20150428



"Sou o teu anjo da guarda".

Eu sei. Sempre acreditei no meu anjo da guarda. Ou anjos, para ser mais exacto. Porque sempre acreditei naqueles que estão atentos ao que vou fazendo, ao que vou dizendo, ao que vou escrevendo, ao que vou revelando, inadvertidamente ou não, e me dão o toque, quase sempre de forma discreta, de olhos nos olhos, e me puxam de volta para o trilho certo.

"Estás sempre no teu centro"

Recordo-me do choque que senti quando o ouvi a primeira vez. Calmamente, serenamente, magoadamente, disse-mo como se me estivesse a proclamar uma qualquer evidência por mim sabida há muito. Não o sabia na altura, há quase trinta anos! E doeu-me. Não o ouvia há algum tempo. Há demasiado tempo! Tinha-o esquecido. E não me doeu menos!

"Tens que cuidar daqueles que amas. E que te amam."

É quando percebo melhor que falhei. Em toda a linha. Sem qualquer sombra de dúvida. É quando dói mais, é quando me apercebo que tudo o que tinha sido dito antes tinha uma raiz profunda, real, efectiva. É quando sei que tenho mesmo que parar, que baralhar e voltar a dar, que tenho andado numa outra realidade, demasiado desfasada com a realidade dos outros, Dos que valem a pena. Daqueles de quem é suposto que eu cuide.

"Sem querer, dá um passo em falso e mergulha no abismo. Os fantasmas assustam-no, a solidão atormenta-o. Como sempre procurou o bom combate, não pensava que isto acontecesse com ele. Mas aconteceu. Envolto na escuridão, comunica com o seu mestre.
“Mestre, caí no abismo. As águas são fundas e escuras.” 
“Lembra-te: o que afoga alguém não é o mergulho, mas o fato de permanecer debaixo de água.” 

Isto não foi dito. Foi lido. Hoje mesmo. Quando andava à procura, mais uma vez à procura.

20150423


"A minha vida é muito má, os meus irmãos estão na cadeia e tenho muitas saudades deles" Enquanto me dizia isto, chorava compulsivamente, pela terceira vez esta semana. Tínhamos ambos ido para o recato do gabinete depois de ela andar, mais uma vez, à pancada dentro da sala. Agarrei-me a ela, todo partido por dentro, e disse-lhe que ali todos gostamos muito dela e que a queremos lá, junto de nós, e que ela pode contar sempre connosco. Abraçou-me e, lentamente, os soluços foram serenando, e pouco tempo depois já me sorria, na sala.

Que se diz nestas alturas a uma miúda de oito anos? Dá vontade de pegar nela, de a meter numa redoma e garantir-lhe que o que aconteceu aos irmãos não lhe acontecerá. Não posso. Eu conheço outros irmãos seus. Já me passaram pelas mãos, há alguns anos, e são daqueles miúdos que até metem dó. Boa gente, serena, educada, sem qualquer outra perspectiva de futuro que não seja fazerem o que os mais velhos faziam antes de ir parar à cadeia. Volta e meia aparecem por cá e conversamos um bocado. Reconheço-lhes ainda a doçura no olhar, a simpatia no trato, o respeito nas palavras. Sabem que aqui, nesta casa, todos gostamos deles, e por isso prescindem da defesa e da cara de mau que vestem fora destes portões. Não invalida que há meia dúzia de meses ambos se tivessem envolvido num tiroteio e um deles tivesse sido baleado numa perna. Barra dura, como costumo dizer. Que parece de filme, mas que se passa aqui, a meia dúzia de metros, com miúdos que, noutras condições, noutras circunstâncias, poderiam ter sido tudo aquilo que quisessem. Assim, serão apenas mais um. A ler nas notícias do JN, não tarda muito.

Não tenho ilusões nem compro teorias dos coitadinhos. Muitos deles colhem aquilo que foram semeando, apesar do que lhes dissemos, apesar do que conversamos, apesar dos nossos esforços, invariavelmente mais exigentes que os dos seus pais, invariavelmente menos definidores que os dos seus amigos com tempo e dinheiro a mais no bolso. Mas isso não serve de nada. Talvez para aliviar as nossas consciências. Mas é coisa pouca. Pode funcionar em dias bons. Não hoje.

