20191113
Tenho começado por escrever. Um verbo. Dois, no máximo. Antecipo as atitudes que precisarei de ter para que o meu dia seja Dia. Preparo-me para o embate do que aí vem, para a organização do tempo, para aquilo que não conto, para o que é para ontem e esqueceram ou esqueci. Tento estar todo, inteiro, em cada momento. Tento ser todo, inteiro, antes da tomada de cada decisão, de cada escolha, de cada resolução. Depois tento viver, usufruir, aproveitar, e para isso preciso de me sentir preparado. São breves minutos, escassos num dia de trabalho, mas fundamentais. Para que, no final do dia, possa olhar para trás e sentir que valeu a pena.
20191106
O Re da vida é-me absolutamente fundamental. Recomeçar, recuperar, reatar, é-me tão necessário quanto o respirar. Poder fazê-lo por amor, porque me sinto amado, porque sinto que posso, sem perder, foi e é ainda, muitas vezes, o factor decisivo da minha adesão a Cristo. Ter alguém - muitas vezes não é necessário ser Deus, basta mesmo alguém - que me acolhe de braços abertos e sorriso nos lábios e sinceridade no olhar apesar de mim, faz-me sempre sentir a criança que se recolhe nos braços do Pai.
Outra coisa, diferente, muitíssimo diferente, é conceder o Re. Permitir reatar, recuperar, reatar, traz consigo grandes dúvidas, grandes questões, grandes desconfianças. Conhecida a dor, abraço com maior facilidade a desilusão que a alegria, entro em perda, permito que a memória da dor seja a pauta, e descubro-me a dançar ao som do ressentimento: zangado, azedo, amargo. Então, percebo que este meu desejo de recomeçar é próprio da minha humanidade. E que, acolher, por amor, o desejo de recomeçar, é a linguagem deste Deus que me habita. E recomeço-me, e recupero-nos e reato, cá por dentro, a imensidão que nos une.
Feliz, danço ao som da Vida.
20191104
Serenar. Olhar para dentro. Respirar. Deixar que o ar entre nos pulmões por entre a respiração apressada. Serenar. Olhar. Ver. És mais que uma agenda, és mais que uma sucessão de acontecimentos marcados, és mais que uma mera peça de engrenagem. Serenar. Analisar. Há coisas mais importantes e coisas não tão importantes. Há coisas que esperam um arranque e coisas que andam pelo seu próprio pé. Há coisas tuas e apenas tuas e coisas dos outros e para os outros. Serenar. Centrar. Religar. Ao que é verdadeiramente importante. Ao que permanece. Ao que está para além do tempo. Ao que é o próprio tempo. Serenar. Encontrar. Tens uma música. Tens um passo. Tens um ritmo próprio. Não se dá dois passos ao mesmo tempo. Primeiro isto, depois aquilo. Serenar. Partir. Vamos a isto.
Uma boa semana.
20191031
Verdade e Serenidade
Evoluir é estar mais perto hoje que ontem, é avançar, é não ficar parado, imobilizado, atado ao que se é. E isso é bom. Implica a coragem de arriscar, o enfrentamento do medo, o abandono do conhecido. Permite a descoberta, o impensável, o novo que nos desperta para a existência de novos sabores, novas paisagens, novos olhares. Evoluir é bom. É sempre bom. Mas não é apenas sair do sítio. Porque também o vento se move, mas não evolui: limita-se a mover-se, daqui para ali, de lá para acolá, em função da pressão, em função da temperatura, em função do momento. Exatamente como nós quando nos falta o sentido, a meta, o objetivo. Evoluir implica caminho, rota, intencionalidade, saber onde chegar e vontade de chegar. Sem isso, somos meros lançadores de redes com a ilusão de sermos pescadores.
20191028
Verdade & Serenidade
O mero desejo de perfeição é um leitmotiv poderoso. E envolvente. E totalizante. E radical. Tens que te conhecer e à tua história, tens que te analisar e saber das tuas motivações, justificações e desculpas; tens que te perscrutar até às entranhas com coragem e determinação. E tens que cortar. O que não gostas, o que não vale a pena, o que te faz mal, o que te torna pior, o que te afasta. Tens que escalpelizar a tua história pessoal e compará-la com as dos que conheces e te conhecem. E, inevitavelmente, tens que te perdoar, pelo menos na medida em que és perdoado. Nem mais, nem menos. E, ainda assim, tens que te amar, pelo menos na medida em que és amado. Nem mais. Nem menos. Tudo isto sem que te deixes ficar. Ajustas o azimute, redefines o teu próprio olhar, voltas-te para o horizonte e, de bússola no coração, avanças.
Verdade e Serenidade
Começo a semana na belíssima capela do colégio. Daqui a pouco estará cheia da vida dos miúdos mas nesta altura está "apenas" cheia da Vida de dentro. Esta é uma excelente maneira de iniciar uma semana. Confronto-me comigo próprio na pequenez de quem sabe que está longe, muito longe, do que Deus lhe pede para ser, mas no consolo e na confiança de quem sabe que é acolhido pelo Pai na vontade de mudança e de voltar a arrepiar caminho.
20191024
Não conheço muitas abordagens quanto à questão da possibilidade. E a possibilidade, para mim, na história da minha vida, é absolutamente fundamental.
Desperta-me a curiosidade perceber porque é que a malta nova com quem lido no meu quotidiano joga tanto nas raspadinhas e faz tantas apostas. Apesar de isto acontecer com miúdos que habitam ambas as margens da sociedade, aquela que passa mais dificuldades porque tem mais baixos recursos financeiros e, sobretudo, mais baixas expectativas, deposita no jogo uma fezada que não considera em mais nenhum outro aspeto da sua vida. Quando conversamos acerca disso, eles falam, invariavelmente, do que farão com o dinheiro que vão ganhar com aquela aposta, o que, com a mesmo invariabilidade, nunca acontece. Pelo menos não significativamente.
Eu jogo no totoloto e no euromilhões desde que totoloto e euromilhões existem. Nunca ganhei nada de interessante e sei perfeitamente que, apesar de apostar o mínimo em ambos os casos, não é pela probabilidade de ficar rico que eu jogo. É pela possibilidade. Eventualmente até poderia nada mudar de substancial na minha vida - na verdade, Graças a Deus, não tenho motivos para o fazer - mas a mera possibilidade abre-me asas, abre-me ao sonho, dá-me um outro e completamente novo horizonte. Se eu o adotaria, é um outro assunto completamente diferente.
Este reino, este sonho, esta fantasia da possibilidade não me acontece apenas em relação ao ficar rico, mas a tudo na vida. Talvez tenha sido pela infância passada na companhia de D. Quixote, Major Alvega, Júlio Verne, e outros que tais mas o facto é que esta ânsia de possibilidades se mantém praticamente inalterável desde que me conheço.
E sempre que uma delas se fecha, fica a saudade da imensidão que possibilidade me permite sonhar.
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Bambora
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