20120207

Daily Quote:

Perhaps strength doesn't reside in having never been broken, but in the courage required to grow strong in the broken places.


~ Unknown




Apesar de tudo, a minha personalidade tem algumas coisas que me deixam feliz. Uma delas é o facto de nunca ter acreditado em pessoas perfeitas e não ter ficado cínico por causa disso. Na realidade, não acredito que haja alguém perfeito. A não ser Jesus, claro. Mas esse é um outro campeonato. Acredito muito na capacidade que cada um de nós tem de fortalecer as cicatrizes, de viver com remendos e de acreditar que são justamente essas cicatrizes que as tornam mais belas. Também por isso eu tenho um gosto um bocadinho esquisito. Detesto aquelas mulheres tipicamente americanas, tipo Donas de Casa Desesperadas, sem encorrilhas na cara, sem nada descaído, como se fossem barbies ambulantes. Acho muitíssimo mais bonitas as mulheres naturais, sem pinturas, com cabelos brancos, com encorrilhas, com marcas de vida. E quem diz mulheres diz casas, lugares, carros...


Digo muitas vezes que as pessoas não têm que ser perfeitas para gostarmos delas. Aprendi isso muito cedo, muito menino e, embora tenha sido doloroso na altura, fez-me muito bem. Ajudou-me a tentar perceber as pessoas, a tentar colocar-me do lado delas e, fundamentalmente, a tentar percebê-las, ainda que continuando a discordar das suas atitudes e decisões. 

Sou amigo de um punhado de homens que são exactamente quem eu gostaria de ser: sérios, competentes, firmes, muitíssimo bons naquilo que fazem e reconhecidos por todos. Ainda há pouco tempo admirava a forma serena mas firme como um desses amigos chamava a atenção a um aluno. Sem alaridos, sem levantar a voz, mas confrontando-o olhos nos olhos, de forma a não dar qualquer hipótese de argumentação. Passados alguns dias disse-lhe justamente isso: que se eu alguma vez desse aulas gostaria de ser como ele, de seguir o seu exemplo.
Ainda bem que o fiz. São estas coisas que me fazem verdadeiramente feliz.

Levei muito tempo a aceitar-me tal como sou.Não é fácil. Sempre tive a imensa sorte de estar rodeado de pessoas verdadeiramente encantadoras, como diz o Pe. Almiro, que sempre me fizeram sentir pequenino no meio delas. Por vezes caio no erro de construir determinadas imagens de mim, de me refugiar nelas, de as apregoar aos sete ventos na expectativa que; à força de tanto o ouvirem, os outros não reparem verdadeiramente em mim. Como tudo aquilo que é falso, nunca duram muito tempo. Tenho sempre alguém que me é suficientemente próximo - e que gosta de mim o suficiente - para descobrir a inadvertida tramóia e me ajudar a desmontá-la.


20120206


Curioso...
Assim que vi esta foto pensei logo em ti. Na realidade, espanta-me eu não sejas tu a estar em cima do escadote, atarefada a semear as estrelas. Ou a recolhê-las, não sei bem. Porque tu és assim: ora vais semeando estrelinhas nas entrelinhas para que outros as possam recolher, ora tentas tu própria desencantá-las num qualquer canto escondido, como quem procura agulhas num palheiro. Outra coisa que nesta foto tem a tua cara é o aparente absurdo de cuidar das estrelas quando elas menos se vêem, quando está dia. Também tu és assim, queres lá saber das tuas condições, queres lá saber se o tempo é verdadeiramente o tempo de colher ou semear. Não estás nem aí, para ti é sempre tempo e fazes com que o tempo seja de alguma forma o tempo. Ponto final. E sim, também tu tens um escadote, também tu fazes questão de fazer das tuas fraquezas forças de forma a ver a partir de um pouco mais alto que aquele que te é natural, também tu usas os teus artefactos e artifícios para enganar a tua condição, qualquer que ela seja. E a varinha de condão tem tudo a ver contigo, Absolutamente tudo! Porque muitas vezes também tu tentas transformar a realidade, com um pouco de toque, com outro tanto de palavras mágicas, e a realidade transforma-se... e tu com ela.
De certeza que não és tu?

20120129



Ontem fomos namorar. Só para acabar melhor um dia que tina começado (e continuado) com discussão. Jantamos com a filharada e fomos a seguir. Só os dois. Sala cheia, como há muito tempo não via, e um filme enorme. Não é daqueles que dá nas vistas, que enche o olho, de história ou lágrima fácil. Mas é uma grande história recheada de várias grandes interpretações, com o Clooney à cabeça. Ele, que tinha tudo para ser (mais) um Geere, com os papéis de sedutor de meia idade (ia dizer de meia tigela mas deve ser inveja), tem enveredado por outros caminhos, bem mais complexos, bem mais exigentes, bem melhores, na minha opinião.

