20180808



Junto de mim, ao meu lado, permanecem aqueles que, apesar de mim ou por mim, escolhem ficar, em cada um de todos os dias, pacientemente, por vezes até ao limite do desespero, como é próprio do amor enraizado nas entranhas. É desse amor que tudo brota. É a consciência da permanência desse amor que tudo permite.  Vivesse eu constantemente preocupado com o chão e jamais me permitiria voar. E como me é fundamental poder voar!
Há uns anos disseram-me que eu apenas sinto vontade de partir para poder voltar. E eu sei que mais importante que partir é este desejo constante de regressar, de me saber esperado, de me saber saudade, de me saber desejo, e de, em cada regresso, me sentir reacolhido de braços e coração escancarados. É certo que nunca sem uma boa luta, nunca na facilidade da indiferença, mas na exigência, na dura prova de quem quer sempre saber quem se ama, porque se ama, contrariando a dor de amar, mas se calhar preciso disso mas me saber imensamente amado
É nesta permanentemente periclitante certeza de amar e, sobretudo, de me sentir amado, que me encontro e à minha vida. É nesta ternura feita de pequenos almoços no silêncio de uma paisagem edénica, nesta pacatez das caminhadas onde tudo em nós conflui, neste testemunhar da vida que germina naqueles que são a nossa vida, é nesse imenso infinito, que eu sou.

E no fim de contas, no fim de cada um de todos os dias, com sorte no fim da vida, é este imenso que apenas importa. Porque é apenas este o imenso que me faz verdadeiramente feliz.


20180712



É uma treta dizer que o amor não precisa de recompensa. Claro que precisa. Quanto mais não seja da recompensa da imensidão de amar. Ou da preservação do amor próprio, que é a fronteira que define a bondade ou não de um amor. Porque amar também não é sempre bom. Nem ser amado é sempre bom. Se amar e ser amado fosse sempre bom, se fosse tudo cor de rosa, amar jamais implicaria arriscar, e se há risco nesta vida, ele encontra-se exacerbado quando se ama e se é amado.

No amor, nada é pele, tudo o que de importante acontece, é subcutâneo. Mesmo quando a pele inebria, ou sobretudo quando a pele inebria, é sob a pele que o turbilhão acontece. Porque se a pele sacia momentaneamente, esfomeia logo a seguir. Logo que o sangue esquenta, logo que o cérebro é irrigado e com ele a alma, e desperta em nós esta indómita vontade de estar com quem se ama. De viver com este amor. De viver para este amor. De respirar este amor, acordar com este amor, dormir com este amor, caminhar e trabalhar e sorrir e chorar como se apenas existisse este amor. Porque, quando se ama, este tudo é tudo. E o outro tudo é nada.

É uma treta dizer que o amor não precisa de recompensa. Claro que precisa. Precisa da imensidão de amar. 

20180701






Estava eu alguns metros acima do solo e, como de costume, comecei mentalmente a chamar-me de tudo. A subida já tinha sido penosa, demasiado penosa, e à vista de todos ainda por cima, e era agora tempo de tentar parar as tremeliquices no corpo todo, esquecer o medo, e avançar. Arvorismo, como outros ismos, não são mesmo para mim. nem sequer é o fator idade, mas o fator medo, mesmo: alturas e atividades radicais nunca foram a minha praia.

Mas isso é uma coisa. Outra, bem diferente, é permitir que o medo me impeça de fazer. Já basta quando me impede de ser, o que acontece mais vezes que as que gostaria, mas tento sempre que o medo não me tolha. Era mesmo nisto que eu pensava enquanto subia, e era mesmo isto que lhes ouvia: eles, que momentos antes tinham dito que tinham medo, vieram a seguir a mim.

