20221124


Tenho, não o hábito, mas o propósito, de rezar todos os dias. Para além de fazer parte do que faço - toda a minha vida profissional gira em torno de Deus - faz parte do que sou - toda a minha vida acontece, efetivamente, com Deus dentro. Rezar é-me, por isso, tão natural quanto respirar. No entanto, há dias em que sinto uma imensa saudade de rezar! A verdade é que os dias se vão sucedendo uns aos outros, as pequenas questões, os pequenos trabalhos, o pequeno quotidiano vai avançando, e eu vou saltando pelos dias, com a leveza de um hipopótamos, de nenúfar em nenúfar, tentando manter o equilíbrio impossível, dando-me por satisfeito por chegar ao final do dia vivo e, ainda por cima, satisfeito com o mínimo de eficácia conseguido. E sinto imensa falta da paragem, do nosso mútuo diálogo interior, na serenidade, no encontro profundo, na mútua redescoberta. Sinto a falta do clima interior de Taizé, daquele ritual de chegada à capela, do meu destapar - tiro o gorro, o cachecol, dispo o casaco, descalço as botas e estou pronto para acolher o Senhor - que é preenchido pela oração. Não é que precise de Taizé para o fazer; é que preciso de parar e de me destapar para o  fazer. É outra coisa. É diferente. E preciso de ler. De parar para ler. De serenar para ler. E de ler para serenar. Preciso de um novo ritual. De um outro ritual, Que possa dar o devido espaço ao silêncio, ao recolhimento, à leitura, à oração.

20221102



Volta e meia sinto-me sozinho nesta Igreja que amo e à qual dedico grande parte da minha vida. Não é coisa que me custe assim por aí além, nem é coisa de agora. É de sempre. Provavelmente porque sou um tardio na fé, porque nasci no seio de uma família que ainda não era católica, porque apenas com cerca de 15 anos, e por vias travessas, descobri a imensidão de Jesus, provavelmente por isso tudo e mais alguma coisa, há aspetos na Igreja que eu não entendo e por isso não posso defender. Um deles, que vem recorrentemente à liça, é a questão do purgatório, que está ligado às almas que se pretensamente se salvam graças à nossa oração, que está ligada às intenções das missas e isso tudo.
Eu acredito num Deus infinitamente bom, num Deus que espera até à ultima para acolher quem O busca, um Deus que não depende em nada dos homens a não ser para Lhe abrirmos a porta. Acredito, por isso, em termos meramente hipotéticos, na existência do Inferno, que é "apenas" a negação de Deus. Outra das coisas em que acredito, e que está intimamente ligada a tudo isto, é que estaremos, todos, face a face com Deus, olhos nos olhos, e por Ele seremos acolhidos, da mesma forma, com o mesmo amor, com a mesma disponibilidade e alegria por parte do Pai, independentemente do que tivermos feito nesta vida. Acredito que nada disso terá importância perante um Pai que corre ao nosso encontro para nos abraçar sem sequer nos perguntar o que fizemos e porque o fizemos. Por tudo isto, acredito que, mesmo aqueles que O negaram irão finalmente (re)conhecê-lo e, face ao seu olhar de Amor, a Ele se irão entregar. Todos, repito. Todos de igual maneira, com o mesmo amor, com a mesma alegria. 
Não percebo, por isso, onde encaixa aqui o purgatório. Não percebo as orações pela salvação das almas, como se o amor de Deus estivesse dependente da quantidade de pessoas que por elas reza (não serão estes, aqueles de quem ninguém se lembra e por quem ninguém reza efetivamente, os últimos? E não é para os últimos o olhar do Pai?). Não percebo porque se reza pelas pessoas na missa e muito menos porque se paga para que se reze por elas (quer dizer, até percebo, mas não são bons motivos). 
Eu rezo com os meus mortos, não pelos meus mortos. Rezo com eles porque sei que eles já estão junto do Pai, e por isso têm já uma clarividência que a mim me escapa, que têm uma sabedoria de que necessito, que são já Amor no Amor do Pai, e que por isso me perdoam de todas as vezes que meto água - sem sequer se cansarem de me perdoar essa imensidão de vezes. Rezo com eles porque rezo com os santos, para que me ajudem a ver, para que me ajudem a serenar, para que me ajudem a tentar caminhar o melhor possível. Mas não rezo por eles. Quem sou eu para o fazer?

20221017


 

Voltamos a conversar acerca deste buraco, hoje. Mais uma vez, fica a sensação que não me fiz entender. Não há maneira de o fazer. Como posso falar destes buracos a quem nunca os sentiu, nunca lhe pôs a vista em cima, nunca fez parte da sua realidade? Como falar de incompletude a quem se sente completo? Não é possível. Mas também não é possível, ou desejável sequer, tapar esse buraco. Mais vale assumir a sua presença, perceber que está lá, permanentemente lá, e viver com isso, tendo o cuidado de o contornar, tendo a sensatez de lhe encontrar a corda ou as escadas ou pelo menos a mão disponível quando lá se cai. Assim será com os buracos da nossa vida: de nada adianta varrê-los para debaixo do tapete, torná-los omnipresentes de tanto se forçar o seu desaparecimento. Porque o buraco é também parte do que somos. E uma importante parte.

