20151111
...e de repente, depois de uma série de anos de calmaria, ondas vindas de vários quadrantes atingem-me o barco. Parece que tudo mexe, parece que nada mais será como antes, parece que os deuses se reuniram em conluio para me agitarem as águas e testarem as minhas escolhas. A nível pessoal, profissional e agora até a nível nacional, as verdades que ainda ontem o eram inquestionavelmente hoje são já ultrapassadas pela realidade que, apesar de incrédula, é indesmentível.
Conversávamos ontem ao jantar acerca da imprevisibilidade da vida e das nossas reações quando tudo parece escapar ao nosso controlo. E vamos sempre ter à incógnita do amanhã e ao Carpe Diem, que ainda ainda assim tem múltiplas interpretações: se há quem ache que o que importa é viver tudo hoje e com isso cometa as maiores loucuras, outros acham que o importante é a qualidade da marca que deixamos nos outros e com isso viva voltado para fora. De comum às duas visões, a premência da vida que teima em escapar-se-nos por entre os dedos e a deixar-nos um sabor amargo na boca sempre que desperdiçada.
A minha filha disse-nos ontem que tinha estado com a Lurdes, que se tinha comovido com a sua serenidade, com a sua sabedoria profunda, com a sua capacidade de entrega aos outros, apesar de lhe ter sido diagnosticado um cancro terminal há vários anos. Como tem acontecido ultimamente, fomos ter ao Jorge, que tem sido um abalo duro para todos nós. Outra filha minha disse que era muito confuso para ela quando pensava que mesmo que ele recupere e fique bom - um cenário cada vez menos provável - haverá pelo menos três semanas da vida dele que serão inexistentes para si. Outro filho disse que pela primeira vez na vida se tinha questionado a sério acerca do rumo que tinha tomado para si... escutava-os, como sempre, completamente embevecido, como quase sempre, completamente grato pelo que fomos construindo juntos ao longo da vida.
Há alturas em que tenho a noção clara que estou em viagem, apenas em viagem. Que não comecei aqui, que não vou acabar aqui, que o que se passa por aqui, o que é dito e vivido e sentido e desfrutado é a antecâmara de algo muito maior. Não me rouba a alegria nem a tristeza nem o choro ou o riso. Não me rouba a preocupação nem o gozo nem o desânimo ou a força. Não rouba vida à minha vida, que é composta de dias e semanas e segundos e anos e meses e minutos e até de um outro tempo sem tempo, que até acredito que é o tempo onde se passa aquilo que é verdadeiramente importante.
Mas dá-me a certeza que nada, absolutamente nada, do que sou, se esgota aqui.
Há conversas que nunca acabam. Poderíamos estar ali, uma vida toda, com o tempo todo, com o sol todo, e a brisa, e a paisagem, e tudo o que nos rodeia, que haveria sempre qualquer coisa que ficaria por dizer. E partilhar. e sentir. Quando, a custo, nos afastamos - e é sempre a custo que o fazemos - ecoa ainda tudo o que não foi dito. É o que dissemos que é passado em revista, uma e outra vez, num e noutro sentido, mas é no que ainda não dissemos que me detenho. Porque não foi dito. Terá sido condicionado? Terá sido voluntário? Talvez não tenha sido ainda o tempo de o fazer, talvez seja ainda cedo, talvez seja agora demasiado tarde, talvez ainda seja necessário mais caminho, talvez...
Provavelmente, seria mais fácil se as palavras não tivessem que ser ditas. Se tudo funcionasse por osmose, sem termos que fazer nada por isso, sem ter que ser escolhido e por isso pensado e decidido e deliberado, mas fluísse apenas, permitindo a certeza da evidência, clarificando com a certeza da evidência, sem mais nada a não ser o que é. Mas aí perderíamos o olhar e as alterações do olhar que respondem ao acelerado bater do coração, que reage ao súbito afloramento do sangue que impele as coisas desejadamente escondidas, involuntariamente reveladoras porque tomam conta do que preferiríamos que permanecesse escondido dos olhares alheios, tantas vezes até do nosso próprio olhar. E as palavras ditas têm esse péssimo hábito de ganhar vida própria quando menos o desejamos revelando mais que o que desejamos revelar, fazendo de nós tontos balbuciando uma qualquer desculpa alegando um qualquer mal entendido que se tornou demasiado bem entendido por todos.
