20131113


Detesto quando tenho que vestir um fato que não sinto como meu. Mas por vezes tem que ser. Principalmente no meu papel de pai.

Considero que saber é absolutamente fundamental. Porque me permite situar-me no mundo que me rodeia, porque me liberta, porque me dá o poder de discernir o certo e o errado, porque me dá as armas para decidir o melhor em cada momento, porque evita que seja um boneco em mão alheias, porque me capacita para ajudar a construir um mundo melhor. Um dos momentos mais marcantes da minha vida foi quando descobri, já quase adulto, que havia pessoas que trabalhavam para pagar a faculdade. Toda a vida me tinha sido dito que a faculdade era para meninos bem, para ricos, e eu, que a partir de determinada altura descobrira um imenso gosto pelo saber, senti-me roubado na minha possibilidade de futuro. Lembro-me que pensei "assim também eu!", um desabafo que hoje me acompanha muitos dias no Centro Comunitário.

No entanto, se tenho o saber como absolutamente fundamental, o canudo a mim não me diz absolutamente nada. A tal ponto que fiz os cinco anos da faculdade com um imenso gozo e agora peno com os dois passos finais porque não acredito que acrescentem nada ao meu saber. E se faço questão de acabar nem sequer é por mim mas pelos meus filhos e pela minha mais-que-tudo, que fizeram sacrifícios para que eu pudesse estudar o que gosto.

Por isso entendo tão bem o meu mais novo: um puto imensamente feliz, com um sorriso enorme, mas que não tem o killer instinct que os irmãos têm em matéria de escola. Se se preocupa com as notas não é porque lhes dê importância em si mas pelo que sabe que os resultados menos bons provocam em nós (muito mais na mãe e nos irmãos que em mim). Por isso estuda com um motor fora de borda, o que faz toda a diferença. Eu finjo-me muito preocupado, visto o fato de pai, dou uns ralhetes, sento-me a estudar com ele e tento - aí sim, cm o meu próprio fato - fazê-lo sentir a importância do saber e de conseguir transmitir aos outros o conhecimento. "Não estudas para fazer testes, estudas para saber e as notas dos testes resultam do que sabes."

O que me vale é que sei que muito do que se vai construindo na minha relação com os meus filhos resulta justamente destes momentos aparentemente inofensivos. Passito aqui, calcadela acolá, empurradela mais adiante, e vamos construindo um mundo apenas nosso que nos permite estabelecer pontos de comunicação que, mais tarde - sei-o por experiência com os outros filhos - são preciosíssimos para continuarmos a caminhar juntos.

E isso é o que importa.

20131112


Gosto assim. Sem contar, entra-me pela porta dentro, com um enorme sorriso, que apenas a alegria do reencontro pode proporcionar. A conversa solta-se, toma conta do nós, e falamos de coisa nenhuma, típico daqueles que não precisam de bater à porta da intimidade alheia, simplesmente porque esta não está lá. Os limites há muito foram ultrapassados, as janelas - as da alma -  escancaradas, e tudo é terreno conhecido, atempadamente apropriado, sem zonas de segurança, sem zonas de desconforto.

Não são muitas as pessoas com tamanho privilégio. É preciso vida vivida, partilhada, com uma dose qb de sofrimentos e ultrapassagens por dentro e por fora, com algumas dúvidas, com muitas descobertas e redescobertas e vontade e abertura e segurança suficientes para se permitir refazer por dentro a cada conversa, a cada discussão, a cada etapa. E o tempo, o inevitável, inelutável, o Mestre Tempo, a permitir respirar nos entretantos, a potenciar a saudade, a refrescar a memória das coisas boas, a desvalorizar a menos boas, a despertar a fome do reencontro, a permitir que a saudade de lugar à alegria do olhos-nos-olhos.

São muitas as vezes em que acredito que a alegria do encontro - qualquer que seja a forma de amar que está na sua génese - é a única coisa que vale a pena viver. Intensamente!

20131108


Não é mesmo possível servir a dois senhores.

Uma das maiores questões da minha vida é a minha dificuldade em estar. Eu, que gosto tanto de estar, que faço tanta questão de estar, desespero quando não consigo estar como queria, com todos quantos queria, e, principalmente, com quem esperaria que eu estivesse. Por causa disso tenho muitos amargos de boca, sinto-me muitas vezes culpado por não conseguir cumprir com quem sinto que me comprometi.

Na minha vida, volta e meia tenho que parar e forçar-me a recordar da hierarquia das pessoas com quem me comprometo. Recordar-me para quem sou verdadeiramente fundamental, quem depende de mim, tentar discernir se estou a conseguir ser qualquer coisa de jeito como pai, como marido, como amigo ou confidente, se estou a conseguir ser esteio de coisa alguma, como é suposto ser. 

