20141029
Apesar da tentação, raramente caí no erro de enfiar os meus filhos numa redoma. Particularmente naquele período das suas vidas - breve, claro! - em que eles viam os seus pais como super heróis, como seres especiais (espaciais?) que nunca se enganam e raramente têm dúvidas e tudo fazem bem feito. Mais tarde, quando as coisas azedavam, perguntava-me muitas vezes se não faria melhor em esconder as falhas, em fingir que estava tudo bem, temendo sobrecarregá-los com questões que duvidava que eles estivessem preparados para entender. Numa altura em que azedaram mesmo, cometi esse erro. Antes de entrar em casa, vestia o sorriso, fingia que estava tudo e escondia-lhes tudo. A questão é que não se pode varrer para debaixo do tapete durante muito tempo e, como sempre, chegou a altura de sentarmos e conversarmos olhos nos olhos. E, como sempre, fui surpreendido pelo sua enorme capacidade de enfrentar a vida tal como ela é.
Não acredito que os pais e os filhos devam ser os melhores amigos. Não acredito que uns e outros devam contar tudo o que acontece nas suas vidas, com todos os pormenores, como fazemos uns e outros com os nossos amigos. Acredito sim em portas abertas, em vias de comunicação nunca fechadas, que façam sentir que qualquer que seja a questão, amamo-nos o suficiente para podermos lidar com as falhas e as fraquezas de uns e de outros, quaisquer que elas sejam. Acredito muito em olhos que querem ver, particularmente em olhos que sabem ver o que não quer ser visto, mas que sabem esperar a altura certa para conversar, sem atrapalhar o que cada um tem que resolver por si próprio. Por vezes basta um "estás bem?" que seja tudo menos circunstancial para que percebamos que estamos ali para o que der e vier. Uns e outros sabemos que não somos perfeitos. Mas uns e outros sabemos que todos os dias tentamos sê-lo. Às vezes, corre bem. Noutras, nem por isso. É também para isso que estamos lá.
20141028
A propósito de uma oração para os Dias de Reflexão que temos feito, tenho andado às voltas com o que é necessário para amar. E comecei e parei na vontade. O "eu quero" é absolutamente insubstituível. Amar é sempre, sempre, uma questão de vontade, decorre sempre do "eu quero". Se no amor pelo outro isto é pacífico - podemos sempre passar ao largo e fingir que não é nada connosco - no amor a dois tem implicações nem sempre percebidas. Uma relação a dois, qualquer que seja o seu estádio, exige sempre a vontade expressa e assumida de ambos os protagonistas. Basta que um deles, às tantas, não esteja para aí virado, que as coisas começam a ficar muito complicadas. Em sentido contrário, independentemente do que tiver acontecido na relação, basta que ambos tenham a vontade, firmemente expressa e assumida, de voltar a amar e as coisas continuarão a caminhar. Provavelmente não como antes, mas continuarão a funcionar.
Claro que isto não tem nada a ver com o que se passa nos filmes que vemos. Mas são raros os que falam de amor. Normalmente começam com um encontro onde há um arrebatamento, forte, intenso, e o filme termina quando essa paixão é satisfeita. Raramente lhe dá continuidade, porque a continuidade é mais profunda, menos visível e certamente menos percetível aos olhares menos atentos. Por isso quando vemos filmes de amor - e de repente vem-me à cabeça dois extraordinários: Amigos Improváveis e, o mais recentemente descoberto, O último amor de Mr. Morgan - apercebemo-nos que raramente abordam o amor na sua "normalidade" mas entre situações pouco usuais, como se o amor entre um homem e mulher fosse uma coisa chata e difícil de retratar. E às vezes não é bem isso que se passa.
20141026
Esta manhã, durante a eucaristia, tive vergonha de mim. Foi a eucaristia mensal onde o Fé e Luz está presente. Vê-los ali, com a alegria e a inocência que apenas eles têm, derruba-me toda e qualquer veleidade que eu possa ter.
Por vezes corro o tremendo erro de pensar que consigo algumas coisas apesar da minha gaguez.Que gaguejar e conseguir trabalhar com jovens e miúdos, alguns deles de Ramalde é uma grande coisa. Que, porque gaguejo, tenho a vida mais difícil que qualquer outra pessoa normal. Como consigo ser estúpido! Ver ali aqueles miúdos e, fundamentalmente, aqueles pais, coloca-me sempre no devido lugar. Não ouso sequer calcular o choque que deve ser para um pai ou uma mãe quando percebe que o seu filho, o seu herói, tem uma qualquer deficiência; que a sua filha, a sua princesa, na qual colocou todas as esperanças, afinal terá, para sempre, uma forma diferente de ser. Não duvido que, passado o choque, a vida acabe por promover a aceitação e até a descoberta de alegrias desconhecidas, mas aquele choque inicial deve ser tão intenso e tão difícil de ultrapassar!
