20130430


Há lugares por onde passo todos os dias. Sem sair do sítio. Fisicamente, claro, porque esses lugares que visito todos os dias têm o condão de me transportar para longe de mim. Lugares que me fazem rezar, dar Graças, com a maior das facilidades; lugares que me questionam, me interpelam profundamente; lugares que me recordam pessoas e momentos e outros lugares onde fui feliz... ou infeliz; lugares que, invariavelmente, enriquecem os meus dias. e me tornam mais rico, claro. Vejo das mais belas e mais inspiradoras fotos que alguma vez vi, de lugares, esses sim, físicos, de pessoas, de sorrisos, de alegria, dor e sofrimento. Mundos completamente diferentes do meu mundo de todos os dias mas que, ao fim de algum tempo, começam a ser também parte do meu mundo. Leio dos mais belos e inspiradores textos, artigos e notícias, publicados aqui na esquina ou do outro lado do mundo, emociono-me, por vezes sorrio como um tolinho, aparentemente sozinho, mas de alguma maneira em boa companhia. Outras vezes zango-me, a sério, incrédulo com tamanha estupidez e tacanho. E encontro-me! Muitas vezes! Comigo, por intermédio do que vejo e leio, pelas viagens que me fazem fazer, bem cá por dentro. Encontro-me com amigos, amigos mesmo, velhos e novos, de carne e osso, que habitam algures dentro de mim e revisito-os, reescuto-os, relembro algumas das nossas conversas, das nossas viagens, nessa viagem que é, por momentos, também nossa. Encontro-me também com amigos que nunca conheci mas cujas reflexões merecem o meu respeito, a minha admiração, embora nem sempre a minha concordância. Em todos encontro-me com Deus. Nos que me fazem sorrir e zangar, nos que me emocionam e me revoltam e me questionam e me fazem tentar descortinar como havemos de dar a volta à situação, nos que me interpelam de alguma forma, porque acredito que me encontro com Deus em tudo menos na indiferença, que creio ser o maior dos pecados porque é a única coisa que me desvia o meu olhar do seu olhar. Verdadeiramente!

20130429


Lembro-me perfeitamente da primeira vez que me sentei num avião. Ia para Londres, estava mais fascinado que nervoso, apesar de só me vir à cabeça aquelas cenas de filmes de segunda categoria em que os aviões caem e toda a gente morre. Desde aí, instintivamente penso sempre a mesma coisa quando me sento naquelas cadeiras desconfortáveis e olho em volta: "olha as pessoas com que vou morrer." E entretenho-me a imaginar como cada uma delas reagiria. Logo que o avião avança na pista, desligo deste nonsense, e sigo a minha viagem calmamente.

Discutíamos lá em casa, um dia destes, o meu exacerbado optimismo/conformismo. Eu dizia que não conheço muitas pessoas tão felizes quanto eu e, à volta da mesa, tive quem me defendesse e quem visse nisso algo profundamente limitador. Os primeiros diziam que sermos felizes é o objectivo e o propósito fundamental da nossa vida, e os outros, que o facto de nos sentirmos felizes (e conformados com a nossa situação) é um forte impedimento ao progresso e à evolução. Privilégios de quem tem muitos filhos e o hábito de fazer as refeições em família e sem televisão.

Eu sou um optimista, sou feliz, e, normalmente, gosto muito do que tenho e sinto orgulho no que vou alcançando. Para um puto do bairro (que sempre serei) assustado com a vida e morrendo de medo do futuro, quando olho para trás tenho que concluir que não me tenho saído nada mal, apesar de tudo. Em termos pessoais, sou e tenho muitíssimo mais do que alguma vez pensei ser possível.

No entanto, francamente não sei se o meu optimismo é inato ou construído. Se resulta daquilo que sou ou do exercício de olhar à minha volta, preparar-me para o pior, incorporá-lo, e depois perceber que a minha realidade é outra. E ficar feliz com isso.

