20141016


Uma das coisas que mas aprecio naquilo que agora vou fazendo - a que tenho muita dificuldade em chamar trabalho, tal é o gozo que me tem dado - é o processo de constante reinvenção. Ainda ontem, numa tardia reunião de programação de trabalhos, quando começamos nenhum de nós tinha mais que uma vaga ideia do que iríamos fazer. Depois, com naturalidade, à medida que a conversa vai surgindo, vem uma pista de um, despoleta um raciocínio de outro, e às tantas tínhamos já todo o processo devidamente delineado com a respetiva distribuição de tarefas devidamente assente. Adoro este tipo de processos. Adoro irmos descobrindo juntos o melhor caminho, que por vezes vai até em sentido contrário ao que tínhamos pensado. Adoro quando alguém dá uma boa ideia, ou emite uma opinião que nos faz a todos ver o que antes estava escondido. Adoro quando nenhum de nós se agarra a si próprio nem se vangloria por ter sido dele a primeira abordagem ao caminho seguido, mas todos nos esquecemos de quem partiu a ideia original porque tudo é de todos e como tal é assumido. Eu, que sempre me vi como um solitário - e por vezes preciso mesmo dessa solidão para conseguir pensar - descubro-me afinal a vibrar intensamente com este tipo de descobertas.

Há outras descobertas, no entanto, mais raras, mais olhos nos olhos, muito mais privadas, que me seduzem ainda mais. Lembro-me do fascínio que, era ainda miúdo, a maiêutica socrática exerceu imediatamente em mim. A ideia de sermos meros parteiros e todo o processo para conseguirmos que o conhecimento dê à luz é algo que ainda hoje me fascina plenamente. Quando começamos a conversar e, em diálogo, vamos descobrindo pistas, vamos descobrindo verdades que até aí permaneciam encobertas; quando essas verdades são afinal simples e iluminam a vida numa altura em que tudo permanecia escuro; quando essa luz se traduz num sorriso - finalmente um sorriso! - num olhar antes fechado e perdido, sinto sempre o meu dia como plenamente justificado. E o melhor de tudo é quando percebemos que isto apenas acontece com aqueles que nos abrem as portas da intimidade e nos deixam habitar em si, numa mútua partilha que tem tanto de profunda como de intensa.  O melhor de tudo é quando confirmamos que há laços que não são apenas laços mas nós, que a vida já não consegue desatar.

20141013


Não creio que seja possível alguém saber o que o une a outro alguém. Eu, pelo menos, nunca o consegui. Com exceção dos meus filhos, claro, que estão um outro patamar que torna tudo simultaneamente mais simples e mais complicado. Tudo o resto são escolhas. Minhas. Mesmo em relação aos meus pais e aos meus irmãos, são escolhas. São uma parte muito importante do que mas há um esforço que se faz para se manter o contacto, para que a relação continue viva. Conheço, no entanto, muitos filhos e irmãos que não se comunicam, ainda que alguns deles vivam sob o mesmo teto.

Lembro-me perfeitamente do que senti quando conheci o - na altura - meu futuro cunhado irlandês. Sentimos ambos uma fortíssima empatia que ainda hoje, apesar de nos vermos poucas vezes em cada ano, ainda se mantém. Não teve a ver com conhecimento ou crescimento ou partilha e momentos marcantes, nada disso. Conhecemo-nos e gostamos logo um do outro. É um caso raro, na minha vida. Outro foi (é) o da minha mais que tudo. Dois dias depois de a conhecer cheguei a casa e disse à minha irmã que tinha conhecido a minha mulher. Soube logo que assim seria.

Normalmente, as minhas relações de amizade mais profunda precisam de caminho. De muito caminho. De conversas profundas, de partilhas profundas, de músicas e de filmes, com muita alegria pelo comum e até sofrimento pela dor do outro. São relações muito mais de olhos que de pele. Mas são sempre muito construção, muito passo a passo, muito descoberta lenta e progressiva, cada vez mais íntima, cada vez mais profunda. Acredito que são pessoas que Deus coloca no meu caminho para que possamos aprender juntos quando a nossa vida precisa mais que aprendamos juntos. Por vezes, terminada a aprendizagem mútua, a vida encarrega-se de nos apresentar caminhos distintos. E seguimo-los ambos com a doce nostalgia daquele tempo e a firme certeza que a ele voltaremos alegremente ao mais pequeno sinal, assim as circunstâncias o solicitem.

Há também alguém que fica em standby. Vivemos algo juntos, partilhamos algo juntos, estivemos algures em sintonia, mas em que sinto muito mais futuro que passado. Aprendi, a muito custo, a dar lugar ao Mestre Tempo, a deixar que a vida aconteça, mantendo, ainda que à distância, um olhar atento e uma disponibilidade efetiva mas discreta. Por vezes cedo à tentação de correr, de abraçar, de tentar que o nosso tempo seja efetivamente aquele em que vivemos. E estrago.

