20111220



Não gosto. De nenhuma delas. Mas entendo-as. A ambas.

Não gosto porque não gosto que digam mal de quem é importante para mim. O que não quer dizer que pense que são perfeitos. Longe disso. Quer dizer apenas que amo apesar dos defeitos, apesar da imperfeição, e não é raro descobrir que amo justamente pela humanidade que a perfeição lhes traz. Porque sempre que conheço alguém ou alguma organização perfeita torço o nariz. E descubro sempre que a sua pseudo perfeição não passa de uma fachada muito bonita para ver mas sem conteúdo, sem sumo, sem vida. E a Igreja não é assim. Não é perfeita, não é fachada, não é sem vida. Mais: é uma Igreja que viveu os seus piores momentos quando se julgou perfeita e exigiu a perfeição aos seus como se uma Igreja viva não fosse uma Igreja incarnada na vida e na história dos homens. Imperfeitos.

Percebo que sejam justamente os que não acreditam na Igreja que lhe exijam a perfeição. Percebo melhor que essa exigência venha dos que não têm fé que daqueles que conhecem Jesus e O tornam o seu modelo de vida. Porque uns regem-se por ideais humanos, nós regemos-nos por uma Pessoa. Que ama. Ponto final.

Percebo por isso ambos os cartoons. Porque a pedofilia e a ostentação são duas nódoas da Igreja que, durante anos, teimamos em esconder ou fazer de conta que não existem. Porque ambas - embora com uma dimensão muito diferente na consciência comum dos cristãos - são uma imagem muito triste de quem tem por missão levar Jesus aos outros. Porque ambas dificultam que sejamos nós próprios caminho para os outros.

Apesar de tudo, apesar de as entender, não gosto. De nenhuma delas.

20111215


Não conheço melhor forma de avaliar a minha amizade, senão a das lágrimas e dos sorrisos. Nada do que acontece com aqueles de quem sou amigo me é indiferente, me passa ao lado, passa despercebido. Quando muito, olho para o outro lado, invento uma laracha que desvie as atenções, ou então faço-me de muito ocupado. Quando estas coisas não resultam, então, paro, olho nos olhos, acontece uma permissão mais tácita que formulada e preparo-me para o que aí vem. Às vezes é bom, às vezes é mau, noutras é pior ou melhor que isso. Quando as coisas são verdadeiramente boas ganho o dia como se fossem minhas, rejubilo, pincho e louvo a Deus. Quando são verdadeiramente más, sou de lágrima fácil e desavergonhada, não digo nada e louvo a Deus (Job ensinou-me muito no que toca a louvar a Deus).

Entendo perfeitamente que isto possa parecer estúpido para quem está de fora. Exasperei já muitas vezes com a minha Catarina que nas coisas más sai tanto ao pai que dói. Perguntei-lhe inúmeras vezes se ela não tinha vida própria, se precisava das alegrias ou das dores dos outros para viver, numa tentatíva tão sem sentido quanto inglória de tentar que ela seja exatamente como é. Talvez fosse para evitar que ela tenha dias como alguns dos meus dias, ensombrados pelas dores que, sendo de outros, não me são alheias. É estúpido, porque se tiver a sorte do pai terá também muitos mais dias ensolarados pelas suas alegrias.

Hoje o meu dia anoiteceu.
De repente.
Deus seja louvado!

20111209


Hoje a Pat respondeu afirmativamente. Eu não consigo.
Pelo menos ainda não.

Não tenho ainda claramente definido o que sinto em relação a Moçambique. Ainda ontem falava com uma amiga acerca disso e, conscientemente, não consigo dizer, de caras, que voltaria lá. Tenho, deste lado do mundo, demasiadas coisas que me mantêm agarrado ao quotidiano, demasiados projetos inacabados, demasiadas coisas a fazer, e, ainda e fundamentalmente, demasiadas pessoas que me provocaram enormes saudades e das quais não estou ainda preparado para me voltar a separar.

Sei, contudo, que a questão de fundo não é bem essa. A verdadeira questão é que não sinto necessidade de partir. Adoraria voltar a viver o que juntos vivemos, adoraria voltara a partilhar o que partilhamos e como partilhamos, adoraria voltar a rezar e a chorar e a rir e a brincar com a candura, a inocência e a abertura com que todos o fizemos. Se fosse para isso, certamente que o faria. Só que para que isso acontecesse precisaríamos estar no outro lado do mundo, longe dos nossos, e isso seria um preço demasiado alto para mim, que já vivi tempo suficiente para saber que na vida tudo é novo. Todos os dias. E que nada se repete.