Há dias bons e outros nem tanto, aqui. Hoje já sei que não vou conseguir calar a cabeça. Vai ser uma longa noite!

Olho para o meu anelar esquerdo e não acredito. Já não o via assim despido há mitos anos. E despido é como quem diz, pois tem ainda bem patente, bem vincada, a marca da aliança que o envolve há quase vinte e cinco anos. Que saiu agora para servir de medida a uma outra, de prata fingida (parece que é ouro branco, ou lá o que é).

Ainda ontem conversávamos e eu disse, para seu grande desgosto, que não precisava de nada disso. Que não tem sido mau porque tenho visto na sua cara a alegria e a excitação enquanto marca o local, enquanto faz e entrega os convites, enquanto vamos a casa dos nossos amigos mais antigos para combinarmos as coisas. Fora isso, não precisava nem de convites, nem de jantar, nem de bodas. Bastar-me-ia nós os dois e os filhos, todos juntos, num fim de semana em qualquer sítio, a festejarmos juntos, o que tem sido a nossa vida. Juntos. Seria perfeito!

Ainda ontem, numa das conversas com os nossos amigos mais antigos, falávamos acerca da opção de alguns dos seus filhos que, alegando não ter dinheiro para casar, optaram por viver com os seus namorados. Não entendo. Não existe isso de não ter dinheiro para casar. O processo de casamento não custa mais que cem ou duzentos euros. Não é por aí, portanto. O que eles não têm é dinheiro para as quintas e para os temas das quintas e para os foguetes e a banda e toda a festança que agora é moda envolver um casamento. Eu não tenho nada contra aqueles que escolhem viver com os namorados. Principalmente se não têm vida de fé ou entendem que o matrimónio não é importante. Pelo contrário. Entendo-os melhor e respeito-os mais que aqueles que casam junto de um altar apenas porque sim. Mas não entendo que digam que não casam porque não têm dinheiro. Não casam porque querem boda. E não a podem pagar. Ponto final!

Ainda ontem conversávamos que tínhamos tido uma boa escola de vida. O JUP, com os convívios e retiros, com as catequeses, com os cânticos, depois com os fins de semana juntos enquanto os nossos filhos eram pequenos, foi, verdadeiramente, uma boa escola de vida. Passávamos férias juntos, acampávamos, organizávamos encontros de coros, escrevíamos jornais e assumíamos toda a vida juvenil numa paróquia em que o pároco primava pela ausência. E tudo aquilo que fazíamos revelou ser, à medida que o futuro nos foi chegando, uma rede de conhecimentos e ferramentas importantíssimas nos nossos casamentos, nas nossas profissões, na forma como vivemos, separadamente, a nossa fé. Agora que os nossos filhos começam a definir o seu presente e futuro, começamos a sentir necessidade de voltarmos a estar juntos, de retomarmos conversas e cumplicidades que nunca sentíramos que se tinham perdido mas apenas ficaram suspensas, por tempo indeterminado, até que voltássemos a ter vida própria.

Ainda ontem, quando regressávamos a casa, disse-lhe que isto sim, sabia-me bem. Este retomar de conversas e de partilhas, este pretexto para voltarmos a estar juntos, esta sensação que nunca nos deixamos de ter uns aos outros apesar do tempo, apesar dos filhos, apesar da vida que se foi interpondo, naturalmente, dirigindo o nosso olhar para o que ia sendo mais importante. E que, como sempre, tinha escolhido bem ao decidir fazer a festa não apenas com os nossos filhos mas também com alguns dos que têm capítulos dedicados da nossa vida. Mas que, ainda assim, dispensava bem a aliança de prata, ou ouro branco, ou lá o que é.

Ainda ontem, quando nos deitamos, recordei em silêncio as palavras que dissera, para mim há bem pouco tempo: "recebe esta aliança como sinal do meu amor e da minha fidelidade. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo." E disse-lhe que bom mesmo, para mim, iria ser repetir estas palavras na nossa cerimónia. Sabendo que elas estão cheias de verdade, de vida vivida mas também de ânsias de futuro. O resto - ela que me desculpe - é folclore.

