20140206



Nós, cristãos, por vezes referimo-nos à sociedade como se a sociedade nos fosse algo estranho, exterior a nós, como se fizéssemos parte de uma reserva de puros que nada tem a ver com o que se passa “lá fora”. Então quando nos referimos à Família e aos Valores, fazemo-lo quase sempre em oposição, como se as nossas famílias e os nossos valores nada tivessem a ver com aqueles que a sociedade nos impõe. Esquecemo-nos com demasiada frequência que a sociedade não existe de per si, que os valores, ou melhor, que estes valores que agora vigoram e dos quais tanto nos queixamos não caíram do céu aos trambolhões. São, como sempre acontece em sociedade, consequência de pequenos passos, de pequenas atitudes, que todos os dias damos, no recato do nosso próprio lar.

É inegável que vivemos numa sociedade que privilegia o imediato e a superfície. Que menospreza o valor intrínseco das coisas e das pessoas e valoriza apenas a aparência. Quantos de nós temos enfiado nas nossas gavetas um telemóvel que ainda funciona mas estava desatualizado? Quantos de nós temos peças de roupa encostadas porque estão fora de moda? Quantos de nós estamos instalados e instalamos dessa forma a cultura do supérfluo no subconsciente dos nossos filhos? Queremos o último grito da moda e da tecnologia e esquecemos que as coisas são apenas coisas mas que o uso que fazemos delas transmitem ideias e valores.
Frequentemente, quando falamos em temas como a Sociedade, a Família e os Valores, entramos em clara contradição.

Por um lado, sabemos o que temos e não gostamos do que temos. Queixamo-nos do individualismo exacerbado, da indiferença globalizada, da superficialidade como paradigma atual das relações humanas. É-nos ainda difícil lidar com o relativismo dos valores, com a autorreferencialidade da vida que se fecha nos seus próprios interesses e que se julga perfeitamente autónoma, desdenhando de tudo o que potencia raiz e profundidade. Nós próprios ansiamos demasiadas vezes ser eternamente jovens, os melhores amigos dos nossos filhos, competindo com eles em matéria de modernidade, de bem viver, porque lá no fundo tememos a velhice e não sabemos o que nos farão quando já não servirmos para nada. Chegamos a casa estafados depois de um dia tremendamente desgastante e pouco mais conseguimos fazer que sentar-nos no sofá enquanto fazemos zapping pelos inúmeros canais de televisão que ninguém vê ou mergulhamos no ilusório anonimato da internet. Cada qual com o seu computador, cada qual com a sua televisão, telemóvel ou tablet, conversamos com pessoas do outro lado do mundo sem trocarmos qualquer palavra com quem está sentado ao nosso lado. Muitos dos nossos lares pouco mais são que albergues com salas de chat.

Por outro lado, no entanto, sabemos ainda que o futuro não pode ser por aqui. Sabemos que temos que dizer a verdade aos nossos filhos, que não lhes podemos continuar a esconder que a vida é também sacrifício, que o quotidiano é também esforço e luta e coisas que por vezes correm mal. Que a doença acontece, que as pessoas ficam velhas e desprotegidas e que quanto mais velhas ou desprotegidas são as pessoas mais precisam que nós lhes façamos sentir que são dignas do nosso amor e carinho. Sabemos que precisamos de apresentar aos nossos filhos o Cristo e nos deixarmos de lhes dar apenas a conhecer um Jesus - o amigo JC - todo paz e amor, todo bonzinho, que nunca se zangava nem chorava ou sofria. Sabemos que precisamos de voltar a sermos pais e mães que estão, que acompanham, que lutam pelos filhos, que lhes dão a vida, fazendo-lhes saber e sentir que a vida é também feita de coisas menos boas e caídas mas que é na família que também aprendemos a levantar, sacudir o pó e a recomeçar.

Não podemos continuar a desligar o que acontece dentro das nossas portas do que acontece na sociedade. Somos todos os dias chamados a ser sal. A levar aos outros a alegria da Graça e do Amor, a desafiá-los para a partilha e para a generosidade, a encaminhá-los para a confiança que advém da consciência que todos somos filhos amados pelo Pai. Se não é necessário andarmos com cartazes ao pescoço ou em bicos de pés, se primamos pela discrição, não podemos contudo optar pela omissão.

