20220629

 

Foi um bom ensinamento. Estava eu casado há pouco tempo e tinha a folia do exercício físico. Como frequentemente me acontece - agora menos - não conseguia perceber como é que aquilo que era tão evidente para mim - a importância do exercício em termos físicos e mentais - podia ser tão desprezível para os outros. E inscrevi a Isabel no ginásio, claro, porque lhe faria bem à cabeça. Como raramente ia, fui percebendo, algo contrariado, que para a Isabel meia hora de jardinagem era tão fundamental quanto uma hora de ginásio para mim. E aprendi. Várias coisas. A primeira foi a ver com olhos de ver. Mas a principal é que eu não sou a medida de ninguém: aquilo que é notório e evidente para mim não o é necessariamente para os outros. E aprendi que somos felizes de maneira diferente. E que todos temos o direito de procurar essa felicidade sem termos que lidar com os achismos dos outros.

Esta é uma lição que preciso de ir buscar várias vezes ao baú da memória. Assim aconteceu com as escolhas dos meus filhos, pessoais, assumidas, de cabeça erguida, mas claro que algumas delas diferentes das que eu faria. Pudera! São as suas escolhas, não são as minhas, e mesmo quando nos pedem conselhos e sentamos e conversamos, são sempre as escolhas deles, feitas em liberdade, de acordo com a sua leitura das suas circunstâncias. E fazemos questão que saibam e sintam que estamos de corpo e alma com eles quaisquer que sejam essas escolhas. 

Algo semelhante acontece com aqueles que me habitam, com quem vou caminhando e aprendendo e ensinando, e que me são muito significativos. Porque o são, porque são imensas as memórias que a ambos habitam, porque é muito o caminho e a partilha, não me é sempre fácil lidar com as suas escolhas. Mas são as suas, não as minhas. E então lá tenho eu que recorrer àquela memória e perceber que, apesar do que nos une, estou longe de vestir a sua pele e perceber a fundo as suas circunstâncias. Que são as que são e que a mim apenas me compete fazer-lhes saber e sentir que é sempre tempo para nos voltarmos a sentar e a conversar, assim a vida o proporcione e a vontade se mantenha.

Perguntaram-me há pouco tempo se tenho facilidade em deixar ir. Não, não tenho. Nunca tive. E a primeira sensação é sempre a dor da perda. E a verdade é que, passados todos estes anos, não sinto que ninguém que me tenha habitado tenha partido verdadeiramente. Pode estar do outro lado do mundo, tem a sua vida, tem as suas escolhas, tem a sua ânsia de futuro, pelo qual tem o dever de batalhar o melhor que pode e sabe. Mas permanece. Sempre. Sem mágoa, sempre, com progressivo atenuar da dor, sobretudo se encontrar e cumprir a felicidade a que todos estamos votados. E sem achismos da minha parte. Que são absolutamente desnecessários. 

Afinal, é de felicidade que se trata. 

E todos somos felizes de maneiras diferentes.

E eu não sou a medida de coisa nenhuma.

20220620

 

Caminho cedo, à beira mar, nesta maravilhosa manhã. Hoje, sozinho, entretido com os meus botões, apenas ocasionalmente interrompido pelos sorrisos trocados com aqueles com quem me cruzo todas as manhãs. Princípio da semana em que farei 56, altura, em termos profissionais e pessoais, de balanços, de avaliar rumos e pertenças, de pesos e medidas. A contragosto, que já cheguei ao tempo de não me contrariar, nestes e noutros aspetos de prós e contras, limitando-me a perceber e a tentar abraçar o que vou sendo. E é justamente esse o gerúndio que habito: vou sendo.

No fim de semana aconteceu a festa das famílias, e dos alunos, e daqueles com quem trabalho. Inevitavelmente, mal coloquei o pé dentro, instalou-se o desconforto. Num acontecimento que é concebido para que nos reconheçamos mutuamente no imenso que nos une, procuro o impossível, refugiando-me num canto, olhando, cumprimentando aqui e ali, quando não o consigo evitar, sorrindo genuína mas atabalhoadamente, com o mesmo à vontade com que um elefante está numa loja de porcelana. Gosto imenso, admiro imenso, tanta gente que me rodeia, e no entanto, anseio por sair e me remeter ao sossego.

Não sei por que acontece. Sei que é assim. Que sou assim.