Creio que este será um daqueles filmes que nos farão companhia por muito tempo. Aliás, um dos últimos do Clooney já tem em nós um lugar cativo: o Up in the air. São filmes que nos ajudam a desbloquear conversas, a escolher caminhos, até a evitar situações como se espelhos se tratassem, elementares na construção de um património comum que não é feito apenas de beijinhos e abraços mas fundamentalmente de boas conversas, de boas partilhas, de renovados pontos de partida. Porque quando vamos ver um filme nunca vamos apenas ver um filme. Conversamos muito, discutimos alguma coisa e reconciliamo-nos sempre. Por isso estes filmes para nós nunca são apenas filmes: são estados de alma, são momentos aos quais de vez em quando voltamos, sempre com a nostalgia a fazer-nos companhia.

Ontem fomos namorar.
Já precisávamos!

20120127


Foi bom, hoje.
Tão bom que preciso resistir à tentação de debitar palavras pelos dedos fora.
Tão bom que preciso meter as palavras num cálice e, à média luz, com uma boa música, decantá-las e saboreá-las como se de um excelente Porto se tratasse.

Já tenho programa para a noite.

Obrigado ;-)


20120125



Uma das coisas boas de crescer é a oportunidade de irmos corrigindo o nosso olhar sobre o mundo. Por vezes passamos anos a ver a (nossa) realidade sob um determinado ponto de vista e de repente essa realidade apresenta-se-nos completamente nova.

Por causa de um dia de reflexão do 10º ano, a dignidade tem andado a fazer caminho cá por dentro. Quanto mais vou pensando nisso, mais vou chegando à conclusão que a restauração da dignidade às pessoas é um dos  principais objetivos de Jesus. Na altura referia-me à Samaritana que, com Jesus, voltou a ter a capacidade de ir ao encontro das pessoas de quem antes fugia, voltou a poder andar de cabeça erguida, sem medo do julgamento que dela faziam. Mas isso pode ser aplicado a qualquer um dos interlocutores de Jesus: Zaqueu, Madalena, os cegos e os coxos, os leprosos, o bom ladrão... a todos Jesus fez sentir que eles eram dignos enquanto pessoas, enquanto desejo de futuro, independentemente da sua condição social, dos seus defeitos, do seu passado. Que a sua dignidade decorria do seu valor intrínseco enquanto pessoas, de quem queriam ser, das amarras que estavam dispostos a cortar para se encontrarem com Ele.

Acredito que o medo é o nosso maior limite. O medo de cair no ridículo, o medo de falhar, o medo de nos colocarmos nas mãos dos outros, o medo de deixarmos cair as defesas... sei lá, são tantos os medos - conscientes e inconscientes - que connosco se levantam da cama todos os dias que por vezes até nos fazem companhia enquanto dormimos. Muitos de nós vivem a partir do medo: tentam precaver o futuro, habitam-se a viver fechados em casulos, muito protegidos, muito senhores de si, controlando os acontecimentos até ao mais ínfimo pormenor. Julgando-se senhores da sua vida até um dia.

Se pensarmos nas grandes personagens da história, naquelas que efetivamente transformaram as consciências e o mundo, verificamos que aquilo que lhes é comum é justamente esse desassombro que impede que o medo lhes tolha a vida, que os impele a avançar contra tudo e contra todos.
E que aquilo que os separa, aquilo que os faz estar do lado certo ou errado da Humanidade - e sim, senhor, há um lado certo e um lado errado para se estar - é justamente essa noção de dignidade da Pessoa por que pautam as suas vidas.
E as dos outros.

20120123


Qualquer pessoa que use a net para mais que ir cuscando no Facebook olha para esta foto e bem-lhe um nome à cabeça: Banksy. Claro que não deve ser dele - não se consta que tenha estado por cá - mas tudo se inspira na sua forma de grafitar: a acutilância da imagem, as palavras de ação, a mensagem. Aliás, se as palavras fossem inglesas aposto que todos diriam que era dele.

Curiosamente, a primeira coisa que me veio à cabeça quando a vi foi o Novo Testamento.
Confuso?
Passo a explicar.

No último livro do José Rodrigues dos Santos ele afirmava que alguns dos textos do Novo Testamento eram uma fraude pois os seus autores eram outros que não aqueles que referiam. Ou seja, textos de São Pedro, São João ou São Paulo, afinal não teriam sido escritos pelo seu punho mas por outros, ainda que inspirados por estes apóstolos. Para José Rodrigues dos Santos estes textos, apesar de "copiarem" o estilo, as palavras, a filosofia daqueles que referia, eram - reafirmo-o porque ele fá-lo constantemente - uma fraude.

Voltemos à foto acima. Apesar de não ser do Banksy não me parece que seja uma fraude, nem que a sua mensagem seja menos poderosa por causa disso. Se, por absurdo, daqui por trinta anos alguém a visse e conhecesse o Banksy, se, por absurdo, não dispusesse desta poderosíssima ferramenta que é a internet, que lhe poderia tirar a dúvida e se, mais uma vez por absurdo, se entretivesse a colecionar, a estudar ou a catalogar grafites como forma de perceber melhor a realidade contemporânea, não seria descabido se catalogasse este grafite como sendo Segundo Banksy. O que não faria nem de Banksy nem do seu verdadeiro autor artistas fraudulentos.

E, sobretudo, não tornaria o grafite menos verdadeiro.

Bambora

  Não é estranho que nos digam que «ser homem é muitas vezes uma experiência de frustração». Mas não é essa toda a verdade. Apesar de todos ...