20231227

Tenho vindo pouco aqui. E quase sempre apenas de visita. Por vezes perguntam-me porquê, o que se passa para que eu escreva tão pouco. Fico sempre surpreendido. Para começar, que me leiam. Depois, que isso possa ser significativo. Finalmente, que me perguntem. Porque nesse momento - e apenas nesse momento - coloco a mim mesmo essa pergunta. Porque normalmente os dias se sucedem uns aos outros sem que eu sequer me aperceba se escrevi ou não. Normalmente é nessas alturas que eu acordo e percebo que tenho sido mais fazedor que pensador. E não sei se isso é bom. Claro que penso nas coisas, mas normalmente canalizo o que penso para formas de fazer e menos para formas de ser. Penso, mas não me penso. E quando me penso é relativamente a algo que tenho que preparar: uma oração, uma formação, uma catequese, um encontro. E a distância acentua-se. E às tantas vejo-me mais a dizer coisas bonitas que refletidas. E genuínas. E isso, sim, é mau.

Numa destas noites mal dormidas senti necessidade de fazer um glossário. De convicções. Das minhas convicções. Algo a que pudesse recorrer rapidamente quando leio alguma coisa, quando penso alguma coisa, quando digo alguma coisa. Sim. Por vezes é esse o meu nível de perdido. Lembrei-me disso ontem quando estava a observar o meu neto entretido com os seus dedos e lhe trouxeram meia dúzia de brinquedos. Ele ficou mais agitado. Pegava em dois ao mesmo tempo e chorava pelos que não conseguia pegar. Eu estou mais ou menos assim. Tenho que voltar a olhar para os meus dedos. Que serenar interiormente. E fazer o meu glossário. De vida.


20231110

 “Um transexual – mesmo quem se submeteu a um tratamento hormonal e a uma cirurgia de mudança de sexo – pode receber o batismo, nas mesmas condições dos outros fiéis, se não houver situações em que haja o risco de gerar escândalo público ou desorientação entre os fiéis”, indica o documento, divulgado online e aprovado pelo Papa, informa o Vaticano.

Não consigo entender. Quer dizer: entendo as dúvidas acerca da transexualidade. Mais as minhas, que tenho que fazer um esforço para as passar do coração à cabeça, ou seja, da aceitação natural que cada um  possa escolher quem é (sendo que, nestes casos de transexualidade ou homossexualidade, nem sequer se pode falar de escolha), para a naturalidade do tratamento (refiro-me ao nome escolhido, ao pronome pessoal a utilizar...) que as da Igreja, que deve acolher de braços abertos todos, todos, todos. 

O que não consigo, de todo, entender, é a condicionalidade da aceitação ao risco de escândalo público ou desorientação. Não aprendemos nada com os abusos? Porque temos tanto medo do escândalo público nalguns casos e tão pouco noutros? Porque escolhemos esconder quem prevarica nos abusos, ignorando o imenso sofrimento provocado e escancaramos despudoradamente, recorrendo a artifícios, opiniões sobre as mulheres na Igreja? Como é que o acolhimento, por amor, de alguém, na Igreja, pode estar sujeito ao escândalo que isso pode provocar?. É bom que provoque escândalo. É bom que acorde as pessoas. É bom que nos coloque a todos, enquanto comunidade cristã, atarantados quando estamos longe de Jesus. Ou entendemos nós que Jesus não nos falaria como aos fariseus? Ou estamos tão enfarinhados que não percebemos que, em muitas coisas, é justamente para nós que Jesus fala quando se dirige aos fariseus perguntando se não vemos a trave no nosso olho quando apontamos o argueiro no olho dos transexuais? Mas que moral temos nós, sobretudo nesta altura, para apontarmos o dedo a quem escolhe, muitas vezes contra tudo e contra todos, à custa de enorme sofrimento, corajosamente, viver a sua verdade?

Não entendo!

20231023

Ultimamente tenho andado a pensar que as questões da moral, na Igreja ou fora dela, deveriam ser exclusivamente auto impostas. Que tudo o que não seja aplicar em mim e não nos outros, tem forte tendência para a asneira. 

Já estou cansado de saber como a vida me finta. Em mim aplicam-se na perfeição os telhados de vidro ou o cuspo para o ar que inevitavelmente me cai no meio da testa. têm sido imensas as situações que, em alguma altura da vida me arroguei a dar postas de pescada e agora apanho com elas nos queixos. Sempre que isso acontece, encolho-me todo de vergonha e rezo duas coisas: que eu não volte a repetir; que as pessoas visadas por essa minha arrogância já a tenham esquecido. 

