20190423






Diariamente leio muita gente, nos mais variados meios - blogues, jornais e livros são o meu meio de eleição - acompanho muita gente, converso com muita gente. Nem sempre aprendo mas fico sempre feliz quando aprendo. Sem me preocupar de onde vem o que aprendo. Muitas vezes vem de onde menos espero e recrimino-me por não o esperar, noutras vezes vem justamente de onde ou de quem eu espero e fico feliz pela confirmação. Também não sou esquisito acerca do que aprendo: aprender é aprender e faz-me sempre feliz. Nem que seja para não fazer ou não dizer ou não sentir, tudo isso é aprender e de tudo isso se faz a minha vida.
Um dos muitos blogues que sigo é o da Helena Sacadura Cabral. Por vezes gosto, por vezes não gosto, por vezes passo a correr, por vezes detenho-me na leitura. Gosto particularmente da forma como fala do e com o filho Miguel, já falecido. E aprendo. E fico sempre feliz quando aprendo.

20190420



Páscoa. Férias da Páscoa. Casa, celebrações, compras, limpezas, filhos. Ter de novo a casa cheia com a inevitável e saborosa confusão, com as inevitáveis e saborosas discussões, com a inevitável ausência de silêncio e sossego. Esse, juntamente com a serenidade, estão reservados para as caminhadas a dois e encontramos todas as noites na nossa Igreja, em comunidade, nas belíssimas celebrações que nos promovem o reencontro.

A Páscoa é sempre tempo de regressos.

Há já coisas que não faço a mínima ideia de como é viver sem elas. Não imagino como será viver sozinho, não imagino como será decidir sozinho o que quer que seja, não imagino como será projetar um dia tendo-me apenas como ponto de partida e chegada. Da mesma forma, não imagino como será viver sem Deus. Sem celebrar Deus. Não imagino como será Domingo sem Eucaristia, Natal sem Nascimento, Páscoa sem Ressurreição. Não são meros rituais, meros acontecimentos nos quais participamos externamente. São, todos eles, momentos de encontro, distintivos, que provocam um antes e um depois, alturas de confronto entre o que sou, o que quero ser e o que sou chamado a ser e, por isso, tempo de reconciliação, se não comigo próprio (é-me sempre mais difícil reconciliar-me comigo próprio), pelo menos com os meus outros. Que são sempre o melhor (único?) caminho para me reconciliar comigo.

À medida que os filhos vão sendo adultos vamos tendo formas distintas de celebrar estes momentos, e vai sendo mais difícil estarmos todos juntos nas mesmas celebrações, como acontecia até aqui. A dificuldade começa até na minha aceitação interior - que a exterior está lá - das suas escolhas de caminho. Para eles não é tão importante a presença nas celebrações - das quais ainda não sentem necessidade - e passam por este tempo mais no encontro pessoal que no encontro manifesto com Deus. Não lhes doem ainda os ossos, para utilizar uma sábia expressão que ouvi em Taizé. Os nossos ritmos vão sendo cada vez mais diferentes, nesta como noutras vertentes da nossa vida, o que implica um ajustamento até do que é ser família. Se até aqui era estarmos juntos nas mesmas coisas, agora é outra coisa, é amarmo-nos e preocuparmo-nos à distância e, por vezes, em silêncio. É a alegria de estarmos juntos à volta da mesa, de nos deitarmos com (quase) todos ao alcance do olhar, é o saborear o momento, sabendo que não durará muito porque daqui a pouco retorna tudo à sua rotina, longe de nós.

E ficamos nós. Os dois. Saborosamente os dois. Nas rotinas que vão sendo cada vez mais apenas nossas mas igualmente saborosas, feitas de descobertas e redescobertas, de muitas conversas, de caminhadas interiores e exteriores. De ajustes e reajustes, nesta aprendizagem mútua que nos vem da percepção que seremos cada vez mais - e mais saborosamente - nós.

E isto, tudo isto, é, verdadeiramente, tempo de Páscoa, tempo de Passagem, tempo de mergulhar da vida para que deste mergulho possa sair Vida.

Deus seja louvado!

20190327





(Des)Confiar habita o muro. Sempre. Nunca se afasta dele, nunca deixa a sua sombra, nunca permite que abandone o horizonte do olhar, nunca se deixa o seu alcance, nunca se deixa de colocar migalhas no caminho, só para o caso de se ter que voltar. Rapidamente. Em esforço.