20141010


Como tantas outras coisas, a amizade chegou demasiado tarde à minha vida: Nos meus primeiros anos - aqueles que estabelecem os alicerces de quem instintivamente somos - saltei de casa em casa, de lugar em lugar, de escola em escola, e isso impediu-me de fazer amigos. Quando finalmente estabilizamos tinha eu já mais de dez anos e ainda assim saltei por várias escolas. A minha primeira raiz foi a capela, já com quinze anos, que foi o verdadeiro motor de mudança. Anos mais tarde, voltei a saltar e, da noite para o dia, mudei-me para uma nova paróquia, um novo grupo de jovens e um novo grupo de amigos. Foi quando conheci a minha mais-que-tudo e aqueles que ainda hoje são meus amigos. Também nas profissões saltei de lado para lado até que, pela Graça de Deus, desaguei onde estou hoje, e onde tenho alguns dos meus mais sólidos amigos. Em todos os lugares por onde passei tenho gente de quem gosto bastante e que gosta bastante de mim. São meus amigos? Não sei. Não sei mesmo. Não sei se terão aquela disponibilidade, aquele à vontade, aquela prontidão que nos faz ser amigo de alguém. E muito menos sei se haverá já intimidade, ou pelo menos vontade de intimidade, que nos leva a sentir alguém como imprescindível na nossa vida. Como um amigo.

Odeio telefonar seja a quem for. Seja por que motivo for. Raramente atendo telefonemas de alguém. No entanto, esta semana, liguei a um amigo porque a notícia que recebera era tão boa que não podia deixar de o fazer só para ouvir a alegria na sua voz. Também se contam pelos de dedos de uma mão as pessoas a quem telefono no seu aniversário. Têm mesmo que ser muito minhas, muito especiais, para o fazer. Da mesma forma, por muito macabro que possa parecer, quando recebi a notícia da morte do meu amigo Paulo, eu senti pela primeira vez que tinha que estar no velório de alguém, junto do seu corpo, não queria estar naquela altura noutro lugar. Também quando caminho junto ao mar, ou de noite sob um luar - real ou apenas na minha memória - tenho mesmo que dar seguimento a esta ligação forte que me une a quem sei que ficará tão feliz quanto eu por saber que caminhamos juntos, não apenas naquela altura, mas sempre.

Esta coisas não se explicam são assim mesmo. Talvez por a amizade ter chegado demasiado tarde à minha vida, eu dou-lhe uma enorme importância. Ter com quem contar, aconteça o que acontecer, faça o que fizer, diga o que disser, é um privilégio apenas ao alcance de quem conhece, verdadeiramente, o amor. Eu descobri-o tarde. Mas tenho a vantagem e a Graça de viver esse amor com a inocência e a intensidade de um (eterno?) adolescente.

20141008


Não sou um. Nunca fui apenas um. E nem sempre me dei bem com isso. Aliás, esse tem sido um dos meus problemas desde que me conheço. Por um lado, fiz uma escolha de vida, a escolha mais definitiva da minha vida, que me transporta todos os dias a um estado de felicidade que nunca julguei ser possível. Acordar ao lado de quem se ama, poder testemunhar o tornar-se gente de corpo inteiro aqueles a quem demos e damos a vida, é um tremendo privilégio que vale, por si só, que a vida seja vivida. Mas não me esgoto aqui. Não me consigo esgotar aqui. Há um outro lado de mim que se encontra plenamente quando estou com a malta nova, quando canto com eles, danço com eles, rezo com eles, e com eles dou asas à minha loucura natural, que parece nunca ter fim. Conciliar estes dois eus levantou-me sempre problemas de consciência. Sempre que estou numa das margens sinto que estou a falhar  na outra e não consigo nunca corresponder ao que uns e outros esperam de mim.
Volta e meia falam-me da possibilidade de os padres casarem. Eu torço sempre o nariz. Também porque penso em mim, claro. Se eu, que sou antes de tudo sou marido e pai, tenho dificuldade em fazer este tipo de gestão, como não iria ser com um sacerdote, que tem que se dedicar de alma e coração ao seu rebanho? Quem colocaria em primeiro? A quem se entregaria primeiro? Como viveria o resto? E, mais importante, quem ficaria a perder?

20141006


A determinada altura falou no Campo de Concentração do Eu. Porque aprisiona, porque limita, porque dita as regras em que nós próprios somos demasiado lestos a encarcerar-nos. Voluntariamente, por vezes até alegremente, pensando que podemos viver a vida em serviços mínimos. Eu sorri cá por dentro porque este tinha sido, justamente, um encontro nacional de desencarceramento. Não por vontade própria, que eu faço parte dessa enorme multidão silenciosa que gosta do seu canto, mas porque teve que ser. Nunca tinha tido que pensar na decoração de um altar - com a minha proverbial falta de sentido estético - nunca tinha tido que combinar com o padre as leituras e os cânticos que escolhêramos, nunca tinha tido que assumir, tão claramente, a direção dos cânticos e do ritmo da eucaristia com miúdos que, embora já conhecendo, não me deixam ainda particularmente à vontade. E nunca tinha tido que fazer nada disto porque noutras alturas outros o fizeram e permitiram-me os bastidores, que nestas coisas são o meu lugar por excelência.
Como me disseram no final, fizemos grandes coisas juntos. E juntos crescemos mais um bom pedaço nestes dois dias.
Foi premonitória a decisão do início deste ano. Ver com outros olhos permite observar toda uma série de novidades, permite alargar expectativas e deixar que o estar com, o caminhar com, o viver com, ainda nos consigam surpreender. Permite que os patamares que, estupidamente ou não, existem à partida, continuem a desvanecer-se, apesar de tudo o que nos envolve. Permite, fundamentalmente, que o caminho que fazemos juntos seja sempre novo porque nunca sabemos bem o que estará depois daquela curva.
Louvei muito a Deus, este fim de semana. Pelo que pude crescer, pelo que pude ver e sentir, pelo que pude desmontar de ideias feitas e preconcebidas. Nem que fosse só por isso - e não foi, foi por muito mais - já teria valido a pena.