Gostaria de pensar que esta é uma coisa que vai passando com a idade, mas não é verdade. Basta-me estar um pouco mais cheio de mim e lá caio na esparrela de mi próprio. Ontem, na eucaristia, rezava isso: vou esforçar-me mesmo por aplicar apenas a moral a mim próprio, porque apenas eu e Deus conhecemos as minhas idiossincrasias, as minhas dificuldades, os meus percursos interiores, as motivações das minhas manifestações exteriores do que sou. No que me diz respeito: exigência; no que aos outros diz respeito: acolhimento. 


20231019

Dizia eu ontem a um miúdo - estou na idade em que todos abaixo dos 30 são miúdos - que o "Para Sempre" me assusta. E desde sempre que assustou. Porque este sempre nem sequer é exatamente verdadeiro quanto ao passado - provavelmente houve alturas em que o para sempre não me assustava assim tanto - quanto mais quando perspetivamos ou nos comprometemos com o futuro. O Para Sempre é a manifestação de um desejo e, nas melhores hipóteses, um compromisso. Mas na verdade não faz grande sentido. Porque nos aprisiona, porque nos rouba a liberdade de, a cada dia, podermos escolher, porque nos obriga a cumprir algo que foi decidido ao passado independentemente das circunstâncias do presente. E eu, se aprecio imenso o compromisso, não gosto da obrigatoriedade. Há uns anos pediram-me para fazer um breve discurso para dois amigos que tinham casa há pouco tempo. E eu, de improviso, disse-lhes que não acreditava em casamentos para sempre, mas em casamentos de todos os dias. Porque é todos os dias que vivemos, é todos os dias que fazemos escolhas, é todos os dias que nos comprometemos ou não, é todos os dias que fazemos o balanço do que tem sido a nossa vida até ali e projetamos o amanhã. Claro que não renascemos a cada dia nem apagamos a nossa história assim que adormecemos. Seria terrível se isso acontecesse. Claro que há pessoas que estão e estarão na nossa vida para sempre, por pouco que as consigamos ver no quotidiano. Claro que há corações e almas e interiores que habitamos e temos o privilégio de sermos habitados por outros. E que isso acontece, dias a fio, semanas a fio, anos a fio, com cada um dos que nos habitam a montarem tenda cá por dentro. Mas nenhuma dessas pessoas que me habitam decorre do Para Sempre mas das boas e más memórias, das longas ou curtas conversas, dos gestos, dos olhares, da caminhadas que a vida nos permitiu.

20231016

Eu digo, muitas vezes, mais ou menos em tom de brincadeira, que me orgulho do meu lado feminino. E sempre que o faço em tom de brincadeira é com o intuito de me colocar em bicos de pés, é porque reconheço uma qualquer característica ou dom que eu não tenho e que, não sendo exclusivo dos homens - assim de repente não me recordo de alguma coisa do foro psicológico que seja exclusiva de homens ou mulheres - consigo perceber que é mais numerosa nas mulheres. Eu não acho nada que homens e mulheres sejam a mesma coisa. Mas também não acho que o Joaquim e o Manel sejam a mesma coisa. Mesmo numa relação, qualquer que seja a forma com que se reveste, há diversos papéis que são desempenhados alternada ou simultaneamente, porque ninguém é igual a ninguém, Graças a Deus! Daqui decorre a minha tremenda dificuldade em entender todas as questiúnculas que, de ambos os lados da barricada, ocorrem frequentemente. Irrita-me solenemente - porque acentua a diferença - o portugueses e portuguesas dos discursos políticos, por exemplo, ou dizer que Deus veio para os homens e as mulheres... Claro que, sendo eu homem, nunca me senti afetado por esta linguagem, mas aprendi - com mulheres, claro - que ela pode ser importante. A questão é que nós tomemos consciência que as mulheres toma parte, são parte, fazem parte, e uma parte tão importante quanto qualquer outra. Para mim, no entanto, esta ainda é uma não questão. 

Tenho acompanhado o sínodo com as dificuldades de quem não tem acesso direto aos discursos e documentos  - desconfio sempre! - e também, naturalmente, a temática das mulheres dentro da Igreja. E como percebo a sua luta! Graças a Deus, trabalho num Instituto feminino e não entendo como podem as mulheres com quem lido todos os dias ser vistas mais ou menos de esguelha seja por quem for e por que motivo for. Nada justifica. E quando leio que será mais fácil termos homens casados que acedam ao sacerdócio que mulheres, sei que vou ter grandes dificuldades ao jantar para tentar explicar isto às minhas filhas. E que será mais um motivo para elas não se sentirem inteiras na Igreja. Sim, estamos num abençoado e há muito desejado processo de limitarmos o clericalismo e não convém meter pedras na engrenagem, mas ser sacerdote é servir e não entendo como as mulheres têm mais dificuldade em servir que os homens. Ou o motivo é outro? (pergunta retórica). No meu quotidiano eu sirvo e sou servido por pessoas e profissionalmente coordeno e sou coordenado por pessoas, e a minha preocupação não é, de todo, se uns e outros são mulheres ou homens ou altos ou baixos ou o que quer que queiram ser na sua liberdade de Filhos do mesmo Pai, mas se o seu olhar brilha. Quaisquer que sejam as suas circunstâncias. E as suas escolhas.

