20131018


Ontem à noite, enquanto íamos para casa, dizia que atravesso um período de verdadeira felicidade profissional. Corro como o caraças, os meus dias são demasiado curtos, mas tenho chegado à cama sempre com a sensação que foi um dia bom. Uma das minhas filhas disse que era espantoso que eu, depois do que estudei , trabalhei e sofri noutras áreas, me encontrasse finalmente a fazer o que eu faço.. e que adoro fazer!

Apesar de gostar muito de conversar com os meus filhos, de estar sempre atento aos acontecimentos das suas vidas - sobretudo à forma como vão lidando e superando os acontecimentos menos bons - apesar de eles me lançarem aqueles olhares que apenas os filhos lançam aos pais quando sabem que vem aí conselho moral, apesar de não conseguir - nem querer - evitar esse momentos de cima para baixo, sei bem que nada fala mais alto que o exemplo. O facto de os meus filhos terem sentido na pele, da forma mais dura, os efeitos do meu insucesso profissional e pessoal, o facto de eles terem escolhido estar sempre do meu lado, o facto de eles poderem ver, agora, como as coisas também podem resultar, o facto de eles terem experienciado já como podemos ser felizes correndo muito e trabalhando muito e estudando muito e dando muito, tudo isso tem sido uma verdadeira escola de vida para todos nós. Sabemos todos agora que sucesso e insucesso podem ser apenas meras palavras, se tivermos junto de nós aqueles que mais nos amam. Sabemos todos agora que, na vida, há altos e baixos, e que não podemos embandeirar em arco quando as coisas correm bem nem ficar nas covas quando correm mal. Sabemos agora que apenas viver no amor - ainda que não se fale nesses termos porque essa expressão é demasiado fatela - nos dá garantias de ter sucesso na vida.


20131010


O meu sogro, homem de parca formação mas de enorme visão - e que me topou logo que me pôs a vista em cima - achou sempre que eu falava demais, que tinha um lado basófias que lhe custava mito a engolir. E não se enganou.

No sábado fui buscar os tios velhinhos ao lar onde tinham ido fazer uma experiência. Era suposto ficarem lá um mês e não aguentaram sequer uma semana! Quando lá cheguei fomos todos visitar as instalações Não eram nada de especial, nem boas nem más, mas não foi isso o que me impressionou. O tio dizia insistentemente que não se via ninguém, que ninguém ia para a sala de jogos "3 bilhares, Zé, e ninguém vai para lá" que a biblioteca "com mais de 1500 livros!" estava sempre vazia "só lá tem um velhote que pega no Notícias de manhã e nunca mais o larga" e que, fora isso, não se via ninguém "nem nos jardins, nem nos parques, nem nos corredores". Como sempre, achava que ele estava a exagerar: não era possível que uma casa com mais de duzentos velhinhos estivesse assim tão vazia.

No sábado percebi.

Enquanto ele me andava a apresentar os cantos ao Lar vi muita gente, efectivamente, E não vi ninguém. Vi velhos e velhas encatrafiados em salas de estar, sentados em cadeiras de rodas ou em sofás gastos, a cabecear de sono, com o olhar ausente, enquanto a televisão debitava qualquer coisa à qual eles não ligavam nenhuma. Em cada sala estariam 6 ou 7 mas nenhum deles conversava, nenhum deles sequer reagia à medida que íamos passando, iam-se deixando estar. Vi montes deles na enfermaria "é duro, não é, Zé? Mas não podemos deixar de vir aqui para ver a realidade", completamente amorfos, sem dar por nada. à medida que íamos passando pelos corredores ele ia-me apontando as portas dos quartos fechadas "a este morreu-lhe a mulher...  esta, nunca a vi, nunca sai do quarto... este não faz nada sozinho... este está maluco, não diz coisa com coisa" numa sucessão infindável de misérias e, sobretudo, de solidões.

Francamente, nunca antes me tinha apercebido com tanta crueza como é possível estar tão só no meio de tanta gente! Aqueles velhos estão lá, sentados, permanentemente sentados, à espera que o tempo passe. Imagino-me no lugar deles e imagino o tempo - o Mestre Tempo, como pomposamente lhe chamo - com uma crueldade que não lhe conhecia, com uma impiedade que não lhe conhecia. Imagino-me no lugar deles, sem nada que me aqueça os dias, com as horas a sucederem-se à custa dos minutos, que vão devorando longos segundos, com cada manhã a ser irremediavelmente igual à manhã anterior, antecipando a fotocópia da manhã seguinte, e imagino-me a dar em doido.

Regressamos à sua casa e foi vê-los felizes da vida, a serem acolhidos pelo gato, pelo seu lar de sempre, por todos nós, a reganhar vida. Dão um trabalho do caraças, são mito chatos estão sempre a discutir, mas nessa noite dormimos todos melhor porque eles estavam lá, apenas duas casas acima das nossas.

Sempre disse que, quando fosse velho, gostaria de ir para um lar.

O meu sogro é que a sabia toda!