Uma das muitas recordações da infância que não sei bem se correspondem à realidade ou se são construídas pelo meu subconsciente, trata-se de um quadro em que um casal de miúdos estão à beira de um poço mas protegidos por um anjo da guarda. Por causa desse quadro, durante muitos anos senti que nada de verdadeiramente mau me poderia acontecer. À força de pancada, a vida foi-se encarregando de tentar desmontar essa minha confiança profunda, quase inabalável. À força de presença, de perseverança, e de amor, aqueles que me amam foram-se encarregando de restaurar a confiança recordando-me que, afinal, enquanto os tiver, nada de verdadeiramente mau me pode acontecer.

Não conheço melhor motivo para continuar a ser optimista.

20130424


Uma das discussões mais recorrentes que tenho com alguém de quem gosto muito (e que considero como minha mãe) é acerca da verdade.

Confesso que tendo a não gostar dos paladinos da verdade. Aliás, eu nem gosto dos paladinos de coisa nenhuma, mas da verdade, então... Pessoas cheias de si, da sua autoridade moral, que vêem a vida do alto do seu pedestal enquanto dificilmente nos suportam, a nós, pobres coitados e pecadores, absolutamente errantes, perdidos à espera de uma migalha da sua imensíssima sabedoria. Não posso com pessoas cheias de si e uma das coisas que me derruba com maior facilidade é quando alguém me diz que eu estou cheio de mim. E isso, infelizmente, acontece algumas vezes. E é motivo para passar os dias seguintes em reclusão à procura do que falhou. Adiante!

Esta questão da verdade vem desde sempre, e desde sempre eu a sinto como uma acusação. A pessoa em causa diz sistematicamente coisas como "a verdade acima de tudo" ou "a verdade, custe o que custar, doa a quem doer" e termina sempre com o argumento da autoridade "Jesus sempre disse a verdade". Um dia destes, algures depois do domingo do evangelho da pecadora, eu disse-lhe que Jesus, acima da verdade, colocava a caridade. Que se quisesse ter-lhe-ia atirado com a verdade à cara, que lhe teria dito para se deitar na cama que tinha feito, mas o que Ele fez foi dar maior importância à pessoa que tinha diante de si que à verdade propriamente dita. Não a escondendo, não a negando, não a desvalorizando, confrontou os acusadores com a sua própria verdade mas mas escolheu confrontar a mulher pecadora consigo própria, com os seus desígnios, com o seu futuro e conseguiu que ela desse o salto para retomar a dignidade que, ela e os outros, julgavam perdida. E deu-lhe a possibilidade de ser ela própria a tomar a sua própria vida nas suas mãos : "vai e não tornes a pecar".

É incrível como Jesus liga o descomplicador!


20130423


Decidi mudar de agulha. Assim. De repente. Estava já com muito trabalho adiantado, mas escrever sobre o que distingue a paróquia das restantes comunidades - nomeadamente aquela a que verdadeiramente pertenço, a escolar - seria certamente importante mas não é isso o que me move, o que me preenche os meus dias. É outra coisa. Bem mais concreta. Bem mais quotidiana. Como hei de conseguir levar Jesus ao Centro? Como hei de evangelizar com quem não quer saber destas coisas para nada? Como hei de conseguir fazê-los sentir que são eles os principais interessados em Jesus, que foi justamente para eles que Ele veio? Como hei de eu conseguir contornar a imagem enraizada de uma igreja de privilégios para lhes apresentar uma Igreja de pessoas? Terei que desligar a Igreja de Jesus para voltá-la a ligar mais tarde, com outros olhos? Como hei de falar de Jesus, fazê-los sentir Jesus, fazê-los perceber o encontro, desejar o encontro? Porque raio teima em não sair de cá de dentro a inquietação de ver Moçambique pejado de muçulmanos que, por interesse ou não, os apoiam, os alimentam, os educam e dão um sentido às suas vidas, enquanto eu encolho os ombros? Terei que ficar à espera que eles venham até Ramalde para me mexer?

São estas as questões que me movem, não as meramente teóricas. São perguntas que me coloco a mim próprio, todos os dias, no Centro e no Colégio, na minha paróquia. Foi, afinal justamente para isto que me meti a fazer a licenciatura: para tentar perceber melhor Jesus, para tentar aprender mais com Ele, para tentar conseguir mais a partir d'Ele, para tentar levá-lo melhor e, com Ele e a partir d'Ele, alterar significativamente a vida dos que se julgam menos dignos que os outros.