20231013

Por estes dias, sigo o Sínodo com muita atenção. É muita a expectativa, embora não demasiada, porque destas coisas vou percebendo o suficiente que os passos pequenos são importantes mas exasperantes. Sobretudo para a muita malta nova com quem tenho conversado - a começar pelos meus, lá em casa - que aspiram a muito maior firmeza e rapidez. O que é curioso, porque o que sair destes dias - sobretudo o que sair depois da segunda parte do sínodo, que irá ser discernida em outubro do próximo ano - será mais vivido por eles que por mim, que já não estarei a tempo de saborear as mudanças que, espero e desejo, daí virão. E o facto de eu e outros como eu estarmos já numa outra fase da vida não é despiciente em todo este processo de evolução da Igreja. O Concílio Vaticano II terminou por volta do ano em que nasci e, sobretudo depois de ter sido metido na gaveta com João Paulo II, só agora começa a ser intencional e abertamente recuperado. Tivessem as coisas corrido de outra maneira e provavelmente já veria homens e mulheres casados chamados ao sacerdócio. Aquilo que, considerando o processo evolutivo da História da Igreja, levaria talvez duas gerações a ser alterado, levará assim pelo menos mais uma, o que me deixará a assistir de cadeirinha, lá por cima (espero eu!). Mas, como tenho dito aos meus filhos, tem sido bom perceber como aquilo que eu intuía e defendia, praticamente só e reduzido à minha insignificância, hoje seja escrito e dito em voz alta e nos mais diversos lugares eclesiais. Acredito, cada vez mais, que tenho combatido o bom combate, - mais uma vez, insisto, no espaço consciente da minha insignificância - por uma Igreja mais próxima do Evangelho de Jesus.

20230918

Ontem, em Mafra, foi coroada, pelo D. Tolentino Mendonça, a Senhora da Soledade. Na verdade, confesso que não faço ideia se é assim que as coisas se dizem, porque não conheço nem tenho particular interesse em conhecer o protocolo destas coisas. Não é que considere que elas não sejam importantes - sê-lo-ão certamente para muita gente boa - apenas que não me dizem grande coisa. Provavelmente ditado e condicionado pela vida que vou vivendo, percebo que atribuo muito mais significado a um cristianismo de pés no chão e cabeça no alto que o seu contrário. Pelo menos nesta fase da minha vida, que é feita de leituras e estudo mas tendo sempre como objetivo último a operacionalização do que leio e estudo. Sem, no entanto, desvalorizar minimamente tudo o resto porque ambas as coisas são necessárias e até fundamentais na Igreja. É preciso quem faça e é preciso quem estude e é preciso quem reze e é preciso quem cuide e é preciso quem mastigue e entregue o que outros estudam e leem. E isso é bom. Mas é esta uma das nossas dificuldades em Igreja: atribuímos cadeirões em função daquilo que pensamos ser o nível de importância de cada um ignorando ostensivamente que os dons do Espírito são entregues com o mesmo amor e com o mesmo propósito: servir o melhor que sabemos e conseguimos. O resto é coisa dos homens, não de Deus.

Há duas semanas estava numa belíssima formação na qual estava presente um dos bispos da minha cidade. Tudo normal, até ele se levantar e sair, continuando nós o trabalho. Na altura em que o bispo se levantou, levantaram-se quase todos os presentes, o que me surpreendeu - não sou nada dado a protocolos. Teria sido, provavelmente, uma questão de respeito. E teria entendido se, a cada pessoa que se levantasse ou chegasse nós nos levantássemos por respeito. De outra maneira, não faz sentido para mim. E poderia ser apenas um pormenor, se na realidade não tivesse reflexo na qualidade do trabalho que, nós leigos, desempenhamos. Mas tem. Efetivamente tem. Porque muitas vezes esse respeito especial pelos nossos bispos e nossos sacerdotes e nossos religiosos e religiosas se traduz em respeitinho, e isso muitas vezes impede a troca de ideias de forma clara e aberta. E isso, claro está, faz com que se diga à boca pequena o que não se tem - por respeito, claro - a coragem de dizer olhos nos olhos, de forma aberta e honesta. E nem considero que a responsabilidade esteja sempre nos outros, mas em nós, que entendemos que discordar de uma decisão ou de uma visão é uma questão de respeito. Não é. É uma questão de vida. Que será tão mais rica quanto melhor e mais abertamente partilhada.


Bambora

  Não é estranho que nos digam que «ser homem é muitas vezes uma experiência de frustração». Mas não é essa toda a verdade. Apesar de todos ...