Terminado mais um Santiago, inicia-se mais um ano. Aponto no meu calendário as minhas atividades já marcadas e assusto-me. Como sempre, vejo-o carregado de várias cores e antecipo um ano carregado de sem tempo, de correria, de dificuldade para a introspeção, meditação e oração. À semelhança no ano passado, e do ano anterior, empenhar-me-ei em conseguir um espaço apenas meu, um espaço de encontro comigo próprio, essencial para sopesar o que se passa dentro com o que se passa fora.
Essencial, meu caro Zé. Independentemente do que te possam dizer!
20160911
20160815
Recordo o verão da minha infância com saudade. Não apenas as intermináveis brincadeiras de rua, que terminavam já a noite ia alta, ou as idas à praia com o tijolo a tocar a altos berros no velhinho 88 que ia de São Roque ao Castelo do Queijo. Nem sequer os naturais e desejáveis amores de verão, que tinham tanto de intensos como de fugazes, inevitavelmente levados pelas águas das primeiras chuvas. Recordo particularmente os imensos momentos que tinha apenas comigo, e os meus livros e os dias inteiros para ler. Recordo as descobertas que fiz através da literatura, as coleções que comprava e vendia no velho alfarrabista do Bonjardim, que me devia achar alguma piada porque me dava mais livros que aqueles que eu lhe entregava. E depois, começada a escola, recordo o caminho interminável, sempre percorrido a pé porque não havia autocarro, pelo menos duas vezes por dia, outros bem mais, ou porque vinha almoçar a casa, ou porque ia aos treinos de uma das muitas atividades desportivas que fui tendo. Naqueles três quilómetros aprendi a viajar cá por dentro, a rever histórias, a preparar futuros, a fazer planos mil vezes desfeitos e refeitos porque cada caminhada era suficientemente longa para imaginar mil vidas. E como eu as imaginava!
Desse tempo ficaram estas minhas duas vertentes da minha personalidade, tão antagónicas quanto imprescindíveis para o meu equilíbrio: a alegria de estar com os outros quando estou com os outros; a necessidade de estar comigo quando estou comigo. Por vezes penso que a segunda, a da reclusão do mundo, é prevalente, é mais importante, é mais eu. Que eu estou melhor quando estou apenas comigo próprio, com as minhas memórias, com os meus sonhos e fantasmas. No entanto, fazem-me sentir muitas vezes que sou melhor com os outros, quando não me recluo mas deixo-me ser nos outros e deixo que os outros sejam em mim. É aí que se revela sempre o melhor de mim, e chego à conclusão que é aí que me aligeiro e me liberto de mim próprio.
As minhas últimas insónias têm sido preenchidas por Santiago. Faço e desfaço mochilas, aponto mentalmente o que não pode faltar, engendro esquemas para que caiba tudo e pese pouco. Santiago ocupa já uma boa parte do meu consciente e inconsciente. Num isto de memória e projeção, vejo-me a caminhar, invariavelmente no fim da fila, a conversar brevemente com quem me acompanha na ocasião e a deixar a mente esvoaçar por entre passadas mais ou menos ritmadas e paisagens mais ou menos deslumbrantes. Talvez por isso goste tanto da ida a Santiago: permite-me um misto de isolamento e partilha, devidamente acompanhado pela oração interior e exterior; permite-me ter gente boa à minha volta sem no entanto comprometer a minha necessidade de caminhar comigo mesmo; permite-me sair de mim a qualquer momento quando sou necessário e acolher quem se apercebe que também eu preciso de ajuda.
Santiago aproxima-se.
Deus seja louvado!
20160804
"Olá. O meu nome é Zé Pinho. Sou casado, tenho cinco filhos."
Já muitos miúdos e graúdos ouviram isto da minha boca. É fácil de dizer e diz o essencial de mim - como é dito num contexto de formação católica, a outra parte que me é essencial está subentendida.
Desde sempre que tivemos muitos filhos. Que agora estão um pouco espalhados. Na próxima semana terei uma em Vila Real, outra nem sei bem mas sei que é numa aldeia do interior (um pai não consegue saber tudo!) outra no Algarve a trabalhar e outro na Tanzánia, em missão. E o mais novo já disse que tem que arranjar maneira de se por ao fresco, que não está para servir de velinha as férias todas. Mesmo aquela tradicional semana de todos juntos não foi possível este ano. Uns iam e outros vinham mas nunca estivemos todos ao mesmo tempo.
Viver com os filhos longe é uma aprendizagem. Mais uma. Se por um lado ansiávamos ambos que esta altura chegasse, se ansiávamos pelo nosso tempo, sem darmos justificações, sem pensarmos em jantares a horas e em roupas e em limpezas; por outro lado vemo-nos agora recuados aos tempos em que namorávamos: os passeios a dois, os jantares a dois, as caminhadas a dois, só que desta vez por entre mensagens de facebook e chamadas para e dos nossos filhos. É bom. É muito bom. Mas não deixa de ser um bocadinho esquisito. E inteiramente novo!
