20141128
Esta foi uma semana daquelas. O único dia em que jantamos juntos foi no já longínquo princípio da semana e não nos temos visto mais que por alguns momentos. Tenho andado a correr como um doido, reuniões aqui, ensaios ali, preparações em todo o lado. Como se não bastasse, partiram-me o vidro do carro e levaram-me o tablet. Provavelmente, quem o fez é amigo ou conhecido ou vizinho daqueles que estavam comigo na faculdade de Direito a assistir a uma palestra sobre os excluídos. Ironias! E no entanto...
Hoje, quem me visse na minha cada vez mais preciosa caminhada matinal junto ao mar, pensaria que sou (ainda mais) maluco, tal o sorriso. Esquisito, não?
Digo muitas vezes aos meus miúdos que conhecer Jesus rouba-nos desculpas. Deixamos de poder alegar desconhecimento ou distração, deixamos de poder olhar para o lado e ficar de consciência tranquila, deixamos de ter a consciência tranquila em qualquer dos casos, porque é sempre muito mais o que podemos fazer quando comparado com o que realmente fazemos. Deixamos de poder dizer que não sabíamos, ou que não sabíamos como fazer, que nunca nos disseram que o sermos todos irmãos é muito mais que uma frase bonita. Deixamos de nos sentir donos do que quer que seja porque sabemos que tudo nos foi dado e foi-nos dado para os outros. Deixamos até de sermos apenas nossos porque até a vida nos foi dada para que possamos ser para os outros. Por isso, conhecer Jesus não é conhecer um amiguinho bom que nos garante o arco-íris e o pôr-do-sol e o luar sempre bonito com doces harmonias tocadas por anjos, mas descobrir a inquietação que apenas encontra a serenidade quando conseguimos ser nos outros.
Mas não é apenas para isso que Jesus nos rouba desculpas. Conhecendo-o, deixando que ele permaneça na minha vida, querendo-o a meu lado, deixo também de ter desculpas para ser infeliz. Aprendo que as pessoas são sempre, mas sempre, infinitamente mais importantes que as coisas, aprendo a olhar para quem me acompanha e me desafia a ser melhor e a dar o que nunca julguei ter (essa treta de não se poder dar o que não se tem é isso mesmo: treta), aprendo a aprender de quem menos esperava aprender, aprendo a dar valor ao arco-íris, ao pôr-do-sol e ao luar como mais um risco numa tela que está plena de vida vinda da entrega e da descoberta do próprio Jesus nos outros.
Por isso esta semana não conseguiu roubar-me o sorriso. Enquanto caminhava pensava apenas em como tenho mais que motivos para louvar a Deus. Pensava nas deliciosas partilhas e descobertas desta semana, com amigos que apenas por acaso são colegas de trabalho, com miúdos que apenas por acaso são mais novos que eu, com pretéritos rufias em potência que apenas por acaso escolheram estar comigo e com a minha mais-que.tudo numa aprendizagem quando poderiam estar com os que se entreteram a mexer no que estava quieto. Pensava justamente na minha mais-que-tudo e como ansiava que ela estivesse ali, comigo, naquela caminhada matinal, como tantas vezes fazemos, e já agora, como gostava que os nosso filhos também lá estivessem, e fazia planos para que, talvez amanhã, o possamos fazer juntos. Pensava no tempo que não tenho e no tempo que não temos todos lá em casa porque todos escolhemos arranjar tempo para os outros, e pensava em como não termos tido tempo para nós pode não ser assim tão mau... desde que não abusemos.
Não, esta semana não me roubou o sorriso. Pelo contrário, permitiu que ele fosse mais sincero.
Job, lembras-te?
20141125
Foi mais ou menos na mesma altura, teria cerca de 14 anos, que duas leituras me marcaram e desde então me fizeram companhia: o livro de Job e o Cântico Negro. Na altura foram mais sentidas que entendidas, até porque tanto num caso como noutro, tinham muito de incompreensivelmente belo mas imensamente sedutor, tocando numa interioridade que, naquela fase da vida, estava muito longe de sequer imaginar que existia. Do Cântico Negro, que ouvi a primeira vez sublimemente recitado pelo meu extraordinário professor de Português do 9º ano - e que nunca mais ouvi da mesma maneira! - retive toda a raiva incontida, toda a agressividade, todo o desdém que decorre da inevitabilidade de se percorrer um caminho, que é o único, apesar de todas as dúvidas, de todas as contrariedades, de todos os medos, de todos os bons conselhos, de todos os dedos apontados. De Job, aprendi a confiança, até ao limite, contra todas as evidências, contra todos os dedos apontados, contra todos os bons conselhos, num Deus que me ama e que apenas quer o melhor de mim, porque apenas no melhor de mim encontro alguma paz. Entender a obstinação de um ajudou-me a perceber a minha própria obstinação; entender a tranquilidade do outro, ajudou-me a abandonar-me confiadamente, sobretudo quando já não tinha forças para mais. Um ajuda-me a perceber o que vou sentindo; outro ajuda-me a domar o que vou sentindo. Um e outro, em determinadas alturas, digladiam entre si, por vezes num tremendo rebuliço, que ecoa incessantemente e me rouba o silêncio. Noutras, porém, lá se conseguem entender, percebendo que há lugar para ambos, desde que sejam suficientemente cavalheiros para cederem a passagem conforme as necessidades. Esses são os meus dias bons, aqueles em que me percebo, em que sinto que por vezes até faço sentido.
