que os incorpore todos. Hoje, ao ler aquilo que já tinha lido no ano passado, encontrei um eco diferente. Talvez porque conversamos acerca disso em Taizé, talvez porque a minha disposição interior seja um pouco diferente, talvez porque a minha necessidade seja outra, talvez por causa da maturidade, seja lá porque for, o que importa é que o que há um ano me passou despercebido, hoje faz sentido.

Ao ponto de, pela primeira vez, ter feito alguns propósitos para esta Quaresma.

Se os cumpro, é outra conversa.

20200303

simples e serena


Ficaram espantados quando lhes disse que gosto mais de mim em Taizé. "Não devia ser assim:" Não, não devia. Na verdade, num mundo ideal teria sempre tempo para começar o dia a meditar as leituras, teria sempre formação bíblica, teria sempre alguém muito interessante com quem aprender, teria sempre imenso tempo para me poder reencontrar, para passear, para apreciar devidamente a beleza da natureza e a vida que Deus coloca à minha disposição todos os dias. 

Creio que gosto mais de mim em Taizé porque estou mais sintonizado. Em Taizé tudo me encaminha para a vivência natural, simples, enraizada da fé porque tudo gravita à volta do encontro profundo. Não é que as minhas atitudes se alterem radicalmente, que os meus pensamentos sejam mais santos, que eu seja uma pessoa diferente. É mais porque tenho a consciência da pessoa que sou, da Palavra com que me meço e, reconhecendo-me com maior evidência, reconheço mais facilmente o amor que o Pai me tem. E recordo como é viver no amor e na simplicidade.

Refiro muitas vezes que desde pequenito armazeno livros para ler quando for reformado. Começo agora a reservar vidas para quando for reformado. Vidas simples e serenas, imerso numa natureza que e vai parecendo cada vez mais bela, alicerçado num sereno e permanecente amor que me é cada vez mais precioso. 

E a verdade é que isso de reveste a ânsia de futuro de tremendo otimismo.


20200220

o ohar de Deus


Hoje discute-se a eutanásia. Um dos temas mais fraturantes dos nossos dias.

Ao contrário do aborto, sobre o qual só tive certezas - é sempre o exercício de quem tem poder sobre quem não se pode defender, por isso nem há nada a discutir - sobre a eutanásia sempre tive muitas dúvidas. Eu sou católico, sei que a vida não me pertence, não veio de mim, não acaba em mim e, mais que isso, acredito mesmo que somos sagrados, que reside em cada um nós uma centelha de Deus, que me anima, que me orienta nos momentos mais difíceis e que, assim o desejo, seja capaz de me impedir de pedir para morrer quando estiver na maior das dificuldades. No entanto, se isto faz sentido para mim, aceito que não faça sentido para todos e que retire o sentido da vida perante um sofrimento atroz. E a uma vida vivida  que não encontra o seu sentido profundo apenas resta o sofrimento sem sentido. 

Concordo que toda esta questão se deva a uns alicerces que estão implantados na areia. Se a modernidade, a contemporaneidade ou o pós-modernismo têm o eu como base, nomeadamente o eu perfeito, belo e jovem, quando essa juventude se desvanece leva consigo o amor-próprio porque não consegue discernir a beleza da vida. Quando se passa a vida tendo o sucesso como horizonte e meta a alcançar a qualquer custo, a doença aparece travestida, antes de mais, de tremendo fracasso. Quando o hedonismo é a nossa forma de vida, a dor, permanentemente adiada mas inexoravelmente chegada é, antes de mais, uma desconhecida que entra de rompante e toma conta de tudo.

Todo este enquadramento cultural tem, necessariamente, uma implicação efetiva no olhar que cada uma lança sobre a própria vida. Na realidade, não podemos exigir a quem toda a vida foi um estrangeiro de si mesmo que volte a casa nos seus momentos finais. Até porque isso, a acontecer, seria a constatação que se viveu toda a vida enganado. 

Durante quase toda a sua vida, a minha avó nunca ligou puto à religião que nunca entendeu, e de cujos praticantes dizia cobras e lagartos. Apesar de nunca termos sido muito próximos, aproximamo-nos quando eu percebi que não teria avó por muito mais tempo e passei a visitá-la com maior frequência. Ao longo das nossas conversas ela, que sabia que eu estudava e era ligado a estas coisas da fé, começou a perguntar-me coisas sobre Deus e a vida depois da morte e a fé. Acabou por morrer poucos anos depois, em paz e ficando eu também em paz por me ter reaproximado dela.