Viver a dois é sempre uma aprendizagem. Exige ajustamento constante, descoberta constante, redescoberta constante, não sendo para isso muito relevante se estamos juntos há três ou há trinta anos. Os desafios que se nos colocam hoje são muito diferentes daqueles que se se nos colocaram ao longo dos últimos trinta anos. São novos, são diferentes, são outros, que nos exigem novas avaliações e novas respostas... e novos ajustes. Constantemente.
Na semana passada pensava acerca de uma frase que deito muitas vezes da boca para fora: "não acredito em casamentos para sempre; acredito em casamentos de todos os dias." É verdade. Mas não é menos verdade que um casamento de todos os dias ao longo de trinta anos tem um outro peso, um outro lastro, uma história feita de cuidar mútuo que dá outro tipo de retorno.... e de desafios... e de segurança!
Estas férias têm sido também isso: um tempo de redescoberta. Mútua e de cada um de nós nos outros. Umas ricas férias!
20160720
Disse que tinha que ir abandonando os pontos de interrogação.
Surpreendi-me quando verifiquei que conseguia meter toda a minha vida numa pequena colagem de frases e imagens escolhidas quase ao acaso. Não acredito muito em acasos. Acredito com maior facilidade em milagres e, particularmente, em sinais de Deus. Os acasos acontecem quando andamos à procura deles e estamos atentos aos sinais. Parece que as coisas caem no nosso colo vindas do nada quando, na realidade, estiveram sempre lá e apenas lhes demos um outro sentido. Ter, diante de mim, aquele pequeno cartaz com frases e imagens recortadas a partir de duas ou três revistas e ver aí tudo o que me é verdadeiramente importante foi pouco menos que uma revelação. Principalmente quando elevei o olhar e me comparei com outras colagens e escutei as suas explicações. Creio que foi a primeira vez que tive a sensação que eu estaria mais arrumado que confuso, mais assente que navegante, mas convicto que inseguro.
Tens que ir abandonando os pontos de interrogação. E passar ao ponto final seguido do de exclamação.
Não sei se o consigo. Muito menos se o quero. Sempre me dei bem na dúvida, na interrogação constante, na procura incessante, que e fez sempre ir mais além. Claro que tenho momentos em que que mais desejo é um pouco mais de certezas, mas, no geral, é na dúvida que sinto que pertenço. É a questionar tudo, a refazer tudo, a desmontar para voltar a montar, peça por peça, mesmo que a sua aparência final seja exatamente igual à que a antecedia.
Será que me quero deixar de questionar? Será que me quero acomodar? Será que estou preparado para passar do "quem sou eu?" para o "este sou eu.!"?
Não me parece! Se algum dia isso acontecer, terá que acontecer porque não sinta necessidade de procurar. Até aí...
20160712
Não acredito - nunca acreditei! - que a fé é um dom destinado apenas a alguns - poucos - predestinados; nunca acreditei que os milagres - nos quais acredito - tenham um alvo específico, e muto menos que esse alvo seja alguém que é comummente visto como "puro" ou "crente"; nunca acreditei em pessoas particularmente "puras" ou "crentes", sem os inúmeros fantasmas que nos habitam e nos obrigam a discernir; nunca acreditei em supers - super homens, super mulheres, super poderes, super iluminados - e muito menos em supers à custa de uma bênção particular divina; nunca acreditei que um terço pendurado no espelho do carro ou no bolso traga mais sorte que um trevo de quatro folhas ou uma perna de porco embalsamada; nunca acreditei em fezinhas ou fezadas ou rezas ou feitiçarias ou responsos ou o que quer que seja que pretendam atrais um olhar especial sobre o que quer que seja.
Acredito num Deus que nos olha com amor, por amor, e com amor cuida de cada um de nós, de igual forma. Acredito em pessoas, com fantasmas, com medos, com coragem, com risos e choros, com choros e risos, e maus feitios e bons feitios, e bons momentos e maus momentos, capazes dos melhores gestos e dos piores gestos. Acredito no pequeno, no simples, no comum, que volta e meia é capaz do grandioso, do extraordinário, do incomum, mas que, passada a necessidade, é capaz de voltar ao pequeno, ao simples, ao comum, com a mesma alegria e serenidade com que aí habitava antes, com a mesma felicidade profunda que aí sentia antes. Acredito na oração, no poder da oração, que nos configura com Deus, que nos puxa para Deus, que nos faz desejar ser um pouco mais como Deus, naquilo que Deus tem de serviço, de fazer-se pequeno, de fazer os outros maiores. Acredito no reconhecimento do amor que Deus tem por cada um de nós, que Deus tem por mim, e que me faz sentir feliz por eu ser eu, que faz com que cada um se sinta feliz por ser quem é, único e irrepetível. com tudo aquilo que faz com que cada um seja exactamente o que verdadeiramente é: único e irrepetível.
