20140831
Numa qualquer relação, ter o eu como ponto de partida, é errado. A não ser que sirva para me colocar em questão. Qualquer outra maneira é o caminho mais curto para a desgraça.
Hoje acordei centrado em mim. Durante mais de uma hora andei-me às voltas e aos tropeções comigo mesmo. É incrível como não consigo sair do sítio quando isso me acontece. O mesmo pensamento, o mesmo raciocínio, a mesma linha de reflexão, tenta abrir caminho em mim até fazer sentido, mesmo que raramente o consiga. É um raciocínio pobre, fechado, limitativo, autorreferencial, mas incrivelmente poderoso, ditatorial: eu penso aquilo, eu sinto aquilo, eu baseio-me naquilo, e dali não saio. Invariavelmente, fico convencido que tenho toda a razão do mundo, que tudo e todos estão contra mim e sinto-me incompreendido e injustiçado e profundamente infeliz.
Hoje acordei assim.
E depois levantei-me, fui buscar o pão - como faço sempre ao Domingo - preparei o pequeno almoço, acordei-os, sentamo-nos à mesa, e tudo passou. Conversamos e rimos, programamos o dia e a semana, preparamo-nos para a eucaristia, e tudo passou.
Admiro sempre quem consegue viver sozinho e ser uma pessoa em condições. Eu, quando fico apenas comigo, sou mesmo má pessoa.
20140816
Lentamente, muito lentamente, vou-me arrumando por dentro. Revisito os cantos, limpo o pó, levanto os tapetes, limpo o pó, olho as molduras, levanto o pó, reparo nas manchas dos vidros, limpo o pó. Sempre foi uma das minhas tarefas preferidas no Centro de Recursos: mal me apanhava sozinho, tirava todos os livros das prateleiras e, lentamente, com o tempo do meu lado, ia revisitando-os, limpando-os, folheando algumas das suas páginas, refazendo juras de amor eterno e prometendo, mais uma vez, que os iria levar comigo para os ler, o que acabava, invariavelmente, por não acontecer. Sempre que alguém entrava pelo CR dentro arrepiava-se e tinha pena de mim. Via aqueles livros em cima da mesa e calculava o enorme sacrifício que eu fazia, sozinho, a limpar e a arrumar aquilo tudo. Eu sorria, como sorrio sempre, e furtava-me a explicações, como me furto sempre. Não sabiam que aquilo que eu fazia com os meus livros - sim, eram os meus livros - faço sempre que posso com a minha vida. E adoro! Mais tarde, quando as aulas recomeçavam e o CR se enchia de miúdos barulhentos porque cheios de vida, tinha um gozo enorme quando me perguntavam onde estava um qualquer livro e eu ia direitinho lá buscá-lo. Férias é, para mim, muito isso. Acalmar, serenar, revisitar, limpar e preparar para o que aí vem. Tenho sempre alguma dificuldade em perceber quem passa este mês numa correria ainda maior que a do trabalho, quem vive este período num permanente fazer e desfazer de malas, de aeroporto em aeroporto, de lugar em lugar, como fazíamos em miúdos, quando brincávamos às escondidas. Eu preciso mesmo é de acalmar, recuperar forças, voltar a aprimorar o olhar, para que, quando o tempo recomeçar a fugir, possa saber onde está cada pedaço meu e ir buscá-lo, sem surpresas desagradáveis.
20140711
Por vezes, canso-me, deixo-me enredar, e deixo de escrever. Tudo o que consigo são banalidades, que não interessam a ninguém, a começar por mim próprio. E se não me interessa, não sou capaz. Se é apenas para cumprir calendário, não faço, que para isso basta o trabalho.
E depois, num determinado dia, deparo-me com isto e penso que alguém tem que o fazer, alguém tem que contrariar isto, este rol de vacuidades, e fazer saber que há um milhão de coisas mais importantes que o umbigo de cada um. Que estas coisas até podem ser muito giras enquanto meio para passar umas noites gostosas e ainda ganhar uns trocos, mas são ainda piores que o algodão doce, que esse pelo menos ainda deixa um sabor agradável enquanto se desfaz na boca.
