20221017


 

Voltamos a conversar acerca deste buraco, hoje. Mais uma vez, fica a sensação que não me fiz entender. Não há maneira de o fazer. Como posso falar destes buracos a quem nunca os sentiu, nunca lhe pôs a vista em cima, nunca fez parte da sua realidade? Como falar de incompletude a quem se sente completo? Não é possível. Mas também não é possível, ou desejável sequer, tapar esse buraco. Mais vale assumir a sua presença, perceber que está lá, permanentemente lá, e viver com isso, tendo o cuidado de o contornar, tendo a sensatez de lhe encontrar a corda ou as escadas ou pelo menos a mão disponível quando lá se cai. Assim será com os buracos da nossa vida: de nada adianta varrê-los para debaixo do tapete, torná-los omnipresentes de tanto se forçar o seu desaparecimento. Porque o buraco é também parte do que somos. E uma importante parte.

20221010

Já tinha imensas saudades! Este fim de semana voltamos a ter Encontro Nacional do ComTigo. Cheguei lá a ir buscar energia ao fundo de mim porque a semana tina sido uma verdadeira loucura. Como acredito que acontece muitas vezes a quem é educador, vesti o sorriso na esperança que com ele pudesse contagiar quem tinha diante de mim, que sabia estarem cheios de expectativa da boa. Nestas coisas, ou são conquistados nos primeiros 15 minutos ou dificilmente vão lá das pernas, por isso dou couro e cabelo nesse curto período, sabendo que depois a coisa entra em modo de gestão. Então, nesse momento, ninguém canta mais alto, ninguém dança mais escangalhado, ninguém tem o sorriso mais aberto que o meu. Depois é ir. Depois foi deixar ir, deixar fluir, ficarmos permeáveis à alegria e à energia que nos rodeia, permitindo-nos invadir pelo elixir da juventude. E foi tão bom! Cheguei ao fim rebentado, com a cabeça a estoirar de cansaço, mas chegamos todos felizes. E quando é assim, vale bem a pena. Como valeu bem a pena! Foi mesmo bom. Já tinha imensas saudades!

20220926

Politicamente, não sou nem de direita nem de esquerda, sou adepto da Doutrina Social da Igreja que, como deve ser, bebe em ambas as margens, sem exclusividades nem radicalismos. No centro está sempre a pessoa, na sua circunstância, na sua luta, fundamentalmente no seu direito à dignidade - e quantas vezes é a própria Igreja a esquecê-lo! Tenho, por isso, uma costela de esquerda no que toca à defesa intransigente dos que mais precisam e se encontram indefesos perante um capital que é demolidor na sua cegueira de busca incessante do lucro; e uma costela de direita perante aqueles que se querem substituir às pessoas e ao seu direito a construir um futuro devidamente recompensado pelo seu esforço e mérito. Esquerda e Direita não me assustam, por isso. O mesmo já não posso dizer dos extremos, quaisquer que eles sejam. Porque vêm da cegueira ideológica e conduzem à cegueira ideológica, à desatenção pelas pessoas concretas nas suas situações concretas e se guiam por agrupamentos ideológicos que mais não são que sacos onde enfiam todos aqueles cujas vozes são discordantes da sua própria cegueira. Porque se movem por interesses de classe e não têm adversários mas inimigos e, porque os têm, são cegos e surdos à realidade, em nome de uma ideologia que é sempre, sempre, desenraizada. Não gosto dos extremos, de nenhum deles, em nenhuma área da vida. E não gosto deles ao ponto de os aceitar, de tentar conviver com eles, de os tentar perceber e, em vão, os tentar demover da extremidade.

20220920

A técnica do Pateta

Perceber que a sabedoria é sempre sábia, qualquer que seja a sua origem, sempre foi um dos meus melhores instintos. Isso permite-me a gratidão de aprender, todos os dias, com as mais diversas pessoas e situações. E sempre foi assim. Ainda agora, em conversa mais ou menos divertida, dizia que este ano irei aplicar o Técnica do Pateta. E recontei como, em miúdo, me ficou marcada uma pequena BD em que o Pateta, por castigo, se viu forçado a varrer todo o pavimento até Roma. Quando o Mickey lhe perguntou como iria cumprir essa impossível tarefa, o Pateta respondeu "é fácil: varres um quadrado, respiras, varres o quadrado seguinte, respiras..." Este ano irei tentar fazer isso mesmo: concentro-me na tarefa que tenho entre mãos, respiro, concentro-me na tarefa seguinte, respiro... Na verdade, a sabedoria, quando é verdadeiramente sábia, é de uma simplicidade que estranha.