Desde que tomei a decisão, todo eu vibro em torno do meu objetivo. Não parei ainda de pensar na forma de pegar no texto, nos livros que irei ler, nas horas que terei que ocupar para me preparar. Mas, muito mais importante, revisitaram-me as pessoas com quem partilhei várias experiências fortes de vida e de fé ao longo destes anos, pessoas muito diferentes, em condições muito diferentes, em processos de busca só seus, em função de circunstâncias muito diferentes. Com todas elas, em todas elas, em Moçambique, em Santiago, em Taizé, nos Dias de Reflexão, no ComTigo, na paróquia, nas Colonias, no Centro, no Colégio, eu procurei-O, procurando-me incessantemente. Em algumas delas encontrei-me encontrando-O.

Esta noite, mais uma vez, não consegui dormir em condições.
Mas desta feita foi por um bom motivo.

20130422


Sou um homem de rotinas. Gosto das mesmas coisas nos mesmos dias à mesma hora. Ainda na semana passada alguém comentou o que seria de mim sem relógio. Na realidade, não gosto de me sentir demasiado solto, sem hora marcada, à deriva. Talvez por causa disso, apesar das minhas origens, sempre evitei o álcool e as drogas. E nem sequer gosto dos escorregas porque me faz muita impressão não ter qualquer domínio sobre o que me pode acontecer enquanto deslizo. Aquilo que para outros é pura diversão para mim é pura confusão.

Uma das minhas rotinas matinais é uma visão geral dos blogues e das notícias. Percorro-os rapidamente, que o tempo não dá para mais, à procura de algo que salte à vista, que me inspire e que me ponha a pensar. Hoje foi a luta entre o bem e o mal, que tem lugar dentro de cada um de nós, num texto formidável do Leonardo Boff, que aproveitei para publicar num outro blogue. Noutros dias pode ser qualquer outra coisa: a oração da manhã da renascença, uma foto, um título de um artigo, uma tira de bd... não sou esquisito.

Creio que uma das minhas maiores qualidades - que no entanto por vezes complica muito as coisas - é a abertura para aprender o que quer que seja vindo de onde quer que seja. Não ligo puto a personalidades ou a cargos e muito menos a títulos. Já convivi com supostos mestres pagos a peso de ouro que são autênticos balões cheios de coisa nenhuma e já tive a sorte de ter longas conversas com gente supostamente rude e ignorante que sabe muito da vida. E estava disponível para me ensinar. Também já aprendi verdades simples, enormes, com miúdos, já tive verdadeiras lições de cristianismo vindas da mais esquerda da política e ainda há pouco tempo, em Taizé, tive profundas e sábias aulas de teologia numa conversa íntima, entre amigos, enquanto entretínhamos a fome com umas bolachinhas. Nunca considerei que houvesse um tempo certo ou um lugar próprio para aprender o que quer que seja. Sempre me bastou ter as portas abertas e o olhar atento para me maravilhar com tanta gente que sabe tanto! E sempre aprendi muito com isso.

PS: Agora mesmo, depois de reler o que escrevi - e escrevo sempre deixando que os meus dedos fluam pelo teclado sem lhes dar muita importância - verifiquei que acabava em plena contradição coma  forma como comecei. Típico. Sou mesmo assim.

20130420

O amor assume formas tão distintas!

Talvez por causa da educação que (não) tive, nunca gostei de amarras. Quando alguém me diz "tens que...", seja a que título for, algo cá por dentro se revolve. Claro que há alturas em que tenho que, mas nunca para isso o amor é chamado. Afinal, também eu tenho que ganhar a vida. Mas no amor não tenho que. Quero, quero querer, mas não tenho que.

Assusta-me sempre um bocado quem precisa de amarrar para amar. Ainda esta semana uma das minhas filhas sentia-se meio perdida porque chegou a hora de os seus amigos da faculdade irem para Erasmos e ela não. Sabe que vai ficar só durante uma data de tempo e ela nunca soube muito bem lidar com isso. Depois lá conversamos e aconselhei-a a mudar de agulha, como muitas vezes digo, a concentrar-se e em centrar-se um pouco mais em si para ficar menos dependente dos outros para depois então poder enveredar rumo a novos horizontes.

