20140921
Gosto de pensar que sou atento. Que gosto de acompanhar, de ver os pormenores, de testemunhar o que a vida vai fazendo aos que comigo vão percorrendo a vida. Gosto de me colocar num canto e ir observando, atentamente, os mais pequenos gestos, os esgares mais discretos, aqueles momentos, que todos temos, que revelam o que, cuidadosamente, se tenta esconder.
Quando era responsável pelo Clube de Leitura fiz este exercício com os miúdos. Fomos à exposição do livro e pedi-lhes apenas para observarem que lá estava. Como olhavam para os livros, para que livros olhavam, como pegavam neles e os desfolhavam tentando descobrir o que ia no seu interior, e depois se os compravam ou não. Descobrimos tanto quando fazemos estas coisas!
No entanto, apesar de por vezes, erradamente, pensar que conheço bem quem tenho à minha frente, ainda me espanto com a descoberta. Quando fui a Taizé com a minha filha mais velha descobri nela alguém perfeitamente desconhecido: dinâmica, voluntariosa, apta a correr riscos e comprometida com os outros. E, fundamentalmente, a sair-se muito bem nos diversos papéis que escolhera assumir. Uma filha que nada tinha a ver com aquela miúda por vezes muito metida em si que tinha lá em casa. Seis dias em Taizé revelaram-me alguém completamente novo! Como era possível? Como é que eu nunca a tinha visto daquela maneira lá em casa? Aprendi que a carga que eu colocava no que (não) via e (não) ouvia era imensa. Que era demasiado de mim para que eu conseguisse manter a distância que permitiria vê-la tal qual ela é. E passei a ter mais cuidado!
Num outro registo, passei pela mesma experiência muito recentemente. Bastou-me recuar dois passos, educar o olhar e dar algum espaço para ver como alguém tinha crescido! Fi-lo conscientemente, depois de perceber que eu, à força de tentar proteger, estava a ser empecilho, estava a abafar e, mais que isso, começava a ser o único que não via o que para todos era já evidente.
Acredito que nesta dificuldade em ver o que temos diante dos olhos há muito de amar, de tentar proteger, de tentar esmiuçar as fragilidades para impedir que elas se revelem aos olhares alheios que, pensamos nós, serão mais implacáveis que os nossos. Que não nos apercebemos que o amor, quando sem medida, é implacável porque abafa e tolhe e impede de viver. Que amar é também soltar, deixar ir, deixar que usem as asas que ajudamos a crescer. E que o verbo amar, agora, se conjuga muito mais com o estar. Atento, à espera, à distância... para o que for preciso!
20140918
Foi muito isto, o que fomos conversando enquanto os nossos pés galgavam metros. Os nossos pés, sim, que a nossa alma, a determinada altura, não estava já bem ali mas algures, onde aprendemos - experienciando! como é essa coisa de ser feliz. E esta era uma casa para a qual não entrávamos sem convite há já algum tempo.
Quando duas pessoas se encontram, na intimidade mais profunda do que cada uma é, deixa-se de pedir licença. Entramos, descalçamo-mos, pomo-nos à vontade, instalamo-nos o mais confortavelmente possível, e desatamos a conversar de coisa nenhuma. O que trocamos não são as informações de circunstância, mas o "como é que estás" ou o "o que é feito de ti" exige mais, muito mais, que uma mera resposta circunstancial. Entre quem se ama não existe a conversa de chacha. Existe falar de coisa nenhuma, daquilo que nos vem à cabeça sem a preocupação de se filtrar, de escolher as palavras, porque sabemos que estamos em segurança e podemos dizer o maior dos disparates, que o amor se encarregará de aplicar a justa medida. É esta a maior intimidade, a que está reservada apenas a uma meia dúzia, porque é aquela que mais nos expõe, que mais nos fragiliza, que mais nos coloca no colo de quem está interiormente disposto para nos acolher.
Tal como somos.
Sem subterfúgios.
Sem limites.
Sem joguinhos.
Sem máscaras.
É bom, é muito bom, regressar a uma casa que sempre foi nossa!
