20190115



Se perder não dói, não se perde, deixa-se ir. Não há perda sem dor. Qualquer que ela seja. qualquer que seja o seu tamanho, o lugar que ocupa, a importância que lhe damos. Pode doer um pouco menos, por relativamente pouco tempo, ou pode arrastar-se dias, semanas, meses, anos a fio, sem que aquela sensação de aperto nos permita voltar a encher os pulmões de vida.
Fazem-me alguma confusão aqueles que permanentemente encolhem ombros. Que não se ligam. Que não batalham. Que apenas habitam a superfície e não conhecem outro horizonte senão aquele se lhes apresenta ao olhar. Até têm metas e objetivos e elaboram rotas para os alcançar, mas ficam-se por aí, sem ousar, sem arriscar, sem descobrir o âmago, a intensidade, a alegria esfuziante do ganho, a dor desesperante da perda. Porque viver intensamente é também sentir intensamente. É arriscar muito, é ganhar muito, é perder muito, é assenhorar-se do futuro, ainda que ilusoriamente e por breves momentos, porque logo a seguir é-se dono de coisa nenhuma. É amar, muito, e loucamente.
"São-lhe perdoados os muitos pecados porque muito amou. Àquele a quem pouco ama, pouco se perdoa." Amor e perdão estão intimamente ligados. Amor e risco estão intimamente ligados. Risco do excesso, risco do descontrolo, risco do incorreto, risco do inexplicável, risco da ausência de resposta cabal, racional, certinha, quando assumimos a coragem de a procurar em frente ao espelho. Por isso, ao amor do Pai está sempre associada a Sua misericórdia, Ao seu imenso Amor, o Pai associou a Sua maior misericórdia. Porque sabe que aquele que arrisca amar tem muito a ser perdoado. E precisa, sempre, de voltar aos braços abertos que vêm ao seu encontro.
Eu sei.

20190113


Conversávamos de como ainda somos construção. Supostamente, a esta idade, tudo deveria estar já consumado. Acabadas as preocupações, acalmadas as tarefas, sossegadas as inquietações, tudo deveria estar a convergir para a sabedoria e correspondente serenidade. Mas não. Quase todos os dias sou surpreendido por novidades, dentro e fora de mim, que me obrigam a corrigir rotas, redefinir atitudes, alterar procedimentos. Raras são as semanas em que algo não é desconstruído, seja pela realidade interior, seja por imposição externa. Penso sempre no modo de fazer do Pateta, esse filósofo da vida contemporânea que me acompanhou desde sempre. O Mickey, ao vê-lo de cinzel na mão perante um bloco de granito, perguntou-lhe o que ia fazer e ele respondeu "um elefante". "Mas sabes esculpir um elefante?" "É fácil, basta retirar do bloco tudo o que não é parecido com um elefante!".

Recentemente, uma das minhas inquietações mais profundas consistia em saber como me iria apresentar diante do meu Deus. O que Lhe diria? Como teria coragem de prestar contas de mãos cheias de nada? Talvez seja isso que esteja a acontecer. Talvez esteja a ser esculpido segundo o método do Pateta para que vá ficando mais próximo de quem sou. Talvez vá sendo retirada, camada após camada, cada ideia fala, cada convicção errada, até que reste apenas eu. Talvez nessa altura - que, espero, ainda demore, até pelo imenso que há ainda a desvelar - eu possa saber, exatamente, de corpo e alma inteiros, como me hei de apresentar diante do meu Deus. Até lá, é levar com o cinzel em cima. De alma grata e sorriso nos lábios.

20190110



Sou da palavra. É curioso, porque normalmente apresentam-me como alguém da música, mas a palavra tem, em mim e comigo, um peso substancialmente superior. Acredito, verdadeiramente, no poder da palavra. Uma boa conversa, se possível com a mutualidade do olhar, uma boa escuta, por vezes até uma discussão aguerrida em busca de um consenso, constituem algumas das memórias mais gratificantes da minha vida. Mesmo quando caminho sozinho dificilmente o faço em completo silêncio. Há um diálogo entre mim e eu próprio, entre mim e o meu Deus, entre mim e os meus outros, ainda que apenas dentro de mim, que muitas vezes me serena e me ajuda a encontrar as respostas para o meu quotidiano.  