Por tudo isto, fazem-me alguma confusão as proclamações de fé aliadas ao sucesso (não é o caso do Fernando Santos, cuja proclamação foi escrita durante o aparente insucesso); faz-me alguma confusão que se meta no mesmo saco fé e fezadas, terços e traças, orações e rezas; faz-me alguma confusão que alguns daqueles que têm uma fé esclarecida (alicerçada na vida e no estudo) aproveitem agora um momento de glória para falar dos supostos benefícios da fé. Admito, no entanto, que tudo isto deixará de me fazer tanta confusão se, no próximo insucesso, ler as mesmas conclusões das mesmas pessoas. Será sinal que perceberam que não é a fé que torna as coisas possíveis. É a nossa leitura da vida (porventura com a confiança que nos vem da fé) que nos torna fazedores das coisas impossíveis. E que, sobretudo, nos torna capazes de aceitar, com a mesma serenidade, o que não somos (ainda) capazes de fazer.
20160614
Apesar de ser um otimista nato, não sou um inconsciente. E estou preocupado. Com toda esta deriva de violência e extremismos que quase todos os dias nos assalta o quotidiano e perturba a consciência. Eu sei que a maior parte dos acontecimentos é potenciado pela velocidade das redes sociais que fazem com que tudo o que acontece no mundo aconteça aqui e agora. Eu sei que, por causa disso, tendemos a fazer nossos todos os problemas, todos os massacres, todas as discriminações que acontecem do outro lado do mundo. Mas também sei que todos os problemas, todos os massacres, todas as discriminações são efetivamente nossos, onde quer que aconteçam. E que, por isso, as redes sociais não são um alvo a abater mas a admitir, primeiro, e a admirar depois. Claro que nos roubam o sossego, claro que nos entorpecem, claro que nos insensibilizam, mas também nos mobilizam e nos desviam do cuidado hiperatento que temos com o nosso próprio umbigo.
Eu sei História. E sei como, em milhares de anos de civilização, tudo o que é basilar se mantém basilar. Os mesmos medos, a mesma necessidade de defesa, o mesmo nós contra os outros. E, da minha parte, a mesma dificuldade em saber lidar com acontecimentos antagónicos: por um lado, uma noção de liberdade que permite e potencia todos os abusos; por outro lado um extremismo latente e perigosíssimo que abusa permanentemente da liberdade de que goza e se aproveita dela para no-la roubar.
Não consigo perceber como, mas urge por cobro a isso. E alegra-me que, por uma vez, a Igreja que somos nós esteja no caminho certo. Sem dúvidas, sem subterfúgios, sem meias palavras. Tenhamos a coragem de o assumir. Se não o fizermos, de cabeça levantada e voz audível, seremos cúmplices na barbaridade. No mínimo.
20160608
De vez em quando converso com pessoas que entraram em stand by. Como se fossem meras peças de uma máquina maior, como se apenas desempenhassem funções, sem as ligar à substância da vida, desligando-se elas mesmas da substância da vida. De comum, dizem que não acontece de repente, mas através de uma espécie de letargia que se vai instalando e, às tantas, apenas fazem. Não pensam (a não ser em termos profissionais), não sintem (a não ser o que têm que sentir para fazer), e arrastam o cadáver, como diz o meu bom amigo PM. Como consequência, o inevitável vazio que sempre anda de mãos dadas com a letargia e o deixar correr.
Mal o tempo mo permitiu, retomei as minhas caminhadas matinais. E, com elas, a sentir a vida a regressar ao meu quotidiano. Apesar de o fazer há bem mais que um ano, sinto que estou ainda em fase de descoberta. Novos sons, novas cores, novos cheiros, que potenciam novos olhares sobre os apenas aparentemente mesmos lugares. Até as pessoas que passam por mim - cada vez mais com cada vez menos roupa em cima do corpo - parecem outras, com os seus sorrisos abertos incentivados pelo céu igualmente aberto e sol ainda mais quente.
Hoje fomos piquenicar. Juntos. No Parque da Cidade. A segunda vez, esta semana. Desde que saímos do colégio até que regressamos passsou uma hora e dez minutos. Saímos uns e chegamos outros. Completamente diferentes. Mais soltos, mais felizes, mais relaxados, mais preparados para a tarde, que se adivinha complicada. Durante anos a fios pedi para fazermos isto. Afinal, estamos a escassos metros do Parque, a escassos metros do mar, e sabemos ambos como o verde e o mar nos fazem bem. Sobretudo como o "a dois" nos faz falta. Nunca havia tempo, nunca havia disponibilidade, muito menos mental. Até à altura em que teve que haver, sob pena de deixarmos a letargia pegar na batuta e reger a nossa vida.
Pasmo-me sempre com a facilidade com que permitimos que a vidinha tome conta da nossa vida. E, afinal, basta um passo.
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