20190604
Tenho andado desligado daqui. É mais ou menos comum, ou sazonal, se entendermos os estados de espírito como estações. Quando ando feliz, acertado, concertado, integrado, tendo a escrever menos. Se a isso juntarmos uma imensidão de coisas para avaliar, fazer e programar, fica mais difícil. Se, ainda por cima, estiver calor e o corpo não respirar, então aí é quase impossível sair alguma coisa, quanto mais alguma coisa minimamente de jeito.
Sim, estou meio concertado (não confundir com consertado, que isso ainda falta), resignado talvez, mas mais feliz. Já não ladro atrás de cada carro que passa ao largo, já não ando à procura da última bolacha do pacote e os moinhos de vento vão sendo menos sedutores. Já tenho muito com que me entreter e, sobretudo, que saborear, calmamente, enquanto me preparo para o por do sol. Provavelmente será da idade, do cansaço na sua versão mais pessimista; da sabedoria na versão mais otimista, que prefiro, mas estou numa outra fase, diferente, porventura mais reflexiva e certamente menos impulsiva. E isso é bom.
Á medida que o tempo passa tenho cada vez mais certezas que julho de 2017 foi um daqueles momentos decisivos da vida. O retiro em Vila Verde permitiu ver-me com outros olhos e, sobretudo, não me julgar tanto. Sei que tenho imenso a construir mas já não me martirizo por isso; sei que tenho imenso a crescer e a fazer mas já não me fustigo sempre que o não consigo; sei do imenso que me falta mas faço disso caminho e não desilusão. Na verdade, não sei se isso é bom ou mau. Depende de quem escuto. Uns dizem-me que baixei a fasquia e me rendi à mediocridade do que sou; outros dizem-me que cresci em sabedoria e por isso permiti que a vida se ajustasse a mim. Ou vice-versa.
Não sei. Sei que de manhã, quando acordo, já me consigo ver ao espelho.
Sem desviar o olhar.
20190524
Como qualquer mortal pensante, estou mais ligado a algumas ideias, que expresso em palavras idênticas, e resultam de uma linha de vida que, para o bem e para o mal, vai sendo a minha. Olhares, escutas, caminhos, juntos, tempo, parecem ter lugar cativo naquilo que escrevo apenas porque têm lugar cativo no que vivo.
No entanto, por vezes acontece ver, ler, ouvir, deparar-me de alguma forma com algo que escapa a esta dinâmica. Acontecimentos curtos ou esporádicos, que nada teriam para acamparem cá por dentro de são fosse uma palavra, um olhar, algo que me causasse espanto verdadeiro - o que, talvez fruto da idade, vai sendo cada vez mais difícil.
Mudei de operador de tv e net e tiveram que ir uns senhores lá a casa instalar o serviço. Dois. Brasileiros. Ambos na casa dos 30 e muitos, 40 e poucos. Um deles absolutamente normal. Outro, porém , com um olhar que ainda anda por aqui: triste, sofrido, mas grato. Como estivemos juntos a manhã toda, a determinada altura conversamos um pouco. Este homem, o do olhar, estava cá há um mês. Veio com a mulher e dois filhos, de dois e cinco anos. A meio do caminho percebeu que fora burlado e viu-se, com a sua família, num país completamente desconhecido, sem dinheiro nem lugar para ficar. Não virou a cara à luta - porventura até por falta de alternativa - e agora andava à procura de casa para alugar. Muito grato aos portugueses, que os acolheram como se fosse da família - palavras dele - e de quem só diz bem.
Calculo que seja preciso um estado de desespero absoluto para alguém se aventurar a ir para um lugar desconhecido com mulher e dois filhos pequenos. Desespero e confiança. Realmente as coisas mudam quando não as lemos mas as escutamos diretamente, quando o que vemos não são recortes de jornais ou fotos de redes sociais mas olhos, doridos, como o que tinha diante de mim.
Aquela curta conversa anda ainda cá por dentro. Penso como ele estará, se já encontrou casa, se a sua mulher já trabalha, se os seus filhos dorme à noite. Dá vontade de pegar neles, não para os meter numa redoma mas para os proteger, e tentar tudo para que possam ter as condições de sustentar a sua família com dignidade e possibilidade de futuro. Afinal é para isto a política, para ajudarmos a criar as condições para que todos possam ser felizes.
20190509
Disse à mesa que o Jean Vanier iria ser santo rapidamente. Como é hábito quando falo nestas coisas cuja importância os meus filhos ainda não entendem, fui olhado de lado, meio no gozo, como se eu vivesse noutro mundo. Como é hábito, sorrio e deixo que a vida se instale.
