20140226
São impagáveis, aqueles momentos a seguir ao jantar, lá em casa. Se durante o jantar vamos conversando, algazarradamente, sobre como foi o nosso dia, por entre gargalhadas e ralhetes, a profundidade está normalmente reservada para o prolongamento. Na realidade, apesar de perdermos muito tempo, todos os dias, à volta da mesa, por vezes precisamos ainda de mais tempo, desta vez com maior serenidade, para falarmos do que nos inquieta. E ficamos, normalmente, dois ou três, a discutir um qualquer assunto que tenho vindo à baila, normalmente relacionado com a fé. Ou melhor, com a forma como a fé se confronta com o quotidiano, O seu quotidiano.
À medida que os meus filhos se vão descobrindo no caminho que percorrem, vão-se confrontando com o que foram aprendendo de nós, dos avós e de toda a comunidade de fé que nos envolve, nem sempre condizente com o mundo muito mais multicolor com que se deparam na faculdade. É nesta altura que fazem as suas primeiras escolhas decisivas, fundamentadoras, porque nós já não estamos nem queremos estar para decidir por eles. E nem sempre é fácil lidar com as suas escolhas.
Sempre fiz questão que os meus filhos tivessem a cabeça em cima dos ombros. Que fossem cidadãos do seu tempo, do seu mundo - que em muitos aspetos já não é o meu - mas com o upgrade de consciencialização que apenas a fé em Jesus Cristo pode proporcionar. Gostam de se divertir, como todos, fazem disparates, como todos, por vezes andam meios perdidos, como todos, mas têm sempre consciência que a vida é muito mais que apenas diversão, que apenas disparates, porque tem um sentido que lhe é dado pela fé. E isso faz toda a diferença. Nunca quis que fossem vistos como abéculas, ou como toninhos da Igreja, até porque é no mundo, sendo do mundo, sendo respeitados e admirados pela sua alegria de viver, que eles podem ser melhor testemunho. É mais perigoso, concerteza, é muito mais trabalhoso, é muito mais exigente para nós, pais, e principalmente para eles, que se vêm confrontados desde cedo com a necessidade de escolher quem querem ser.
Mas é por isso que temos aqueles momentos a seguir ao jantar, lá em casa. É aí que, normalmente, conversamos o que eles sentem necessidade de conversar.
E semeamos.
20140225
Uma das minhas filhas tem uma extraordinária obsessão com ela própria. Como até grande parte da sua adolescência era gordinha, especializou-se em encontrar-se defeitos físicos, nem que para isso recorra àqueles espelhos de aumentar que nos tornam, inapelavelmente, horríveis criaturas de Deus. Ela, por sinal, é lindíssima, muitíssimo inteligente e trabalhadora e com uma capacidade incrível de se voltar para os outros. Não fosse a sua tremenda falta de autoconfiança, e teria tudo para ser e fazer felizes os que têm a sorte de gravitar à sua volta. Assim, dependerá sempre daqueles que lhe ampararão a vida e as escolhas. Os amigos, para ela, são por isso particularmente decisivos: ela é o que eles forem.
Converso muito com ela, tal como com todos os meus filhos. Leio-lhe a alma com muita facilidade, antecipo as suas angústias, elevo-a quando está em baixo, baixo-lhe a crista quando, iludida, pretende ser o que nunca foi nem será, sobretudo porque é muito melhor. O seu futuro aproxima-se a passos demasiado largos e questiono-me muitas vezes se ela estará alguma vez preparada para voar.
Quando os meus filhos eram pequeninos, aprendi a conter o imenso tudo que sentia por causa deles. Contrariar esta minha tendência total e totalizante de os meter numa redoma, de os proteger de tudo e de todos, e frequentemente apanhei-me a raiar a obsessão absolutamente louca de os impedir de viver. Felizmente, lá conseguia sempre respirar e impor-me aquilo que eu ia entendendo ser o melhor para eles. Sempre muito atento, sempre muita em cima, mas sempre fazendo um enorme esforço para manter a aparência da distância e do desprendimento suficientes para que eles se possam sentir autónomos mas nunca desamparados.