Referimo-nos muitas vezes à sociedade como se fosse algo exterior a nós. Não é. Não deve ser. Não o seria certamente se fossemos mais corajosos. É da nossa responsabilidade transformamos a sociedade em que vivemos e não há outra forma senão começarmos, todos os dias, por nos transformarmos a nós próprios e por transformar as nossas famílias. A alternativa é continuarmo-nos a queixar.

Texto publicado na Pastoral IRSCM no âmbito da Conferência sobre a Famíia

20140205


Ensinou-me a minha mãe, provavelmente sem sequer se ter dado conta disso, que eu não preciso da perfeição para amar. Frequentemente deparo-me com pessoas para quem estas duas coisas estão associadas: perfeição e amor. Acham que apenas a beleza é digna de ser amada, que no amor e na amizade tudo tem que ser sintonia, tudo tem que ser confluência, como se fosse apenas possível existir amor entre duas pessoas absolutamente coincidentes - o que as tornaria uma só, e esse amor necessariamente egocêntrico. E temem sempre a discussão, o confronto. Essas pessoas não percebem como posso, por exemplo, não gostar mesmo nada de determinada atitude de alguém e ainda assim gostar muito dela. Não entendem como, numa discussão, entro em claro confronto com as suas ideias e me bato pelas minhas - exacerbadamente, quase sempre, e isso é algo que tenho sempre que corrigir - e finda a discussão continuo tudo como dantes, como se tivéssemos pontos de vista absolutamente convergentes.
Há uns anos, conheci uma amiga que me ajudou a perceber isto muito claramente. As suas opções de vida estão em clara oposição com as minhas e, no entanto, ensinou-me com a sua atitude que poderíamos ser bons amigos partilhando visões completamente distintas. Nas nossas conversas eu descobria sempre uma maneira nova de olhar o mundo, a partir de uma perspectiva completamente nova, completamente descomprometida, que me abalava e me obrigava a questionar-me e me levava a descobrir até que ponto aquilo que eu defendia era mesmo o que eu queria defender.
É um risco, ser amigo de alguém assim. E, acima de tudo, é fonte de preocupação para aqueles que connosco partilham a vida e por isso temem que a vida dê uma volta de cento e oitenta graus. Mas é imensamente gratificante. Pensar sobre a vida, meditar sobre as minhas grandes questões, confrontar-me com alguém que respeito mas que tem uma visão completamente diferente da minha, é tremendamente desafiante, mas é determinante para que as fundações, as minhas fundações, aquelas que suportam o meu quotidiano, sejam verdadeiramente as minhas. E por vezes não tenho assim tanta certeza que isso acontece.
É por isso que todos os meus amigos são maiores que eu. Porque procuro, instintivamente, pessoas que tenham a capacidade de me confrontar comigo próprio. E todos os dias aprendo com eles.

20140204


Creio que foi na semana passada que a Sábado publicou um artigo sobre as dietas recomendadas para cada faixa etária. Lá fui eu direitinho ver a dieta que me era recomendada. No final, no entanto, reparei que estava a ler a dieta indicada para a faixa etária anterior à minha. E não foi por engano de paginação, mas engano de posicionamento: eu tardo em convencer-me da idade que tenho.
No meu tempo de miúdo, um homem com cinquenta anos era um velhote. Ponto. e ria-me quando eles se referiam aos da sua idade como "aquele rapaz". Como era possível? Agora, como eu os percebo! Apenas há pouco temo é que me comecei a habituar ao Sr. com que me interpelam aquele que não me conhecem. Tenho ainda dificuldade em que os alunos, por exemplo, não me tratem por tu, mas percebo que isso facilita tudo. Mas ver-me colocado numa faixa etária que vai dos quarenta aos cinquenta e cinco anos não cabe ainda na minha cabeça. Até porque estou mais perto do seguinte que da anterior.
Não tenho medo de envelhecer. Nunca tive. Sempre me pareceu uma idade de sábios, daquela sabedoria que não se transmite nos livros, mas conseguida à custa da vida. quando me imagino velhote, vejo com facilidade a minha farta barba branca, o meu cachimbo, os meus livros, a minha casa de madeira à beira de um lago sempre cheio de sol. Um Sean Connery cheio de charme e sabedoria que acaba os seus dias a transmitir sabedoria. Claro que é apenas imaginação, porque  o que me esperará, na melhor das hipóteses, é uma casa cheia de netos e com muito pouco sossego.
Deus seja louvado!