20220901

 
 
Recebi, logo de manhãzinha, a mensagem de uma amigo: "Parabéns, 17 anos é muito tempo!" Sorri. Sim, é muito tempo. Mais do que estive ligado a qualquer outra organização. Foram também muitos (e bons e, sobretudo, fundamentais) anos na G2E, alguns outros na minha empresa e, finalmente, o restante aqui, nesta casa. Vi a sua mensagem no momento em que entrava para a capela do colégio e me sentia invadir por aquele maravilhoso sentimento do regresso a casa. Foi, aliás, isso o que respondi: "não é muito tempo, quando te sentes na casa da família". Sim, isso é uma bênção. Uma verdadeira bênção. Não tardaram a chegar os rostos conhecidos, os rostos amigos, com a (passageira) jovialidade de quem regressa de férias. Alguns deles são também, para mim, regresso. Ás boas conversas, ao conhecimento mútuo, à mútua entrega na confiança, aos enormes desafios que nos esperam a todos ao longo deste ano que agora se inicia. 
Algures na minha vida, já me foi extremamente penoso ir trabalhar. Ficava zangado com o mundo logo no sábado à noite, porque só faltava um dia para regressar ao inferno. Odiava o que fazia, era profundamente incapaz e ineficaz, era um peixe que lutava até à exaustão para não se afogar num mar de dificuldades amargos sabores. Hoje, Graças a Deus - e aos que me rodeiam, todos os dias, isso já não acontece. Sim, é trabalho, sim, é fazer coisas que por vezes nos custam, sim não escolhemos todos aqueles com quem trabalhamos, e sim, são chatices e problemas e coisas para resolver. Mas, sim, é bom. É muito bom. E eu já tinha saudades!

20220818


É sempre assim: por volta desta altura das férias, sinto uma enorme necessidade de me voltar a sentar ao computador e preparar o futuro.

A nível profissional e pessoal sou de projetos. Não consigo ficar quieto por muito tempo e tenho aquela doença das borboletas na barriga que me leva a desejar meter-me de cabeça quando um bom projeto me é bem apresentado. Com alguma facilidade, emprenho pelos ouvidos e, uma vez metido, não sei viver de outra forma que não seja totalmente imerso no que faço, e como os dias me são pequenos, é muito frequente que as noites sejam povoadas com aquilo que, de dia, me ocupa o ser. Se é verdade que Deus nos fala através dos sonhos, então Ele é um chefe que não se cala. E às vezes bem precisava do descanso!

A minha forma de fazer tem algo a haver com as vacas: primeiro engulo tudo sem mastigar e só depois, nas minhas caminhadas, na minha elíptica, nos momentos em que aparentemente estou a fazer cera, é que o que me alimenta volta à atualidade e aí é devidamente processado, por vezes durante semanas, para que possa finalmente ser distribuída. Durante esse processo mantenho os olhos abertos e os ouvidos atentos a todos os contributos que, conscientemente ou não, me possam chegar através do imenso que me rodeia. Tenho o privilégio de trabalhar com pessoas bem mais tudo que eu e que ainda por cima não se importam de se partilhar comigo, tendo eu apenas que recolher, processar e redistribuir, numa espécie de hipermercado do ser, em que nada produzo mas vivo à custa de colocar nas prateleiras a produção dos outros.

Hoje é esse dia. Em que me sento, registo uma e outra vez os projetos em que estou metido - Graças a Deus! - e recomeço o plano.

Adoro este nervoso miudinho :-)!

 

20220817

vergonha

Todos nós já sentimos, em alguma altura, vergonha alheia. Seja com um tio desbragado numa qualquer cerimónia, um amigo que sabemos ser impecável apesar do seu ocasional comportamento desapropriado, ou, neste caso, com uma Igreja que sabemos, por experiência própria, ser imensamente mais do que aquilo que tem sido manifestamente noticiado. Nestas alturas não tenho por hábito sacudir a água do capote: defendo, quando muito, calo, e deixo para uma outra altura uma conversa mais apropriada que nos permita enriquecer mutuamente. 

Nesta altura é-me particularmente difícil lidar com a vergonha que, ainda por cima, não sinto como propriamente alheia mas como também minha, da família que escolhi para viver comigo a fé: a Igreja. Em momento algum senti que este era um problema que não me diz respeito. Não porque tenha contactado direta ou indiretamente com casos de pedofilia ou qualquer tipo de abuso físico, mas porque, agora que se têm provado - ainda que não em tribunal - tornam mais clara uma realidade que eu pensava (desejava) longínqua. 

Sobre estes casos só podemos ter tolerância zero. Ponto final. Sem mas, sem porques, sem atenuantes, quaisquer que elas sejam. Aconteceu suspeita de abuso? Comunica~se às autoridades competentes (civis, claro), e ativam-se os procedimentos de mútua proteção até ao apuramento da verdade. Confirmou-se? Condene-se. Não era verdade? Condene-se quem acusou. Assim. Simples. O único cuidado que se deve ter é o do direito à privacidade, particularmente se existirem crianças envolvidas, pelo que se dispensa tanto a condenação em praça pública como a condenação em praça exclusivamente eclesial. Abuso é pecado, sim, e acredito que a misericórdia do Pai não tem limites, mas é também crime, e não pode ser escondido ou varrido para debaixo do tapete. 

E quando alguém me aponta o dedo, porque sou católico, a minha resposta é apenas uma: baixar a cabeça e dizer que têm razão. Também eu estou na berlinda. 

Bambora

  Não é estranho que nos digam que «ser homem é muitas vezes uma experiência de frustração». Mas não é essa toda a verdade. Apesar de todos ...