20181019







Hoje, enquanto caminhávamos numa das mais belas manhãs deste dia (um dia cheio pode ter muitas manhãs) dei comigo a pensar e a partilhar esta sensação que tenho nos últimos tempos que tudo na minha vida confluiu para que tudo seja exatamente como é. É uma lapalissada, certamente, mas eu esqueço-me desta verdade demasiadas vezes. Quando restropetivo tendo a desvalorizar alguns acontecimentos - normalmente os dolorosos ou, pior que isso, os vergonhosos - como se a minha vida pudesse ser o que é em cada momento sem a aprendizagem que a dor e a vergonha me ensinam.
Hoje de manhã - ultimamente, na verdade -sentia-me completo, inteiro, entrado nos eixos, dando a cada coisa o seu devido valor, dando a cada momento o seu tempo, dando à vida o seu espaço próprio, natural, permitindo-me usufruir por inteiro de cada pedacinho seu. Como se estivesse a sugar a vida até ao tutano, utilizando uma das minhas referências cinematográficas.
Talvez envelhecer seja isto. Espero que envelhecer seja isto. Sentir-me sereno. Ajustado. Inteiro. Se assim for, nada há a temer.

20181015



Sempre que leio a notícia da morte de alguém famoso sinto a mesma inquietação: como terá morrido? Como que vida interior terá morrido? Com que sensação terá morrido? Que medos, receios, dúvidas ou certezas o assaltaram no exato momento em que soube que morria?
Poderá parecer, mas esta inevitável inquietação nada tem de mórbido. De há uns anos para cá que a morte tem sido uma companhia tão natural e quotidiana como a própria vida. E isso não me impede de viver e aproveitar a vida, pelo contrário: põe todas as coisas sob um novo olhar, sob uma nova perspetiva. Depois, a escolha é minha, de permitir ou não que a morte interfira na vida ou, sendo inevitável que isso aconteça, em que medida permito que a morte se intrometa na vida.
Saber-me finito e preocupar-me memória tem, efetivamente, um determinado peso no que sou, digo e faço. Se àquela finitude juntar então a infinitude de Filho - que acredito que sou - percebo que tudo ganha uma matiz diferente, um outro peso, uma outra importância. Percebo que há preocupações que são vãs, que há alegrias que são vãs, e que todas as vitórias e derrotas são ocasionais, momentâneas, irrisórias no imenso que somos, ainda que potencialmente devastadoras na pequenez que julgamos ser.
A extraordinária facilidade e efetividade com que penso no Américo, no Lino, na Carmen, no meu sogro, na Teta, em tantos outros que me morreram mas ainda assim em tantos momentos permanecem vivos em mim, permite-me acalentar a esperança que o mesmo aconteça comigo nos meus. E quando acontecer, as coisas pequeninas da vida que tanto me envergonham serão isso mesmo, coisas pequeninas, esquecidas ou recordadas em tom jocoso, porque as memórias grandes e importantes ficam agarradas ao que é verdadeiramente grande e importante, significativo, determinante no que foi uma vida.

20180926


Nós temos uma expressão: ir de fátima a nazaré. Estávamos nos primórdios da nossa vida, em fátima, num dia de calor sufocante, e eu tive que lhe pegar literalmente ao colo, enfiá-la quase à força no carro e levar-nos à nazaré, onde pudemos respirar um outro ar. Acontece-nos isso, por vezes. Estamos mal, tão mal que nem nos apercebemos que estamos mal, tão mal que nos incomoda sequer a perspetiva de nos mexermos, tão mal que precisamos que nos peguem ao colo, tão mal que a última coisa que nos ocorre é deixarmo-nos amar. Aconteceram-nos imensas vezes, pegamo-nos mutuamente, cuidamo-nos mutuamente, amamo-nos mutuamente. Nem sempre de mútuo acordo. Sempre com o mesmo resultado: sentirmo-nos amados e cuidados. E nada há na vida melhor que sentirmo-nos amados e cuidados.
Ontem, no final de um longo e algo penoso dia de trabalho, olhei-a e vi o seu olhar cansado. "Vamos namorar". Descemos alguns metros até ao mar, o nosso mar, um dos lugares que testemunham a nossa vida de muitas vidas, o nosso caminho de muitas caminhadas, as nossas lágrimas de ainda maiores sorrisos. E eu sabia que iria acontecer o que aconteceu: voltei a ver o seu olhar de gaiata, feliz, apaixonada, a louvar a Deus e à vida, por termos ido de novo de fátima a nazaré. Eu conhecia o desfecho, antecipara-o e, deliciado, confirmava-o agora no seu olhar, sentia-o no seu abraço forte, no beijo prolongado.
Há, no caminho feito, milhares de histórias feitas de contrastes, de estados de espírito diferentes, alternados, repentinos ou repetidos, intempestivos ou antecipados, programados, mas sempre, sempre, tidos como novos, sentidos como novos, vividos como novos, num renovar constante que faz determinadas coisas sempre novas. Como a sua alegria belíssima, genuína, infantil, à medida que caminha sofregamente sobre os seixos da praia para molhar os pés na água gelada. Haveremos de ter 90 anos e, para mim, nessa cena, ver-te-ei sempre menina a caminhar, feliz,  em direção ao mar!

