20220817

vergonha

Todos nós já sentimos, em alguma altura, vergonha alheia. Seja com um tio desbragado numa qualquer cerimónia, um amigo que sabemos ser impecável apesar do seu ocasional comportamento desapropriado, ou, neste caso, com uma Igreja que sabemos, por experiência própria, ser imensamente mais do que aquilo que tem sido manifestamente noticiado. Nestas alturas não tenho por hábito sacudir a água do capote: defendo, quando muito, calo, e deixo para uma outra altura uma conversa mais apropriada que nos permita enriquecer mutuamente. 

Nesta altura é-me particularmente difícil lidar com a vergonha que, ainda por cima, não sinto como propriamente alheia mas como também minha, da família que escolhi para viver comigo a fé: a Igreja. Em momento algum senti que este era um problema que não me diz respeito. Não porque tenha contactado direta ou indiretamente com casos de pedofilia ou qualquer tipo de abuso físico, mas porque, agora que se têm provado - ainda que não em tribunal - tornam mais clara uma realidade que eu pensava (desejava) longínqua. 

Sobre estes casos só podemos ter tolerância zero. Ponto final. Sem mas, sem porques, sem atenuantes, quaisquer que elas sejam. Aconteceu suspeita de abuso? Comunica~se às autoridades competentes (civis, claro), e ativam-se os procedimentos de mútua proteção até ao apuramento da verdade. Confirmou-se? Condene-se. Não era verdade? Condene-se quem acusou. Assim. Simples. O único cuidado que se deve ter é o do direito à privacidade, particularmente se existirem crianças envolvidas, pelo que se dispensa tanto a condenação em praça pública como a condenação em praça exclusivamente eclesial. Abuso é pecado, sim, e acredito que a misericórdia do Pai não tem limites, mas é também crime, e não pode ser escondido ou varrido para debaixo do tapete. 

E quando alguém me aponta o dedo, porque sou católico, a minha resposta é apenas uma: baixar a cabeça e dizer que têm razão. Também eu estou na berlinda. 

20220718



Trabalho há tempo suficiente com malta nova para saber que as imagens que muitas vezes são projetadas não correspondem à verdade. Na verdade, não são nem anjos imaculados nem diabinhos à solta, são pessoas em construção num universo muitas vezes demasiado confuso e multidisciplinar para que eles consigam perceber o chão que pisam. Por isso, normalmente, no que toca a malta nova, tenho ambos os pés no chão. Não que não me deixe contagiar e entusiasmar e sonhar e projetar com eles. Pelo contrário, sou muitas vezes quem (ainda) despoleta essa alegria e esse voar para além do que lhes é dado a viver. Há miúdos, então, que pelas suas circunstâncias precisam muito mais de sonhar que de pão para a boca, que esse vão tendo, apesar de tudo. Sim, voo com eles e a partir deles. Muitas vezes. Mas sei que, na melhor das hipóteses, seremos andaimes, nada mais que isso. E que é justamente andaimes, o que deveremos ser. E andaimes unipessoais, feitos à medida de cada um e, mesmo com cada um, adaptáveis a cada circunstância. Quando lidamos com malta nova não há pronto a vestir e muito menos medidas definitivas. É importante por isso, que tenhamos ambos os pés no chão e acolhamos a montanha russa, que pode acontecer num mesmo dia. Ora têm uma atitude que nos faz encher de orgulho, ora têm uma outra que nos leva a perguntar como é possível tamanha barbaridade acontecer. 

E isto é, a meu ver, um sinal de respeito. Por cada um deles. É atendermos a quem vão sendo, a cada momento, sob determinada circunstância. Porque é com cada um deles, com cada circunstância que trabalhamos, é com essa realidade concreta dessa pessoa concreta que temos diante de nós. Não, não são anjos nem demónios, mas pessoas, com confusões e sentidos de humor, não raras vezes mais exacerbados que os dos adultos. Por isso não me parece, de todo, conveniente idealizá-los ou diabolizá-los - encarcerando-os numa qualquer etiqueta - mas trazê-los e às suas circunstâncias para a discussão do que se deve ser e do que não se deve ser. Porque é nessa realidade que ambos nos movemos: educadores e educandos. Estar a desvalorizar qualquer um desses fatores - educador, educando, circunstância em que a a relação acontece - é fazer histórias que poderão ser muito bonitas mas nada têm a haver coma  realidade. É sermos andaimes de construções de areia, que se desfazem logo que nos retiramos.