Por vezes acho que o contacto de todos os dias com pessoas de um lado e do outro desta invisível mas real barricada com a qual sou quotidianamente confrontado me torna habitante das margens. Outras vezes - hoje, por exemplo - sinto que nem as margens habito verdadeiramente, mas apenas a terra de ninguém. Mesmo quando sou efusivo, quando pego na guitarra e ponho a canta e a dançar - adoro pôr as pessoas a cantar e a dançar! - ou quando sinto que estou a conseguir comunicar com a plateia que tenho diante de mim - seja uma turma, um grupo de adultos em Taizé ou a assembleia da eucaristia das 11 - preciso do momento seguinte, daquele em que paro, em que me reconheço nos meus pensamentos, na minha naturalidade, no berço de quem sou. Como se me estranhasse naquela sensação que mesmo eu, de mim para mim, mais que as minhas margens, habito a minhas próprias terra de ninguém. 

Curiosamente, sinto-me feliz nestas terras. Na verdade, é como se a vida se tivesse encarregado de se ajustar a mim fazendo-me ajustar a ela. Na verdade, não sei se serei causa ou consequência, ou ambas, num caminho que - lá está o meu amigo gerúndio - que se vai fazendo, que vai acontecendo, no qual vou descobrindo e tentando ser. Na verdade, é que todas as manhãs dou Graças pelo imenso que me habita. E pelos tantos que me habitam. E - esses sim - que me fazem ser.

20220526

Não tenho por hábito reler o que escrevo. Nem sequer para corrigir. Já na faculdade utilizava um método que sempre me deu bons resultados: gastava tempo a hierarquizar a resposta por tópicos que ia riscando à medida que os colocava na folha de exame. Colocado o ponto final, fechava o exame, exausto, e entregava-o assim, sem o reler. 

Na verdade, tendo a escrever como vivo: de supetão, sem pensar demasiado, atirando-me de cabeça, e espantando-me, mais tarde, com as enormidades que disse ou cometi. Durante imenso tempo, como não aprecio por aí além esta forma de ser, batalhei contra ela, forçando-me a ser outro, porventura de quem gostasse mais. Está bom de ver que esta sempre foi uma batalha perdida. E fui aprendendo a apreciar mais a autenticidade, ainda que esta acarrete maior confusão.

Não relendo o que escrevo, sou, no entanto, curioso à frequência com que o faço. Há alturas em que escrevo dias seguidos, em que transbordo (para mim a escrita é sempre um vomitar) dias seguidos como se não houvesse amanhã, em que todos os dias sinto, vejo, respiro algo que me faz sentir vivo e sinto necessidade de espelhar em palavras. E depois há... nada. Absolutamente nada. Ou melhor, há agendas e reuniões e trabalhos e orações e cânticos e tudo isso e muito mais tem que ser pensado e preparado e ensaiado e executado, ocupando todo o espaço em mim que deveria ser ocupado pelo lado B (de Belo) da vida. São as alturas em que me sinto pouco mais que um parafuso numa qualquer engrenagem que me despersonaliza e sei bem que uma pessoa despersonalizada nada tem a dizer, apenas tem a executar. Ou então são momentos (normalmente coincidentes com estes que acabei de descrever) em que a energia se vai, a vontade se vai, o olhar se vai, e tudo o que se deseja é, com o final do dia e da semana, chegar a casa e calçar as pantufas. E espanta-me sempre a facilidade com que fazemos do nosso e dos nossos o intervalo, e não o filme da nossa vida, como se a razão da nossa existência fosse fazer, e não ser!

Mas ando nesta vida há tempo suficiente para saber como tudo isto é cíclico. E necessário. Que vivemos (eu e os que me rodeiam todos os dias) num tipo de missão que exige nada menos que tudo o que temos para entregar, por amor - ainda que por vezes tenhamos necessidade que nos recordem que é por amor que o fazemos. Que, bem vistas as coisas, seria de difícil compreensão que chegássemos à fase final de cada ano letivo como se o estivéssemos a iniciar. Que, quando olhamos para trás, ou encontramos um rasto de pegadas profundas, ou percebemos que nem sequer caminhamos e apenas o tempo passou. Na verdade, quem caminha sabe que não há marcas quando se levita inocuamente sobre a vida, mas prefere a dor nos músculos das pernas cansadas da caminhada. É, ando nesta vida há tempo suficiente para perceber que, se nesta altura do campeonato estivesse fresco como uma alface, radiante e sem queixume, seria um péssimo sinal. 

Abraço, por isso, estes momentos como tento abraçar a vida: por inteiro, fazendo-os meus, antecipando o sorriso do futuro. Afinal, como sabiamente diz o Padre Almiro, mais vale uma vida gasta que uma vida enferrujada.