20131009


Há quanto tempo não te faço eu uma oração
Há quanto tempo não disponho do tempo
e da serenidade
para me encontrar contigo
Há quanto tempo não pego no teu tempo
- que eu penso sempre ser o meu tempo! -
para to restituir, livremente,
calmamente,
como quem pega numa cadeira e se senta à sombra moçambicana e deixa o olhar fluir
como quem pega num terraço
e lhe junta a lua
e deixa a noite fluir
Há quanto tempo não me encontro connosco
não converso connosco
não repouso o olhar em ti
e em mim
para interromper esta sensação de sofreguidão
que eu tanto detesto mas que me vicia, que me impele a prosseguir, que me faz correr, meio sonâmbulo, sem sequer me aperceber como deve ser da vida que passa por mim
e em mim
e de mim
e até mim
Há quanto tempo não me sento e
junto de ti
e em ti
te digo: ok. Chuta.
e me deixo estar, de olhos bem fechados
a escutar os carros que passam lá fora
a as crianças que brincam nos corredores
os sons e os sinais que são vida
que testemunham vida
e me descubro a dar-te graças pela vida
pela correria
pela sofreguidão com que vivo

Sinto a falta desse tempo
no entanto acredito
- quero acreditar? -
que a correria, a sofreguidão, o sonambulismo, esta sensação de estar a correr contra o tempo,
tem o teu nome
tem o teu sorriso
tem o teu apelo
no entanto acredito
- quero acreditar? -
que é por ti
e em ti
e em mim
e nos outros
que eu corro.

bom dia, pai

20130930


Uma das minhas características que tradicionalmente mais problemas me trazem é a forma como eu discuto as minhas ideias. Facilmente me deixo envolver pelo calor da discussão e, diz quem me ouve, que o meu tom de voz por vezes se torna demasiado agressivo. Raramente tenho outra intenção que não seja discutir as ideias pelas ideias. Gosto muito do calor de uma boa refrega, gosto muito de quem tem a capacidade de me colocar em causa - o que, em alguns assuntos, não é fácil - e, invariavelmente, respeito quem tem a capacidade de argumentar racionalmente os seus pontos de vista, por muito díspares que sejam dos meus. Como já referi por aqui algumas vezes, o que não posso é com o encolher de ombros, o tanto se me dá, que se vai tornando cada vez mais normal.

Ontem, dia de eleições, só podia dar discussão política lá em casa. Calorosa, como qualquer discussão. No final, disse à minha filha que gosta de politica como eu, que tenho um imenso orgulho quando confirmo que os meus filhos têm capacidade de argumentação e conseguem ombrear comigo nestas discussões. Se há coisa que sempre me preocupou como pai foi em ter filhos que tivessem capacidade para pensar, que se soubessem posicionar na vida, que assumissem batalhas sem medo de dar o corpo às balas por aquilo em que acreditam. Por vezes não é fácil, porque por vezes acreditam naquilo que eu preferia que não acreditassem, mas mesmo essas alturas são um bom motivo para apresentarmos os nossos argumentos e escutarmos - por entre as vozes alteradas - os argumentos alheios. Em boa verdade, gostaria que as coisas acontecessem num outro tom, mais calmo, quiçá mais civilizado. Mas eu discuto como vivo: com tudo o que tenho e sou. E muitas vezes sou mal entendido por causa disso.

20130926


Com a inauguração do novo Espaço, veio a já esperada onda de velhinhos. Para já apenas chegam, ávidos de conversa e de atenção, com um enorme sorriso, apreciam o espaço e inscrevem-se, cheios de vontade de voltar. Apesar de gostarmos muito de os acolher, para nós, tudo isto está, neste momento, repleto de incógnitas. Não estamos habituados a trabalhar com pessoas destas idade, e quando o objectivo é que permaneçam algumas horas junto de nós, muitas questões se levantam. A primeira chegou justamente com o primeiro velhinho, que, visivelmente debilitado, vinha numa cadeira de rodas. Calculamos logo que seja preciso acompanhá-lo quase permanentemente, nas idas à casa de banho, nos lanches, nas conversas. É bem diferente de lidarmos com os miúdos irrequietos e vivaços, que transbordam energia e vida, e que nos têm preenchido os dias. Por isso iremos tentar apostar no intercâmbio entre ambos, em criar oportunidades para a troca de experiências, de convívio comum, que tão arredado anda da nossa sociedade. A intenção não é separar mas unir, enriquecer mutuamente, tornar aquele Centro o local que falta nas casas e nas famílias de cada um.