Nunca fui muito de modas e modinhas e estas coisas do personalqualquercoisa é um meio, como muitos outros de ganhar a vida, que as coisas não são fáceis para ninguém. Mas preocupa-me. Mesmo. Que a falta de tempo e, sobretudo, de vontade, substitua o conhecimento e a reflexão profunda que devem pautar a vida de todos por este rol de coisa nenhuma.
Vivo tempos estranhos. E o meu mundo começa a não ser deste reino.
20140626
Ontem fiquei a meio do post. Fui surpreendido pela visita de duas pessoas importantes que roubaram tempo ao tempo para me virem dar os parabéns. Olhos nos olhos e sorriso nos lábios. Esta tem sido a maior das novidades dos meus últimos aniversários: muitos amigos que, da forma como podem - benditas tecnologias! - fazem questão de me fazerem sentir que estão comigo neste dia. Confesso que é algo a que não estava habituado. E que é delicioso!
De longe a longe sou assaltado pela infantilidade da calimerice aguda. Passa-me rápido mas quando ataca sinto-me a mais miserável das pessoas à face da terra. Naturalmente, não escapo ao desejo profundo que todos temos de sermos reconhecidos. Talvez a maior das necessidades afetivas comuns: precisamos de quem testemunhe e valoriza a nossa vida, a nossa presença. Por vezes há amores que acabam e amizades que são interrompidas sem que ninguém perceba porquê. E quase sempre é porque faltou essa, mais que vontade, essa necessidade de estar com, de caminhar com, de partilhar e testemunhar a presença, a esperança, o choro e o riso.
Volta e meia ando demasiado absorvido pela superfície para me aperceber da importância que essa presença tem na minha vida. Ontem foi dia de mergulho. Imensas mensagens de parabéns, imensos abraços e beijos, imensas distâncias encurtadas, imensas presenças e recordações, e alegrias das memórias partilhadas. Depois, à noite, os meus mais que tudo na vida reunidos à volta da mesa, como eu tanto gosto! E como a minha mais que tudo sabe que eu tanto gosto! Amar é também isso: saber o que o outro gosta, saber o que ele precisa e torna-lo possível.
Ontem, Graças a Deus e aos que me rodeiam, senti-me verdadeiramente amado.
Não podia desejar melhor prenda de aniversário.
20140625
Hoje faço 48 anos. Dia de balanço, por muito que resista a fazê-lo, por muito que queira que este dia seja um dia como os outros. Não é, Graças a Deus. E aos amigos. A minha caixa do Facebook fica cheia neste dia, os abraços e os beijos são mais que os corriqueiros, e os sorrisos também. Como sempre, fico sem jeito, por momentos gostava de passar despercebido, mas não posso fazer de conta que não gosto. Gosto, claro que sim. Porque são genuínos.
Há bastantes anos, este não era nunca um bom dia. Esperava sempre os parabéns daqueles que me eram, na altura, os mais importantes, e eles nunca chegavam. Ou chegavam demasiado tarde! Há coisas que nunca mudam, e essa é uma delas. Foi sendo, por isso, um dia de expectativas invariavelmente frustradas, de desejos nunca alcançados e de desilusões permanentes. Como sempre, fechava-me em copas, refugiava-me em mim e nunca protestava, nem quando ouvia dizer que eu não me importava porque não ligava nada a isso. Há coisas que importam sempre, qualquer que seja a idade.
Com tempo, com muito tempo e muita paciência, a minha mais que tudo e os meus filhos foram refazendo a minha forma de sentir este dia.
20140609
Sempre fui muito mais da palavra que da ação. Curioso, sendo eu gago! No entanto, sempre me mexeu muito mais aquilo que lia que aquilo que via fazer. Da mesma forma que sempre me envolveu mais aquilo que escrevo que aquilo que faço. Também nisto sou diferente: eu intuo que gestos leva-os o vento e o que fica são as palavras.
Mesmo com Jesus, o que temos são os relatos dos seus gestos, a sua palavra, ainda que registada por outros, não os seus gestos. Claro que foram os seus gestos, as suas atitudes, que moveram as pessoas, que as tocaram, que as incomodaram. Mas hoje somos tocados por esses gestos e atitudes também pela forma com que nos são descritos e, sobretudo, pela forma com que nos deixamos contagiar pela vida que transborda da Palavra.