20150422




A propósito do Tedx Porto, tem bailado cá por dentro uma pergunta: afinal, qual será a minha Main Thing? Não sei se o consigo definir. Desde que me conheço que não parei ainda de procurar. Nem acho que alguma vez isso irá acontecer, para ser verdadeiro. Talvez a minha Main Thing seja mesmo a inquietação, que me impede de estar parado e quieto, que me catapulta para outras coisas, para tentar sentir as coisas sempre novas, ainda que as faça pela enésima vez, que me põe em estado de caminho permanente sem, contudo, deixar de ir apreciando a paisagem.

Este ano comemoramos as nossas Bodas de Prata. Vinte e cinco anos de casamento, trinta de relação, porque assim que pusemos os olhos um no outro apaixonamo-nos e começamos a permitir-nos construirmo-nos mutuamente. Quando pensava na Main Thing e na inquietação que permanentemente me acompanha, perguntava-me como é possível conciliar essa inquietação com uma relação tão longa, tão exclusiva, tão cheia. Afinal, tantos anos juntos pressupõe, aos olhares alheios, quase uma estagnação, quase um acomodamento, quase uma resignação ao que está e ao que deve ser, como se tivéssemos sido condenados em vida, sem qualquer possibilidade de voltar a trás. E isso raras vezes aconteceu. E quando aconteceu, quando nos apercebemos que as coisas estavam de alguma forma a esfriar, a cair no rame-rame do quotidiano, sem qualquer frenesim, um de nós tinha a sabedoria de agitar as águas, às vezes da melhor maneira - um fim de semana a dois, um jantar a dois, uma caminhada a dois ou, quando o tempo escasseia, uma boa conversa a dois - outras vezes de maneira menos ortodoxa - às vezes uma boa discussão (com limites, claro) contribui verdadeiramente para a manutenção de uma relação saudável.

Se esta inquietação permanente - e os filhos, e a nossa vida voltada para fora, e a intensidade com que mergulhamos no trabalho, e a partilha profunda de grandes objectivos e visões de vida - impediu que o nosso casamento adormecesse, por outro lado também trouxe algumas vicissitudes, Levei tempo a perceber que eu não me esgotava enquanto marido e enquanto pai, que tenho outras dimensões que, não sendo tão fundamentais, são muito importantes para o meu equilíbrio e para a forma como me vejo enquanto pessoa, enquanto cristão. E se levei tempo a perceber isso, levei muito tempo a tentar fazer percebe-lo, sem magoar, sem que fossem colocados em causa os alicerces profundos do nosso casamento: verdade, exclusividade, cumplicidade, amor. Também nesta tarefa o tempo corre a nosso favor: com calma, com serenidade, temos conseguido entender que nem sempre estamos juntos quando estamos fisicamente próximos um do outro. Nesta, como noutras pequenas e grandes coisas, estamos ainda em caminho. E isso é bom.

Em boa verdade, não sei se será a inquietação a minha Main Thing. Mas é uma boa questão, uma boa inquietação, e a ela voltarei com toda a certeza.

20150421


Durante a viagem de finalistas deste ano entretive-me algumas vezes a apreciar a escuridão da noite misturada com fortes rajadas de vento em pleno Mediterrâneo. Sentia-me suficientemente confortável e seguro para o fazer, a bordo de um verdadeiro colosso dos mares. Pensava muitas vezes como seria estar perdido no meio daquele mar imenso, no meio daquela escuridão imensa, daquela hostilidade imensa. E recolhia-me para o conforto do meu camarote, confortável e seguro, e esquecia rapidamente aquela estupidez.

Acredito que há níveis de desespero que não consigo sequer calcular. Nem que seja por pudor. O que levará alguém a meter-se num barco daqueles, a meter consigo a sua família, sabendo que estará a correr risco de vida, a colocar em risco a vida daqueles que ama, é algo que me está demasiado inacessível para sequer me permitir opinar. Mas que deve ser algo muito próximo do desespero total, disso não tenho qualquer dúvida. Preferir enfrentar a morte daquela maneira, escolher correr e fazer correr tamanho risco apenas será entendível quando viver é uma alternativa ainda pior. É algo que eu, a partir do conforto e segurança do meu camarote, não consigo sequer imaginar. Nem que seja por pudor.