No entanto, não tenho a palavra como definitiva. Porque a palavra por vezes não basta. E até é dispensável. Apesar de ser da palavra, prefiro por vezes o silêncio, o calar, o deixar que a vida e o tempo falem. Numa discussão demasiado exaltada o silêncio é preferível. Numa discussão unilateral, em que não somos ouvidos, o silêncio é preferível. Quando no que ainda há a dizer apenas sobressai a dor, o silêncio é preferível. Perante a inevitabilidade, o silêncio é sempre preferível. Porque a palavra, nessas circunstâncias, é muitas vezes eco de ressentimentos.

E para isso mais vale ficar calado.

20181227






Recentemente, em resultado de uma proposta que me fizeram à qual acedi mais curioso que convicto, fiz uma série de regressões a alguns acontecimentos importantes da minha vida. Na verdade, a única coisa nova para mim nesse processo foi a condução exterior, porque revisitar-me, procurar-me, desmistificar-me, é algo que faço com alguma frequência e nem sempre com bons resultados. Talvez tenha sido por causa disso que tudo aquilo deu em nada. Talvez porque não visitasse nada de novo, talvez porque, nesta fase da minha vida, nada haja no meu passado que considere assim tão importante mudar, talvez porque pretenda continuar neste processo de aceitação do que sou tal como sou, porque é assim que me apresentarei ao meu Deus.

Tudo isto tinha como pano de fundo a minha gaguez e a minha vontade de a "curar". Acontece que nem acreditava numa possível cura nem sentia grande necessidade de ela acontecer na minha vida. Gaguejar faz parte do que sou e, se pudesse alterar alguma coisa de essencial em mim, gaguejar dificilmente estaria no top ten. Ao formular isto em voz alta não sei quem ficou mais surpreendido, se eu se o psicoterapeuta. Mas é verdade. Se eu pudesse alterar algo em mim talvez escolhesse a permanente dependência afetiva, ou as explosões de mau feitio, ou me consederia uma maior proactividade, maior clareza de espírito, substituir algumas perguntas por respostas mais consolidadas, maior serenidade, muito maior sabedoria... tanta coisa!

Contudo, parece-me interessante a possibilidade de revisitar pessoas e momentos e palavras e atitudes. Sobretudo aquelas que provocaram alguma dor. Sobretudo em alguém que não a mim. Claro que o passado já passou e nada há a fazer para remediar a situação. Mas se essa revisita me permitir acautelar futuras dores, sobretudo alheias, creio que terá valido a pena.

20181126



Acho sempre extraordinário quando consigo desmontar algumas das minhas ideias feitas. Tenho uma larga tendência para deitar pela boca fora algumas - para mim - verdades absolutas que a vida se encarrega de desmoronar. Uma delas é que a idade não é um fator importante para mim. E depois olho para o que escrevo e percebo que este tema anda perto da obsessão.

No entanto, há verdades que ainda o são e sempre o foram. A procura de mim próprio, por entre o imenso emaranhado do que eu sou, será, porventura, a minha maior verdade. Agora com uma nova roupagem, fruto de uma certa pacificação que a idade me foi trazendo, mas ainda assim, verdade.

Ontem, na homilia, o Padre Rosas falava acerca disto, da verdade, da verdade de cada um, da conveniente verdade de cada um que para tudo encontra a mais conveniente justificação. E de como isso nos afasta de nós próprios. Acontece-me muitas vezes nas suas homilias escutar apenas uma infinitésima parte delas, porque me remetem para esse tal emaranhado de mim. E ontem vagueei logo pelas minhas verdades, aquelas que conheço bem e assumo, mas também aquelas que, convenientemente, manipulo, para conseguir viver comigo. Não são muitas, já. Mas para o fim fica sempre aquilo que mais nos custa deixar, a perda mais profunda, a dor mais firme e duradoura.

Creio que isso acontecerá com todos, que todos têm lixo que preferem varrer para debaixo do tapete e esconder aos olhares alheios, mantendo aparentemente limpa a casa. Porventura alguns viverão melhor com isso que outros. Eu sei que já vivi. Mas agora, que ando em processo de limpeza da vida e da alma há já alguns anos - pela primeira vez com sucesso - sei bem o que tenho ainda de varrer, sei bem onde está cada pedacinho que precisa ser removido, resolvido, pacificado. E tenho-o feito. Com a arte, a paciência e a sabedoria profunda do Pateta. Nunca sem alguma dor. Que, no entanto, é largamente compensada pela noite com a cabeça em cima da almofada. Em paz.

