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Nada existe, nada acontece, nada se sente, acima do Amor. Não existe escala de conceitos, filosofias ou conhecimentos que supere a certeza, íntima, profunda, quase secreta, de se saber amado. Intimamente amado. Profundamente amado. 

Li ontem algures que um padre apoia o Ventura. O seu argumento é que este condena a eutanásia, que é o único factor dogmático que está em causa. O racismo, a estupidez, a barbaridade são achismos acerca dos quais o dogma da Igreja nada diz. Logo, são secundários. Triste igreja a sua, que, entre amar e dogma, escolhe o dogma. A minha - que é a também a sua - é a de Jesus que, sempre que teve que escolher, escolheu Amar.

Ando a ver uma série - Billions - onde as duas personagens habitam pólos opostos da sociedade: da justiça - promotor público - e da trafulhice - investidor!  à medida que avança verificamos que, sob a aparência, nada é assim tão claro: um e outro necessitam de jogadas dúbias para se manterem à tona, trocando de papéis várias vezes. E há algo que (n)os une: no final do dia, importa contar com o amor de quem (n)os conhece bem.Inteiros!

Conversamos, discutimos, amamos. Não somos de superfícies nem de coisas por dizer Não somos de calar, de deixar andar, de fazer de conta. Somos do profundo, do rir juntos, do chorar juntos, do planear juntos, do construir juntos, do recomeçar juntos. Juntos é a palavra chave, qualquer que seja o verbo que a antecede. 

Não existe alegria maior que me sentir amado.

20210115

andaimes

Trouxeram a Jesus um paralítico, transportado por quatro homens;  e, como não podiam levá-lo até junto d’Ele, devido à multidão, descobriram o teto, por cima do lugar onde Ele Se encontrava, e, feita assim uma abertura, desceram a enxerga em que jazia o paralítico.  Ao ver a fé daquela gente, Jesus disse ao paralítico: «Filho, os teus pecados estão perdoados». 

Como acontece todos os dias, vinha atento ao Passo-a-Rezar com que fazemos a viagem matinal.  Acontece muitas vezes que, a partir da Leitura do dia, eu viaje num sentido que nada tem a ver ao escolhido. Hoje foi um desses dias. Não sei porquê - normalmente não me pergunto porque motivo, na oração, vou em determinado sentido: é essa uma das formas em que, acredito, o Espírito Santo atua em mim - mas detive-me nos quatro que levaram o paralítico a Jesus e daí não mais saí. Não voltam a ser referidos na passagem bíblica, não se sabe o que lhes aconteceu, nem se conhece palavra alguma que Jesus porventura lhes possa ter dirigido. Nada. Apenas se sabe que pegaram no paralítico e, na impossibilidade de o fazerem chegar pelos meios normais, pensaram fora da caixa: não vai pela porta, vai pelo telhado. E foi por eles que o paralítico foi salvo.

No gabinete de contabilidade onde trabalhei vários anos - e onde me fiz gente - havia um senhor que nos formava a todos. Era da velha escola, desconfiava das máquinas de somar - cujas fitas confirmava somando-as de cabeça - e nada queria com os recém aparecidos computadores. Tinha ainda aquelas mangas pretas de colocar por cima da roupa - para que a camisa não se sujasse ou gastasse - e olhava para nós por cima dos óculos - como os meus miúdos dizem que eu olho para eles agora! Era dono e senhor daquela sabedoria antiga que não vem dos livros e dava-me conselhos que permanecem, hoje, preciosos. 

"Quando assistires à retirada dos andaimes, reza pelos andaimes. Fundamentais à obra, serviram de amparo à sua edificação, e no final são retirados como se nunca tivessem existido."

Ao longo da minha vida tive pessoas assim. Particularmente quando me encontrava paralisado, sem saber o que fazer. Tive quem me edificasse, quem me levasse, nem que fosse pelo telhado, até onde precisava de ir. 

Hoje é, para mim, um bom dia para as recordar. E agradecer.

Bambora

  Não é estranho que nos digam que «ser homem é muitas vezes uma experiência de frustração». Mas não é essa toda a verdade. Apesar de todos ...