20141124
foi imediato. vi esta imagem e pensei logo em quelimane, naquela casa onde tantas vezes foram buscar uma cadeira para que eu me pudesse sentar e conversar. ignorante, recusei-a quase sempre, não percebendo que naquela cultura a conversa de coisas importantes faz-se sentado, em sinal de respeito, tempo e disponibilidade. soube-o depois, já em maputo, demasiado tarde, digo eu. quando lá cheguei levava uma íntima arrogância no olhar e nos sentidos que nem um ano de formação conseguiu impedir. em abono da verdade, creio que nem meia dúzia de anos o conseguiriam, porque é preciso estar lá, viver com eles, sentir-lhes o cheiro, brincar e conversar com eles, para termos uma pálida ideia do que vamos lá fazer. e ainda assim, essa ideia é muito discutível, porque sabemos sempre que iremos voltar, que podemos voltar, que aquele não é o nosso lugar, que é uma questão de suster a respiração e esperar que o tempo passe. enquanto lá estive, apesar de toda a boa vontade, apesar das horas de sono perturbadas por aqueles miúdos, apesar de toda a entrega, extensiva a todos, eu sabia que haveria de voltar, que na noite escura os meus pensamentos e os meus sonhos estavam deste lado do hemisfério. apenas depois de voltar percebi muito do que lá vivi. num processo que ainda não está fechado, que ainda continua, e nem posso assegurar que alguma vez esteja absolutamente definitivo. vejo um filme sobre áfrica e sinto-lhe o cheiro a terra, a confusão, os esgotos a correr a céu aberto, e dou por mim a desejar aquele silêncio, aquele espaço, aquele luar. tenho sempre a ideia que lá hei de voltar, que a vida mo há de proporcionar e que, quando isso acontecer, receberei essa forma de vida de braços abertos. sim, porque a voltar será como forma de vida e não já de passagem. armado em visita.
20141122
"O próximo é aquele que cuida das feridas". Surgiu assim, do aparentemente nada, e fez-se luz: "o próximo é aquele que cuida das feridas". No clique que se deu cá por dentro, liguei instantaneamente ao que tenho sido nestes últimos tempos. E percebi imediatamente que tenho dado uma série de tiros ao lado. "porquê?" Apesar de não me ter em grande conta em muitas coisas, sei que penso a vida, sei que me preocupo em olhar e ver o que se passa à minha volta, em confrontar o que vou dizendo e sentindo e fazendo com aquilo que me é pedido que diga, sinta e faça. Sei, por isso, que nestes últimos tempos havia sempre algumas pontas soltas que me dificultavam a tranquilidade e me impediam o sossego. Olhava, olhava e voltava a olhar, e não conseguia encontrar o motivo. Só me podia ser externo, por isso. "O próximo é aquele que cuida das feridas." Não era externo. Era uma questão de olhar, de direcionar o meu olhar, de ver o que deveria ver e não aquilo que desejava ver. era uma questão de me deixar interpelar e mover por uma realidade que sei que existe, está lá, mas que eu preferia mil vezes que não existisse. Porque sei o que vai implicar. Agora que vi, efetivamente, acabaram-se as desculpas e lá vou eu ter que mergulhar e arranjar forma de colar a sarna que, inevitavelmente, aí vem. Apenas porque descobri que eu não estava a curar feridas, estava a abrir feridas, não estava a fazer parte da solução mas do problema, estava refastelado, comodamente sentado no que queria ver e sentir, em vez de abrir os olhos para o que se passava à minha volta.
20141120
Creio que ninguém me consegue fazer desejar recolher como Damien Rice.
Tem tudo a ver com inverno, com chuva miudinha, com uma boa conversa, uma lareira acesa, e o suave crepitar da madeira, e o suave o incenso que liberta, uma boa garrafa de vinho, uns cobertores e tempo, muito tempo, para que a conversa possa ser devidamente saboreada, degustada, como se de um bom Porto se tratasse.