Levei muitos anos até conseguir ser emocionalmente independente. Curioso, quando amo intensamente (e há outra forma de amar?) a minha mais-que-tudo há quase 28 anos, quando com ela passei a esmagadora maioria dos meus dias e noites, quando até com ela trabalho nos mesmos locais e nos mesmos projetos. Onde está então a independência emocional?
Nestas, como noutras coisas importantes da vida, tenho como referência de amor a forma como Deus nos ama. Deus não precisa de nós, é Deus, não precisa de coisa nenhuma. No entanto, Deus quer precisar de nós, de cada um de nós, acompanha cada um dos nossos momentos, e nada se passa na nossa vida em que Ele queira estar ausente. E, porque nos ama, apesar de toda a nossa história pessoal e coletiva, apesar de nem sempre as coisas correrem do melhor modo para o seu lado, está sempre disponível para nós. Deus, inteiramente livre, concede-nos inteira liberdade para sermos amados. E nós, sendo amados, saboreando esse amor, queremos ser ainda mais amados. É justamente essa ânsia que nos faz caminhar e crescer no amor de Deus.

Assim como Deus não precisa de nós, também nós não precisamos de Deus para (sobre)viver. Da mesma forma, tanto eu como a minha mais-que-tudo não precisamos um do outro para (sobre)viver.
Então, porque nos amamos?
Porque nos queremos um do outro tão profundamente?
Primeiro, porque tivemos a sorte de, entre tanta possibilidades de olhares, os nossos olhos se terem encontrado. E nós neles.
Depois, porque sabemos que viver sem querer pertencer a alguém é viver na solidão profunda.

E isso, convenhamos, não é viver.


20130417


Apesar de ser francamente mau em fazê-lo, poucas coisas me fascinam mais que o trabalho de grupo. Sou mau porque normalmente não consigo pensar com os outros. Preciso de espaço, preciso de tempo, preciso de me concentrar, preciso de ponderar muitas variáveis, e, em grupo, não consigo fazer nada disso. Então, nessas alturas, o que acontece muitas vezes é deitar coisas pela boca fora e depois arrepender-me do que disse.

No entanto, em função das circunstâncias e das equipas, duas coisas distintas podem acontecer. Uma delas é ficar caladinho com um chasco e limitar-me a aprender. Faço-o quando estou suficientemente calmo e seguro de mim para que me possa permitir passar despercebido. E também quando estou rodeado de sábios, o que, felizmente, acontece algumas vezes. E tenho ainda o bónus de, por vezes, ser considerado minimamente inteligente, o que não é mau de todo. A outra coisa é confiar muito em quem está à volta da mesa. Aí, acontece uma mistura abençoada: porque estou com a minha gente, arriscamos o eventual disparate sem o ponderarmos devidamente mas não ficamos agarrado a ele, antes os juntamos aos restantes e, juntos, fazemos as ideias crescer. É, de longe, o processo que mais me agrada. Por aqui já conseguimos grandes coisas à custa do que pensávamos serem disparates. Mas é preciso ter muita confiança nos outros para me arriscar a este ponto.

Acabo de chegar de uma reunião do Centro. Uma boa reunião. Apesar de ainda não confiarmos totalmente todos uns nos outros, houve propostas, com resoluções, com pontos de partida, com algumas visões de futuro. Pela primeira vez, não gastamos a maior parte do tempo a discutir o que não conseguíramos fazer, porque as coisas funcionaram na última semana. Pela primeira vez, debruçamo-nos mais sobre o futuro que sobre o passado.
Creio que agora estamos todos um pouco mais resistentes ao insucesso, um pouco mais realistas e, por isso mesmo, muito mais assertivos e eficazes nas ações. Hoje saí com a sensação que, finalmente, estamos a começar a caminhar. Pelo menos para fora. Temos ainda muita pedra a partir no caminho interior, naquele que é feito pela parte de dentro de cada um de nós, naquele que nos reserva um lugar especial. Enquanto não formos capazes de o fazer, de peito aberto, o nosso trabalho sairá sempre comprometido.
Eficaz, talvez. Mas será sempre trabalho.

Bambora

  Não é estranho que nos digam que «ser homem é muitas vezes uma experiência de frustração». Mas não é essa toda a verdade. Apesar de todos ...