De há uns anos para cá - creio que depois de visitar a campa do Ir. Roger - tenho vindo a perceber como é importante termos contacto com santos. Atuais. Conhecermos a vida deles, lermos os seus escritos, contactarmos diretamente com a sua obra. Na verdade, pouco sei da sua vida concreta, mas o seu legado é uma lição de vida. Tanto o Ir. Roger como Jean Vanier são parte da nossa casa, apesar de nunca lá terem estado. Os meus filhos estão ou estiveram envolvidos com a dinâmica de vida e oração de Taizé e estão ou estiveram envolvidos na dinâmica de acolhimento do Fé e Luz. Não conhecemos os seus fundadores pessoalmente e, no entanto, pautam alguns dos momentos das nossas vidas. E isso é bom. Muto bom. Ainda que eles ainda não o consigam perceber.
Recordo-me da controvérsia que eu provocava sempre que dizia que o Papa não tinha mais responsabilidade que eu ou qualquer cristão na transmissão da fé. Claro que tudo o que ele diz ou faz tem uma outra dimensão mas acredito que aquilo que cada um de nós diz ou faz é igualmente importante. Para a formação da fé dos filhos o testemunho dos pais é mais importante que o do Papa, para a aprendizagem do processo de escolhas também, e acontece o mesmo na forma como a fé se plasma ou não no concreto da vida vivida. A minha responsabilidade na transmissão da fé é igualzinha à do papa. Temos papéis diferentes mas temos a mesma responsabilidade. Se não aos olhos dos homens, pelo menos aos olhos de Deus.
Da mesma forma, acredito que pessoas como o Ir. Roger e Jean Vanier e uma imensidão de outras cujos nomes desconhecemos fizeram muito mais para a vida de fé de alguns jovens que todos os papas juntos. Não são menos ou mais por isso, são diferentes. Assim como eu e qualquer cristão. Por isso é muito bom quando descubro que tenho para quem olhar para, pelo menos em alguns aspetos, tomar as medidas da minha própria vida. Se a minha referência fundamental é Jesus - é com Ele que me meço todos os dias - fico sempre feliz quando confirmo que outros apostam a vida em fazer o que Ele fez. E, Graças a Deus, à minha volta encontro, todos os dias, pessoas assim, que, quando me meço com elas, saio a perder. É sinal que estou no caminho certo.
20190423
Diariamente leio muita gente, nos mais variados meios - blogues, jornais e livros são o meu meio de eleição - acompanho muita gente, converso com muita gente. Nem sempre aprendo mas fico sempre feliz quando aprendo. Sem me preocupar de onde vem o que aprendo. Muitas vezes vem de onde menos espero e recrimino-me por não o esperar, noutras vezes vem justamente de onde ou de quem eu espero e fico feliz pela confirmação. Também não sou esquisito acerca do que aprendo: aprender é aprender e faz-me sempre feliz. Nem que seja para não fazer ou não dizer ou não sentir, tudo isso é aprender e de tudo isso se faz a minha vida.
Um dos muitos blogues que sigo é o da Helena Sacadura Cabral. Por vezes gosto, por vezes não gosto, por vezes passo a correr, por vezes detenho-me na leitura. Gosto particularmente da forma como fala do e com o filho Miguel, já falecido. E aprendo. E fico sempre feliz quando aprendo.
20190420
Páscoa. Férias da Páscoa. Casa, celebrações, compras, limpezas, filhos. Ter de novo a casa cheia com a inevitável e saborosa confusão, com as inevitáveis e saborosas discussões, com a inevitável ausência de silêncio e sossego. Esse, juntamente com a serenidade, estão reservados para as caminhadas a dois e encontramos todas as noites na nossa Igreja, em comunidade, nas belíssimas celebrações que nos promovem o reencontro.
A Páscoa é sempre tempo de regressos.
Há já coisas que não faço a mínima ideia de como é viver sem elas. Não imagino como será viver sozinho, não imagino como será decidir sozinho o que quer que seja, não imagino como será projetar um dia tendo-me apenas como ponto de partida e chegada. Da mesma forma, não imagino como será viver sem Deus. Sem celebrar Deus. Não imagino como será Domingo sem Eucaristia, Natal sem Nascimento, Páscoa sem Ressurreição. Não são meros rituais, meros acontecimentos nos quais participamos externamente. São, todos eles, momentos de encontro, distintivos, que provocam um antes e um depois, alturas de confronto entre o que sou, o que quero ser e o que sou chamado a ser e, por isso, tempo de reconciliação, se não comigo próprio (é-me sempre mais difícil reconciliar-me comigo próprio), pelo menos com os meus outros. Que são sempre o melhor (único?) caminho para me reconciliar comigo.