Confunde-me, este Papa. E confunde-me porque faz muito pouco uso da palavra, preferindo sempre a grandiosidade do gesto simples. Não faz grandes discursos, não produz grandes escritos, e no entanto usa os meios de comunicação social como nenhum papa o conseguiu fazer antes. Usa o Twitter e, sobretudo, a imagem viralmente difundida como forma de comunicação privilegiada. Escolhe os seus gestos e as suas atitudes para que nos contagiem e nos sensibilizem para a importância do fazer. Até aqui, muito bem.O problema é que os meios que ele utiliza são naturalmente fugazes, são demasiado agarrados ao hoje e ao agora. E gestos que se pretendem fundadores não podem ficar agarrados ao aqui e agora. Daqui por quinze dias esses gestos permanecerão soterrados perante a avalanche de uma outra novidade que se ache gira ou nova ou fora do comum. Também por isso sinto saudade do Papa Bento XVI. Porque o que permanece é ainda e sempre a palavra. O resto, leva-o o vento!
20140606
Nunca fui capaz de conceber uma felicidade de sentido único. Talvez por fugir ao que, à partida, era esperado de mim, ligo muito pouco ao determinismo e intui sempre que apenas a nós nos cabe a responsabilidade da escolha. E que essa escolha é feita de muitos caminhos.
Conheço muitos miúdos que acreditam que o seu futuro está definido. De um e do outro lado das margens da sociedade, curiosamente. Uns acreditam que o facto de terem nascido num bairro social lhes barra o futuro; outros, no entanto, vivem com um sentimento de impunidade que lhes advém dos lugares que lhes estão reservados nos escritórios dos pais e dos avós. Ambos estão, no entanto, profundamente enganados!
Marcou-me uma conversa de um miúdo com quem fui a Taizé. Dizia-me ele que o seu futuro estava completamente definido: presidente da associação de estudantes do colégio, presidente da associação de estudantes da católica, lugar de destaque nos jotas, deputado pouco depois. Confesso que tremia de cada vez que pensava que os destinos do que quer que seja pudessem estar confiados a uma pessoa assim. Há cerca de quinze dias voltamos a estar juntos. Veio cumprimentar-me, já bem bebido, como é seu hábito. Perguntei-lhe como estava a vida e ele respondeu que tinha sido "convidado a sair" da católica e estava numa outra faculdade, agora. Confesso que suspirei de alívio ao perceber que o seu futuro, afinal, não passaria pelo governo da coisa pública.
Na outra margem, sou amigo de um ainda miúdo que, quando era pequenito, eu dizia que tinha tudo para ser psicopata. A quantidade e qualidade de disparates era tanta que eu não conseguia ver outro futuro nele. Tonto! a vida encarregou-se de me desmentir e ele hoje é uma das pessoas que admiro e com quem tenho o privilégio de aprender muito todos os dias. A forma como fala com os miúdos, como os respeita e não desiste e a forma como eles o respeitam sem necessitarem de berros tem-me ensinado bastante. Está agora a terminar o 12º ano e pensa em ir para a faculdade. Quem diria!
Trabalhar nos lugares onde trabalho está-se a tornar uma inesperada escola de vida. Poder lidar, no mesmo dia, todos os dias, com ambas as franjas de uma sociedade que teima em ser madrasta permite-me ter uma visão suficientemente realista para poder fazer algo para que ambos os lados se encontrem em algum lugar mais profundo.
Ainda estou a tentar ler, a tentar apender, a tentar descortinar o que hei de fazer e como o hei de fazer. Sei que tenho tempo. Não estou de passagem.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
Bambora
Não é estranho que nos digam que «ser homem é muitas vezes uma experiência de frustração». Mas não é essa toda a verdade. Apesar de todos ...
-
Não é estranho que nos digam que «ser homem é muitas vezes uma experiência de frustração». Mas não é essa toda a verdade. Apesar de todos ...
-
Se me dissessem, há 23 anos atrás, que acordar estes anos todos ao lado da mesma pessoa seria motivo de felicidade, eu rir-me-ia. De nerv...
-
Uma das coisas que mas aprecio naquilo que agora vou fazendo - a que tenho muita dificuldade em chamar trabalho, tal é o gozo que me tem ...




.jpg)
.jpg)