20140131


Não é fácil aceitar o que a vida nos vai dando. À medida que o tempo passa vamo-nos tornando mais refinados nas nossas exigências e convencemo-nos que temos direito àquilo que é pura gratuidade. Talvez por isso Job seja a minha inspiração quotidiana. Quando as coisas correm menos bem, respiro fundo, e tento descortinar algo de positivo por entre a escuridão. E isso tem repercussões.
Recentemente fui preterido por ser demasiado otimista, por gostar e confiar demasiado nas pessoas, por esperar delas sempre o melhor. É verdade. Dos que me rodeiam espero sempre o melhor e quando isso não acontece procuro sempre justificar as suas atitudes,  num exercício muito fácil: basta colocar-me no lugar delas e ser o mais verdadeiro possível.
Acredito que a fidelidade a mim próprio, àquilo que eu verdadeiramente sou, me tem aproximado do que tento ser. Curiosamente, é um processo inverso ao que eu pensava que deveria ser o mais natural: primeiro descobriria o que quero ser e só depois caminharia para aí. No entanto, à medida que o tempo passava, eu descobria sempre que estava cada vez mais longe da minha meta. Mesmo sem o perceber na altura, Taizé foi absolutamente decisivo na minha alteração de rota. Ao fim de alguns dias, calada a gritaria interior dos primeiros silêncios forçados exteriormente, pude ir abrindo a porta para me descobrir. Isso, com o tempo, com muito tempo, permitiu que me tenha vindo a revelar-me a mim próprio.
É-me muito importante, esta descoberta de mim. Porque me permite pacificar-me. Permite-me perceber que, afinal, escolho confiar mesmo nas pessoas, que, afinal, escolho mesmo ser otimista, e estou pronto a assumir o que daí advém. É por isso natural que integre de uma forma absolutamente pacífica aquilo que noutros tempos seria entendido como uma rejeição.
Ainda na semana passada, no âmbito de uma palestra sobre a família, me perguntaram se estes anos têm sido compostos apenas por rosas, se não tivemos dificuldades. Sorri, claro. Que mais poderia fazer? Mostrar as marcas dos pregos e da lança aos incrédulos? Para quê? Na realidade, habituados que estamos todos a que todos se queixem de tudo e de todos, por vezes não percebemos que a forma como escolhemos olhar para o que nos acontece é quase sempre mais determinante que o acontecimento em si. E que a forma como acolhemos ou não o que a vida nos vai dando é absolutamente decisiva para a nossa felicidade. Somos nós quem escolhe se o copo está meio cheio ou meio vazio.
Com a passagem do tempo, vou percebendo que o que Job me ensina não é que devemos permanecer fiéis a Deus apesar das provações mas que, para quem encontra em si o lugar onde Deus habita, as provações não passam de acontecimentos passageiros. E que é isso o que nos permite aceitar o que a vida nos vai dando. Com um quase sempre inquietante e incompreendido sorriso nos lábios.