Creio que daqui por dois anos, por esta altura, a minha filha estará já fora de casa, a voar. Espero que daqui por dois anos, por esta altura, a minha filha esteja já fora de casa, a voar. Gostava tanto que daqui por dois anos, por esta altura, me pudesse ainda deitar com todos os meus filhos sob o meu teto!
20140224
Divorciaram-se. Recentemente. Foi um choque para todos. Sabíamos como eles se amaram, como construíram uma vida juntos, como partilharam sonhos e projetos e vidas eternas. Foi um choque e uma lição. Acontece a todos, é o que alguns dizem. Mas eu estas coisas nunca apenas acontecem.
Numa conversa, quis-me contar o que se passara. Não havia infidelidades, nem sequer outra relação, não havia outro projeto de vida, não havia nada que fosse suficientemente forte para acabar com uma relação de tantos anos. Apenas se sentia mal amado. Já não havia o mimo, o cuidado, a atenção quotidiana que sempre tiveram um com o outro. E não fora para isso que se casara. Por várias vezes, deu por si, tolamente, a invejar aqueles casais que via de mão dada no shopping ou na rua. Invejava os gestos de carinho delas, as festas no cabelo, as conversas intimistas, sussurantes, cúmplices. Já não tinham isso há algum tempo e ele sentia-lhes imenso a falta. Também não era cama, o que lhe faltava, mas a intimidade sem o mecanismo, sem o cumprimento de calendário, com a satisfação de que ambos se recordavam com muita saudade! Uma intimidade que andava arredada havia muito tempo e lhes roubava o prazer para além do carnal, que sempre fora o verdadeiro, o motor, sem o qual a satisfação da carne não passa de satisfação meramente fisiológica. Faziam sexo, não amor, e isso era-lhes insuportável.
Não há como me sentir bem, dizia-me, com os olhos arrasados de água. Não há como não me culpar pelo que fui deixando acontecer, pelas vezes em que deixei que o comodismo ganhasse à discussão, em que fui varrendo para debaixo do tapete aquilo que deveria ter sido posto às claras, ainda que discutíssemos, ainda que berrássemos, ainda que nos zangássemos. Deixei que o silêncio se instalasse, que a intimidade se calasse, e fui permitindo que apenas picássemos o ponto, como se fossemos funcionários públicos de uma instituição que tem que ser uma prisão. Não é isto o que eu quero, não foi isto que sonhei, que sonhamos, pelo qual nos batemos tanto. Mas não há sonho ou projeto ou futuro que valha o tremendo desperdício de uma vida desamada.
Vejo, escuto, e tento aprender.
20140223
Cheguei a uma fase da minha vida em que apenas desejo duas coisas: ser feliz e fazer feliz. Chega-me. Não tenho grandes projetos, não tenho grandes empreendimentos, não almejo já alcançar mundos e fundos, sobretudo se a energia necessária para que isso aconteça me desviar das duas coisas que realmente me importam: ser feliz e fazer feliz.
Pode parecer lapaliciano, este desejo, mas não creio que o seja. Tempos houve em que eu corria atrás de muitas coisas, tinha muitos projetos, muitas preocupações, nomeadamente a de conseguir as condições para que os meus pudessem desenvolver as suas capacidades da melhor forma possível. Continuo a ter essa preocupação, claro, mas não corro já atrás de coisas. Tenho sonhos, agora, alguns, mas já não tenho projetos. E os meus sonhos nada têm a ver com coisas, mas sobretudo com a capacidade de saborear o que os dias me vão dando, como máximo de sabedoria e tranquilidade possível. Mesmo para os meus filhos, importa-me agora muito mais que eles sintam que eu sou aquele que está, sempre, bastando que o desejem, que garantir o seu futuro, orientar o seu trabalho, que eles nisso estão com um desempenho fantástico.
