20130907
Uma das coisas que mais problemas me tem causado é o facto de não ser anti-nada. Normalmente não falta quem me exija a mesma radicallidade que sentem. Tanto de um lado como do outro das contendas em que algumas vezes me meto, nunca vêem com bons olhos a minha queda natural para ver o outro lado da questão, o papel de advogado do diabo que, quase sempre involuntariamente, me vejo a desempenhar. Daí à acusação de falta de personalidade é um pequenino passo, que é, aliás, muitas vezes dado. Por muito tempo isso incomodou-me bastante, até que me fui apercebendo que me incomodava ainda mais a minha infiidelidade a mim próprio, que por vezes levava a que fosse artificialmente radical apenas para me poupar.
Como não há regra sem excepção, a única radicalidade que me é visceral desde que me conheço é a do aborto. Mesmo nas mais duras e longas batalhas que tive na altura da discussão da lei - umas olhos nos olhos, outras nos vários fóruns da internet - nunca me conseguiram dar um argumento que me contrariasse a convicção que o aborto é sempre, sempre, o abuso do poder por parte de quem o tem sobre quem não o tem, e que, por muito má que seja a perspectiva de vida que uma criança possa ter, é sempre melhor que nem chegar a ter a possibilidade de vida. Aliás, vida é vida, ponto final.
Numa das melhores experiências de condutor de grupos de jovens que tive, o RH+, discutimos algumas vezes o aborto (interrupção voluntária da gravidez não passa de um eufemismo para esconder a crueza do acto). Porque o RH+ era um grupo cuja riqueza advinha muito do facto de ter nas suas fileiras muitos jovens sem qualquer percurso cristão, jovens que simplesmente andavam à procura e desaguavam no RH+, os nossos debates sobre estes temas ditos fracurantes eram sempre muito ricos e desafiantes. Se para alguém que teve um percurso cristão podemos argumentar com a religião, com alguém para quem a religião não diz muito, os argumentos têm de ser outros. O RH+ foi, também por isso, uma excelente escola para mim, pelo que tive que estudar, que aprender e que tentar transmitir.
Recordo-me que, numa dessas discussões sobre o aborto, alguns deles vinham com os casos estremados que na altura abundavam, de um e do outro, na comunicação social. E recordo-me também de lhes ter dito que não queria saber o que fazia a vizinha do 5º esquerdo numa situação dessas, mas qual a sua forma de estar, o que fariam se contactassem com um caso de possibilidade de aborto, na escola, no café, em qualquer outra situação. E então dizia-lhes para fazerem uma única coisa, para me contactarem, para dar o meu contacto à pessoa em questão, que eu conversaria com ela e depois tentaríamos resolver as coisas.
Não havia nada de demagogia na minha proposta. É minha convicção profunda que apenas podemos defender qualquer atitude se estivermos dispostos a meter as mãos na massa. Por isso ontem, quando vi que o Papa Francisco tinha telefonado a uma mulher que estaria disposta a abortar, lembrei-me do tanto que discutimos no RH+. E agora questiono-me ainda mais porque é que não vemos mais cristãos a fazerem isso, a irem ter com as pessoas, efectivamente, para que elas sintam que não estão sós. E se elas, no final de tudo, decidirem avançar com a sua decisão, escolhendo ignorar os nossos argumentos, acredito que é igualmente nosso dever permanecer junto delas, efectivamente, para que elas sintam que não estão sós.
Quem me conhece sabe que eu gostava muito de Bento XVI pela profundidade dos seus escritos. No entanto, começo a acreditar em Francisco pela sua insistência e disponibilidade em fazer-se efectivamente próximo das pessoas.
Parecem-me ser estes gestos as suas encíclicas por excelência.
20130906
Recebi uma sms: "Pai, disseram-me que aquele teu amigo que consumia está no hospital. E está mal."
Lembro-me de um retiro há uns largos anos em que ficamos no mesmo quarto. De manhã bem cedo, acordei com a sua tosse. Levantei-me e lá estava ele, no corredor, de cigarro na mão e janela aberta a deixar entrar o ar gelado. "Desculpa. Tive que vir dar de mamar aos queixos." Rimo-nos como sempre nos rimos juntos, porque nos sentíamos bem juntos.. Durante uns tempos vimo-nos muitas vezes. Ele tinha regressado de Espanha, onde quase se tinha acabado de perder, recuperara a custo, arranjara emprego, e participava nos nossos encontros. "Se na altura soubesse que havia disto nunca me teria metido nesta merda". Era bem mais velho que nós mas todos o acolhíamos com agrado no nosso seio. Era também uma conquista nossa, em parte uma mascote, e exercia em muitos dos mais novos o fascínio do filho pródigo. Contava-nos as histórias espanholas das suas descidas aos infernos que abundam no submundo da droga, e terminava sempre com um aviso muito sério para que não caíssemos nas armadilhas.