Num dos dias de reflexão falávamos do RAIZ e de como algumas pessoas vivem com tão pouco. Eu e o Paulo olhamos uns para o outro imediatamente, porque nos lembramos logo de uma imensidão de pessoas de Quelimane para quem o "pouco" que qualquer pessoa cá no país tem, seria imenso face ao imenso que não têm. São realidades incomparáveis, tal a desproporção. O politicamente correcto muitas vezes apenas serve de entrave à vida das pessoas. Conheci muitos em Quelimane que dariam tudo para poderem vir para Portugal para fazer o que fosse preciso. Ainda que vivessem a apanhar papel e latas para reciclar, ainda que vivessem a estacionar carros numa qualquer praceta, ainda que trabalhassem de sol a sol apenas pelo ordenado mínimo, muitos deles teriam já imensamente mais do que alguma vez podem aspirar a ter na sua terra natal. Pelo menos teriam a esperança da mudança e da melhoria de vida. Lá, quando trabalham em troco de comida, pelo menos têm comida. Outros, nem isso...

Há uma enorme arrogância da nossa parte. Não nos cairia os parentes na lama se abdicássemos de algum do nosso conforto, de alguma da nossa segurança, de alguma da nossa possibilidade de futuro em favor daqueles que nada têm. Custa-me entender e conciliar as nossas queixas da quebra da natalidade comprometedoras do futuro enquanto impedimos que outros encontrem junto de nós a possibilidade de viver. Só um egoísmo atroz é capaz de o explicar. Sei bem que não faltarão os defensores dos direitos dos trabalhadores a dizer que eles não poderão vir sem terem garantidas as condições para uma sobrevivência digna. Lá chegaríamos, com certeza, com muito trabalho, com muita discussão, com muitas manifestações, por certo. Mas primeiro o mais importante: pelo menos a sua sobrevivência estaria garantida.

E, isso sim, seria verdadeiramente o mais importante.

20150417



Pelo brilho do seu olhar sabia que vinha aí coisa boa. Não calculava é que seria tão boa. "Estou grávida!"

Eu adoro, a cada momento, ser pai. Ainda que nada tivesse feito, ainda que tudo o resto fosse puro desperdício, bastar-me-ia ser pai para sentir que tudo tinha valido a pena. Mas ser mãe, no entanto, é outra coisa! Não é ter apenas alguém dentro, é ter, efectivamente, uma vida dentro, albergar um milagre inteiro dentro, e sentir o bebé mexer e crescer e palpitar e passar de um lado para o outro uma e outra vez e dar a volta e depois sentir que se tem um papel fundamental, físico, efectivo, para que nasça e aí, só aí, entramos nós os pais, babados, sofridos, sôfregos, a tentar recuperar de nove longos meses de espera, de suposições, de olhar para ecografias e não perceber puto, de tentarmos imaginar como será e desejarmos imaginar como será e ficarmos felizes porque sentimos um pontapé quando nos encostamos à mãe, e ficarmos embevecidos quando dormimos com a mão naquela barrigaça e temos um vislumbre do milagre que é albergar uma vida quando sentimos - senti? ou foi imaginação minha à custa de tanto desejar sentir? - que o seu calcanhar está ali, ao alcance da nossa mão, e ficamos felizes, tão felizes como se fossemos efectivamente nós os grávidos. (As nossas mulheres condescendem ao ponto de nos deixarem dizer que também nós estamos grávidos. Por vezes somos mesmo ridículos!)