Tem tudo a ver com regressar a casa, à nossa casa, onde nos sentimos aconchegados e eternos, protegidos de tudo aquilo que nos assalta a alma e perturba os dias. Uma casa que nada tem a ver com paredes e janelas e muros mas onde tudo são recantos, nossos, que falam a nossa linguagem, sussurrada, suspirada, transpirada por tudo o que vivemos e trocamos e conversamos uma e outra vez com o mesmo gozo e a mesma surpresa da primeira vez, porque para quem se ama como nos amamos qualquer vez é a primeira vez.
Tem tudo a ver com a noite, com o escuro da noite, aqui e ali apenas entrecortado com a luz refletida de uma lua que recorda, silenciosa, distante, o testemunho doutras paragens, muito mais distantes do corpo que da alma, que essa por vezes continua lá, autonomamente, (in)conscienciosamente, à espera que ambos se reencontrem e voltem a experimentar a liberdade que apenas a (in)consciência permite experimentar.
Tem tudo a ver com saudade, ser sermos quem somos, de voltarmos a ser quem éramos e de desejar sermos muito mais do que então poderíamos sequer imaginar. Uma saudade feita, por isso, de memórias e de desejos, de anseios e sonhos, de vontades não confirmadas mas sempre, sempre, desejadas.
Creio que ninguém me consegue fazer desejar recolher como Damien Rice. Tem tudo a ver connosco!
20141118
Foi a segunda vez que o ouvi. E gostei do que ouvi. Embora não me deslumbrasse, que eu ando nestas coisas há tempo suficiente para não me deixar deslumbrar facilmente. Tem uma visão nova, desempoeirada, que questiona as coisas da fé e da Igreja, e isso faz-me sempre bem. Porque questionar a fé e a Igreja é questionar-me a mim próprio e aquilo em que acredito, e questionar-me a mim próprio é contribuir para construir alicerces mais sólidos e profundos. Até aí tudo bem. A questão foi quando eu lhe pedi "por acaso não estará disponível para...". Vi logo nos seus olhos, na maneira como os desviava dos meus, no contraste da sua linguagem corporal com a que evidenciara enquanto proferia a sua palestra, o que a sua boca não conseguiu responder. Disse-me que sim quando eu lia distintamente que não. Tudo bem. Também eu sou muitas vezes encostado à parede, preso na armadilha que as minhas próprias palavras cuidadosamente me armaram. Nada de novo, portanto. Ontem, quando tentei confirmar o seu compromisso, disse que afinal não poderia ser. Tudo bem, na mesma. Também eu o faço algumas vezes - cada vez menos, espero, ou pelo menos, luto muito para que assim seja - também eu me refugio numa qualquer eventualidade que mais não é que uma desculpa que eu poderia contornar se assim o quisesse verdadeiramente. Vamos ao que verdadeiramente importa, à lição do dia para o sr. José: seja o teu falar sim, sim, não, não. Não te ponhas com demasiadas expectativas nem deixes que as ganhem em relação a ti. O que puderes fazer, faz. O que não puderes, faz na mesma se for mesmo importante. Mas não penses que podes tudo. Nem que a vontade pode tudo. E quando não pode - e tu sabes sempre quando não pode - di-lo na cara de quem conta contigo, ainda que vejas a deceção nos seus olhos. Custa, claro que custa, mas custa menos que deixá-la com as calças na mão. Como eu estou. Aprende, José, que eu não duro sempre!
Dia mais complicado! Passei o fim de semana alegre e confiante: tinha resolvido dois berbicachos aos quais faltava apenas a confirmação. Afinal, o primeiro apanhou uma gripe e deixou-me na mão, e ainda estou à espera que o segundo diga alguma coisa. Há dias assim, eu sei, e normalmente estou preparado para eles. E devia saber que eles nunca vêm sós. No ER a coisa hoje foi caótica: não havia monitores, os meus miúdos estavam todos, e todos impertinentes, e passamos hora e meia em que mais parecíamos protagonistas dos Gladiadores, comigo a tentar dominar as feras e elas sistematicamente a levarem a melhor. Por momentos pareciam hienas, as feras, porque se riam na minha cara ;-).
A experiência tem destas benesses. Já passei por muito, por muitas alturas de verdadeiro desespero, e aprendi a não julgar o tempo apenas pelo momento. Bem sei que as coisas doem é no momento, mas também sei como é importante conseguir manter a perspetiva correta dos problemas e aprendi, à força de cabeçada, que nem nunca é tão mau como quando tudo corre mal, nem nunca é tão como como quando tudo corre bem. Aprendi que amanhã é sempre outro dia e que é importante aproveitar o regresso a casa para serenar e voltar a por a vida no lugar a que pertence.
E como é bom regressar a casa!
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Bambora
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