São alguns os casais que conheço que me dão um testemunho do que é ser pai e mãe assim. Um testemunho extraordinário que me faz sempre sentir pequenino, pequenino, tal é o tamanho da sua generosidade. O que me causa sempre mais espanto é como conseguem manter a sua fé, como conseguem continuar a acreditar num Deus bom, num Pai que cuida dos seus filhos, num Deus que sabe o nosso nome e os nossos desejos mais profundos e no entanto nos dá algo absolutamente diferente. Espanta-me a sua ausência de revolta, a perseverança da alegria da fé, a manutenção da solidez da sua confiança, por vezes até o reforço desse amor a um Pai que deu algo absolutamente transformador.
Hoje, na eucaristia, enquanto cantávamos o "Senhor, ensina-me a viver, a dar e receber de ti o que mereço", perguntava-me o que eu próprio sentiria se cantassem isso comigo naquela situação. São muitas perguntas, que precisam de tempo para serem devidamente processadas. Provavelmente, durante a vida toda.
20141025
Conversávamos, sentados, numa fresca que escapava à tarde quente de ontem. Uma daquelas conversas de peito aberto, francas, sinceras, raras entre homens adultos, onde as chalaças não têm lugar. Sempre tive muito mais facilidade em conversar com mulheres que com homens. Em parte porque não tenho grande pachorra para aqueles temas masculinos da praxe, e ainda menos para as gabarolices bacocas tipicamente masculinas. Mas também porque é muito difícil que um homem fale a sério de si, e muito menos com outro homem. No nosso caso já tinha acontecido antes, naquele que é um lugar especialíssimo do mundo, como Taizé, que potencia a abertura da alma e o mergulhar na interioridade profunda de cada um. Enquanto as palavras fluíam, soltas, sem amarras ou receios, eu disse a determinada altura que nunca tive grande dificuldade em abrir portas. "És confiável" disse-me. E sei que o disse sentindo-o, com toda a verdade, porque acabara de abrir as suas.
Vivo muito destes pequenos nadas. De pequenos gestos, de pequenas palavras, de pequenos momentos que depois vão permanecendo e que mais tarde, devidamente cozinhados em nós, se tornam grandes em tudo. Quem me conhece na superficialidade julga-me sempre alegre e extrovertido - e sou-o em algumas circunstâncias - mas desconhece naturalmente este meu lado mais interior, mais meditativo, que no final do dia pesa cada gesto, cada palavra, cada momento, e saboreia-o enquanto o sono não volta. Há uma frase de Hollywood que eu repito muitas vezes para os meus filhos. "Não há papéis pequenos, há atores pequenos". Da mesma forma, acredito que não há momentos pequenos, não há palavras pequenas, não há gestos pequenos. Nós é que muitas vezes estamos tão absorvidos pelo que aspiramos que perdemos a capacidade de apreciar o que vai acontecendo à nossa volta. Graças a Deus, no entanto, temos pessoas que gostam de nós ao ponto de no-lo recordar constantemente.
20141023
Ontem, finalmente, acabaram as desculpas, as fugas, as justificações esdrúxulas e lá conseguimos sentar-nos, olhos nos olhos, e conversar. Evitavas-me fazia tempo, muito tempo, e eu sabia que nos fazíamos falta. E estavas no teu melhor! Esquiva, de olhar fugidio, querendo evitar a todo o custo tudo o que não fosse conversa para encher chouriços. Sabias muito bem que não era disso que ambos tínhamos saudade, sabias muito bem que o "continuo à tua espera" pedia, exigia, bem mais que conversas banais sobre o tempo e o calor esquisito que faz em Outubro, e no entanto, o teu primeiro instinto fez justiça ao que és: esguia e fugidia. Ok. Acusei o toque e falamos dos outros, depois falamos de mim e dos meus, com a conversa de circunstância de quem esteve muito tempo sem se estar, sabendo ambos que as oportunidades raras, como esta, são exigentes e não toleram desperdícios. Finalmente lá conseguimos comunicar, a sério, sem nos limitarmos aos arranhões superficiais cujas marcas permanecem apenas por algumas horas. Como sempre, fizeste-me dizer mais do que devia e muito mais do que queria. Mas desta vez também escutei, também tive algo para escutar, e sei que muito dificilmente poderei aspirar a mais do que tive, ontem. Não tem mal. Contrariamente ao que pensavas - sim, eu recordo-o perfeitamente! - não estamos cá apenas para os próximos quinze dias, mas temos tempo, muito tempo. Assim o queiramos. E assim eu não te permita, em demasia, as desculpas, as fugas e as justificações esdrúxulas.