A (des)confiança não nasce connosco. Vem com a consciência de nós próprios, da possibilidade da dor, da necessidade de avançar apesar da possibilidade da dor. Vem com a consciência dos outros, daqueles que contamos que nos amparem a queda ou nos reergam, sacudam o pó que engolimos, e nos impelem a avançar. A (des)confiança é irmã gémea do medo, omnipresenças de um equilíbrio que se queria permanente mas afinal periclita, abanando-nos por todos os lados.

Li um destes dias que as pessoas hoje, apesar de se sentirem ligadas ao Transcendente, se desligam dos rituais. Sorri. Eu sou um homem de rituais. Gosto de fazer as mesmas coisas nas mesmas alturas do dia e, embora goste de surpresas, não é nelas que encontro a confiança. Gosto de rezar pela manhã, de caminhar pela manhã, de dar os bons dias aos que amo logo pela manhã, seja em viva voz ou digitalmente. É uma maneira de me sintonizar comigo, com os meus, com este Deus que me acompanha. É uma maneira de me sintonizar com a vida, com aquilo que é verdadeiramente importante na vida. É a minha maneira de lidar com a (des)confiança e, assim, poder arriscar.

20190320






Tenho o meu sogro como um dos sábios com quem me cruzei na vida. O facto de ele, pelo menos aparentemente, nunca ter morrido de amores por mim - pelo menos nunca o manifestou e nunca o senti - apenas confirma essa sabedoria: via mais longe. Uma das suas frases que retive para a vida foi que as pessoas são caminho de salvação. Quando ele o disse referia-se aos doentes e velhinhos, particularmente aos acamados e difíceis de tratar, que são caminho de salvação para todos os que os visitam ou deles cuidam.
Hoje, enquanto caminhava e me preparava para enfrentar o meu Deus daqui a pouco, pensava na grande questão que tanto me abalou há uns anos: como me apresentarei ao meu Deus? Que Zé é este? E pensava naqueles que, particularmente nestes últimos anos, fizeram e fazem parte desta caminhada. E pensava naquela frase do meu sogro.
O discernimento dos outros, o "já chega", o forçar-me, ainda que por falta de alternativas, a mudar de direção, o permanecer junto de mim, o acolher partes de mim rejeitando outras forçando à transformação, os pequenos e grandes toques, as pequenas e grandes conversas, as pequenas e grandes decisões, as pequenas e grandes e incompreensíveis loucuras, tudo isso são caminhos que, por percursos mais ou menos enviesados, me permitem enfrentar o meu Deus confiando-me mais ao Seu Amor. Se hoje me sinto amado, se hoje me sinto em construção, se hoje me encontro em caminho, se hoje consigo olhar para o meu destino carregando inteiro o que eu sou inteiro devo também a todos os que me amaram o suficiente para me salvarem de mim próprio. Não é questão de gostar mais ou menos de mim, é questão de confiar que isso é irrelevante para Aquele que me acolhe. É aceitar-me. Assim. Como sou. Exatamente como sou: alguém que tem ainda muito para caminhar.

20190318









Tenho aprendido que quando se educa nada se consegue se não for trabalhado por dentro. É também por isso que adoro Jesus. E é por isso que recorro a Jesus quando tenho a serenidade e a sabedoria de conseguir preparar um confronto. O meu instinto mais primário, mais antigo, mais consolidado, é o do bairro: assumir a contenda, de peito feito, como se habitasse constantemente uma arena. Olhos nos olhos, corpo no corpo, braço no braço. sai melhor quem melhor aguenta as pancadas do adversário. Isso é o que sou, se me deixar ir. Mas há o que eu quero ser, o que sou chamado a ser: fazer com que os outros sejam. E para isso, a pedagogia de Jesus é imbatível: acolher a primeira pancada, transformá-la, responder com o que há de verdade positiva no contendor, transformá-lo desarmando a sua ira, retribuindo fazendo sentir que essa ira não tem lugar entre nós.

É quando consigo isto que me consigo sentir mais cristão, melhor seguidor de Jesus. Não é porque me sinta intrinsecamente bom - nunca sinto - não é quando O estudo, não e quando ando à procura das respostas. É aqui. Quando me contrario, quando tomo conta dos meus instintos, quando consigo ter a ilusão que, por escassos momentos, consigo fazer o que imagino que Ele faria. Que é, invariavelmente, fazer-me pequeno.

