20191022


Recebi a notícia com o mesmo arrepio com que a reencaminhei para os meus filhos: ao que parece, houve abusos em Taizé por parte de um dos irmãos. 

Lá em casa todos estamos de alguma forma ligados a Taizé. Seja porque já fomos, seja porque outros foram, seja até como Igreja idealizada, Taizé é como um reduto. Já quase todos fomos felizes lá - falta apenas o mais novo - e todos queremos regressar. Sabia, por isso, que iria ser uma pedrada. Mas não podia deixar de enviar.

Esta semana, na catequese, não falamos de Taizé - que ainda não lhes diz muito - mas de santidade. Do que é ser santo e, sobretudo, se eles querem ser santos. Como já há alguns anos tínhamos falado de santidade, desta vez sabiam o que responder: santidade é querer viver com Deus como pano de fundo. Não é conseguir, não é ser perfeito, não é ser impoluto, é antes saber que temos um Pai pronto a acolher-nos de braços abertos apesar do nosso pecado. Assim saibamos ser suficiente genuínos no arrependimento e no desejo de voltar.

Quando li a notícia, foi nos irmãos de Taizé que pensei primeiro. Como deve ter sido um rude golpe! Como devem ter tremido na decisão do anúncio! Como devem ter desejado não divulgar, adiar, esperar por certezas, proteger a comunidade! E como devem confiar nos braços do Pai por decidirem viver na verdade! Por muito menos já aconteceu imensa coisa a imensas pessoas e organizações. 

Mais uma lição de vida!

20191021












"... expliquem-me como se eu tivesse cinco anos..." No início, esta minha expressão causa alguma estranheza. No final do dia, os miúdos que acompanho em Dia de Reflexão já nem me deixam terminar: "... como se eu tivesse cinco anos..."

Eu sou seduzido pela complexidade. Particularmente do pensamento, do raciocínio, que me ocupa horas todos os dias, e cuja descoberta me faz vibrar sempre intensamente. Quando consigo ler, ver, ouvir, ou esclarecer eu próprio aquilo que permanecia intuitivamente intrincado, já ganhei o dia. Percorro muitas vezes a Bíblia à procura do imenso que ainda não entendo mas que intuo que deve andar por lá, leio textos e livros e comentários, muitas vezes à procura de um pormenor que não interessa a ninguém - muito menos ao Menino Jesus - mas que teima em andar às bolandas cá por dentro, e que, enquanto anda, não me permite sossegar.

Por isso deixo-me espantar muitas vezes pela simplicidade do evidente. Do imediato. Do que funciona mesmo para quem tem cinco anos, ou sobretudo para quem tem cinco anos. Por isso regresso muitas vezes aos catecismos da infância, às orações dos pequenitos, ao básico mais básico, para me recordar que o fundamental da vida não reside no intrincado mas no simples.

Que é o lugar privilegiado de Deus.

20191016



Verdade e Serenidade. 
Odeio situações de tensão. Às vezes são inevitáveis, porque todos os dias lido com pessoas e tenho que tomar decisões e assumir posições que, naturalmente, não agradam a todos. Quando tenho que o fazer faço-o, nunca sem alguma dificuldade, mas também sem virar a cara. Mas tento preparar-me antes. Fazer uma espécie de percurso interior, antecipando aqueles que prevejo serão os meus estados de alma, por forma a conseguir seguir um guião. 
Ontem o guião era Verdade e Serenidade. Nenhuma delas é minha amiga íntima. E ambas estão intimamente ligadas. 
Provavelmente por motivos que enraízam na minha infância, tenho a tendência para a fantasia, construindo realidades paralelas que possam encaixar em mim ou nas quais eu possa encaixar. Mergulho nelas com alguma facilidade, e isso, quase sempre, provoca confusão e decepção à minha volta, e apenas à minha volta, porque eu, imerso na minha verdade privada, nem me apercebo que possa confundir ou desiludir. E como acabo por dizer ou fazer coisas que os outros não entendem e interpretam muitas vezes como sobranceria ou pura loucura, quando "acordo" para a realidade tenho tudo menos serenidade.
Também nisto estou em pleno processo de aprendizagem. Tentando antecipar os acontecimentos. Tentando rezar os acontecimentos. Tentando lançar sobre eles, no início de cada dia, um olhar o mais desapaixonado que me é possível - e muitas vezes é impossível porque eu vivo apaixonado - tentando fazer da Verdade e da Serenidade minhas amigas. 
Verdade e Serenidade. 
Hoje é um novo dia.

20191014


Ainda ontem, em conversa, partilhava aquelas que foram algumas das minhas desventuras e que, Graças a Deus, desembocaram naquilo que eu faço e sou hoje.

Acho sempre castiço quando me apercebo de particularidades de mim próprio e das minhas escolhas através de conversas de vão de escada que vou tendo com outros. É como se precisasse que eles sejam o meu espelho e apenas através deles me conseguisse ir destapando. Essa, creio, é uma das vantagens da idade: quando olho para trás consigo ver um percurso, um rumo, que continua a fazer sentido apesar dos acidentes, apesar de algumas más escolhas, sobretudo apesar de alguns dos inebriamentos com que a vida fertilmente me presenteia.