20220511

 

Não sou muito das redes sociais imediatas. Acho-as, hoje, fundamentais para comunicar aquilo que é breve e passageiro, mas prefiro o que deixa lastro. Por isso sou mais de blogues e de podcasts. Hoje de manhã ouvia um dos muitos podcasts que oiço onde se discutia a última prova de Formula 1, que aconteceu em Miami. Nunca tinha acontecido ali uma prova antes e o que o repórter disse foi que aquilo teve imensa gente, muita animação, mas que apenas 5% dos que estavam lá é que viram a prova ou sabem sequer o que é a Formula 1: os restantes foram apenas para o espetáculo e estariam qualquer que fosse a modalidade. E concluiu "se calhar é isso que é suposto acontecer e eu estou a ser demasiado exigente". Eu pensei imediatamente nas JMJ, que acontecerão no próximo ano. Nada a haver? Na minha opinião, tudo. Sim, será um enorme espetáculo, sim, terá milhares de pessoas, de jovens, sim, será um enorme acontecimento para a Igreja, para Portugal, para o mundo. Será? Até pela minha história de vida, acredito que Deus nos fala por meio de muitas circunstâncias e de muitas pessoas, que Ele está onde menos se espera e em quem menos se espera. E já tive o privilégio de testemunhar algumas dessas formas que Deus tem de se encontrar no íntimo de cada um - em Taizé tantas vezes! - e a transformação que fez acontecer a partir desse encontro. Também já acompanhei pessoas - novas e menos novas - a deixarem diluir Deus nos acontecimentos das suas vidas até O sentirem como um incómodo e a Ele regressarem quando "os ossos doem" e precisam de um amor maior. Acredito, por isso, que todas as pessoas e todos os lugares são possibilidades de encontro. Também as JMJ. Mas não acredito em multidões. Não para além do frenesim interior que, sendo intenso, tende a ser passageiro e em tudo semelhante a um concerto de música pop. É bom? É ótimo. O espetáculo, o estarmos muitos, aos saltos, sentidos à for da pele, a sintonia da multidão vibrante unida num mesmo objetivo, é profundamente inebriante. Eu próprio o farei, este fim de semana, em pleno Dragão, na celebração de mais um campeonato do meu FCP. É significativo para a vida? Em alguns, raros, casos, poderá ser. Mas no que toca às coisas de Deus, acredito que Ele escolhe o pequeno.

20220429

 

Há já muito tempo que abandonei a pretensão de ser percebido na minha maneira de amar. Cada um terá a sua, fruto do seu entorno pessoal, do amor e do desamor que experienciou, às vezes com dor, outras com inusitada felicidade, e eu, claro, não escapo à regra. 

Eu amo com pudor. 

O amor é uma porta que se abre apenas por dentro, que exige um consentimento e uma disponibilidade interior que nada nem situação alguma consegue forçar. É um diálogo, mútuo, íntimo, profundo, e porque é diálogo é propício a malentendidos, que, porque é profundo, são sempre dolorosos, que, porque são íntimos, nem sempre são portadores da clareza que facilmente tudo resolveria no amor. Há todo um cuidado, revestido de atenção, que se exige no amor. Um constante lidar com pinças onde as palavras, os gestos, as atitudes, os olhares, adquirem um peso que apenas no amor é o seu, específico, exclusivo, absoluto. A forma como olho, como falo, como escuto, como me entrego, a quem amo, é por isso diferente, também dependente da relação específica que tenho com quem amo. Não se ama da mesma maneira os pais e os filhos, os amigos de longa data e os de ocasião, e mesmo de entre todos estes, cada pessoa, cada relação tem uma vida própria que resulta da nossa história comum, da nossa partilha, da interioridade que nos habita.

Eu acredito que é perfeitamente possível amar apesar da distância física. Como não? Alguns dos meus filhos estão fora há algum tempo; não visito frequentemente os meus pais e os meus irmãos; raramente vejo alguns dos meus amigos mais perenes; não sou de estar sempre a telefonar e a combinar coisas e, com toda a sinceridade, prezo muito o meu espaço e o meu silêncio e a minha necessidade de não fazer sala, que normalmente carecem de uma urgência maior que a de me ver rodeado de pessoas, mesmo as que amo. Claro que adoro quando estamos na galhofa à volta da mesa, claro que preciso do encontro dos olhares, claro que o meu coração apenas sossega convenientemente quando vou sabendo que estão bem, que são felizes e que vivem as suas vidas de peito aberto. E claro que sei que, ao mínimo sinal, corremos todos uns para os outros sem qualquer reserva ou questão. Mas é muito bom quando amamos sem mútua dependência. Absolutamente de borla.

E termos a consciência que, por muito que amemos, não possuímos. Nunca.

20220425


Não é todos os dias que testemunho o nascimento de Deus em alguém.