20220708


 
 
Começa-se a respirar um outro ar, neste nosso pequeno burgo que é o nosso local de trabalho. 
 
Há menos de um mês, chegava à sala dos professores, dizia bom dia e, no máximo, obtinha como resposta um ou dois grunhidos mais ou menos percetíveis. Eu, que não sou professor - e que nessas alturas vivo numa outra cadência - olhava e via tudo pressionado pelo tempo, pelos resultados, pelos projetos, pelas agendas. Ninguém falava com ninguém de outra coisa que não fosse correções e provas e notas e reuniões e pautas e escalas. Chegavam todos demasiado cedo e saiam todos demasiado tarde e, invariavelmente, era quase visível a olho nu o peso do sentimento de culpa de não terem tempo para aqueles que amam, porque sofriam na pele o paradoxo da sensação do abandono daqueles que amam em nome do seu cuidado. Não admira, por isso, a enormidade de caras fechas, algo zangadas até, com que me deparava todos os dias. 
 
E nós não somos assim. Não somos mesmo assim. 
 
Nestes últimos dias, passado o frenesim dos exames e das notas e das pautas e das reuniões já oiço rir na sala dos professores. Ainda se trabalha, claro, mas a pressão é já outra. Aqui e ali ouvem-se brincadeiras, combinam-se almoços, acertam-se saídas, e escuta-se até alguns ohhhs quando alguém, finalmente recuperado do sentimento de culpa,  mostra as fotos dos filhos, dos pais ou dos netos. Agora já respiramos vida, já sentimos vida, já somos vida. De novo. E isso é tão bom! Eu próprio já me fui sentando com um e com outro e conversando, por vezes durante escasso tempo, noutras vezes esquecendo o tempo, e fomos partilhando vivências e dificuldades e projetos para o próximo ano, porque na verdade temos imensa dificuldade em desligar e a nossa cabeça fervilha sempre de novos projetos e novos sonhos que se transformem em novos desafios e nos transformem com eles. E isso é tão bom!

Nenhum de nós é parafuso. Ou prego. Ou uma qualquer outra peça de um qualquer mecanismo que fique satisfeito apenas porque a máquina funciona bem e produz bons resultados. Nenhum de nós consegue ser máquina durante muito tempo. Por vezes permitimo-nos sê-lo, por pouco tempo, desligando-nos da imensidão que nos ajuda a ser quem somos. Por vezes até nos esquecemos que somos mais, que somos chamados a ser mais, e por vezes até confundimos tudo e achamos que esse mais a que somos chamados está ligado à produção quando na verdade está ligado ao ser, ao ser para os outros, ao ser com os outros. E é quando somos, quando verdadeiramente somos, com os outros e para os outros, é justamente aí, nesse momento, que sabemos como é ser feliz, como é cumprir esta imensidão que nos habita e a que somos chamados a habitar. E isso é tão bom!

20220704


 

Dê-se à miudagem um belíssimo dia de sol, uma piscina e uns escorregas, e teremos semeado as memórias de um dia absolutamente inesquecível. Sobretudo se nunca o fizeram antes.

Continuo a deixar que a realidade me surpreenda! "Deixo a caixa dos comprimidos do enjoo para a minha filha. Não sei se ela enjoa, porque nunca andou de autocarro nem de camioneta, mas leva de qualquer maneira. E se algum miúdo precisar, pode dar desses." Quando comentava isto, espantado pelo facto de uma miúda com 7 anos nunca ter andado de camioneta, fiquei ainda mais espantado quando soube que ela nunca viu o mar. O nosso Espaço RAIZ fica a pouco mais 1 km do das praias da Foz do Douro, e aquela miúda, que vive junto ao RAIZ, nunca viu o mar! Em 2022, neste país à beira mar plantado, há pessoas nascidas neste século que ainda não viram o mar!

Estas coisas provocam em mim o efeito necessário: coloco os pés no chão e abro os olhos, permitindo-me ver bem quem tenho diante de mim. E ainda bem que tudo isto sucedeu ainda antes do dia de hoje, do primeiro dia de colónias de uns miúdos que, fruto do COVID, nunca as tinham tido. Porque deu-me o privilégio de testemunhar o seu espanto, os seus gritos de alegria, a sua descoberta da água, o seu primeiro almoço com os amigos e, sobretudo, apreciar de perto os seus olhos lindos, abertos, cheios daquela ilusão que apenas se tem quando a vida vivida  ultrapassa a vida sonhada. Demasiadas vezes temos demasiadas coisas dadas por garantidas. Podermos espantar-nos com o espanto das crianças é um verdadeiro privilégio. É também por isso que adoro o que faço!