Provavelmente, as palavras não ditas são as que permanecem, quando nos afastamos, e permanecem, apesar da distância que aumenta, e permanecem, impedindo que as nossas almas acompanhem os nosso corpos, e permanecem, apesar de... Talvez as palavras não ditas sejam aquelas que nos fazem caminho, nesta solitude acompanhada, que prepara o meu olhar para o teu olhar quando finalmente permitir que escutes tudo o que tenho para te dizer.
Provavelmente, seria mais fácil se as palavras não tivessem que ser ditas. Se tudo funcionasse por osmose, sem termos que fazer nada por isso, sem ter que ser escolhido e por isso pensado e decidido e deliberado, mas fluísse apenas, permitindo a certeza da evidência, clarificando com a certeza da evidência, sem mais nada a não ser o que é. Mas aí perderíamos o olhar e as alterações do olhar que respondem ao acelerado bater do coração, que reage ao súbito afloramento do sangue que impele as coisas desejadamente escondidas, involuntariamente reveladoras porque tomam conta do que preferiríamos que permanecesse escondido dos olhares alheios, tantas vezes até do nosso próprio olhar. E as palavras ditas têm esse péssimo hábito de ganhar vida própria quando menos o desejamos revelando mais que o que desejamos revelar, fazendo de nós tontos balbuciando uma qualquer desculpa alegando um qualquer mal entendido que se tornou demasiado bem entendido por todos.
Provavelmente, as palavras não ditas são as que permanecem, quando nos afastamos, e permanecem, apesar da distância que aumenta, e permanecem, impedindo que as nossas almas acompanhem os nosso corpos, e permanecem, apesar de... Talvez as palavras não ditas sejam aquelas que nos fazem caminho, nesta solitude acompanhada, que prepara o meu olhar para o teu olhar quando finalmente permitir que escutes tudo o que tenho para te dizer.
20151110
Na minha família de cientistas, os meus olham para mim com a mesma naturalidade com que se olha para um elefante vestido com um tutu cor de rosa. Volta e meia, enquanto eles estão a discutir enzimas e bactérias e outras coisas que tais, eu, meio para os provocar meio a sério, digo-lhes que encontro mais certezas nas coisas do Espírito Santo que naquilo que eles estão a dizer. Para além da natural provocação - que me dá um gozo especial quando os meus cunhados irlandeses estão cá (eles são mesmo cientistas!) - eles sabem que acredito naquilo que afirmo, e eu deixo que isso os escandalize.
Quando consigo provocá-los a ponto de discutirmos a sério, tenho o cuidado de substituir o Espírito Santo pela alma, o que, não sendo para mim a mesma coisa, permite no entanto despir a carga teológica da discussão e abrir caminhos comuns, defendendo a minha dama porque a verdade é que eu acredito mesmo nas coisas da alma, na importância da alma, na inevitabilidade da alma, que a essência do que somos e faz de nós as pessoas que somos está mesmo na alma. Claro que todos temos uma história de vida e condicionantes psicológicos e aportes físicos e sociais que nos vão construindo e desconstruindo sucessivamente numa séria de processos encadeados que têm o seu quê de racional como de circunstancial e que, apesar dos nossos esforços, têm tanto de programação como de improvisação, Graças a Deus, porque é justamente isso que torna a vida tão rica e tão desejável. Mas mesmo com tudo o que nos rodeia, mesmo com tudo o que vem de fora para dentro, há uma reserva que pensamos que nos diz apenas respeito a nós próprios mas que eu acredito que, pelo contrário, diz respeito aos outros: a nossa alma.
Claro que para falarmos da alma temos que o fazer num outro patamar que deixa os meus cientistas desconfortáveis. Aqui nada é palpável, nada é visível, nada é comprovável. Sentimos, sabemos que sentimos, por vezes até conseguimos racionalizar o que sentimos, mas atingimos sempre a margem do desconhecido, que pode ou não desembocar na escolha do caminho da fé. E aí é que o caminho se torna difícil para quem faz da racionalização e da observação e da comprovação o seu quotidiano, a sua vida, não raras vezes a sua razão de viver. Passar do que controlam através dos sentidos para a entrega da alma exige uma humildade que não lhes é permitida. E que lhes exige, por isso, uma capacidade de abandono e entrega ainda maior que ao comum dos mortais.