Nessas alturas lembro-me invariavelmente do meu pai, que os meus amigos invariavelmente admiraram e admiram pela sua disponibilidade, abertura e eterna juventude. Lembro-me que muitas vezes eu tinha dificuldade em reconhecer a pessoa de quem eles tanto falavam, e que me parecia ter tão pouco a ver com aquele homem que, para mim, era apenas o meu pai. 

Houve um tempo na minha vida em que pensei ser padre. Depois descobri que queria muito mais ser pai e marido e ter uma esposa que amasse todos os dias e ter uma família da qual me orgulhasse todos os dias e ser feliz para sempre. Apesar de ter conseguido essas coisas todas, volta e meia descubro-me dividido entre a disponibilidade para os meus e a disponibilidade para os outros. quando me volto para uns os outros queixam-se sempre e eu tenho que fazer este exercício de corda bamba, quase sempre sem sucesso. Então respiro fundo, tento serenar-me, baixar as minhas expectativas, e voltar a calçar os meus tamanquinhos: afinal, não consigo servir a dois senhores, não consigo ser tudo em todos. 

Resta-me tentar ser algo em alguns.

20131021


Eu sei que é estúpido, mas nunca me vi como fisicamente frágil. Tive sempre a sensação que, fisicamente, era capaz de tudo. Poderia levar um certo tempo, poderia exigir um trino especial, mas não há nada que nunca tivesse conseguido. Talvez por isso tivesse uma altura em que gostasse tanto do ginásio: fazer exercícios de pernas com mais de 100 kgs dava uma enorme sensação de impunidade.

Aliás, a primeira vez que senti limitação física foi no Caminho. Cometi a sobranceria de não fazer qualquer preparação e o segundo dia custou-me horrores. Lembro-me dos últimos 5 kms desse dia como dos momentos em que mais tive que me superar. E que comecei a aperceber-me que já não tenho 20 aninhos.

Hoje, por sinal, fiquei de cama o dia todo. Gripe, penso eu, que destas coisas não percebo nada. Febre, dores nas articulações, intensíssima dor de cabeça e tonturas quando me ponho de pé. Nada de importante. O que importa mesmo é que, quando estou assim, vivo como que um regresso à infância. Não sei o que fazer, sinto-me completamente à mercê dos outros, e anseio pelas rápidas melhoras.

É vulgar dizer-se que a saúde é o melhor dos bens. Se salvaguardarmos a saúde daqueles que amamos - que é mais importante que a nossa - assino por baixo sem qualquer dúvida. Quando o corpo dói, quando não sentimos forças, quando nos encontramos limitados, é que damos valor ao que normalmente temos... e não agradecemos. É também nestas alturas que percebemos melhor aquelas pessoas que nos rodeiam e não estão já na flor da idade e de quem nos queixamos tanto por ouvirmos constantemente as suas queixas. Pessoas como a minha sogra, por exemplo, que hoje, mesmo a mancar, lá me serviu o almoço e o lanche com todo o carinho.

Valha-nos sermos uns para os outros.

20131018


Ontem à noite, enquanto íamos para casa, dizia que atravesso um período de verdadeira felicidade profissional. Corro como o caraças, os meus dias são demasiado curtos, mas tenho chegado à cama sempre com a sensação que foi um dia bom. Uma das minhas filhas disse que era espantoso que eu, depois do que estudei , trabalhei e sofri noutras áreas, me encontrasse finalmente a fazer o que eu faço.. e que adoro fazer!

Apesar de gostar muito de conversar com os meus filhos, de estar sempre atento aos acontecimentos das suas vidas - sobretudo à forma como vão lidando e superando os acontecimentos menos bons - apesar de eles me lançarem aqueles olhares que apenas os filhos lançam aos pais quando sabem que vem aí conselho moral, apesar de não conseguir - nem querer - evitar esse momentos de cima para baixo, sei bem que nada fala mais alto que o exemplo. O facto de os meus filhos terem sentido na pele, da forma mais dura, os efeitos do meu insucesso profissional e pessoal, o facto de eles terem escolhido estar sempre do meu lado, o facto de eles poderem ver, agora, como as coisas também podem resultar, o facto de eles terem experienciado já como podemos ser felizes correndo muito e trabalhando muito e estudando muito e dando muito, tudo isso tem sido uma verdadeira escola de vida para todos nós. Sabemos todos agora que sucesso e insucesso podem ser apenas meras palavras, se tivermos junto de nós aqueles que mais nos amam. Sabemos todos agora que, na vida, há altos e baixos, e que não podemos embandeirar em arco quando as coisas correm bem nem ficar nas covas quando correm mal. Sabemos agora que apenas viver no amor - ainda que não se fale nesses termos porque essa expressão é demasiado fatela - nos dá garantias de ter sucesso na vida.