20221010

Já tinha imensas saudades! Este fim de semana voltamos a ter Encontro Nacional do ComTigo. Cheguei lá a ir buscar energia ao fundo de mim porque a semana tina sido uma verdadeira loucura. Como acredito que acontece muitas vezes a quem é educador, vesti o sorriso na esperança que com ele pudesse contagiar quem tinha diante de mim, que sabia estarem cheios de expectativa da boa. Nestas coisas, ou são conquistados nos primeiros 15 minutos ou dificilmente vão lá das pernas, por isso dou couro e cabelo nesse curto período, sabendo que depois a coisa entra em modo de gestão. Então, nesse momento, ninguém canta mais alto, ninguém dança mais escangalhado, ninguém tem o sorriso mais aberto que o meu. Depois é ir. Depois foi deixar ir, deixar fluir, ficarmos permeáveis à alegria e à energia que nos rodeia, permitindo-nos invadir pelo elixir da juventude. E foi tão bom! Cheguei ao fim rebentado, com a cabeça a estoirar de cansaço, mas chegamos todos felizes. E quando é assim, vale bem a pena. Como valeu bem a pena! Foi mesmo bom. Já tinha imensas saudades!

20220926

Politicamente, não sou nem de direita nem de esquerda, sou adepto da Doutrina Social da Igreja que, como deve ser, bebe em ambas as margens, sem exclusividades nem radicalismos. No centro está sempre a pessoa, na sua circunstância, na sua luta, fundamentalmente no seu direito à dignidade - e quantas vezes é a própria Igreja a esquecê-lo! Tenho, por isso, uma costela de esquerda no que toca à defesa intransigente dos que mais precisam e se encontram indefesos perante um capital que é demolidor na sua cegueira de busca incessante do lucro; e uma costela de direita perante aqueles que se querem substituir às pessoas e ao seu direito a construir um futuro devidamente recompensado pelo seu esforço e mérito. Esquerda e Direita não me assustam, por isso. O mesmo já não posso dizer dos extremos, quaisquer que eles sejam. Porque vêm da cegueira ideológica e conduzem à cegueira ideológica, à desatenção pelas pessoas concretas nas suas situações concretas e se guiam por agrupamentos ideológicos que mais não são que sacos onde enfiam todos aqueles cujas vozes são discordantes da sua própria cegueira. Porque se movem por interesses de classe e não têm adversários mas inimigos e, porque os têm, são cegos e surdos à realidade, em nome de uma ideologia que é sempre, sempre, desenraizada. Não gosto dos extremos, de nenhum deles, em nenhuma área da vida. E não gosto deles ao ponto de os aceitar, de tentar conviver com eles, de os tentar perceber e, em vão, os tentar demover da extremidade.

20220920

A técnica do Pateta

Perceber que a sabedoria é sempre sábia, qualquer que seja a sua origem, sempre foi um dos meus melhores instintos. Isso permite-me a gratidão de aprender, todos os dias, com as mais diversas pessoas e situações. E sempre foi assim. Ainda agora, em conversa mais ou menos divertida, dizia que este ano irei aplicar o Técnica do Pateta. E recontei como, em miúdo, me ficou marcada uma pequena BD em que o Pateta, por castigo, se viu forçado a varrer todo o pavimento até Roma. Quando o Mickey lhe perguntou como iria cumprir essa impossível tarefa, o Pateta respondeu "é fácil: varres um quadrado, respiras, varres o quadrado seguinte, respiras..." Este ano irei tentar fazer isso mesmo: concentro-me na tarefa que tenho entre mãos, respiro, concentro-me na tarefa seguinte, respiro... Na verdade, a sabedoria, quando é verdadeiramente sábia, é de uma simplicidade que estranha.

20220901

 
 
Recebi, logo de manhãzinha, a mensagem de uma amigo: "Parabéns, 17 anos é muito tempo!" Sorri. Sim, é muito tempo. Mais do que estive ligado a qualquer outra organização. Foram também muitos (e bons e, sobretudo, fundamentais) anos na G2E, alguns outros na minha empresa e, finalmente, o restante aqui, nesta casa. Vi a sua mensagem no momento em que entrava para a capela do colégio e me sentia invadir por aquele maravilhoso sentimento do regresso a casa. Foi, aliás, isso o que respondi: "não é muito tempo, quando te sentes na casa da família". Sim, isso é uma bênção. Uma verdadeira bênção. Não tardaram a chegar os rostos conhecidos, os rostos amigos, com a (passageira) jovialidade de quem regressa de férias. Alguns deles são também, para mim, regresso. Ás boas conversas, ao conhecimento mútuo, à mútua entrega na confiança, aos enormes desafios que nos esperam a todos ao longo deste ano que agora se inicia. 
Algures na minha vida, já me foi extremamente penoso ir trabalhar. Ficava zangado com o mundo logo no sábado à noite, porque só faltava um dia para regressar ao inferno. Odiava o que fazia, era profundamente incapaz e ineficaz, era um peixe que lutava até à exaustão para não se afogar num mar de dificuldades amargos sabores. Hoje, Graças a Deus - e aos que me rodeiam, todos os dias, isso já não acontece. Sim, é trabalho, sim, é fazer coisas que por vezes nos custam, sim não escolhemos todos aqueles com quem trabalhamos, e sim, são chatices e problemas e coisas para resolver. Mas, sim, é bom. É muito bom. E eu já tinha saudades!

Bambora

  Não é estranho que nos digam que «ser homem é muitas vezes uma experiência de frustração». Mas não é essa toda a verdade. Apesar de todos ...