20180912


Quem me conhece mais de perto ouviu já uma expressão que uso algumas vezes: sou um barco com motor fora de bordo. Não fora isso e, quando muito, seria um daqueles barcos a remos, de madeira gasta e envelhecida, repintados inúmeras vezes para turista ver, mas a que nem a brutal força braçal os faz sair da cepa torta. Ou então, o que é ainda mais provável, um daqueles barcos cuja existência se confina às margens, se resume ao casco meio desfeito, quase irreconhecível, sem pintura que lhe valha, de tanto levar, sem apelo nem agravo, com o efeito das marés desta e de outras vidas.
Várias vezes na vida julguei ser veleiro ágil e esguio, e cometi a loucura de enfrentar ventos e marés, orgulhosa e vaidosamente ostentando as minhas velas enfunadas ao vento. A vertigem da velocidade provocada pelo vento a favor inebriou-me sempre e sempre teve o mesmo destino: esse mesmo vento a favor, que antes me provocara a ilusão do voo, é o mesmo que me rasga as velas, me impede de avançar e, afundando-me no mar, me torna âncora de mim mesmo. E fico lá, parado, em eterna maresia, impotentemente indiferente, indiferentemente impotente, alheio à vida que vai passando ao largo.
Nessas alturas, invariavelmente, chega o meu motor de fora de bordo. Desprezando ventos e marés, olha amorosamente para o que, ignorando as evidências, acredita que sou, e me leva de volta ao cais onde, no lado oculto dos holofotes, me restaura cuidadosamente, por vezes penosamente, mas sem nunca deixar de acreditar no que posso ser, no que sou chamado a ser, fazendo-me acreditar voltar a ser. Ainda que seja para, de novo, ostentar vaidosamente as minhas velas ao vento.
O melhor de mim chegou-me por seu intermédio. A consolidação da fé, a descoberta da família, a alegria do (des)empenho, a necessidade de ser fazendo, tudo me foi apresentado, tudo me foi introduzido, tudo me foi acalentado em doca seca, pedaço a pedaço, colando aqui e aparafusando acolá, fazendo e refazendo, pintando e repintando, por e com amor, imenso, incontável, inacreditável amor, no cais da nossa vida comum. Companheira de toda a minha vida que valeu a pena ser vivida, é ela o meu motor, o meu grilo falante, a minha consciência. É ela quem me cuida, quem me transforma, quem me leva a acreditar que posso ser ser quem jamais sonhei ser.
Vê-la, ontem, num belíssimo final de tarde, num dos nossos lugares de eleição, a enfrentar o mar que tanto ama, fez-me louvar a Deus por ser tão e tão verdadeiramente amado por alguém assim.

20180905



Esta data, 5 de setembro, é, hoje, muito especial para mim. E para todos os que me amam.