Ao chegar a casa, à noite, li que a saudade, por vezes, tem nome. Sorri. Não haveria melhor forma de terminar o dia.
20141022
Acordamos ontem com o mesmo sobressalto cm que nos deitáramos na noite anterior: "A Nika está a morrer. Já paralisou e mal respira." A Nika é uma das cadelas dos meus filhos, que está lá em casa desde que eles são pequenos. Está velhota e contamos que, tal como aconteceu com o Aquiles, mais dia menos dia, morra. O Aquiles era o meu cão e eu nunca liguei muito nem à Nika nem aos filhos deles - Athos, Porthos e Aramis - que sempre foram os cães dos meus filhos. Quando morreu o Aquiles eu não estava cá, estava em Taizé e foi a minha mais-que-tudo que o levou ao veterinário para acabar com o seu sofrimento. Ontem cabia-me a mim. Afetivamente mais distanciado, era-me muito menos penoso tratar do assunto. À hora do almoço lá fui a casa pronto para terminar com o seu sofrimento. Às tantas a minha sogra grita que a Nika já está boa, já se pôs a pé, já comeu, e parecia que nada se tinha passado. Respirei com alivio, naturalmente, mas não foi aí que me detive.
Eu. que me digo um defensor acérrimo da vida, preparava-me para um ato de eutanásia. É um cão, eu sei, está velhinho, eu sei, provavelmente estaria a sofrer, eu sei, e também sei que estes são argumentos dos que defendem a eutanásia, aos quais eu me oponho. Só conseguia pensar que, mais uma vez, estava a ser incongruente com o que defendo, que a teoria é muito boa mas depois sou o primeiro, na vida vivida, a esquecer-me dos ideais e a agir como todos os outros, como se não pensasse nas coisas, como se me deixasse arrastar pelo vácuo. Se tivesse ido a casa uma hora antes provavelmente a Nika teria sido abatida, com toda a minha comiseração, com toda a minha penosa solidariedade, para terminar com o seu sofrimento. E no entanto...
Há nestas coisas essenciais da vida algo de muito perigoso. Não duvido que estejamos todos cheios de boas intenções, cheios de respeito pela liberdade alheia, cheios de sincera compreensão para com quem sofre e está cheio de sofrer. Mas há qualquer coisa de aberrante nisto de nos considerarmos senhores da vida, qualquer que ela seja.
Ontem, quando dei a boa nova à minha mais que tudo, fiz-lhe uma promessa: nunca mais tratarei de "acabar com o sofrimento" de nenhum dos nossos animais. Quando chegar a altura deles, partirão. Mas não serei eu a fazer com que isso aconteça.
20141021
No ano passado, por volta desta altura, já andava pelas pontas. Corria de um lado para o outro como um desalmado, cansado, esgotado por fazer tudo em cima do joelho, saltando de umas coisas para as outras, sem qualquer tempo de preparação ou oportunidade de as saborear. Este ano uma circunstância mudou e a minha sensação de vida mudou com ela. Deixei de ter a obrigatoriedade de começar o meu dia logo de manhã bem cedo e isso dá-me uma outra qualidade de vida. Incomparável! Na realidade, não trabalho menos do que fazia antes. Continuo a sair de casa bem antes das oito e a chegar por volta das oito. Continuo a ter, num dia normal, cerca de dez horas de trabalho intenso, e quando o dia não é normal é porque trabalho ainda mais horas. Isto com algumas semanas de seis dias, deixando-me apenas o domingo para o dolce fare niente. E no entanto, há já algum tempo que não saboreava a vida desta forma!
Ontem almoçamos rápido e aproveitamos o calor à beira mar, num dos meus lugares preferidos, na Foz. Não estivemos lá muito tempo - pouco mais de meia hora - mas foi o suficiente para uma data de coisas. Interrompemos a correria do quotidiano, aproveitamos o sol, mergulhamos no barulho do mar e, claro, aproveitamos para colocar a vida em dia, conversando sobre coisa nenhuma.
Estas alterações de registo, apesar de imperativamente curtas, têm tido o condão de dar outro sabor aos meus dias. Poder começar um dia de trabalho caminhando à beira mar, com uma doce conversa ou completamente sozinho - mas nunca só - é um privilégio que antes não conseguia ter. E que muda - e de que maneira! - a forma como vivo os meus dias. Redescobri o prazer de fazer os meus peripatéticos encontros com Deus e com aqueles que me fazem companhia, presencial ou não, nas minhas cainhadas matinais.
Efetivamente sou um privilegiado!
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