20220701


 

Apesar de tudo aquilo com que me deparo todos os dias, estranho bastante o mal. Não o mal por acidente, o que acontece inadvertidamente, sem querer, que é consequência de um qualquer deslize ou atitude menos refletida. Esse tem remendo, mais ou menos fácil, em função da verticalidade de quem o comete. Mas existe aquele mal, pensado, programado, intencional, profundamente desumano e desligado da vida, porque nem sequer animalesco é, mas a negação da própria vida. Sua ou dos outros. E esse mal existe. É-me muitas vezes inimaginável. Mas por vezes encontro-o. Olhos nos olhos. E desarma-me.

Eu estou longe de viver numa bolha ou num conto de fadas. Como acontece com qualquer pessoa minimamente vivida, eu conheço a dor, provocada e sentida, a desilusão, profunda ou passageira, a falsidade (com a qual tenho tremenda dificuldade em lidar), que deixa sempre marcas profundas, e tantas outras formas engenhosas de fazer mal. Sei como o mal habita as margens, quer de cada um de nós, quer da sociedade, de forma mais ou menos insidiosa, mais ou menos declarada, mais ou menos permitida ou resultante das circunstâncias que a todos nós condicionam.

Sei disso tudo, mas raramente me deparo com uma pessoa má. Porque a verdade é que nós fazemos coisas más mas dificilmente somos intrinsecamente maus. Mesmo se fazemos essas coisas más com relativa frequência. Numa das margens do meu trabalho conheço muita gente assim, que não conhece limites, que não tem noção clara do bom e do mau, que é muito mais impulsiva que racional, mas que, quando confrontado com o mal que fez, pede desculpa - porque sente culpa - ainda que passado um par de dias esteja a fazer a mesma coisa com a mesma impulsividade. Normalmente o trabalho a ser feito com pessoas assim é ensinar como podem ser racionais, como podem ponderar os seus atos e as suas palavras antes de, com eles, agredir os outros. E normalmente - com muito tempo e muita paciência e muita oportunidade para recomeçar - conseguem-se bons resultados. Na outra margem, curiosamente, é tudo mais requintado, mais frio e calculista. E mais difícil de contrariar.

Mas pessoas más, mesmo más, que pensam, prepararam, maquinam o mal que fazem antecipando a dor provocada, desejando-a, essas são raras de encontrar. Mas não me são totalmente estranhas, também. E, quando as encontro, abalam-me. As certezas, as convicções, as reações. E isso não é bom. Porque me colocam mais perto de responder na mesma moeda.

20220629

 

Foi um bom ensinamento. Estava eu casado há pouco tempo e tinha a folia do exercício físico. Como frequentemente me acontece - agora menos - não conseguia perceber como é que aquilo que era tão evidente para mim - a importância do exercício em termos físicos e mentais - podia ser tão desprezível para os outros. E inscrevi a Isabel no ginásio, claro, porque lhe faria bem à cabeça. Como raramente ia, fui percebendo, algo contrariado, que para a Isabel meia hora de jardinagem era tão fundamental quanto uma hora de ginásio para mim. E aprendi. Várias coisas. A primeira foi a ver com olhos de ver. Mas a principal é que eu não sou a medida de ninguém: aquilo que é notório e evidente para mim não o é necessariamente para os outros. E aprendi que somos felizes de maneira diferente. E que todos temos o direito de procurar essa felicidade sem termos que lidar com os achismos dos outros.

Esta é uma lição que preciso de ir buscar várias vezes ao baú da memória. Assim aconteceu com as escolhas dos meus filhos, pessoais, assumidas, de cabeça erguida, mas claro que algumas delas diferentes das que eu faria. Pudera! São as suas escolhas, não são as minhas, e mesmo quando nos pedem conselhos e sentamos e conversamos, são sempre as escolhas deles, feitas em liberdade, de acordo com a sua leitura das suas circunstâncias. E fazemos questão que saibam e sintam que estamos de corpo e alma com eles quaisquer que sejam essas escolhas. 