Confesso que me faz alguma confusão quando vejo algumas pessoas, que trabalharam no duro a vida toda e que agora, filhos criados, casa paga, poderiam ter uma vida mais saborosa, mas escolhem ainda trabalhar no duro, o máximo de horas possível, para ganhar mais dinheiro que mais não serve senão para amealhar mais um pouco. Pergunto-me sempre porque é que eles correm tanto e se pretendem parar algum dia. Eu adoro o que faço, todos os dias me deparo com novos desafios, novas correrias, novos projetos, e de alguma forma até a componente trabalho está diluída no que eu tanto gosto de fazer. Mas não deixa de ser trabalho. Não deixo de ter que prestar contas e ter horários a cumprir, e ter que avaliar constantemente o que faço e como faço para que o possa fazer constantemente melhor. E não me custa absolutamente nada pensar na possibilidade de, daqui por meia dúzia de anos, ir abrandando o ritmo, ir saboreando mais o mar, que está aqui tão perto. Até lá. todos os dias dou duro. Mas quando chegar essa altura.... Hmmmm!
Este blogue serve para muitas coisas. Desabafo, procura e encontro, um pouco de arquivo ao que vou sentindo e até ponto de miragem para mim próprio. Ao ler muitos dos meus posts mais antigos apercebo-me como vou flutuando ao sabor da maré mas percebo também um rumo definido. E isso é bom, particularmente quando, até há bem pouco tempo, a ideia que eu tinha de mim era a de uma maria vai com as outras. Tento sempre não pensar na possibilidade de me lerem. Se este blogue não é secreto - é estúpido pretender que qualquer coisa seja secreta na net - tem pelo menos a clara intenção de circular, anónimo, em plena Santa Catarina numa sábado de manhã de saldos: perfeitamente invisível aos olhares da multidão. É assim que é, é assim que deve ser. E eu fico feliz por isso.
Nestas noites de insónias, que regressaram sempre com o mesmo pretexto, tenho-me tentado furtar à dor de cabeça pensando em meia dúzia de ideias para outros tantos contos. Qualquer dia aventuro-me. Coisa simples e banal, apenas para saber se sou capaz. se tenho ou não a consistência para o fazer. Sempre gostei da estrutura dos contos. Mais leves que os romances mas, quando são bons, não menos profundos. E depois, há sempre uma certa dimensão de parábola que me seduz bastante. Poder dizer sem fechar, mantendo o espaço aberto para que cada um possa encaixar(se) na história, é muito desafiante. Qualquer dia...
20140217
Têm-me dito, ultimamente, com alguma frequência, que me devia dar mais valor. Fazer-me mais caro, dizer mais vezes que não posso, que estou muito ocupado, que têm que arranjar outro alguém para fazer o que querem ver feito. Fazer marketing de mim mesmo, por forma a que os outros me reconheçam como peça fundamental e indispensável.
Tolos. Não me conhecem.
A primeira vez que senti que não queria abdicar de ser eu tinha cerca de doze anos. Como gaguejo, uma professora contactou um especialista de terapia da fala para me por normal. Fui a meia dúzia de sessões, aprendi algumas técnicas, mas percebi que não era para mim. A artificialidade da minha forma de falar tinha implicações na naturalidade da minha forma de ser. Entre ambas, instintivamente ou por comodismo, escolhi a segunda. Ainda bem.
Quando sabiam que eu tinha quatro filhos e que viria mais uma a caminho, ainda por cima nem minha filha era, chamavam-nos tolos. Uma senhora lá da paróquia, por sinal das que batem com a mão no peito, perguntou se não tínhamos juízo, se não sabíamos o que eram anticoncecionais. E quando nos viam na rua com os filhos pequenos havia dois tipos de olhares: ou de satisfação, ou de comiseração. Como era possível, com a vida como está, ter tantos filhos? Só podem ser ricos, ou então da Opus Dei. Nem uma coisa nem outra. Temos pena!
