20130627

Mandela


Tenho muita dificuldade em acreditar nos santos do altar. Não nas pessoas em si, cujo percursos de vida normalmente até desconheço, mas na nossa necessidade de as colocar em cima de um pedestal. Até porque as pessoas que conheci e que estavam mais próximas do que eu considero ser a santidade, não eram santinhas. De todo. Eram bem humanas, com problemas e dificuldades como todos nós temos, que cometiam erros como todos nós cometemos e que, como eu costumo dizer nas minhas catequeses meio em tom de brincadeira, faziam chichi e cocó como todos nós. Tinham era uma postura de vida, uma tenacidade e, sobretudo, uma sabedoria profunda - e algumas delas mal sabiam ler e escrever - que lhes permitia uma serenidade tal que acabaram por constituir para mim modelos de vida e de entrega aos outros.

Ainda há pouco tempo dizia a uma amiga que não tenho ilusões no que diz respeito às pessoas. Acredito na sua humanidade, na sua capacidade de fazer o bem e o mal consoante as circunstâncias, mas acredito ainda mais na capacidade que cada um tem de se fazer maior que as circunstâncias; não acredito em anjos ou demónios, acredito que todos o somos em determinadas alturas, mas acredito mais ainda na capacidade que cada um tem de se refazer permanentemente, sobretudo se tiver o amor como força maior; não acredito em super homens (por acaso acredito mais em super mulheres) mas em homens que se superam constantemente, muitas vezes porque outros dependem de si e não conseguem ver outra alternativa a não ser fugir para a frente.

Não creio que pessoas como o Mandela, Gandhi, a Madre Teresa ou Luther King queiram um lugar num qualquer pedestal. Todos eles foram, até certa altura, vítimas das suas próprias circunstâncias. No entanto, escolheram não se deixar arrastar por elas mas tomar as suas vidas nas suas mãos, prontos a assumir os riscos inerentes às suas decisões, prontos a entregar a vida para que a pudessem ganhar. Por isso aprendo com eles, por isso não lhes louvo mas louvo a Deus por eles. Porque, a exemplo de Jesus, interessa-me muito mais a humanidade que a santidade.

20130626


Uma das constantes mais dolorosas de mim é o pânico que os outros, particularmente os que confiam mais em mim, descubram quem sou.

Acabei de ser surpreendido. Facilmente olho para o meu reflexo estampado do outro lado do ecrã e, mais que não me reconhecer no tanto que fazem de mim, tenho muito medo do que acreditam que vêem em mim. Ainda na semana passada, durante uma formação recheada de notáveis, a primeira coisa que escrevi foi "que raio fazes tu aqui?". Creio que no mais íntimo de mim nunca passarei de um puto do bairro a por-se em bicos de pés para tentar fazer parte do mundo. A maior constante da minha vida é a procura. Passo a minha vida a tactear, a tentar absorver o imenso que os que me rodeiam sabem para, a partir da sua sabedoria, tentar fazer uma roupagem com a qual eu possa tapar a minha nudez. Em vão. Sempre em vão. Quando me encontro comigo mesmo, quando passa o inebriamento dos dias e apenas me tenho na minha solidão profunda, tão indesejada quanto inevitável, ressoa apenas a única verdadeira questão que me acompanha desde sempre: "que raio fazes tu aqui?". Não sei. Tirem-me aqueles que me rodeiam, e que me amam, e que fazem de mim quem eu sou, e ficará apenas aquele puto do bairro, pequenino e assustado, navegador de superfície, sempre embasbacado com a imensidão dos outros. Por isso, mesmo as minhas certezas estão recheadas de dúvidas. Por isso, não percebo, nunca o percebo, quando me assinalam a serenidade, ou a disponibilidade, ou a alegria. Meu Deus! Estão tão longe! A maior parte das vezes é o medo o meu motor. Medo de desiludir, medo de magoar, medo de passar ao lado, medo que me ponham de lado. Como eu gostava de ser autónomo, confiante, cheio de certezas, isento de dúvidas. Como eu gostava de conseguir propor caminhos, delinear futuros, sem vacilar, sem me por em causa, dominando as possibilidades, escolhendo sempre as melhores. A verdade é que, invariavelmente, estupidamente, quando me meto a fazer isso só sai asneira. Levei tempo a percebê-lo. Levei ainda mais a aceitá-lo. A conhecer os meus limites e a tentar encaixar-me dentro deles. Todos os dias. E todos os dias, quando me encontro comigo e volta a velha questão, dou-me a mesma resposta: "não passas de um puto do bairro a tentar fazer parte do mundo". Podia ser pior. Pode sempre ser pior.