Curiosamente, enquanto uns entram nas nossas vidas outros decidem experimentar sair. Uns tios nossos, velhinhos e sem filhos, decidiram experimentar umas férias - forçadas - num lar. Será temporário, pois mantêm a casa deles à qual regressarão ao fim de semana, mas nos seus olhares já se vê a desilusão e o medo. Apesar de irem para um lugar com condições bem melhores que as que têm em casa, apesar de irem para um lugar onde podem estar bem mais acompanhados, apesar de irem ter um lugar apenas deles - têm lá um apartamento - para todos os efeitos saem da sua casa porque não conseguem quem cuide deles como eles precisam. E isso é sempre uma derrota. Há já vários anos que a Isabel vai a casa deles todos os dias depois do jantar e aí permanece mais de uma hora a conversar, a cuidar dos medicamentos, a lavar-lhes os pés, com uma entrega tal que me recorda todos os dias porque a amo tanto. No entanto, apesar da sua dedicação, não nos é possível estar lá em casa deles todo o dia, nem sequer que eles venham para nossa casa. E ultimamente os acidentes vão-se sucedendo: a comida que queima, a porta que fica aberta indefinidamente, os óculos que não se recordam onde estão, os medicamentos que se trocam... Apesar do imenso que nos custa, sabemos todos que é chegada a hora de ser tomada uma decisão, sob pena de se tornar demasiado tarde.

Desde miúdo que aposto na minha velhice. No tempo em que terei tempo, no tempo em que poderei ler, caminhar, viajar, namorar, desfrutar da vida como se não houvesse amanhã - até porque qualquer dia não haverá. Estes contactos com os velhinhos não me roubam essa esperança na minha própria velhice. Pelo contrário! Acredito ainda mais que vou ser um velhinho bem feliz. A minha mais-que-tudo diz que não, que vou ser chato como o caraças. Curiosamente, os meus filhos também dizem o mesmo. E quem me conhece bem também. Mas eu não acredito. O que eles têm é ciúmes de eu vir a ser um velhinho feliz.

20130923


Acontece-me isto, por vezes: olho, olho e não vejo nada.

Na semana passada deparei-me com esta frase e não a percebi. Não podia, de facto, tal era a correria em que estava metido. Reuniões em cima de reuniões, preparações em cima de preparações, e eu passo, de repente, a estar em "modo trabalho". Fico completamente focado no imenso que tenho que fazer, no imenso que tenho que preparar, na ânsia que não falte nada, que não escape nada, para que depois, quando a altura chegar, possa usufruir. Não é mau que assim aconteça, pelo contrário. A questão, no entanto, é que nessas alturas tudo o que não é trabalho me passa quase completamente ao lado. Quando chego a casa lá vou conseguindo alguma disponibilidade para os que amo, mas  nem sempre a cabeça está lá.

Nem mesmo quando durmo!

Houve um tempo na minha vida em que eu funcionava em "modo trabalho" vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana, trezentos e sessenta e cinco dias por ano. Não conseguia nunca descontrair verdadeiramente, não conseguia estar com os meus de corpo e alma, não conseguia encontrar tempo ou disponibilidade mental para fazer uma pausa, para separar as águas. Desses tempos ficou-me ainda uma verdadeira incapacidade de estar mais de quinze dias longe do que tenho que fazer. Ainda este ano isso me aconteceu! Nessa altura fui um completo desastre, para mim, para o meu trabalho, e muito particularmente para aqueles que me amam. Quando tive a oportunidade de me refazer, prometi que nunca mais deixaria que voltasse a acontecer.

E cumpri.

Esta semana a custo. A muito custo. Mas cumpri.

20130909


O medo de ser feliz faz-me muita confusão. Aquela coisa de "estou muito bem, alguma coisa está para me acontecer" que impede as pessoas de saborear o momento, de sentir verdadeiramente, abertamente, sem medos ou reservas, como se tivessem medo de subir muito alto só para não caírem. Todas as pessoas que conheço que têm esta tendência são muito mais lestas em sentido contrário, exacerbando o negro como se nunca tivessem visto luz, quase como se encontrassem nessa escuridão o sentido para os seus males. E o pior é que vivem tão à espera que algo mal aconteça que quando acontece - e acontece sempre a todos nós - dizem, cheios de razão: "Vês? Eu não te dizia? Tu nunca vês a realidade!"

Há pouco tempo, num extraordinário encontro de formação, uma das nossas irmãs disse-nos que, durante o seu processo de discernimento, lhe foi pedido para escolher a passagem bíblica que definiria a sua vida. De seguida, deu um breve tempo a cada um dos presentes para pensar qual seria a sua e pediu-nos para o partilharmos. Eu, que nunca tinha pensado nisso nesses termos, não tive dúvidas e escolhi Job 2, 10.

Job foi quem primeiro me seduziu na Bíblia e foi o livro que mais me acompanhou desde que me lembro. A forma como via o que ia acontecendo na sua vida, a naturalidade com que aceitava as coisas boas e as coisas más, contra tudo e contra todos, e a confiança que mantinha em Deus, apesar de todas as vicissitudes, serviram-me muitas vezes de consolo e, fundamentalmente, de guia. Creio que é também por causa de Job que não tenho medo de viver tão intensamente.

Porque razão não o deveria fazer?

Bambora

  Não é estranho que nos digam que «ser homem é muitas vezes uma experiência de frustração». Mas não é essa toda a verdade. Apesar de todos ...