À medida que os filhos vão sendo adultos vamos tendo formas distintas de celebrar estes momentos, e vai sendo mais difícil estarmos todos juntos nas mesmas celebrações, como acontecia até aqui. A dificuldade começa até na minha aceitação interior - que a exterior está lá - das suas escolhas de caminho. Para eles não é tão importante a presença nas celebrações - das quais ainda não sentem necessidade - e passam por este tempo mais no encontro pessoal que no encontro manifesto com Deus. Não lhes doem ainda os ossos, para utilizar uma sábia expressão que ouvi em Taizé. Os nossos ritmos vão sendo cada vez mais diferentes, nesta como noutras vertentes da nossa vida, o que implica um ajustamento até do que é ser família. Se até aqui era estarmos juntos nas mesmas coisas, agora é outra coisa, é amarmo-nos e preocuparmo-nos à distância e, por vezes, em silêncio. É a alegria de estarmos juntos à volta da mesa, de nos deitarmos com (quase) todos ao alcance do olhar, é o saborear o momento, sabendo que não durará muito porque daqui a pouco retorna tudo à sua rotina, longe de nós.
E ficamos nós. Os dois. Saborosamente os dois. Nas rotinas que vão sendo cada vez mais apenas nossas mas igualmente saborosas, feitas de descobertas e redescobertas, de muitas conversas, de caminhadas interiores e exteriores. De ajustes e reajustes, nesta aprendizagem mútua que nos vem da percepção que seremos cada vez mais - e mais saborosamente - nós.
E isto, tudo isto, é, verdadeiramente, tempo de Páscoa, tempo de Passagem, tempo de mergulhar da vida para que deste mergulho possa sair Vida.
Deus seja louvado!
20190327
(Des)Confiar habita o muro. Sempre. Nunca se afasta dele, nunca deixa a sua sombra, nunca permite que abandone o horizonte do olhar, nunca se deixa o seu alcance, nunca se deixa de colocar migalhas no caminho, só para o caso de se ter que voltar. Rapidamente. Em esforço.
A (des)confiança não nasce connosco. Vem com a consciência de nós próprios, da possibilidade da dor, da necessidade de avançar apesar da possibilidade da dor. Vem com a consciência dos outros, daqueles que contamos que nos amparem a queda ou nos reergam, sacudam o pó que engolimos, e nos impelem a avançar. A (des)confiança é irmã gémea do medo, omnipresenças de um equilíbrio que se queria permanente mas afinal periclita, abanando-nos por todos os lados.
Li um destes dias que as pessoas hoje, apesar de se sentirem ligadas ao Transcendente, se desligam dos rituais. Sorri. Eu sou um homem de rituais. Gosto de fazer as mesmas coisas nas mesmas alturas do dia e, embora goste de surpresas, não é nelas que encontro a confiança. Gosto de rezar pela manhã, de caminhar pela manhã, de dar os bons dias aos que amo logo pela manhã, seja em viva voz ou digitalmente. É uma maneira de me sintonizar comigo, com os meus, com este Deus que me acompanha. É uma maneira de me sintonizar com a vida, com aquilo que é verdadeiramente importante na vida. É a minha maneira de lidar com a (des)confiança e, assim, poder arriscar.
20190320
Tenho o meu sogro como um dos sábios com quem me cruzei na vida. O facto de ele, pelo menos aparentemente, nunca ter morrido de amores por mim - pelo menos nunca o manifestou e nunca o senti - apenas confirma essa sabedoria: via mais longe. Uma das suas frases que retive para a vida foi que as pessoas são caminho de salvação. Quando ele o disse referia-se aos doentes e velhinhos, particularmente aos acamados e difíceis de tratar, que são caminho de salvação para todos os que os visitam ou deles cuidam.
Hoje, enquanto caminhava e me preparava para enfrentar o meu Deus daqui a pouco, pensava na grande questão que tanto me abalou há uns anos: como me apresentarei ao meu Deus? Que Zé é este? E pensava naqueles que, particularmente nestes últimos anos, fizeram e fazem parte desta caminhada. E pensava naquela frase do meu sogro.
O discernimento dos outros, o "já chega", o forçar-me, ainda que por falta de alternativas, a mudar de direção, o permanecer junto de mim, o acolher partes de mim rejeitando outras forçando à transformação, os pequenos e grandes toques, as pequenas e grandes conversas, as pequenas e grandes decisões, as pequenas e grandes e incompreensíveis loucuras, tudo isso são caminhos que, por percursos mais ou menos enviesados, me permitem enfrentar o meu Deus confiando-me mais ao Seu Amor. Se hoje me sinto amado, se hoje me sinto em construção, se hoje me encontro em caminho, se hoje consigo olhar para o meu destino carregando inteiro o que eu sou inteiro devo também a todos os que me amaram o suficiente para me salvarem de mim próprio. Não é questão de gostar mais ou menos de mim, é questão de confiar que isso é irrelevante para Aquele que me acolhe. É aceitar-me. Assim. Como sou. Exatamente como sou: alguém que tem ainda muito para caminhar.
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