20181122


Ali estava eu, diante das 4 pessoas que tinha diante de mim para cantar, a pensar na mais de dúzia que devia lá estar e não estava. E dei comigo a pensar coo dirigir é um trabalho muito solitário. Qualquer que seja a atividade. Qualquer que seja a equipa. Vesti o sorriso, levantei os braços, e começamos a cantar.

Houve fases na minha vida em que não dirigia nada. Era um excelente nº dois mas um péssimo nº 1. Talvez porque nessa altura a minha preocupação em ser gostado se sobrepunha a tudo o mais. A eficácia, a responsabilidade, o trabalho, eram levados a sério mas sempre sob aquele olhar inquisidor: espero que gostem de mim". Á medida que o tempo passa isso vai deixando de ser tão importante. Importa mesmo é que os meus gostem de mim. Sobretudo a longo prazo porque, como pai, também não posso ficar à espera que eles fiquem contentes quando os impeço de fazer algumas coisas. Os outros também são importantes. Muito importantes. Mas já não são decisivos.

Á medida que vou dirigindo - seja o coro, seja as formações, seja as equipas que vou dirigindo - vou percebendo que o respeito é mais importante. Podem não gostar das minhas decisões mas, se forem escutados, se estiverem a par de todas as razões, sobretudo se forem envolvidos nas tomadas de decisões, conseguem respeitá-las, apesar de não gostarem delas. Não gostarão tanto de mim, não o espero, pelo menos, mas espero a lealdade que o respeito pelo trabalho comum merece a todos nós.

Mas dirigir pessoas é uma tarefa que, em determinada altura, implica sempre a solidão da decisão. Posso escutar todas as pessoas, levar em consideração a sua opinião, a sua visão sobre as coisas, mas, na altura da decisão, estou sempre só. Porque apenas assim poderei assumir a responsabilidade.

Talvez tenha sido por causa disso que Jesus se recolhia sempre que tinha que tomar uma decisão importante. Fugia da multidão para pensar, pra escolher, para decidir e entregar a Sua decisão nas mãos do Pai. Ainda me falta isso. Já fujo da multidão, já penso, já decido, mas esqueço-me ainda muitas vezes de confiar a minha decisão ao Pai.

Espero que seja o próximo passo.

20181112





Eu gosto dos últimos. Sempre gostei. Talvez porque sejam os meus, o meu meio, aquele onde me situo com maior facilidade, aquele onde eu posso ser eu de peito aberto. Nos últimos existe apenas a realidade, quase sempre de forma bruta, pouco trabalhada, primária, e isso confere alguma tranquilidade. Com os últimos tanto posso receber um abraço como um banano, vindos do nada. Há ali autenticidade. Nos gestos, nas palavraa, nas ações. Gostas, gostas; não gostas, adiante que atrás vem gente. Não é uma questão de gosto, portanto. Talvez de inquietação. Talvez porque quando a balança pende demasiado para um lado eu tenda a olhar para o outro lado. Talvez porque muitas vezes prefiro olhar o olhar das pessoas quando olham um acontecimento que olhar o acontecimento em si. A verdade é que ao longo do fim de semana me dei a perguntar quem são, hoje, os últimos. Sobretudo para nós, cristãos, católicos. Quem são hoje os últimos? Pensamos imediatamente nos que atravessam o mediterrâneo tendo a vida por um fio, pensamos naqueles com que nos cruzamos a dormir nas soleiras das portas, eu penso logo nos miúdos, nos meus miúdos do RAIZ. Esses são os que me vêm à cabeça. Mas, armado em advogado do diabo, dei comigo a pensar nos outros, naqueles em quem normalmente eu não penso quando penso nos últimos. Nos trumps desta vida que fecham fronteiras, que vivem à custa dos outros, que exploram os outros, que conhecem as aparências e nelas chafurdam. Nos Patinhas desta vida para quem a felicidade se encontra nas notas e cotações da bolsa. E dei comigo a perguntar-me se aí habita Deus. E dei comigo a constatar que, claro, aí também habita Deus. E dei comigo a perceber que ser-me-ia infinitamente mais difícil ajudá-los a descobrir Deus que àqueles que de tudo necessitam. E concluí que também esses fazem parte, com certeza, dos últimos. Que merecem o nosso olhar. Apesar de tudo.

Bambora

  Não é estranho que nos digam que «ser homem é muitas vezes uma experiência de frustração». Mas não é essa toda a verdade. Apesar de todos ...