Aos poucos o tempo foi passando, entretanto eu mudei de pouso e volta e meia iam-me chegando notícias suas. Fora despedido, começava a pedir dinheiro emprestado aos do grupo que nunca mais devolvia, em sua casa recomeçaram os desaparecimentos de tudo o que era vendável, até que voltou a sumir-se. Passados uns anos, numa das rondas que na altura eu fazia aos sem abrigo, vi-o, em S. Bento, a dirigir-se para a carrinha. Trocamos abraços, palavras de circunstância, juras de voltarmos a contactar, e perdi-lhe o rasto. Na altura fiquei abalado e ele foi provavelmente o mais forte pretexto para deixar de ir aos sem abrigo.
O desconforto que sentia devia-se à sempre presente consciência que nada de substancial me separava daqueles a quem servia na carrinha amarela. Que os que se aproximavam de nós poderiam muito bem ser os meus vizinhos de infância, os amigos com quem brinquei lá no bairro, as namoradinhas que ia tendo quando era miúdo ou o meu primo que era arrumador na Praça Velasquez. Por isso nessa altura, quando o vi, envergonhado, a dirigir-se a mim, o espanto não foi muito, era apenas a confirmação que estava certo. Que aquilo que ditou a diferença dos nosso caminhos foi um "não" aqui, um "sim" acolá, uma família que, apesar de tudo, não permitia tudo, e fundamentalmente, uma escolha pelos amigos certos, uma descoberta - e mais tarde uma opção - pela divindade certa.
Mas poderia ter sido exactamente ao contrário.
Ainda não o esqueci.
E espero que nunca o esqueça.
Desde muito novo que estou habituado a lidar com o que eu chamo opinadores de sofá. E confesso que as suas opiniões não me merecem um respeito especial.
A última opinadora foi justamente uma da minhas filhas. Na minha paróquia temos uma coisa que se chama "Mesa de São Pedro" onde, todos os dias, várias equipas se vão revezando para que algumas das pessoas mais carenciadas possam ter algo que comer. Assim, todos os dias, ao jantar, é servida pelo menos uma sopa quente a quem, em princípio, mais precisa. Alguns de nós - os que querem - lá de casa, estamos ao serviço de 15 em 15 dias. Numa dessas noites, em que, necessariamente, chegamos mais tarde para jantar, a Mesa de São Pedro foi tema de conversa e uma das minhas filhas disse que não ia porque não concorda com aquilo, porque estávamos a perpetuar a miséria, porque nos limitávamos a matar a fome, porque aparecia lá gente que afinal não precisaria tanto como isso, porque... porque... porque... Depois de argumentarmos mutuamente disse-lhe que, se não concordava com o que estava a ser feito tinha duas hipóteses: ou vinha connosco e contribuía para solucionar aquilo com que não concordava, ou então respeitava aqueles que, ao contrário dela, não se limitam a ficar no sofá à espera que as coisas mudem caindo do céu aos trambolhões.
Fim da discussão.
Nestas alturas, lembro-me muitas vezes da Madre Teresa de Calcutá. Até porque, sendo eu um sofasista de gema, não me é nada difícil encontrar mil e um motivos para permanecer quieto no meu canto. Sempre que tenho que dar à perna, mil e uma questões me assaltam, e muitas delas são justamente aquelas que a minha filha advogou. E muitas vezes - provavelmente a maioria delas - se não fosse o meu motor fora de borda a puxar-me eu ficaria mesmo no sofá.