Acredito que a nós, cristãos, nos resta este papel, tanto na eutanásia como no aborto como em qualquer outro caso de humanidade: o papel de estar, quando formos chamados, sem invadir mas propondo a nossa mundivisão, e, sobretudo, ajudando a ver a maravilha do olhar amoroso que Deus faz recair em cada um de nós. Qualquer que seja a nossa circunstância,

20200219

trincheiras


No Raiz saber calar é uma arte. Muitas vezes os miúdos apenas precisam de extravasar e quando nos chegam às mãos vêm já cheios de cargas emocionais complicadas e pavio curto. Provavelmente já apanharam na cabeça na escola e em casa e no supermercado e em quase toda a vida e por isso disparatam à mínima contrariedade, principalmente falando alto, na tentativa de passar o desconforto para o lado do opositor do momento: eu. Nos meus dias bons, calo. Não arredo pé de junto deles, olhando-os os olhos e escutando-os atentamente durante toda a descarga, sem nada dizer, sem nada argumentar. Isso desconcerta-os. Muito. Baixam o tom de voz e, aí sim, podemos começar a conversar acerca dos seus desconcertos e da forma de os concertar.

Esta semana tem-me confirmado isso mesmo. Na minha profissão, na minha catequese, na minha vida pessoal e familiar, redescubro que não consigo dar se não querem receber. Que não vale a pena estar a tentar impor ideias, valores ou sentimentos se os outros estão mais focados nos seus próprios argumentos que em escutar os meus, ou a vida, ou a fé. Quando isto acontece é-me extraordinariamente fácil e intuitivo entrar neste tipo de discussão, entricheirada e sem resolução. Na qual qualquer vitória é aparente e ilusória. Nos meus dias bons recuso-me a entrar na trincheira.

Então calo. À espera que a respiração serene, que o cérebro volte a ser oxigenado e que a vida aconteça. Como sempre acontece. Então aí sim, podemos começar a conversar. Verdadeiramente.

20200218

Sancho


Uma das minhas frases mais vezes ditas é "a vida é feita de escolhas." Uma das frases que mais preciso de ouvir é "a vida é feita de escolhas." Para quem me conhece bem, para quem me acompanha na vida mais que alguns momentos, para quem me lê a vida, sabe que isto é assim e melhor ainda, não fica espantado por ser assim. Na verdade, tirando numa ou duas coisas absolutamente essenciais na minha vida - a minha família, a minha fé e o meu trabalho - eu tendo a desvalorizar o valor da congruência. Por isso é frequente eu dizer aos outros justamente aquilo que preciso mais de ouvir.

Ontem, como resultado do confronto de ideias da catequese - miúdos do 9º ano têm este poder de nos confrontarem - dei comigo a pensar porque escolho amar quem amo. Sim, porque mesmo para que o amor aconteça na nossa vida temos que conceder a nossa permissão, temos que estar abertos à sua chegada, temos que, consciente ou inconscientemente, escolher sermos amados. Então, porquê esta pessoa e não aquela? Como o confronto vinha no seguimento do impacto do amor no cérebro, porque escolho amar apenas aquela pessoa e não todas as que provocam o acendimento das luzinhas no meu cérebro?

Porque a verdade é que o acender das luzinhas, por si só, não basta. É excelente quando acontece, é maravilhoso quando nos dá a volta à cabeça e à vida, mas é insuficiente. Porque essas luzinhas são apenas uma pequenina parte de toda a iluminação de amar, Sobretudo de amar alguém, que é o fenómeno que nos torna mais parecidos com uma árvore de Natal. Na realidade, àquelas luzinhas juntam-se outras, que se acendem quando fazemos alguém feliz, quando partilhamos os mais ínfimos pormaiores dos nossos dias, quando nos aconchegamos, no final de cada dia, no conforto do corpo e da alma que nos acolhem como seu. As luzinhas acendem, todas, quando testeminham esse eco nas luzinhas, todas, de quem se ama. 

Sem isso, seremos sempre D. Quixotes, muito engraçados, muito românticos, mas de triste figura porque amaremos apenas uma ideia, uma possibilidade de futuro, desfasada da realidade porque não nos implica nem às nossas escolhas. E eu, que adoro D. Quixote, sou bem mais parecido com o Sancho. 
Principalmente na pança.

Bambora

  Não é estranho que nos digam que «ser homem é muitas vezes uma experiência de frustração». Mas não é essa toda a verdade. Apesar de todos ...