20141003



«Eu, hoje, farei uma pergunta: como é a relação com o meu anjo da guarda? Escuto-o? Digo-lhe “bom dia”, de manhã? Digo-lhe: «Guarda-me durante o sono”? Falo com ele? Peço-lhe conselho?», disse Francisco.

Já o afirmei várias vezes: o Papa Francisco confunde-me. Por um lado, gosto da sua simplicidade (não sei ainda se sincera, se encenada), da sua terra a terra, da sua tentativa de regressarmos às origens. Por outro lado, no entanto, muitas vezes exagera nestas suas ações de propaganda a ponto de se tornar apenas mais um. E um líder nunca é apenas mais um, a sua voz tem que ter um peso, um lastro, que guie, que oriente. Este equilíbrio que, concordo, é muito difícil de conseguir, ainda não foi atingido por Francisco, E depois... as suas constantes referências aos anjos e ao demónio irritam-me profundamente. "Digo bom dia ao meu anjo de manhã?" Por acaso até digo, muitas vezes, mas o meu anjo tem pernas e braços e cabeça para pensar, e nem sequer é um só. Prefiro pensar que "o meu anjo", são aqueles que Deus vai pondo no meu caminho, todos os dias, a cada momento, e me impedem de meter ainda mais argoladas e me acolhem quando, apesar de tudo, eu as meto. Este eu nos outros e os outros em mim parece-me muito mais importante, muito mais cristão, que recorrermos a uma entidade abstrata. Sou cristão, sim, tenho fé, sim, mas uma fé alicerçada em cristo e vivida nos e com os outros. Parece-me que é muito mais sedutor e, ao mesmo tempo, muito mais desafiante, tentar encontrar esse Deus que me chama e me reconhece naqueles com quem vou caminhando. Particularmente quando, como é o meu caso, caminhando com os dois pés assentes em mundos aparentemente tão díspares mas realmente tão próximos entre si.

20141002



"Sorri e acena"
Volta e meia sou ensombrado pela saudade. Não do que alguma vez fui mas do que, em alguma altura, desejei ser e a vida nunca mo proporcionou. É uma saudade cíclica, como as alergias, acontece no Outono e na Primavera, deixa-me um bocado zonzo e tende a passar rapidamente. Cada vez menos rapidamente, creio. Por vezes acho que é uma espécie de centro de baixas pressões que se abate sobre mim. Logo sobre mim, que nunca acreditei muito nas tretas das depressões, que leio sempre como excesso de tempo livre e pouco que fazer.
"Sorri e acena"
Sempre tive algo de eremita. Em miúdo, ao mesmo tempo que sonhava com a minha família de muitos filhos, com a casa cheia e a mulher à minha espera ao fim do dia (sim, é machista, eu sei, mas não escolhemos aquilo com que sonhamos), sonhava também com uma cabana, simples, à beira mar, onde eu viveria apenas com os meus livros. Sem ninguém, sem qualquer compromisso, com a total liberdade que a solidão me proporcionava. Calculo que seja, consciente ou inconscientemente, o sonho de qualquer pessoa: ser completamente dono de si e da sua vida. Mais tarde, numa conversa com o meu irmão, apercebi-me que essa liberdade seria falaciosa: que desejava ser livre apenas para me poder aprisionar a uma outra realidade que me faria voltar inapelavelmente ao lugar onde já me encontrava: ao desejo de liberdade. A minha vida seria assim sempre um recomeçar de tudo coma agravante dos escombros que deixaria atrás de mim.
"Sorri e acena"
Não foi o sonho da solidão, o que escolhi viver, mas o da casa cheia. Mas volta e meia sou assombrado pela saudade. Recentemente, tivemos uma semana recheada de descobertas de cancro de pessoas conhecidas. Conversávamos como cada uma delas reagiu e como seria connosco se isso acontecesse. Eu não tenho a mínima dúvida do que faria se fosse comigo. Nunca tive. E disse-o. E ninguém gostou. Se isso me acontecesse nunca mais me poriam a vista em cima. Descobriria uma qualquer cabana à beira mar e mergulhava nela com os meus livros. Ponto final.
"Sorri e acena"

Bambora

  Não é estranho que nos digam que «ser homem é muitas vezes uma experiência de frustração». Mas não é essa toda a verdade. Apesar de todos ...