Demasiadas vezes tenho Deus como garantidamente certo. Mesmo eu, que vivo imerso por entre pessoas para quem a referência mais imediata de Jesus é a do treinador de futebol, esqueço-me frequentemente que Deus é um habitante desconhecido em tantas pessoas das comunidades que habito. Este fim de semana foi de Rumos: uma caminhada de Ansião a Fátima por entre aldeias e caminhos de santiago entrecortadas por dinâmicas de reflexão e oração. Connosco, pela primeira vez, foram alguns miúdos do RAIZ para quem tudo aquilo era novo: o caminho, as aldeias, as paisagens, as reflexões, mas sobretudo as orações. Durante a primeira - feita logo no arranque - só se conseguiam rir de espanto e nervosismo: tudo era estranheza e sentiam-se peixes fora de água. Pouco tempo depois já no caminho, conversamos: "stor, eu não sei rezar, nunca rezei". "Não te preocupes, não tens que fazer nada, nem responder: limita-te a ficar em silêncio e a escutar. Se ajudar, fecha os olhos." Em cada reflexão, em cada oração, a cada passo, fui tendo-os debaixo de olho. No final do dia já não se riam, no dia seguinte já cantavam. Quando chegamos a Fátima entrei no recinto com dois deles. Testemunhar o seu espanto foi maravilhoso: de olhos esbugalhados, boca aberta, saiu-lhes um "isto é tão grande! Tem tanta gente!". Fui explicando o que era aquele lugar, porque estavam tantas pessoas vindas de tão longe, porque estávamos nós próprios ali. Sem grandes teorias, disponibilizando apenas as pistas fundamentais para se sentirem acolhidos na casa da Mãe. 

E louvei a Deus!

Eu já fiz missão em Moçambique. Sei por isso como é importante que alguns de nós tenham a coragem de ir para longe. Mas, mesmo naquelas (para mim) recônditas terras de Quelimane, nunca tinha sido parteiro de Deus. Demasiadas vezes tenho Deus como garantidamente certo. Demasiadas vezes esqueço que há pessoas que, olhando para a sua vida, a veem como alguns viram o túmulo: vazio de Deus. Iludidos pela aparência das circunstâncias, veem apenas que Ele não está lá. E não sabem que é em si que Deus habita. Porque nunca ninguém lhes disse isso. Porque nunca ninguém lhes forneceu a chave que permite sentir e viver a partir dessa novidade. Porque eu, conhecendo-os e conhecendo-O, não os apresentei mutuamente. E essa é, também, minha responsabilidade.

20220405

 
 
Espanto dos espantos: todos nós somos diferentes em função da companhia. Talvez não na essência - embora por vezes aconteça - mas na forma, com certeza que sim. Não faria sentido, aliás, se assim não fosse. Se não tivéssemos pessoas especiais e momentos especiais não teríamos amigos nem namorados nem casamentos nem confidentes e seria tudo a mesma coisa. E sabemos como isso não acontece. E sabemos também que não falamos com todos da mesma maneira, não dizemos a todos o mesmo e muito menos com a mesma profundidade. E isso não é menosprezo, mas escolha, o que torna as nossas pessoas muito especiais. As minhas são. E mesmo essas não se deparam com a mesma versão de mim. Até por causa das circunstâncias! Eu, por exemplo, tenho extraordinária facilidade em me comover enquanto testemunha direta de uma qualquer dor e, pelo contrário, tenho enorme dificuldade em agir à distância. Ainda agora, com a pandemia e, depois, a guerra da Ucrânia, confirmei que me é muito mais natural e imediato entregar-me a alguém para quem trabalho e passa dificuldades, que mobilizar-me para enviar bens ou dinheiro ou a mim próprio para uma situação que se passa longe daqui e com pessoas que não conheço. Se racionalizar a questão até chego lá, claro, e sei que é horrível, e acabo por me comover (sempre no sentido de mover com) mas nunca é um processo imediato. Por isso, é natural que, nas conversas com os meus filhos, eles por vezes pensem que o pai deles é alguém que se preocupa com os outros e noutras alturas, em função do que estamos a discutir, que eu não quero saber deles para nada. Quer isto dizer que me falta a justa medida, a perspetiva global, que sou inconstante e inconsistente? Talvez. Não digo que não. Mas também por isso me são tão importantes aqueles que amo, aqueles com quem converso, aqueles com quem aprendo, aqueles que leio e observo, todos os dias. Porque encontro neles o fiel da minha balança, a minha medida, as pessoas com quem me meço na sempre presente tentativa de descortinar o meu lugar. Por isso eu chego, invariavelmente, à conclusão, que sou melhor pessoa com as minhas pessoas que sozinho. E isso, para além de ser muito bom, é uma sorte do caraças. Quando me imagino noutro contexto... não seria bonito!

Bambora

  Não é estranho que nos digam que «ser homem é muitas vezes uma experiência de frustração». Mas não é essa toda a verdade. Apesar de todos ...