20140917
Dizia-me alguém que não me conhece muito bem, ontem, a propósito de algo que tenho feito, que é preciso amar muito para o fazer. Eu devo ter posto a minha cara de parvo porque a pessoa em questão sentiu logo necessidade de trocar aquilo por miúdos. Nada que me aconteça algumas vezes. Como quando me dizem que deve ser muito difícil ter muitos filhos. Há coisas nas quais nunca penso. Deixo que fluam, que aconteçam, deixo-me levar ou pelo impulso, ou pelas batidas aceleradas, ou pela loucura - pode muito ser uma brisa do mar - e atiro-me de cabeça. Para muitos isto é uma estupidez pegada. Como posso embarcar numa coisa sem pesar riscos em consequências? E eu, quando me dizem isso, concordo sempre. A frio. Porque pouco depois, no calor da coisa, deixo-me novamente embalar com um sorriso nos lábios e o coração apertadinho. Cheio de pica, cheio de vontade, cheio de alegria por poder participar ou fazer alguma coisa que realmente valha a pena. Ainda agora, no Caminho, enquanto percorria os primeiros metros dizia sempre mal da minha vida. Que estou velhote para estas coisas, que já devia ter juízo, que não devia ter colocado tantas coisas na mochila, que nunca mais aprendo... e depois, aquecidos os músculos e encaixada a mochila como uma nova extensão de mim, lá estava eu, feliz da vida, a vibrar com aquela malta nova e capaz de fazer mais meia dúzia de quilómetros, e mortinho por recomeçar qualquer outra coisa deste género.
É... coerência nunca foi o meu forte. Paciência!
Há reencontros que não têm razão de ser, porque nunca o foram. Porque há pessoas que nunca deixamos, que nunca nos permitem saber o que é ser deixado, e por isso nos habitam e deixam que habitemos nelas. É algo que raramente acontece e que dá a sensação que se deve a uma qualquer confluência cósmica que permite que esse inusitado encontro se dê no mais íntimo de duas pessoas que apenas aparentemente não têm nada em comum. Assim uma coisa como o alinhamento dos astros ou um luar que apenas pode ser testemunhado - e revivido ad eternum! - a dois num qualquer terraço. Ás tantas descobre-se uma linguagem própria feita de olhares e silêncios e cumplicidades e sintonias quase perfeitas, feitos numa existência paralela para a qual tudo o resto é paisagem e nada mais importa.
Recordo muitas vezes estas sintonias mais-que-perfeitas que, raras vezes, vão acontecendo na minha vida. Costumam ser fugazes, encerradas num tempo e circunstâncias próprias: uma música especial aliada a uma descoberta numa tarde chuvosa a caminho de Taizé; uma longa e saborosa conversa sobre as possibilidades de amar; uma mesa onde a partilha substitui a parca qualidade do alimento... mas também as há duradoiras, constantemente revisitadas, constantemente reatadas e revigoradas a cada passo, a cada cumplicidade.
Dizia, ontem, que tenho dificuldade em entender quem nos tenta enclausurar num só. Sempre me pareceu muito pouco, demasiado escasso face à imensidão que me habita. E dos que teimam em me habitar.
20140902
Hoje, em plena discussão, como que apaguei. Desliguei. Fui. Às tantas, não ouvia tanto a pessoa com quem discutia, nem o que era discutido, mas apenas pensava o futuro.
Não podemos viver agarrados ao passado. Eu, que gosto tanto de história, que me assusto com esta tendência atual de se hipervalorizar a técnica à custa da memória, tenho do passado uma leitura funcional. Saber quem fomos em cada altura, o que fizemos e porque o fizemos, é fundamental para prepararmos o futuro, não para viver em eterna saudade. Agarrar-me às dores de ser magoado apenas se entende enquanto processo de defesa pessoal, num instinto que terá que ser ultrapassado logo que passe o perigo. Doutra forma viveremos sempre assustados, recalcados e amargos.
Numa qualquer relação - amorosa, profissional, de amizade - o passado servirá apenas enquanto projeção do futuro, para ajuste de expectativas que, com sorte, serão sempre ultrapassadas. Quando o utilizamos como condicionante desse futuro, não estamos a ser justos com ninguém. Quando não deixamos que a realidade desminta o passado, estamos a amarrar-nos, a tornarmo-nos mais pequenos, estamos a contribuir para a definhação desse projeto de futuro que é sempre o nós.