Não é tudo bom, nas redes sociais. Não substitui o contacto pessoal, íntimo, olhos nos olhos, que nos ajuda a perceber quem é quem. Ninguém é amigo apenas porque partilha meia dúzia de superfícies no face ou nos blogues. Ninguém é amigo porque partilha umas coisas giras, normalmente escritas por outros, ou cómicas, repetidas e retransmitidas ad nauseam. Ninguém é amigo porque gosta do mesmo por do sol ou da mesma paisagem, ou do mesmo filme, ou da mesma música ou das mesmas pessoas... Ninguém é amigo apenas por causa disso. Mas também ninguém é amigo apenas porque se cruza por nós nos corredores ou nas ruas. Ninguém é amigo porque nos cumprimenta e nos diz "bom dia", ou "boa noite", ou "tudo bem?" seguindo o seu ritmo apressado sem esperar resposta. Ninguém é amigo apenas porque o vemos todos os dias e volta e meia até temos que enfrentar uma qualquer situação meio confrangedora e inventar conversas de chacha enquanto desejamos intimamente que apareça alguém que valha mesmo a pena e nos salve daquela situação. Nas redes sociais, como na vida, não é a disponibilidade nem a abundância do contacto que faz os amigos. Ajuda, pode até ser necessária, mas não é o core business da amizade.

Ontem, no meu aniversário, recebi imensos parabéns. De muitas pessoas com quem contacto todos os dias, de outras que não vejo há algum tempo, de outras ainda que "conheci" num qualquer areópago virtual que gosto de frequentar. Confesso que ontem à noite, depois do jantar, me deliciei a ler todas as mensagens, uma a uma. Soube-me muito bem! Por vezes parece-me que vivi muitas vidas, com geografias muito diferentes entre si, com pessoas muito diferentes entre si, e ler todos aqueles parabéns foi um excelente pretexto para viajar no tempo, rever velhos amigos, revisitar velhas brincadeiras, revalorizar dificuldades ultrapassadas, lutas travadas, que deram em pequenas vitórias e derrotas. Foi a minha vida que percorri, numa viagem que ajudou a engrandecer o meu dia de aniversário. Também por causa das redes sociais, tive ontem um excelente dia, que ousou relevar a neura do costume para lugar desconhecido.

Não é tudo bom, nas redes sociais. Não substitui o contacto pessoal, íntimo, olhos nos olhos, que nos ajuda a perceber quem é quem. Mas quando esse contacto não é mais possível, quando a vida se encarrega de nos conduzir, a cada um de nós, no seu percurso natural em nome do que cada um considera mais importante, as redes sociais são uma boa forma de mantermos os amigos mais perto da memória, mais perto do coração, mais tempo cá por dentro. E como acredito que o melhor da vida são aqueles que deixamos que nos habitem e os que nos deixam habitar, acredito que as redes sociais podem ajudar a ter uma vida mais saborosa.

O meu 47º aniversário foi-o.
Também por causa das redes sociais.
Obrigado a todos

20130624


Durante muitos anos, o Paulo esteve sozinho nas minhas eucaristias. Quando rezamos por todos os que partiram eu lembrava-me, invariavelmente, do Paulo. Das nossas brincadeiras, do tanto que aprendi com ele, da imensidão do que tocamos e cantamos juntos, da sensação terrível quando soube que morrera e da necessidade absoluta que tive de estar junto dele e da família dele, que me é tão especial, naqueles derradeiros momentos.

Pouco a pouco, no entanto, outras pessoas se foram juntando à memória do Paulo. O meu sogro e a Tia Micas - a quem recorro muitas vezes por causa da profunda sabedoria de ambos - de longe a longe outros tios meus de quem apenas me recordo nestas alturas, agora a Carmem. Ontem, durante a missa, apercebi-me que as minhas eucaristias estavam a ficar povoadas de pessoas que já morreram. Sem drama. Morreram, partiram, já não as tenho comigo, mas apenas a memória do que aprendi, do que vivi, por vezes do que sofri com elas. São parte do meu património pessoal, umas mais constantes que outras, umas mais decisivas que outras, mas fazem parte do que sou.