Ontem fui de autocarro para casa e comecei a ler, nessa viagem, a bula de Francisco. Ás tantas o meu olhar deteve-se "... sem o testemunho do perdão, resta apenas uma vida infecunda e estéril, como se se vivesse num deserto desolador." Quem me conhece sabe que tenho mixed feelings acerca do Papa Francisco. Tem gestos extremamente importantes mas depois tem muitas alturas em que vai longe de mais, em que é quase pimba, tal é a vulgaridade. E que, quando escreve, me faz ter muitas saudades do Papa Bento XVI. No entanto, ontem, aquela frase levou-me à revisitação do meu dia, a uma reinterpretação, a uma revalorização, como se, de repente, se tivesse feito luz. A seu pretexto percorri, pela segunda vez no mesmo dia, conversas e olhares e dores e lágrimas, e renovei esperanças e confianças na vida e no amor. A seu pretexto agradeci por quem tem a coragem de recomeçar, de construir sobre escombros, de prescindir da fase do sonho e da ilusão e ainda assim acreditar suficientemente na vida para conseguir dar lugar ao perdão, por amor, superando dores e cansaços, medos e desilusões, preparando-se para as duras batalhas que aí vêm. A seu pretexto agradeci essas pessoas, que são quem melhor me fala de Deus, de um Deus que permite recomeçar sempre, de um Deus que se entrega sempre, de um Deus que ama sempre, que prefere sempre o amor ao ressentimento, a alegria à amargura, a docilidade ao azedume, sem perder no entanto a lucidez de quem tem os pés assentes no chão.  A seu pretexto sorri, mais uma vez, ao recordar o que me fez ganhar o dia: "Estou grávida!".

E, naquele autocarro cheio de gente a caminho de casa, louvei a Deus!

20150416


Há alturas em que me sinto mesmo deslocado como católico.

Sigo muitos blogues religiosos, católicos e protestantes, de outras confissões religiosas, de ateus... Tento sempre fazer com as leituras o que tento fazer com as pessoas: dou mais atenção ao que é escrito que à sua proveniência. É mais importante para mim o que é dito e feito que de quem vem o que é dito e feito. E tento sempre ver como se fosse novo, tentando evitar catalogar à partida. Muitas vezes não passa de um processo de intenções, muitas vezes o que faço fica muito aquém do que quero fazer e tendo a condenar ou apreciar à partida consoante a origem. Mas esforço-me sempre para que isso não aconteça, e às vezes sou bem sucedido.

Tenho sempre alguma dificuldade em perceber quem, de entre nós, prefere a letra à vida. Eu sei bem que a teologia é fundamental, sei bem que precisamos ter bons alicerces sob pena de andarmos como penas ao sabor do vento, sei bem que, particularmente num mundo em que as coisas nos são apresentadas com roupagens que não correspondem à realidade, tem que haver pessoas que, com muito esforço e dedicação, nos vão chamando à atenção, profetas dos nossos tempos, para que possamos saber sempre que chão pisamos. E sinto-me genuinamente grato por esse esforço, por esse cuidado, por essa assumpção de missão. No entanto, a linha que separa a obstinação dessa verdade alicerçada no papel é muito ténue, e eu vejo-me algumas vezes - sempre com desconforto! - do outro lado da barricada.

Sempre que me sinto desconfortável com a minha religião tenho um remédio simples. Pego numa das minhas meninas, procuro o sossego da capela, e canto e rezo e encontro-me. Recordo-me o que prometi quando, era ainda muito miúdo, comecei a tocar: que isto seja um meio de Te servir. Terá sido, provavelmente, o único compromisso consciente que fiz na altura, e regresso muitas vezes a ele. Digo muitas vezes que, quando as coisas se complicam cá por dentro, tento regressar às coisas simples, a ver quase como uma criança, para quem a única coisa que importa é o fundamental. Na minha fé nada há de mais simples que isto: pegar numa das minhas meninas e cantar e rezar e tornar-me com outros, e abandonar-me com outros e nos outros e, juntos, deixarmos que Deus nos mexa por dentro.

Não acho nada que isto seja mais importante que a teologia, não acho nada que esta seja a forma certa de se estar na fé, não acho nada que abandonar-nos à fé seja mais importante que pensar a fé. Todos temos um papel a desempenhar na Igreja, todos temos dons que importa colocarmos ao serviço da Igreja, todos temos o nosso lugar da Igreja. Em determinadas alturas preciso muito da sabedoria de quem pensa a fé. Noutras, porém, preciso mais de a sentir, de a partilhar por dentro. É este lugar à diversidade que torna a Igreja tão minha. Apesar do desconforto. Que é sempre ocasional.

Bambora

  Não é estranho que nos digam que «ser homem é muitas vezes uma experiência de frustração». Mas não é essa toda a verdade. Apesar de todos ...