Diziam à boca pequena, pensando que eu, por ser gago, sou também cego e surdo, que estava a alimentar uma relação perigosa. Que não sabia manter as distâncias, que permitia uma proximidade excessiva, que não seria bom para ninguém. Invariavelmente, lembrava-me da história do velho, do jovem e do burro, argumentava contra mim próprio, e persistia no meu caminho, incorporando as dúvidas, procurando as certezas, tendo ambas por companhia quotidiana. Ainda bem!
Quando era miúdo, no bairro, era conhecido por ser o fiel. Pejorativamente, no sentido canino do termo, porque mal a minha mãe me chamava eu largava a brincadeira e ia fazer o que ela dizia. Quando os meus amigos e amigas de brincadeira da infância e adolescência começaram a drogar-se e a prostituir-se continuávamos a conviver normalmente, falando disso quando me negava a partilhar as suas escolhas apesar dos convites. A determinada altura apercebi-me que o gozo começou a dar lugar à procura para conversar e aconselhar. De alguma forma, sentia que estava do caminho certo.
Ao longo do meu percurso tive que fazer muitas escolhas. Nem sempre as certas. Raramente as racionalizei, em quase todas elas, no entanto, fui escolhendo ser contra a corrente. Nunca me incomodei muito por isso. Intui sempre que a tentação de agarrar a vida é ilusória. Tentar controlar tudo e todos, se gostam ou não de nós, se somos ou não queridos, se conseguimos ou não ser bem sucedidos nos nossos gestos, é combater contra os moinhos de vento que fazem de nós cavaleiros de trise figura. E, em boa verdade, também não me tenho dado mal. Normalmente escolho ter fé. é muito mais simples. Basta fechar os olhos e confiar-me a quem me ama.
20140214
Eu namoro. Todos os dias. Ou pelo menos tento, que por vezes a vida não se compadece com o tempo para estas coisas. Porque estas coisas precisam do tempo. Principalmente depois da fase do encantamento passar. Sim, porque enquanto há encantamento há sempre tempo, as nossas escolhas fazem com que haja sempre tempo. Mas nem sempre há encantamento. e aí, não há hipótese: ou há amor e arranja-se tempo, ou ficava tudo pelo encantamento e o encantamento é maravilhoso mas é fugaz. E passageiro. E às tantas estamos a pesar o que gostamos de fazer e descobrimos que gostamos de fazer qualquer outra coisa e acabou. E mais vale acabar.
Eu namoro. Todos os dias. Ou pelo menos tento, por entre a correria, que até nem é má porque impede a monotonia, e permite aquela sensação tão boa que estamos a roubar tempo ao tempo porque gostamos de estar juntos. E nós gostamos mesmo de estar juntos. Sempre. Adoramos conversar sobre tudo e sobre nada, adoramos caminhar à beira mar ou imaginando-nos à beira mar, adoramos falar, por vezes meigamente, por vezes discutindo, sobre o imenso que nos separa que sucumbe por amor ao imenso que nos une. Adoro conduzi-la enquanto ela adormece ao meu lado. Então se for às tantas da noite, só nós e a estrada, ao som do Miles Davis ou do Coltrane, e eu a olhar para ela a dormir, embevecido, louvando a Deus por me ter colocado no seu caminho, e a deixar a cabeça flutuar lá por cima.
Nunca precisamos de grandes condições para namorar. Nenhum de nós gosta de estar muito tempo fora de casa, nem muito longe, e um qualquer lugar onde possamos estar a dois chega perfeitamente. Quando conseguimos roubar tempo ao tempo e dinheiro ao dinheiro, lá conseguimos passar uma ou duas noites num hotel baratinho mas confortável para podermos saborear mais um pedacinho de céu completamente á vontade. Imagino-nos juntos, felizes, velhotes, numa casa do lago - como no filme - a morrermos na companhia um do outro, depois de uma casa e de uma vida recheada de filhos e netos. Sobretudo imagino-nos felizes, juntos.
Eu namoro. Todos os dias. E todos os dias dou Graças a Deus por namorar a minha mulher.
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