20151105
Existem muitas maneiras de sermos culpados. Basta procurar. É como numa operação stop: podemos ter tudo em ordem, pode o carro ter vindo da vistoria há duas horas, podemos ser o condutor mais cuidadoso do mundo, mas se o polícia acordou mal disposto não temos nada a fazer. Há sempre uma luz que pisca, há sempre uma luz que não pisca e devia piscar, há sempre um traço contínuo que se ultrapassa, há sempre um sinal que foi roubado mas devia estar lá e nós não o vimos. Há sempre uma maneira de sermos culpados.
Adoro escutar. Pela quantidade e, sobretudo, pela qualidade das pessoas que se abrem comigo, fui aprendendo que este deve ser um dos meus dons. Que me esmero em colocar em prática. Algumas vezes ainda fico demasiado absorvido pela data limite que o trabalho sempre nos impõe, mas tento ir ficando mais atento a quem se aproxima - ainda que ao longe - tento ir lendo nos olhares - ainda que se desviem - tendo ir disponibilizando um lugar para que, quem quiser, quando quiser, se quiser, se possa sentir acolhido. E quando chega a altura, paro tudo, nem que seja por breves minutos, nem que seja por alguns dias, e aquela conversa, aquela partilha, aquela preocupação, passam a fazer parte dos meus silêncios orantes, das minhas procuras interiores, habitando-me juntamente com quem se partilhou comigo.
It takes two to tango. E isso pode ser um problema. Porque existe uma verdade lapaliciana que defende que para existir quem escute é preciso haver quem queira partilhar. E isso pode ser um problema. E isso é um problema.
Existem muitas maneiras de sermos culpados.
Basta procurar.
20151104
"Ele estava ontem com questões existenciais. Pelas mensagens que lhe enviam, ele não sabe se não deveria alterar a sua rotina para ficar mais em consonância com a dor que deveria sentir."
Sorri, para dentro, e percebi bem o seu dilema. Os outros esperam sempre que tenhamos um determinado tipo de atitude, que demonstremos um determinado tipo de dor, ou de alegria, ou de indiferença, e, muitas vezes sem o desejarem, julgam-nos por isso. Eu aprendi há muitos anos a não dar especial relevo às expectativas dos outros. Vejo, escuto, interrogo-me, faço o meu próprio julgamento, e tento seguir caminho. Normalmente sem sequer me preocupar em explicar as minhas decisões, o meu comportamento, as minhas atitudes. A não ser que magoe alguém por isso - e aí uma explicação é exigível - nunca me apetece justificar-me, nunca sou bom em justificar-me, nunca consigo justificar-me sem ter aquela sensação que ninguém tem nada a ver com isso. A não ser que eu o queira, a não ser que eu lhe tenha dado o meu consentimento para o fazer.
Mal soubemos do Jorge corremos ambos para o hospital. Quando soubemos que nada mais poderíamos fazer senão esperar e rezar, fomos ambos, a custo, para casa e tentamos todos, a custo, prosseguir com as nossas vidas. Mesmo com o Jorge permanentemente na nossa cabeça, temos tido gargalhadas francas, sorrisos sinceros, momentos verdadeiramente felizes. Porque acreditamos que é estúpido sentirmos culpa por termos momentos de alegria e felicidade, porque desejarmos muito que o Jorge estivesse connosco não pode imprimir um cunho de miserabilismo nas nossas vidas, porque o Jorge, se pudesse, seria o primeiro a rir connosco.
Os meus filhos aprenderam cedo a terem que lidar com a perda. Pode parecer herético, mas começaram por ter que lidar com a morte do Aquiles, o meu cão desde que eles eram miúdos, e isso ajudou-os, mais tarde, a lidarem com a perda do avô que eles adoram. Aprenderam com a morte que na vida há lugar para o imenso, seja esse imenso traduzido em forma de dor, de choro, de gargalhada ou rejúbilo. Aprenderam que o imenso da vida é para ser imensamente vivido, e que apenas isso torna a vida imensa. Aprenderam que todos somos passageiros nesta viagem em que tudo é passageiro, excepto aquilo que nos transforma verdadeiramente e que levaremos como bagagem para a etapa seguinte. E por isso aprenderam que a autenticidade do choro e do riso valem mais que todas as aparências do mundo.