Ontem fui visitar a minha avó. Ficou felicíssima, como sempre. Curioso como a certa altura senti necessidade de a visitar, normalmente ao domingo de manhã. Curioso porque nunca fui muito disso - lido demasiado bem com a distância - mas de repente pensei que se calhar não terei assim tão mais tempo para conversar com ela, para me rir com ela, para aprender com ela. Como ela sabe que eu gosto de pensar na vida, volta e meia falamos da morte. Da sua morte. Nesta fase final da sua vida descubro nela uma religiosidade que não conhecia e ela ensina-me uma serenidade que eu próprio, apesar da minha fé, gostaria de ter. É a última da sua geração: todos os amigos, todos os irmãos já seguiram o seu caminho e ficou ela, alegre, vivaça, carente de um miminho como qualquer criança, de lágrima fácil mas consciência tranquila. Ainda ontem me dizia, vaidosa, que a cabeleireira tinha ido lá.  Ainda ontem me dizia. serenamente, que tentava ainda caminhar porque não quer acamar, mas que também não valia a pena esforçar-se muito porque não seria por muito tempo. A minha avó, do alto dos seus 92 anos, mede o seu futuro em semanas, não em meses e muito menos em anos. E fá-lo desde que a conheço!

É incrível o que comecei a aprender da vida a partir da altura em que tive que lidar com a morte. É incrível como cada vez mais me apercebo que ambas as coisas estão intimamente ligadas. E como vou descobrindo que, muitas vezes, viver tem uma carga dramática muito mais intensa que morrer. E isso é bom.

20130619

olhadela


Por vezes, num casamento, nada é tão importante como sair para almoçar fora e falar de coisa nenhuma. Quando não há tempo para grandes passeios, quando o dias se sobrepõem às noites, quando as noites são apenas intervalos dos dias, nada como um bom encontro dos olhares... e das mãos.
Hoje fomos capazes de o fazer.

20130618

olhadela


Recebi a revista e dei-lhe uma olhadela. Rápida, que o tempo não dá para mais. As suas páginas iniciais remetem para a capa, que me passou completamente despercebida. Voltei-a para mim, olhei, e tentei ver.
Em vão.
Esqueço-me frequentemente daquilo a que apelo aos outros perante as Escrituras - perguntem-se "o que me quer isto dizer?" deixem-se interpelar.
Gostaria de me deixar interpelar todos os dias. Por vezes, no entanto, a vida corre tão depressa que não o consigo.
E fico a perder

Um dos claros sintomas da amizade que me une a alguém é a forma descontraída como falo. Quando não tenho necessidade de escolher as palavras, quando não me preocupo muito com o que sai, quando os disparates são naturais, quando sei que tenho crédito suficiente para me separar da mesma forma como me aproximei. Não são muitas as pessoas com quem me sinto assim, perfeitamente à vontade, sem medo nem medida. E uma conversa com alguém assim constitui um oásis de calmaria numa vida que tem alguns períodos conturbados.

Ontem, como tem acontecido ultimamente, passei o meu dia a correr. Entre ensaios em vários locais diferentes, entre gravações e organizações várias, preparações de eucaristias, parecia um rato doméstico, naquela roda que gira, gira, e nunca sai do sítio. Os compromissos sobrepunham-se uns aos outros e eu, como de costume, a todos tentava acorrer (a correr). Por muito que queira, há alturas em que não consigo fazer as coisas de outra forma. Não consigo programar com muito tempo de antecedência, não consigo ter muito espaço livre entre umas coisas e outras, não consigo ir com calma, ou viver com calma. Não consigo, e por vezes nem o quero, porque tenho alguma dificuldade em gerir o meu tempo quando tenho tempo. Quando tenho que me mexer à força de adrenalina as coisas saem-me muito melhor, com muito maior naturalidade, e normalmente com melhores resultados.

No entanto, apesar de gostar da correria, o ideal para mim é que o dia possa terminar em calmaria. Uma boa conversa, que flui com naturalidade, sem qualquer outro requisito que não seja a partilha do prazer da companhia mútua, faz milagres. Em certa medida, constitui o contraponto do dia que acaba: a azáfama dá lugar à serenidade; a sofreguidão à reflexão; e o tempo exterior volta-se a ajustar ao tempo interior.

É um verdadeiro privilégio quando isso acontece. Porque requer o encontro de muitas coisas: de pessoas que gostam da companhia uma da outra, de tempo sem medida de tempo, de vontades

Hoje tive esse tempo. Depois de um dia conturbado, não poderia ser melhor.

Bambora

  Não é estranho que nos digam que «ser homem é muitas vezes uma experiência de frustração». Mas não é essa toda a verdade. Apesar de todos ...