20140130


Adoro quando um filme ou um livro anda a vaguear cá por dentro. Vou relembrando determinadas passagens, questionando-as e questionando-me, confrontando-as e confrontando-me, pondo-me à prova. Ainda ontem, quando conversava com o meumaisnovo acerca de um livro que ele leu - creio que, porque também anda a navegar lá por dentro, foi o primeiro que ele leu verdadeiramente - falávamos de como é importante deixar que as nossas experiências nos habitem e deixarmos que elas nos vão moldando. Ler ou ver sem permitir sentir é puro desperdício e, pior, conduz a viver sem sentir e isso sim, é uma vida de puro desperdício.
Walter Mitty é o meu mais recente habitante. E o curioso é que porque, por motivo de trabalho, tive que comparar o meu olhar sobre o filme com outro olhar e apercebi-me que o que víramos, em muitos aspetos, não era coincidente. Acho fantástica a forma como cada um de nós tem a capacidade de extrair das experiências aquilo que mais falta lhe faz para se ir completando aos bocadinhos.
Na semana passa fui a um templo hindu. É sempre um desafio fascinante deparar-me com aquela quantidade de divindades, com aquelas cabeças de elefante e de macaco, com aquelas estátuas com seis e oito braços. No final, um bom amigo que também acompanhou a visita mas não é nada destas coisas da fé, perguntou-me como é possível que  alguém, em pleno século XXI, possa entrar naquele templo e não se rir do ridículo daquelas imagens e daquelas estátuas. Eu ri-me e disse-lhe que o bom disto tudo é que no dia anterior tínhamos estado no Museu da Eletricidade e ele parecia um puto numa loja de brinquedos quando teve oportunidade de interagir com as coisas da física. O que o fascina não é o que me fascina mas somos ambos mais ricos porque nos respeitamos e admiramos o suficiente para partilharmos as nossas próprias experiências sem nos rirmos um do outro.

20140129


Nos meus melhores dias, gosto de pensar em mim como um semeador. Se há algo que tenho bem presente na minha vida é a noção que o tempo corre a nosso favor e que as pequenas coisas, quando bem cuidadas, podem dar grandes coisas. Por isso, de tudo aquilo que faço, o que me dá mais gozo é justamente o privilégio de assistir - e por vezes, quando tenho sorte, até participar - ao crescimento interior das pessoas. Vê-las desabrochar, acompanhá-las na sua própria descoberta, tentar mondar a terra, ir ajustando a posição do sol, acompanhar a sua evolução - umas vezes para cima, outras mais de lado - dá-me um sentido e uma perspectiva de vida que me é absolutamente indispensável.
Contudo, não tenho apenas melhores dias. E nos meus piores dias gosto de me descobrir como semente. Que alguns acarinham e cuidam, escolhendo para mim o melhor, que muitas vezes eu próprio não consigo descortinar, dando-me o tempo que preciso e incentivando-me a serenidade que me falta. Nas alturas em que isso acontece eu deixo-me ir, abandono-me àqueles em quem confio, confiando naqueles a quem me abandono, dando graças por poder continuar a germinar sob o olhar atento e cheio de ternura de tão bons cuidadores.

20140127

praxes



Tenho quatro filhos na faculdade. Todos começaram por participar nas praxes. Uma das minhas filhas, porque é trabalhadora estudante, não tem tempo para essas coisas. Com muita pena dela. Outra disse que não era vida para ela. Já o esperava: não se sujeita com facilidade a ninguém. Dos que participam ativamente na praxe, a minha filha é quase fanática, e o meu filho nem sei bem, embora desconfie que não ande longe disso. Já não me recordo da imensa quantidade de discussões que tivemos a propósito da praxe. Conhecendo-me e à minha história, não tenho grandes dúvidas que se fosse da idade deles seria um adepto ferrenho da praxe, que seria o primeiro a alinhar nas brincadeiras. Mas não tenho a idade deles e detesto todos os sinais que a praxe transmite. Nada há naquelas atividades, naquela forma de vestir, naquela hierarquia infantilizante que eu aprove. Nada. São incontáveis já as discussões que tivemos lá em casa por causa da praxe. Ainda hoje falamos do assunto com a faca entre os dentes, prontos a dirimir argumentos, e o meu desejo é que os meus filhos não fizessem parte de nada disso. Mas é daquelas coisas: ensinamos aos nossos filhos a responsabilidade da liberdade e não a podemos retirar quando nos convém. Infelizmente!

Bambora

  Não é estranho que nos digam que «ser homem é muitas vezes uma experiência de frustração». Mas não é essa toda a verdade. Apesar de todos ...