20131010


O meu sogro, homem de parca formação mas de enorme visão - e que me topou logo que me pôs a vista em cima - achou sempre que eu falava demais, que tinha um lado basófias que lhe custava mito a engolir. E não se enganou.

No sábado fui buscar os tios velhinhos ao lar onde tinham ido fazer uma experiência. Era suposto ficarem lá um mês e não aguentaram sequer uma semana! Quando lá cheguei fomos todos visitar as instalações Não eram nada de especial, nem boas nem más, mas não foi isso o que me impressionou. O tio dizia insistentemente que não se via ninguém, que ninguém ia para a sala de jogos "3 bilhares, Zé, e ninguém vai para lá" que a biblioteca "com mais de 1500 livros!" estava sempre vazia "só lá tem um velhote que pega no Notícias de manhã e nunca mais o larga" e que, fora isso, não se via ninguém "nem nos jardins, nem nos parques, nem nos corredores". Como sempre, achava que ele estava a exagerar: não era possível que uma casa com mais de duzentos velhinhos estivesse assim tão vazia.

No sábado percebi.

Enquanto ele me andava a apresentar os cantos ao Lar vi muita gente, efectivamente, E não vi ninguém. Vi velhos e velhas encatrafiados em salas de estar, sentados em cadeiras de rodas ou em sofás gastos, a cabecear de sono, com o olhar ausente, enquanto a televisão debitava qualquer coisa à qual eles não ligavam nenhuma. Em cada sala estariam 6 ou 7 mas nenhum deles conversava, nenhum deles sequer reagia à medida que íamos passando, iam-se deixando estar. Vi montes deles na enfermaria "é duro, não é, Zé? Mas não podemos deixar de vir aqui para ver a realidade", completamente amorfos, sem dar por nada. à medida que íamos passando pelos corredores ele ia-me apontando as portas dos quartos fechadas "a este morreu-lhe a mulher...  esta, nunca a vi, nunca sai do quarto... este não faz nada sozinho... este está maluco, não diz coisa com coisa" numa sucessão infindável de misérias e, sobretudo, de solidões.

Francamente, nunca antes me tinha apercebido com tanta crueza como é possível estar tão só no meio de tanta gente! Aqueles velhos estão lá, sentados, permanentemente sentados, à espera que o tempo passe. Imagino-me no lugar deles e imagino o tempo - o Mestre Tempo, como pomposamente lhe chamo - com uma crueldade que não lhe conhecia, com uma impiedade que não lhe conhecia. Imagino-me no lugar deles, sem nada que me aqueça os dias, com as horas a sucederem-se à custa dos minutos, que vão devorando longos segundos, com cada manhã a ser irremediavelmente igual à manhã anterior, antecipando a fotocópia da manhã seguinte, e imagino-me a dar em doido.

Regressamos à sua casa e foi vê-los felizes da vida, a serem acolhidos pelo gato, pelo seu lar de sempre, por todos nós, a reganhar vida. Dão um trabalho do caraças, são mito chatos estão sempre a discutir, mas nessa noite dormimos todos melhor porque eles estavam lá, apenas duas casas acima das nossas.

Sempre disse que, quando fosse velho, gostaria de ir para um lar.

O meu sogro é que a sabia toda!

20131009


Há quanto tempo não te faço eu uma oração
Há quanto tempo não disponho do tempo
e da serenidade
para me encontrar contigo
Há quanto tempo não pego no teu tempo
- que eu penso sempre ser o meu tempo! -
para to restituir, livremente,
calmamente,
como quem pega numa cadeira e se senta à sombra moçambicana e deixa o olhar fluir
como quem pega num terraço
e lhe junta a lua
e deixa a noite fluir
Há quanto tempo não me encontro connosco
não converso connosco
não repouso o olhar em ti
e em mim
para interromper esta sensação de sofreguidão
que eu tanto detesto mas que me vicia, que me impele a prosseguir, que me faz correr, meio sonâmbulo, sem sequer me aperceber como deve ser da vida que passa por mim
e em mim
e de mim
e até mim
Há quanto tempo não me sento e
junto de ti
e em ti
te digo: ok. Chuta.
e me deixo estar, de olhos bem fechados
a escutar os carros que passam lá fora
a as crianças que brincam nos corredores
os sons e os sinais que são vida
que testemunham vida
e me descubro a dar-te graças pela vida
pela correria
pela sofreguidão com que vivo

Sinto a falta desse tempo
no entanto acredito
- quero acreditar? -
que a correria, a sofreguidão, o sonambulismo, esta sensação de estar a correr contra o tempo,
tem o teu nome
tem o teu sorriso
tem o teu apelo
no entanto acredito
- quero acreditar? -
que é por ti
e em ti
e em mim
e nos outros
que eu corro.

bom dia, pai

Bambora

  Não é estranho que nos digam que «ser homem é muitas vezes uma experiência de frustração». Mas não é essa toda a verdade. Apesar de todos ...