No entanto, ao fim destes anos todos, não encontrei ainda melhor forma de mudar as coisas, de mudar o mundo que me rodeia, que não seja arregaçar as mangas e meter as mãos na massa. Que posso fazer muito mais que dar de comer, ou que ensinar, ou que tentar educar, isso já eu sei. No fundo, trata-se sempre de tentar restituir a dignidade que muitos nem sequer acreditam ser um direito seu, de tal forma apanharam pancada a vida toda. E isso, fazer alguém acreditar que é capaz, levá-lo a descobrir os seus próprios sonhos, convencê-lo que tem possibilidades de os alcançar, que pode lutar para conseguir torná-los realidade, eu nunca consegui fazer a partir do meu sofá, do meu pequeno mundo certinho e rodeado de harmonia e felicidade.
Por muitas boas ideias que tenha sobre o assunto.
Disseram-me ontem, ao final da tarde, que afinal os tinha enganado. Que afinal também eu estava a caminho, lá, no meio deles. Não o meu corpo, que esse estava em casa a essa hora, mas o meu corpo é apenas uma pequena parte do que sou.
No final das férias tive mais uma infeliz notícia da morte de mais uma amiga do nosso velhinho e saudoso grupo de jovens. Cancro, mais uma vez. Juntamo-nos, uma vez mais, no seu velório e, como sempre, reatamos as conversas que ficaram suspensas algures no tempo, conversando como se nunca nos tivéssemos separado. Os que pudemos, cantamos no seu funeral. Bastou um curtíssimo ensaio para sabermos e recordarmos o que iríamos cantar e fizemo-lo de forma profundamente identificada e sentida. Ao olhar para a igreja a abarrotar de amigos seus, pensei como, apesar de tudo, seria bom morrer assim.
Na vida não temo muitas coisas. E a esmagadora maioria das que temo estão muito mais ligadas àqueles que amo que propriamente a mim. Mas temo a solidão. Não a solidão física ou a que encontro quando a procuro, e que por vezes tanta falta me faz, mas aquela que poderá decorrer das minhas acções, das minhas atitudes, do meu desamor. A solidão que é consequência do desinteresse, do egoísmo, do umbigo sem limites. Por isso temo que, um dia, ao olhar para mim, a única coisa que encontre seja um enorme vazio, um enorme nada, um buraco negro que tudo sugou à sua volta.
Uma das formas de me sentir mais feliz é a da redescoberta que habito e sou habitado. Que apesar de todas as vicissitudes, de todas as incongruências, de todas as fragilidades, tenho pessoas imunes ao tempo, para quem o tempo é o tempo de Deus e não o dos homens, para quem e com quem não existe o ontem ou o amanhã, mas que nos habitam de tal forma que tudo é - somos! - mutuamente, verdadeiramente, saborosamente, presente.
20130902
Uma destas noites, enquanto nos despedíamos, em família, das férias com uma caminhadazita na Foz, um dos sítios preferidos do nosso mundo, conversávamos como foi importante este tempo de reencontro. Deu para parar, para namorar, para fazermos coisas juntos e separados, para recarregarmos baterias, colocar o trabalho em ordem, para passearmos e conhecermos coisas novas. Um tempo muito bom e muito importante para nos reencontrarmos uns nos outros.
A minha mais-que.tudo passou uma parte substancial do tempo a tentar organizar a imensidão de fotos que estava espalhada por imensos álbuns, gavetas, livros e prateleiras. Durante mais de uma semana a nossa mesa da sala esteve impraticável tal era a profusão de fotos de passeios, aniversários, baptizados e comunhões. Como tudo o que se passa em família se passa em nossa casa, e ainda por cima somos muitos, temos um manancial de recordações verdadeiramente encantador e invejável.
Eu normalmente não ligo muito a fotos nem a este tipo de recordações. Como sou o fotógrafo de serviço, tiro bastantes, arquivo-as e raramente lhes volto a por a vista em cima. Desta vez, no entanto, foi incontornável fazê.lo. Não sem algum custo, porque descendo em linha directa de uma família de lágrima fácil e rever todos aqueles momentos da nossa vida é fazer uma viagem ao que de melhor fomos vivendo. Voltar a recordar os passos dos nossos filhos, as casas onde vivemos, as experiências, todas elas únicas, das nossas férias, dos nossos passeios, dos nossos melhores momentos - quem é que tira fotos dos momentos de dor? - das nossas conquistas mútuas e sempre partilhadas, é, de certa forma, voltar a vivê-las. E isso é muito bom.
Ontem à noite, por causa de um acontecimento que não é para aqui chamado, pus-me a pensar na imensidão que se tornou a minha vida apenas porque, nos momentos mais decisivos, tive a sorte de escolher o que devia, quem devia, e não me deixei encantar pelo mais ilusoriamente fácil.