20190301








Do Livro de Ben Sirá 6, 5-17

A palavra amável multiplica os amigos
e uma língua afável atrai saudações agradáveis.
Sejam muitos os que te saúdam,
mas por conselheiro escolhe um entre mil.
Se quiseres um amigo, tens de o pôr à prova
e não tenhas pressa em lhe dar a tua confiança.
Porque há amigos de ocasião,
que não serão fiéis no dia da adversidade.
Há amigos que se tornam inimigos,
revelando as vossas contendas para tua humilhação.
Há amigos para a mesa,
que não serão fiéis no dia da desgraça.
Na tua prosperidade estará contigo,
falando livremente aos teus familiares;
mas se fores humilhado, será contra ti e esconder-se-á da tua presença.
Afasta-te dos teus inimigos e acautela-te dos teus amigos.
O amigo fiel é abrigo seguro: quem o encontrou descobriu um tesouro.
O amigo fiel não tem preço: não se pode medir o seu valor.
O amigo fiel é remédio da vida: os que temem o Senhor hão de encontrá-lo.
Quem teme o Senhor orienta bem a sua amizade,

porque tal como ele é, assim é o seu amigo.

Hoje rezei-te. Rezei-nos. Agradecendo. Louvando. Trazendo à mente as nossas memórias, as nossas conversas, as nossas caminhadas, aquelas imensamente pequenas coisas que nos fazem pertença. As vezes que fomos escuta mútua, partilha, divisão, multiplicidade, sintonia, cumplicidade. Revisitei o sol que nos queimava, a lua que nos iluminava, as manhãs frias e as noites quentes, os cheiros, os sabores. Recordei os choros e os risos e as palavras, a imensas palavras trocadas quase em surdina ou vociferadas por entre brincadeiras disparatadas. As palavras sábias, certeiras, na hora certa, no momento exato, e aquelas completamente ao lado, completamente fora do contexto, que provocaram espanto e ira. Ambas, as palavras, incómodas, desinstaladoras, abanadoras de consciências, despertadoras de mundos interiores até então nunca pensados, são também o nosso património, pertença nossa, pertença mútua. Pensei nos para sempre e nos nunca mais que volta e meia semeamos e depois morrem de fome e de sede porque nunca mais os alimentamos. Pensei em como o deixar correr, deixar que o tempo seja tempo, deixar que a vida faça vida, não nos separa nem nos une, que o nosso lugar comum é exatamente aquele que sempre foi, que sempre será, sem qualquer alteração, com uma estranheza desvanecida após os cinco segundos em que os nossos olhares se encontram e se reconhecem e rejubilam por nos voltarmos a encontrar. 
Hoje rezei-te. Rezei-nos. Agradecendo a Deus. Louvando a Deus.
Por te ter na minha vida.
Desde sempre.
Para sempre.

Obrigado

20190227






Não me recordo de uma única vez em que tenhamos conversado sobre o que quer que  seja em que eu tenha ficado na mesma. No sábado, em Fátima, voltei a ver um dos meus mestres e claro que tinha que ir ter com ele. "Então como andas?" "Bem. Sem ressentimentos", disse-me, enquanto, como é seu timbre, o seu olhar vagueia. "E isso é o mais importante, não ter ressentimentos. Aceita-se o que nos acontece e vive-se com isso." Vindo de alguém que vi a primeira vez com meia centena de miúdos à volta a fazer a caça ao leão, isto não é resignação. É aceitação, mesmo. É sabedoria.
Viver com ressentimento é desperdício. Podemos sentar e lamentar, podemos chorar, podemos até perguntar porquê eu, não podemos permanecer aí. É desperdício. Não é que nos acontece que determina quem somos, mas o que fazemos com o que nos acontece. A forma como reagimos ou não, a forma como levantamos, a forma como vivemos depois de levantados, isso sim é determinante, não apenas para nós mas sobretudo para quem nos rodeia, e ainda mais para quem nos viu caído. Não é por vingança ou revanchismo ou orgulho. É fé. Esperança. Confiança. Em Deus, nos outros, em si próprio. É aqui que reside a força imensa que não permite que deixemos de caçar o leão. Porque é sobretudo na dificuldade que podemos ser mestres. De nós próprios. Dos outros. O Gaspar é um dos meus. Deus seja louvado!

Bambora

  Não é estranho que nos digam que «ser homem é muitas vezes uma experiência de frustração». Mas não é essa toda a verdade. Apesar de todos ...