Algo semelhante acontece com aqueles que me habitam, com quem vou caminhando e aprendendo e ensinando, e que me são muito significativos. Porque o são, porque são imensas as memórias que a ambos habitam, porque é muito o caminho e a partilha, não me é sempre fácil lidar com as suas escolhas. Mas são as suas, não as minhas. E então lá tenho eu que recorrer àquela memória e perceber que, apesar do que nos une, estou longe de vestir a sua pele e perceber a fundo as suas circunstâncias. Que são as que são e que a mim apenas me compete fazer-lhes saber e sentir que é sempre tempo para nos voltarmos a sentar e a conversar, assim a vida o proporcione e a vontade se mantenha.

Perguntaram-me há pouco tempo se tenho facilidade em deixar ir. Não, não tenho. Nunca tive. E a primeira sensação é sempre a dor da perda. E a verdade é que, passados todos estes anos, não sinto que ninguém que me tenha habitado tenha partido verdadeiramente. Pode estar do outro lado do mundo, tem a sua vida, tem as suas escolhas, tem a sua ânsia de futuro, pelo qual tem o dever de batalhar o melhor que pode e sabe. Mas permanece. Sempre. Sem mágoa, sempre, com progressivo atenuar da dor, sobretudo se encontrar e cumprir a felicidade a que todos estamos votados. E sem achismos da minha parte. Que são absolutamente desnecessários. 

Afinal, é de felicidade que se trata. 

E todos somos felizes de maneiras diferentes.

E eu não sou a medida de coisa nenhuma.

20220620

 

Caminho cedo, à beira mar, nesta maravilhosa manhã. Hoje, sozinho, entretido com os meus botões, apenas ocasionalmente interrompido pelos sorrisos trocados com aqueles com quem me cruzo todas as manhãs. Princípio da semana em que farei 56, altura, em termos profissionais e pessoais, de balanços, de avaliar rumos e pertenças, de pesos e medidas. A contragosto, que já cheguei ao tempo de não me contrariar, nestes e noutros aspetos de prós e contras, limitando-me a perceber e a tentar abraçar o que vou sendo. E é justamente esse o gerúndio que habito: vou sendo.

No fim de semana aconteceu a festa das famílias, e dos alunos, e daqueles com quem trabalho. Inevitavelmente, mal coloquei o pé dentro, instalou-se o desconforto. Num acontecimento que é concebido para que nos reconheçamos mutuamente no imenso que nos une, procuro o impossível, refugiando-me num canto, olhando, cumprimentando aqui e ali, quando não o consigo evitar, sorrindo genuína mas atabalhoadamente, com o mesmo à vontade com que um elefante está numa loja de porcelana. Gosto imenso, admiro imenso, tanta gente que me rodeia, e no entanto, anseio por sair e me remeter ao sossego.

Não sei por que acontece. Sei que é assim. Que sou assim.

Por vezes acho que o contacto de todos os dias com pessoas de um lado e do outro desta invisível mas real barricada com a qual sou quotidianamente confrontado me torna habitante das margens. Outras vezes - hoje, por exemplo - sinto que nem as margens habito verdadeiramente, mas apenas a terra de ninguém. Mesmo quando sou efusivo, quando pego na guitarra e ponho a canta e a dançar - adoro pôr as pessoas a cantar e a dançar! - ou quando sinto que estou a conseguir comunicar com a plateia que tenho diante de mim - seja uma turma, um grupo de adultos em Taizé ou a assembleia da eucaristia das 11 - preciso do momento seguinte, daquele em que paro, em que me reconheço nos meus pensamentos, na minha naturalidade, no berço de quem sou. Como se me estranhasse naquela sensação que mesmo eu, de mim para mim, mais que as minhas margens, habito a minhas próprias terra de ninguém. 

Curiosamente, sinto-me feliz nestas terras. Na verdade, é como se a vida se tivesse encarregado de se ajustar a mim fazendo-me ajustar a ela. Na verdade, não sei se serei causa ou consequência, ou ambas, num caminho que - lá está o meu amigo gerúndio - que se vai fazendo, que vai acontecendo, no qual vou descobrindo e tentando ser. Na verdade, é que todas as manhãs dou Graças pelo imenso que me habita. E pelos tantos que me habitam. E - esses sim - que me fazem ser.

Bambora

  Não é estranho que nos digam que «ser homem é muitas vezes uma experiência de frustração». Mas não é essa toda a verdade. Apesar de todos ...