Na minha vida, como acredito que em todas as vidas, há momentos de viragem, momentos decisivos, que decorrem de decisões tomadas, no meu caso quase sempre por impulso, por arder de coração. Há treze anos foi isso que aconteceu, começava, efetivamente, uma nova vida: fui para o Colégio.
Vinha de uma profissão que me devastara a todos os níveis. Em poucos anos passara do sonho ao pesadelo, com repercussões muito sérias, que ainda hoje se vão revelando, como a lava que nunca descansa sob a crosta. Naquelas que são as mais importantes dimensões da minha vida: a minha família, a minha fé e, naturalmente, eu próprio, nada ficou por revolver, nada ficou incólume, nada permaneceu como era antes. Por minha causa, por minha culpa, todos conhecemos a dor do fracasso. Sei o que é acordar, depois de um pesadelo, e desejar voltar a adormecer para não ter que viver o pesadelo da realidade. E sei o que é desejar nunca mais ter que acordar.
Foi naquele estado de profunda devastação que fui acolhido, mais que na minha nova profissão, no meu novo lugar. Aí, paulatinamente, com a ajuda de imensos, fui recuperando o que perdera, fui serenando, fui descobrindo o que nunca soubera meu. Passei do pesadelo ao sonho, do detestar as tardes de domingo ao acordar feliz da segunda feira, voltei a cantar de manhã, a sair feliz de casa, a regressar ainda mais feliz a casa. Renasci. Como pessoa, como homem, como pai, como marido, como profissional, como amigo... como cristão.
Não acredito que sejamos apenas aquilo que fazemos. Não é a profissão que nos define. Quando calha bem e temos muita sorte, se calhar somos nós que definimos um bocadinho a profissão. Mas para que isso aconteça temos necessariamente que estar de bem com Deus, com os que nos amam, com os que nos rodeiam...  connosco próprios, que, no meu caso, é sempre a última e a mais difícil das batalhas. Que jamais, teria sequer a capacidade ou a coragem de travar sozinho.
O Colégio, o Instituto, as pessoas que aí dedicam os seus dias, são, também por isso, parte da família. Sabemos todos, cá em casa, como nos é importante, como nos serviu de impulsionador, como nos serve de plataforma para que, hoje, possamos com verdade dizer que somos felizes. Não é a base sobre a qual assenta a nossa felicidade, que essa tem outros nomes: partilha, cumplicidade, reconhecimento, caminho, fé, família; mas foi, é, e acredito que será, impulsionadora de vida, da nossa vida, do nosso presente e futuro, uma bênção que Deus colocou no nosso caminho.
Hoje é um dia importante para mim. E para todos nós, cá de casa. 

20180814


Sinto muitas vezes que o meu caminho é mais feito de dessincronias que de encontros. Apesar de serem imensos os encontros. Talvez seja como se procurasse sempre e raramente encontrasse, pelo menos de forma definitiva, ou que então o definitivo acabasse inevitavelmente por se transformar em efémero, permanecendo no entanto a vastidão da memória.

Há momentos, mais que fases, momentos, em que a sintonia me invade a alma. Como se estivesse tudo no seu lugar, como se o universo conspirasse para que as coisas, todas as coisas, ocupassem o lugar que lhes estava destinado dentro de mim. As dores são lidas como aprendizagens, as saudades como boas memórias, os medos como desafios, os trabalhos como projetos de felicidade. Tudo flui, tudo conflui assente na argamassa do amor profundo.

Nestas alturas apetece-me gravar a tranquilidade, a pacificação, a serenidade, a sabedoria do viver para que a possa usar quando lhe sentir a falta. Alimento em mim, permanentemente, a ilusão que agora é que é, que o equilíbrio que me habita veio de Toyota, para ficar. Talvez permaneça. Talvez não. Para já, permanece o agradecimento a Deus, à Vida, e aos que me habitam, esta íntima serenidade que julgava arredada de mim.

20180808



Junto de mim, ao meu lado, permanecem aqueles que, apesar de mim ou por mim, escolhem ficar, em cada um de todos os dias, pacientemente, por vezes até ao limite do desespero, como é próprio do amor enraizado nas entranhas. É desse amor que tudo brota. É a consciência da permanência desse amor que tudo permite.  Vivesse eu constantemente preocupado com o chão e jamais me permitiria voar. E como me é fundamental poder voar!
Há uns anos disseram-me que eu apenas sinto vontade de partir para poder voltar. E eu sei que mais importante que partir é este desejo constante de regressar, de me saber esperado, de me saber saudade, de me saber desejo, e de, em cada regresso, me sentir reacolhido de braços e coração escancarados. É certo que nunca sem uma boa luta, nunca na facilidade da indiferença, mas na exigência, na dura prova de quem quer sempre saber quem se ama, porque se ama, contrariando a dor de amar, mas se calhar preciso disso mas me saber imensamente amado
É nesta permanentemente periclitante certeza de amar e, sobretudo, de me sentir amado, que me encontro e à minha vida. É nesta ternura feita de pequenos almoços no silêncio de uma paisagem edénica, nesta pacatez das caminhadas onde tudo em nós conflui, neste testemunhar da vida que germina naqueles que são a nossa vida, é nesse imenso infinito, que eu sou.

E no fim de contas, no fim de cada um de todos os dias, com sorte no fim da vida, é este imenso que apenas importa. Porque é apenas este o imenso que me faz verdadeiramente feliz.


Bambora

  Não é estranho que nos digam que «ser homem é muitas vezes uma experiência de frustração». Mas não é essa toda a verdade. Apesar de todos ...