Durante alguns anos acreditei que me perderia com alguma facilidade. Era como um barco no estaleiro, que se consegue manter em doca seca graças aos apoios de que dispõe. Eu pensei, durante muito tempo, que era aí o meu lugar, no conforto da doca seca, onde o maior risco que corria era o cansaço simultâneo desses apoios, o que provocaria a derrocada final. Aprendi, no entanto, tarde mais ainda a tempo, a arte da navegação, a medo no princípio, não arriscando perder  de vista a segurança da margem,  erguendo as velas depois, arriscando o mar alto.

Essa é apenas uma das coisas boas de uma boa conversa: a redescoberta constante , no entanto, sempre nova, de nós próprios e da nossa vida.

20191009






Tem sido uma semana justamente como a prefigurava: demasiadas coisas importantes a acontecer ao mesmo tempo e eu com aquela sensação terrível de correr contra o prejuízo.
Correr contra o prejuízo nunca é coisa boa. Mas acontece com alguma frequência. Por muito que tente jogar na antecipação, pensar nas questões adequadamente - o que implica pensar nas alternativas e arranjar as soluções correspondentes - há alturas em que a vida se sobrepõe ao programado, em que a vida é o que é e não o que eu gostaria que fosse, e muito menos aquilo para o qual me preparei.

No meio disto tudo, no entanto, há sinais nos quais eu reparo e valorizo como sendo de Deus.

Todas as manhãs e fins de tarde mergulho na VCI. Lembra-me as artérias por onde o sangue é conduzido, com todos em filinha, com as entradas e saídas e os atropelos também. Hoje aconteceu algo que me espanta sempre: estávamos todos em fila, devagar paradinhos, quando se ouve uma sirene. Como por magia, num sítio onde não se via espaço , onde todos estavam com tempo contado ao minuto, abre-se uma via atempadamente, e passado uns segundos a ambulância passa por nós como se não existisse trânsito. Comove-me sempre. É muito fácil ser bom quando não se prescinde de coisa nenhuma, mas naquele sítio todos esqueceram, por brevíssimos momentos, o tempo que faz falta para o dar a quem precisa.

Estas coisas têm o condão de me por diante da vida. Por muitas coisas importantes que tenha, há sempre coisas mais importantes. E que me preenchem. Empenho total sim, compromisso total sim, entrega total sim, mas, no final do dia, pés na terra e olhos no céu.

20191007


Este é uma daqueles dias em que me sinto verdadeiramente um privilegiado. Não é um sentimento novo, ou raro, em mim, mas sabe-me sempre às mil maravilhas. Acabei de ter uma sessão de catequese com miúdos do 9º ano, na capela a pedido de uma delas, que tinha ficado de organizar esta sessão de catequese. Aproveitou algo que o sacerdote tinha dito na eucaristia de hoje e fez disso a nossa sessão de catequese. À atenção que teve durante a eucaristia juntou a sua forma de ser e levou a questão que a incomodava para o espaço onde merecia ser discutida: na capela, na catequese, com e por todos nós.
Nos primeiros tempos em que peguei neles lembro-me que uma delas disse que eu faço muitas perguntas. Foi um caminho nosso, em conjunto, ao seu ritmo, mas que permitiu que hoje se sintam à vontade para falar de tudo o que à fé diz respeito, sem receio das perguntas nem rendição simples e aparente às respostas que vamos dando uns aos outros. É uma catequese feita de perguntas e respostas, de questionamentos profundos, de procuras e achamentos, de mais partidas que chegadas. Mas é sobretudo um espaço de confiança, de descoberta, numa idade onde tudo é descoberta.
É, verdadeiramente, um privilégio poder testemunhar gente assim, deste calibre.

20191001


Uma confluência de pessoas e acontecimentos recentes. Estava em Roma, em pleno Vaticano, nada deslumbrado com a sua opulência, e lembrei-me, como sempre me lembro naquele lugar, do Tiago "Sabes, Zé? para mim isto não é Igreja, é turismo. Igreja é Taizé." Jantar de família, comemorativo, onde mais gostamos de nos juntar para jantares comemorativos. Naquela mesa redonda, com os meus à volta da mesa, a conversa acalorada à volta das coisas da Igreja. E a velha, antiga, pergunta do meu mais velho "como é possível que aceites que a Igreja paute a tua vida quando tem tanta coisa errada?" E a minha resposta: "quem configura a minha vida não é a Igreja, é Jesus. E como não consigo nem sei nem quero alimentar e viver a fé sozinho, a forma menos má de o fazer com os outros é na Igreja." Terceira confluência: missa dominical em Madrid, numa basílica menor. Tudo lá é conservador: a liturgia, a homilia, as pessoas que a frequentam. O sacerdote, velho e demasiado rotinado, abre a boca para dizer que Jesus não é contra a riqueza, é contra a opulência. E que a Igreja não é opulência. Olho à volta e vejo o contraste num altar excessivamente dourado - o dourado em Igreja é sempre excessivo - e, sobretudo, recordo a novíssima catedral de Madrid, tão recente quanto opulente.
Eu amo esta Igreja. Amo mesmo. Foi e continua a ser uma escolha minha, que não nasci dentro dela mas tudo fiz e faço para lhe pertencer. Mas, como dizia aos meus filhos naquela mesa redonda do restaurante, gostaria que fosse diferente em muitas coisas. Por isso batalho por ela todos os dias. Contestando-a. Desafiando-a. Do lado de dentro. Pertencendo-lhe.

Bambora

  Não é estranho que nos digam que «ser homem é muitas vezes uma experiência de frustração». Mas não é essa toda a verdade. Apesar de todos ...