Há sempre uma enorme dose de loucura ao enfrentarmos os nossos medos. Não basta o medo em si , o termos que ultrapassar os nossos instintos de conservação e de proteção, e ainda temos a dúvida - nossa e dos outros - a fazer mossa. Passada a pica que leva à decisão de enfrentar, tudo o resto são dúvidas, que minam, que perturbam, que roubam a confiança. Arriscamos e as vozes dos outros não nos saem da cabeça. E como sabemos que essas vozes vêm sempre de quem nos ama, adquirem uma repercussão ainda maior. E, no entanto, ainda assim, por vezes avanço. Com vozes e tudo.

Eu arrisco muitas vezes. Imensas! Não tanto fisicamente, mas mentalmente. Saio muitas vezes da minha zona de conforto - que quase sempre em sei bem qual é - procuro outras, tentando fundamentalmente ir sendo mais. Já perdi imensas vezes, e coisas não pouco importantes, que me forçaram a refazer-me. Se de menino e de louco todos temos um pouco, eu tenho imenso. De ambos!

20180625


Mais a sério, mais a fundo, faço dois balanços por ano: um no final e outro a meio, por altura do meu aniversário. Eu gosto muito de balanços, de os fazer, de os avaliar, de analisar a minha situação, o caminho percorrido, o caminho perdido, o caminho escolhido percorrer, o que fui perdendo e ganhando, o que foi ficando para trás, para segundas núpcias, para uma outra vida!
Este é, inegavelmente, um exercício de memória. Não tanto do que foi feito, exatamente, mas do que fica do que foi feito, do que fica do que foi dito, do que fica daqueles com quem foi feito. E este foi um ano de muitas coisas, muitos acontecimentos completamente novos e renovados, de erros e recomeços, de renascimentos, de novas maneiras de fazer o que antes tinha sido feito de uma outra maneira. Este foi também ano de projetos, novos e renovados projetos, novos e renovados sonhos, novas e renovadas maneiras de sonhar o que sempre foi sonhado.
Chego à meia idade com essa sensação: que esta é, mesmo, uma meia idade. Já não sou novo e ainda não sou velho, tenho menos gente em casa e ainda não tenho mais gente em casa, já não tenho o pedal que tinha mas ainda não reduzi a azáfama. Esta é a altura do já mas ainda não. Por isso este refazer tão presente, tão constante.
No entanto, fazer o balanço não pode ser um exercício frívolo. Tem que servir para redefinir objetivos e sonhos e desejos e projetos. Por muito boas que as memórias sejam, são apenas isso, memórias, e vivi já o suficiente para perceber - por vezes a tremendo custo - que há caminhos que não voltarão a ser percorridos. Pelo menos, não da mesma maneira. Por isso, é arriscar avançar, passar a ponte, por muito que esta se nos afigure frágil, por muito que não consigamos descortinar o que estará do outro lado.
Viver é arriscar. Sempre foi arriscar. Um risco calculado. Que se transforma miraculosamente em meio risco quando sabemos, sobretudo, com quem vivemos. Sobretudo quando sabemos com quem caminhamos. Sobretudo quando nos apercebemos que quem nos acompanha, apesar de tudo, permanece, está, fica, não vai a lado nenhum, não quer ir a lado nenhum. O que torna a viagem uma outra viagem. Sempre sonhada. O que torna o sonho um outro sonho. Feito de recomeços. Constantes recomeços.  Feito de projetos. Novos e redesenhados projetos. Feito de futuros. Novos e apostados futuros. Porque tudo o que está para vir é futuro. Porque tudo o que está para vir é muito desejado e sonhado e amado. Antes ainda de ser.

20180621


Eu mesmo, por mim mesmo, para mim mesmo. Esta foi a conclusão do estudo de hoje. Simples. Eu, quando começo, continuo e acabo em mim. Só. Eu e Eu & Cª Lda. como se dizia antes.

Penso muitas vezes em mim, não como o diabo - não acredito no diabo mas na existência do mal - mas como alguém em quem o mal está sempre à espreita.