Recordo o início do meu segundo ano. Chegava aqui e todos me desejam um bom ano. Eu estranhava porque o meu calendário era ainda o civil. Hoje, enquanto isso acontecia, pensava na sorte que temos, todos, aqui. Cada princípio de ano é isso mesmo, um princípio. E isso enche-me de futuro!
Um bom ano!
20140831
Numa qualquer relação, ter o eu como ponto de partida, é errado. A não ser que sirva para me colocar em questão. Qualquer outra maneira é o caminho mais curto para a desgraça.
Hoje acordei centrado em mim. Durante mais de uma hora andei-me às voltas e aos tropeções comigo mesmo. É incrível como não consigo sair do sítio quando isso me acontece. O mesmo pensamento, o mesmo raciocínio, a mesma linha de reflexão, tenta abrir caminho em mim até fazer sentido, mesmo que raramente o consiga. É um raciocínio pobre, fechado, limitativo, autorreferencial, mas incrivelmente poderoso, ditatorial: eu penso aquilo, eu sinto aquilo, eu baseio-me naquilo, e dali não saio. Invariavelmente, fico convencido que tenho toda a razão do mundo, que tudo e todos estão contra mim e sinto-me incompreendido e injustiçado e profundamente infeliz.
Hoje acordei assim.
E depois levantei-me, fui buscar o pão - como faço sempre ao Domingo - preparei o pequeno almoço, acordei-os, sentamo-nos à mesa, e tudo passou. Conversamos e rimos, programamos o dia e a semana, preparamo-nos para a eucaristia, e tudo passou.
Admiro sempre quem consegue viver sozinho e ser uma pessoa em condições. Eu, quando fico apenas comigo, sou mesmo má pessoa.
20140816
Lentamente, muito lentamente, vou-me arrumando por dentro. Revisito os cantos, limpo o pó, levanto os tapetes, limpo o pó, olho as molduras, levanto o pó, reparo nas manchas dos vidros, limpo o pó. Sempre foi uma das minhas tarefas preferidas no Centro de Recursos: mal me apanhava sozinho, tirava todos os livros das prateleiras e, lentamente, com o tempo do meu lado, ia revisitando-os, limpando-os, folheando algumas das suas páginas, refazendo juras de amor eterno e prometendo, mais uma vez, que os iria levar comigo para os ler, o que acabava, invariavelmente, por não acontecer. Sempre que alguém entrava pelo CR dentro arrepiava-se e tinha pena de mim. Via aqueles livros em cima da mesa e calculava o enorme sacrifício que eu fazia, sozinho, a limpar e a arrumar aquilo tudo. Eu sorria, como sorrio sempre, e furtava-me a explicações, como me furto sempre. Não sabiam que aquilo que eu fazia com os meus livros - sim, eram os meus livros - faço sempre que posso com a minha vida. E adoro! Mais tarde, quando as aulas recomeçavam e o CR se enchia de miúdos barulhentos porque cheios de vida, tinha um gozo enorme quando me perguntavam onde estava um qualquer livro e eu ia direitinho lá buscá-lo. Férias é, para mim, muito isso. Acalmar, serenar, revisitar, limpar e preparar para o que aí vem. Tenho sempre alguma dificuldade em perceber quem passa este mês numa correria ainda maior que a do trabalho, quem vive este período num permanente fazer e desfazer de malas, de aeroporto em aeroporto, de lugar em lugar, como fazíamos em miúdos, quando brincávamos às escondidas. Eu preciso mesmo é de acalmar, recuperar forças, voltar a aprimorar o olhar, para que, quando o tempo recomeçar a fugir, possa saber onde está cada pedaço meu e ir buscá-lo, sem surpresas desagradáveis.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
Bambora
Não é estranho que nos digam que «ser homem é muitas vezes uma experiência de frustração». Mas não é essa toda a verdade. Apesar de todos ...
-
Não é estranho que nos digam que «ser homem é muitas vezes uma experiência de frustração». Mas não é essa toda a verdade. Apesar de todos ...
-
Uma das coisas que mas aprecio naquilo que agora vou fazendo - a que tenho muita dificuldade em chamar trabalho, tal é o gozo que me tem ...
-
Manhã de novembro. Alguma chuva, algum frio. Os suficientes para afastar aqueles que não gostam tanto assim de caminhar à beira mar. O suf...