Deus seja louvado!
20130808
O Bairro
Por estes dias tenho descansado mesmo. Aproveito para fazer coisas que gosto tanto e para as quais normalmente não tenho tempo: limpeza global do computador, leitura em ordem, dormir uma boa sesta, um sol e uma boa praia, caminhadas e conversas, e namoro, muito e delicioso namoro. Por entre esta azáfama de dolce fare niente de importante, fui a um batizado na Igreja de Ramalde. Por coincidência estavam lá alguns dos nossos miúdos e tivemos a alegria do reencontro de quem se quer bem.
Tanto eu como a minha-mais-que-tudo saímos desse reencontro verdadeiramente felizes. Uma das características mais vincadas desta malta é justamente a sua ausência de máscaras, o que torna tudo muito à flor da pele, muito natural. Como são tão efusivos nas suas demonstrações de carinho como nas de desagrado, não têm pruridos nenhuns em nos abraçar e nos apresentar à família toda por entre as mais sonoras gargalhadas.
Depois de nos despedirmos deles, enquanto íamos no carro para a festança do batizado para o qual tínhamos sido convidados, não pudemos deixar de conversar acerca da tremenda disparidade dos mundos em que estamos envolvidos. De um lado, o bairro com toda a sua crueza, com toda a sua naturalidade, em que tudo é muito tudo; do outro, a sociedade mais civilizada, educada, mas também muito mais controlada, com muito maiores barreiras. E entre eles, nós, e outros como nós, que na maior parte das vezes fazemos de ponte entre ambos, que, como os conhecemos a ambos, sabemos que nem nos podemos iludir nem desiludir em demasia.
Nestas alturas, é inevitável que eu questione a minha pertença. À porta da Igreja, tendo uns e outros tão perto e ao mesmo tempo tão distantes entre si, não conseguia para de me questionar a que lado pertenço verdadeiramente. Tenho a certeza que se me desse largas, se baixasse a minha omnipresente guarda, a minha resposta seria inequívoca: tudo aquilo que em mim é instintivo puxa-me para o Bairro, para as gargalhadas em alto som, para a dança mais rapioqueira, para a alegria mais à flor da pele mas também para a fúria mais intempestiva e irracional. No entanto eu, hoje, não sou apenas o Zé do Bairro da Câmara que fui durante anos. E sei que, agora, não quero baixar a guarda, não quero deixar de me ter debaixo de olho, não quero voltar ao Bairro naquilo que o Bairro tem de mais nefasto. Mais, Nesta altura, não quero nem posso fazê-lo. Porque aquelas pessoas também contam comigo para que um dia possam olhar para o Bairro com esta distância.
PS: O Bairro não é o bairro, não é apenas um conjunto de casas para onde são despejadas algumas das pessoas mais carenciadas das cidades. O Bairro é algo que se cola à pele, é uma etiqueta que nos coarta na nossa liberdade, nos nossos sonhos, que nos condiciona o presente e nos rouba o futuro. Se, quem manda nas cidades e nos países, alguma vez tivesse vivido num bairro, a primeira coisa que fazia era deitar aquelas casas abaixo e realojar as pessoas junto com as outras pessoas, as normais. Sim, todos somos normais, mas se olharmos atentamente, uns são mais normais que outros. Iludir isto é não querer ver a realidade.
O resto é conversa para menino ver.
20130726
Um dos principais indicadores do meu cansaço é a falta de paciência. Não com os outros mas comigo, quando estou sozinho. Quando o dia termina, o rádio incomoda-me, chego a casa e não sei o que hei de fazer com tempo, pego num livro e largo-o, pego noutro e não me satisfaz logo às primeiras páginas, a televisão não passa nada em condições e, como se não chegasse, todas as noites uma qualquer canção perfeitamente estúpida invade-me o sono fazendo com que, invariavelmente, veja nascer o dia de olhos bem abertos. Poucas coisas me chateiam tanto como este tempo intermédio em que estas coisas ainda não acabaram mas as outras ainda não começaram. Em princípio, amanhã, esse tempo terá acabado. Afife, com as suas praias, com a sua calma, com o seu tempo nublado, com as suas noites frias, espera por mim. Amanhã, em princípio, encetarei uma nova recuperação. De mim mesmo.
Boas férias
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Bambora
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