Eu vivo num limbo. Permanente. Provavelmente é o que acontecerá com a maioria das pessoas, eu não sou especial de corrida em coisa nenhuma e por isso não serei nesta, mas o que é facto é que eu vivo num limbo. Permanente. por isso deveria pensar cada passo, cuidadosamente, laboriosamente, dando tempo e espaço ao juízo que, embora vaga e preguiçosamente, ainda vou tendo. Não acontece. As decisões mais importantes, porventura mais decisivas, são sempre as menos fundamentadas. Tipo Lucky Luke: disparo primeiro e depois vê-se. Vivo, deixo-me viver, sigo um impulso, e depois, por vezes, muitas vezes, deito as mãos à cabeça. É, por isso, frequente, ver o diabo quando olho ao espelho. E o anjo, na verdade. Não só quando olho ao espelho, na verdade. Quando olho os outros também. Por vezes até no mesmo dia. Ora me parecem o diabo, ora me comovem até à medula com gestos de bondade que desmentem tudo o que lhes vira até então.

Creio que a questão é todos nós somos anjos e demónios. Todos nós, em determinada altura, sob determinadas condições, escolhemos, umas vezes bem, outras nem tanto, com consequências para nós e para os outros. Parece-me que isto é evidente e normal, ainda que fosse bem melhor se assim não fosse.

Por vezes posso dar a sensação que endeuso pessoas. Noutras, não que as desprezo, mas que me são indiferentes. Esta é, aliás, uma acusação que me é regularmente feita. Nenhuma delas corresponde à verdade. Ou talvez ambas correspondam à verdade. Porque a verdade é que dificilmente me agarro à imagem de alguém. Porque a verdade é que, sobretudo, acontece que essa imagem perdure no tempo. O tempo que, em mim, suaviza sempre o diabo dentro de nós e deixa que o anjo lhe tome o lugar. Eu, que muito dificilmente esqueço palavras, gestos e atitudes, tenho como que uma memória seletiva: de fora para dentro prevalecem os anjos; de dentro para fora, os demónios. Recordo sempre o bom que me foi feito e o mal que fiz. Sempre.
Talvez seja esta uma das raízes de eu viver a vida com permanente espanto. E maior gratidão.

20180619


Gosto muito de elefantes. Do seu porte, do seu olhar doce apesar do porte, da forma como se mexem, como escolhem morrer, da memória, que tradicionalmente se diz que têm. Se eu fosse apenas animal, gostaria de ser elefante. Já estaria a meio caminho. Talvez goste tanto deles porque gostaria de ser um deles.
Não sou de esquecer. Nunca fui. Muito menos de querer esquecer - quando caio nessa asneira mais não consigo que recordar constantemente o que tão forçosamente quero esquecer. Recordo gestos e atitudes e conversas que tive ou escutei desde que era menino. Quase de colo. Por vezes dizem-me que nós só conseguimos reter coisas na memória a partir de determinada idade, mas naquelas idas ao baú com os com os meus pais e irmãos eu recordo discussões ou acontecimentos que tiveram lugar quando eu era mesmo pequenito e eles ficam a olhar para mim. Recordo muito, e com muito quero dizer muitas coisas, muito presentes, muito vivas, como se tivessem sido ontem. Recordo coisas que não servem para nada, não têm utilidade nenhuma... a não ser serem um parte importante do que eu sou.
Então pessoas!
Há não muito tempo pensei no que gostaria de fazer se soubesse que iria morrer dentro de um prazo curto. Uma das coisas que faria, com toda a certeza, seria retomar conversas inacabadas ou mal entendidas ou pouco esclarecidas, conversas que ficaram a meio e deixando algum nível de ressentimento. Porque nestas coisas o tempo tem a mania de limar as arestas, fica como lastro o que eu disse que não deveria ter dito, o que eu fiz que não deveria ter feito, o que eu deixei por resolver e deveria ter ficado bem resolvido, independentemente das circunstâncias. Eu deveria ter visto, deveria ter pressentido, deveria ter sido mais comedido, deveria ter sido mais sábio. Sempre!
Naturalmente, muita gente me passou pela vida. Muitas conversas, muitas partilhas, muitos caminhos. Algumas dessa gente permanece, outra nem tanto. Vou vendo pelas redes sociais, vou sabendo por interpostas pessoas, vou-me alegrando e sofrendo em segunda mão. Nenhuma delas está esquecida. Nenhuma delas está nos escombros da memória. Todas elas, volta e meia, a pretexto de tudo e de coisa nenhuma, regressam.
Claro que nem todas são iguais, nem todas têm o mesmo peso, há graus diferentes de profundidade, há níveis diversos de intimidade, quase sempre ligados à densidade da alma, à intensidade de uma boa conversa aliada às circunstâncias em que aconteceu. Há céus especiais e paisagens especiais e momentos especiais e caminhos especiais e lugares especiais que me povoam ininterruptamente de forma silenciosa e silenciada. Céus e paisagens e caminhos e momentos que são o que são porque têm dentro deles a doce memória da vida bem vivida.
Ainda nestes dias conversávamos que, excetuando com os meus - e os meus são muito poucos - sou de fogachos com os outros. Como a minha alma não é um disco de computador, que posso varrer e arrumar tudo encastradinho, há espaços nunca preenchidos, há saltos na continuidade, feitos das tais conversas incabadas. O que nem é mau, na verdade. Mau seria se eu desse as pessoas por terminadas na minha vida. E isso nunca aconteceu. E espero que nunca aconteça! Porque se acontecer, terei deixado, com toda a certeza, de ser eu.

