20200331

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Uma das boas novidades deste tempo de reclusão é o que posso fazer com o tempo. Tento dedicar os primeiros momentos da manhã à informação, depois algumas horas ao trabalho, que, inevitavelmente, não me ocupa todo o dia. Então leio, vejo filmes, e, retomando um velho hábito que tinha desde miúdo mas que entretanto larguei, vou apontando aquelas  frases e pensamentos - dessas leituras e desses filmes - que me inquietam e escrevo a partir delas. Nos momentos em que o faço o tempo comprime-se, como se vivesse dentro de um parêntesis: por um lado retorno à infância e adolescência; por outro lado é como se antecipasse a reforma. Há quem precise de jardinar, há quem necessite de passear, há quem sinta o nervoso miudinho de não ver o mar. Eu preciso  de pouco: que os meus estejam bem, de uma boa net que me permita ler e ver, de um papel e caneta que me permita escrever, de fazer as minhas caminhadas em regime de namoro ou em regime de podcast solitário. Tendo isso, podendo ter e fazer isso, dificilmente darei os meus dias por desperdiçados.

20200330

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Estivemos ontem, mais uma vez, a assistir à eucaristia da minha paróquia pela internet. E, mais uma vez, assistir foi o termo correcto. No final da eucaristia fomos conversando acerca dela. A minha sogra, que assistiu connosco porque ligo o computador à televisão e ela pode ver e ouvir melhor, é pró nesta coisa de telemissas e levanta-se e senta-se e responde exactamente como se estivesse lá presente. Dissemos até na brincadeira - que ela não gosta, porque "Graças a Deus muitas; graças com Deus poucas" - que se houvesse maneira de distribuir a comunhão pela televisão ela colocaria a língua de fora para comungar. Nós temos outro tipo de atitude: sentados no sofá, meios a assistir, meios a participar, particularmente atentos apenas à homilia do nosso pároco, que nos ensina sempre imenso.
Enquanto a missa decorria eu pensei imensas vezes em como a "Querida Amazónia", a Exortação Apostólica do Papa Francisco, ficou tão aquém do que se pretendia. Agora que experimentamos as missas sem sacerdote, e à distância, agora que experimentamos a ausência da comunidade, agora que experimentamos a frieza da ilusória proximidade das telemissas, talvez consigas perceber um bocadinho melhor como as coisas podiam ser diferentes. Tal como discutíamos em casa no final da eucaristia, se no início da Igreja o que "fazia" a Igreja, o que era presença activa de Deus, o que era Sacramento, era a comunidade reunida para celebrar a Palavra de Deus, há qualquer coisa de muito estranho quando a comunidade está reunida, presente, a querer celebrar, e depois assiste, sem poder participar, à comunhão quase exclusiva do sacerdote. Há algo de inversão no meio de tudo isto, numa sensação de estranheza que eu apenas sinto porque estamos a viver uma situação inimaginável há poucas semanas atrás. Imagino, só posso imaginar, o que sentirá uma comunidade de fé num qualquer lugar recôndito do mundo, que se reúne para viver e celebrar e partilhar a fé, que é orientada por alguém com uma fé reconhecidamente madura, mas a quem é vedada a comunhão do Corpo e Sangue de Cristo porque esse alguém é casado ou mulher.
Creio que estes tempos, diferentes, nos fazem experimentar o diferente, e que bom seria se nos levassem a um caminhar diferente. Mais próximos das origens. E de Deus!

20200328

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Nunca conheci um Papa que vivesse tão dentro do nosso tempo como o Papa Francisco. Ao longo dos anos os Papas fizeram milhares de orações, publicaram milhares de documentos, fizeram milhares de homilias... às quais ninguém ligou patavina. Nem mesmo nós, católicos, que andávamos legitimamente entretidos nas nossas vidas e remetíamos essa parte para o "quando tiver tempo". Desde o século passado que todos eles tiveram a revolução da comunicação social à sua mercê mas preferiram sempre demonizá-la, ou ostracizá-la, ou remetê-la para as coisas supérfluas da sociedade. Todos os Papas do "meu tempo", isto é, do Papa Paulo VI ao actual Papa Francisco - com a óbvia excepção do Papa João Paulo I - foram visionários e operaram verdadeiras revoluções para que eu e os meus filhos possamos viver numa Igreja que, sem retirar a Trindade do centro, recolocou a Humanidade no lugar que Deus tinha escolhido para cada um de nós: perto de Si, ao alcance da Sua intimidade. No entanto, de todos eles, o Papa Francisco é quem usa com maior mestria não apenas a globalização das redes sociais, mas também - eu diria especialmente - a força da imagem. Ao vê-lo, ontem, em oração, pensei que nunca um homem sozinho esteve tão acompanhado. Cada uma das fotos divulgadas une, sem ser necessária qualquer palavra, a figura sozinha mas não solitária do Papa à nossa sensação actual que estamos sozinhos, nas nossas casas, mas não solitários. Arrisco afirmar que, naquela granítica e cinzenta caminhada do Papa, cada um de nós caminhava com ele, imersos nesta Humanidade inteira e atarantada, que ele carregava na sua e nossa fragilidade! Não havia melhor imagem para dar vida as suas palavras: Estamos todos no mesmo barco.... ninguém se salva sozinho.