20151102
Não foi a primeira vez. Ali estávamos nós, como estamos em cada dia 1 de Novembro, no cemitério, junto daqueles que jazem à nossa frente, acompanhados daqueles que ali estarão, em princípio, daqui a algum tempo. Nenhum outro lugar me consciencializa com tanta evidência do ciclo da vida. Lembro-me que há um par de anos, neste mesmo dia, olhava para a Tia Micas e tinha a percepção clara que ela imaginava que estaria ali, dou outro lado, no próximo 1 de Novembro. E ontem lá estava ela, efectivamente.
Estava um fabuloso final de tarde, ontem. O cemitério não tão cheio - "os velhos vão morrendo e os novos não vêm a estas coisas" - o Padre Rosas a celebrar, e eu a olhar à minha volta, a ver os meus velhos que me rodeavam, a ver alguns dos amigos de sempre a prestarem homenagem aos seus pais, amigos, familiares, e eu a olhar para o céu, a conseguir ver o laranja forte do sol nas nuvens carregadas de água "está um belíssimo final de tarde!" e a pensar no Jorge, que normalmente andava por ali, atarefado, organizando e vigiando para que tudo corresse bem, e que agora não fazemos ideia de como está, de como irá estar, se terá futuro ou não, de que lado estará ele no próximo 1 de Novembro...
A minha avó, os tios, a minha sogra, os meus pais, agora o Jorge, têm-me forçado o olhar para um outro lado da vida, que normalmente não vejo, que normalmente escolho não ver, entretido com a construção do meu futuro e do futuro dos meus, e que me levanta outro tipo de questões, e que me pede outro tipo de respostas, e que me coloca perante a incerteza da vida, a finitude da vida, a importância de viver efectivamente a vida.
Não me recordo de ter medo da morte. Sempre intui que me poderiam acontecer coisas bem piores que a minha própria morte. Confirmei essa intuição quando a minha filha esteve mal, quando pensei que morria de desilusão provocada, quando não dei qualquer valor a voltar, seja para onde fosse. Não tenho medo da morte. Tenho um medo tremendo de desperdiçar a vida.
20151029
O mesmo dia, dois momentos, dois estados de espírito, duas formas de estar, duas formas de sentir, diferentes. Completamente diferentes.
Caminhamos como caminhamos sempre. Com palavras. Por vezes com pés, outras com olhares, rápidos, fugidios, muitas com a doce ilusão do que se vê de olhos fechados, mas sempre com palavras. Não foram elas que nos introduziram, foi outra coisa, que as dispensa, que as torna supérfluas, mas que elas vão consolidando. Com a particularidade de, desta vez, terem sido outras, as palavras que tivemos por companhia. Menos perguntas, menos repostas, menos necessidade de perguntas e de respostas, mais lugar ao puro prazer da companhia, à coisa nenhuma, ao tudo profundo, ao tudo e ao nada, provavelmente espelhando uma maior confiança no tempo que há de trazer consigo o tempo das perguntas e respostas significativas, acreditando que agora o tempo joga a nosso favor.
Caminhamos como caminhamos ultimamente. Olhos no chão, olhos no que nos rodeia, no que se passa à nossa volta, cuidadosamente evitando os olhares. Com palavras, sempre com palavras, que interrompam o silêncio que persiste fazer-nos companhia, apesar de não ter sido convidado, apesar de ter mudado de sentido, apesar de ter passado de partilhado a incómodo. Foram já outras as palavras com que caminhávamos, foram já outras as que utilizávamos, tantas e tantas vezes, plenas de sentido, plenas de vida, plenas de verdade. Mas hoje, algumas perguntas, algumas respostas, que já não querem saber mas constituem armas de arremesso que mais não visam que provocar danos, conquistar justificações, próprias ou alheias, que dêem conforto quando estamos a sós com a almofada.
E o Eugénio, sempre o Eugénio, a sussurrar "já gastamos as palavras pela rua, meu amor..."
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Bambora
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