20180615






A saudade dói. Sempre. Com dores diferentes, umas despertam sorrisos, outras provocam esgares de dor, silenciosa ou manifestada, mas dói sempre. Saudade do que já fiz, daqueles com quem já fiz, das circunstâncias em que foi feito. Mesmo que na altura disséssemos mal dessas circunstâncias, releio-as e recordo-as agora com um outro peso, uma outra essencialidade, que o tempo se encarrega de limar arestas: se não tivesse sido exatamente assim, não seriam estas as memórias, mas outras, completamente diferentes, e certamente menos saborosas.

Conversávamos um dia destes daquilo que já não farei. Do imenso que já não farei. Da enorme quantidade de projetos e sonhos para os quais já não tenho idade... ou a idade me tira a vontade. De alguns deles eu poderia descrever com enorme exatidão cada passo, cada momento, cada sensação, tantas foram as vezes que os sonhei. É como se os tivesse realizado, efetivamente, de tal forma que as memórias que permanecem desses apenas sonhados e projetados episódios da minha vida se revestem de uma realidade tão real que se confundem com aqueles que efetivamente vivi. Não me espantaria se, daqui por trinta anos, contasse aos meus netos as minhas aventuras num Defender por terras de África, ou de viagens de balão nos céus alentejanos, enquanto os meus filhos, nas minhas costas, fazem carinhosos gestos circulares com o indicador a volta da fronte direita. Nada que não aconteça já, na verdade!
Não são das que doem menos, estas saudades do apenas sonhado. Alicerçadas na realidade, amarram-me às minhas circunstâncias e impedem-me o voo. E como o sonho do voo é fundamental, sobretudo para quem se alimentou tantas vezes do sonho para fugir à realidade circundante! É extraordinário como hoje consigo ver, in loco, a necessidade que as pessoas do bairro têm de jogar nas raspadinhas, euromilhões e apostas desportivas. Que outra forma terão de escapar ao seu quotidiano?
A parte boa é quando redescubro, todos os dias, de forma renovada, que a minha realidade é, justamente, precisamente, o sonho mais vezes sonhado, mais intensamente desejado, e ainda assim, superiormente ultrapassado. E que a saudade, aquela que dói sempre, do vivido e do apenas sonhado, não deixa de doer sempre, mas é ultrapassada pela realidade. E que essa saudade, feita de pessoas e conversas e experiências e vidas sonhadas mas nunca concretizadas, é motivo para agradecer, todos os dias, o dom da minha vida.
E louvar a Deus pelo imenso que alcançamos.
Juntos.

Bambora

  Não é estranho que nos digam que «ser homem é muitas vezes uma experiência de frustração». Mas não é essa toda a verdade. Apesar de todos ...