20200327

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Hoje vi na televisão um homem curdo a dizer que rezava para que todos ficassem bem. E eu? Como rezo tudo isto? Como tenho rezado tudo isto? Tenho rezado? Quando rezo faço-o mais no sentido dos homens, isto é, pedindo a Deus que ajude os médicos e os enfermeiros e todos os outros a aplicar todos os seus conhecimentos, toda a sua humanidade, no tratamento das pessoas. Peço a Deus que ajude todos os infectados a confiar, a serenar, a ver que há Vida para além desta vida. Peço a Deus para que ajude os seus familiares para estarem presentes na confiança do infinito de amor. Mas toda esta medida do que peço é da ordem da humanidade: acreditar, aplicar, esperar, confiar... a um Deus que move montanhas não consegui ainda pedir para acabar com este vírus. Porque será? Será porque acredito que Deus não quer interferir na nossa liberdade? Será porque acredito que as coisas do mundo são separadas das coisas de Deus? Será porque não acredito que, afinal, Deus move montanhas? Será que as circunstâncias alteram a minha ligação com Deus? Será que a minha fé está a ser confrontada com a realidade?

20200326

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Organizo-me de maneira muito diferente da habitual. Não é já a obrigatoriedade que dita as suas regras, mas a vontade. O "ter que fazer" dá o seu lugar ao "dever fazer" e até ao "querer fazer", o que seria impensável há apenas 15 dias. E isto, para mim, que sou um barco com motor fora de bordo, exige um outro tipo de regras pessoais, de exigência interior, inusitada e porventura inaudita. Em circunstâncias normais prefiro ser arrastado a arrastar. Mesmo quando tomo a dianteira faço-o sob um esquema mental que começou na negação e terminou no "tem que ser". Mas essa dianteira responde sempre a estímulos exteriores, sobretudo quando esses estímulos adquirem a forma de confiança em mim e encontram eco no meu omnipresente medo de desiludir. Nada me desafia e desinstala mais que essa expectativa!
Agora é diferente! É como quando fico em casa com gripe. Nas primeiras horas, a felicidade da justificação da doença para pôr o sono em dia supera largamente as dores do corpo e o incómodo da própria gripe. Mais tarde, satisfeito o sono, passada a dor do corpo, o tédio toma o seu lugar ao meu lado, na cama. Ainda por cima há uma verdade insofismável que se repete nestas alturas: a televisão só dá coisas de jeito quando não temos tempo para as ver. E com ele o não saber o que fazer com o tempo.
Cumpre-se amanhã a segunda semana de reclusão. Já arrumei o que tinha que arrumar, já substituí o que tinha que substituir, já limpei, arranjei, fiz, li o que tinha sido adiado para as férias. Agora já não tenho que fazer nada. Agora apenas quero fazer algo. Que ninguém espera, que ninguém pressiona, que o tempo não exige, que a hora não programa.
Vamos a isso!

20200325

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Uma das manifestações de solidariedade nacional mais marcantes para mim foi por altura da questão de Timor Leste. Num determinado dia, creio que ao meio dia, combinou-se um minuto de silêncio nacional. Recordo-me que nessa altura eu ia na VCI e parou tudo, absolutamente tudo. Desligamos os carros, alguns de nós saímos deles, os camiões pararam, alguns deles buzinaram durante todo aquele minuto, que me pareceu, na altura, longuíssimo e extremamente emocionante.
Hoje, às 11:00, fomos para a cozinha da Vó. E rezamos o Pai-Nosso. Na Renascença, rezava também o Papa Francisco e, connosco, acredito que alguns milhares de pessoas.
Durante esta quarentena o extremo tem encontrado o seu lugar. As mortes são tantas e tão quotidianas que quase me anestesiam, pelo menos enquanto os meus não forem atingidos. Todos os noticiários, de todas as horas, de todos os canais de informação, tratam o COVID-19 até à exaustão. É tudo muito esquisito, inacreditável, de tão mau. às vezes penso que estamos ainda entorpecidos à espera que o filme acabe. Ao mesmo tempo, todos os dias, a todas as horas, as melhores manifestações de solidariedade, de empenho, de viver em função dos outros. Hoje um padre italiano prescindiu do ventilador que a paróquia lhe tinha dado para lhe salvar a vida, em favor de um jovem que estava ao lado dele. Exemplos como este há imensos, e significativos.
Acredito que tudo isto mudará alguma coisa em nós e na forma como vivemos a vida. E, otimista como sou, acredito que será para melhor.

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A vida já me ensinou que uma das sensações mais desagradáveis que tenho é quando me vejo na compulsão que defender alguém de quem gosto muito enquanto detesto algo que tenha feito. Isso acontece-me apenas com aquilo ou alguém que me é mesmo muito importante, que amo apesar de tudo, que apesar da imensidão de disparates que comete é para mim uma centelha de Deus. Infelizmente acontece-me muitas vezes relativamente à Igreja. Numa altura como esta é-me completamente incompreensível que se sobrevoe dioceses com o Santíssimo numa mão e a Nossa Senhora de Fátima noutra para se prevenir a doença. Não consigo entender as manifestações de fé que me parecem mais próximas da bruxaria que da fé. Até não consigo entender a preocupação do Papa Francisco com a absolvição global dos cristãos numa altura em que me faria amis sentido falar de esperança que de pecado.
Amar alguém, amar a Igreja, também implica algo deste tipo: amar aquela parte que não compreendo e que preferia que não existisse. Aliás, não faz sentido amar apenas aquilo que corresponde exatamente aos meus desejos, à minha compreensão, ao que cabe dentro dos meus esquemas mentais e emocionais. Porque, por um lado, eu, com a minha percepção, com os meus sentidos e sentimentos, sou a medida de coisa nenhuma. Depois, por outro lado, se amar fosse permitir apenas aquilo que cabe em mim, como poderia ser mais?

Bambora

  Não é estranho que nos digam que «ser homem é muitas vezes uma experiência de frustração». Mas não é essa toda a verdade. Apesar de todos ...