Prefiro agarrar-me ao que tenho. Prefiro a memória daquele extraordinário mês, prefiro a memória  daquelas casas, dos terraços, das noites, das longas conversas ao luar, prefiro a memória daqueles que, daqui e de lá, montaram tenda cá por dentro e volta e meia me vêm revisitar.

Eu gosto da saudade. Aquece-me a alma ;-)



Não sou particularmente diferente de ninguém. Também eu tenho uma zona reservada a olhares alheios, a julgamentos alheios, a opiniões alheias. Também eu tenho partes de mim que não gosto de revelar, de dar a conhecer, de colocar nas mãos dos outros. Não porque desconstrua qualquer imagem que possam ter de mim - já referi algures por aqui que essa é uma das coisas boas da idade: percebemos que não podemos agradar a todos e aprendemos a viver bem com isso - mas, principalmente, porque não quero incomodar niguém, pertubar ninguém, principalmente aquelas pessoas que me vão conhecendo melhor.

Porque acredito piamente na nossa possibilidade de recomeçarmos sempre, todos os dias - por vezes até várias vezes ao dia - é frequente transmitir sinais confusos aos outros: ora pensam que sou melhor, ora pior do que efetivamente sou. Preocupa-me de modo particular a primeira hipótese. Porque quando os outros têm de nós uma imagem negativa só podemos subir, agora, quando sucede o contrário, o único futuro é a decepção, e isso é terrível. Por isso, quando tento baixar as expectativas normalmente pensam que me estou a armar aos cágados, a brincar aos humildes, e não acreditam.

Da última vez que isso me aconteceu dei comigo a perguntar-me se não seria eu a ter uma imagem errada de mim próprio. Nada disso. Apertando-me nos momentos certos, tirando-me o tapete, levando-me para além do meu limite, não sou mesmo flor que se cheire. E o melhor a fazer, mesmo, é tentar resistir.

Até à próxima.


20111129



Chorar em público

Por Miguel Esteves Cardoso
Quando sair este jornal, a Maria João e eu estaremos a caminho do IPO de Lisboa, à porta do qual compraremos o PÚBLICO de hoje. Hoje ela será internada e hoje à noite, desde o mês de Setembro do ano passado, será a primeira vez que dormiremos sem ser juntos.

O meu plano é que, quando me expulsarem do IPO, ela se lembre de ir ler o PÚBLICO e leia esta crónica a dizer que já estou cheio de saudades dela. É a melhor maneira que tenho de estar perto dela, quando não me deixam estar. Mesmo ficando num hotel a 30 passos dela, dói-me de muito mais longe.
... Eu estou aqui ao pé de ti. Como tu estás ao pé de mim. Chorar em público é como pedir que nada de mau nos aconteça. É uma sorte. É o contrário do luto. Volta para mim.
http://jornal.publico.pt/noticia/28-11-2011/chorar-em-publico-23509804.htm
Não é a primeira vez que o amor entre o Miguel Esteves Cardoso e a Maria João me comove. Ao longo dos tempos tenho-o lido e acompanhado o seu sofrimento, as suas idas ao IPO, as suas cartas de amor públicas e publicadas. Parece-me incrível que este seja o mesmo MEC do Independente, dos livros com títulos desabridos, das dependências gastronómicas e alcoólicas. Um MEC que umas vezes era absolutamente genial e outras tremendamente snob, insultuosamente snob, a roçar a infantilidade. A realidade é que este amor, esta vulnerabilidade, esta capacidade de sofrer por quem se ama, pelo menos aos meus olhos,tem o condão de o humanizar e de o fazer subir uns valentes degraus na minha consideração. Não que isso tenha alguma importância para ele. Mas tem para mim. E, acredito, para todos os que sabem o que é sentir a dor de quem se ama.

20111125


Nada em mim é insignificante.
Absolutamente nada.
Nada em mim não se repercute naqueles que comigo vivem, que comigo contactam, que comigo dividem a azáfama do dia, que comigo tentam descobrir essa coisa efémera que é a felicidade. Não há gestos pequenos, não há palavras pequenas, não há atitudes pequenas, sem significado, sem consequências. Em mim tudo conta, tudo pesa, tudo significa.

E tudo me entra pelo olhar.

É espantosa a facilidade com que a vida me pode passar ao lado. Como posso passar ao lado das pessoas sem as ver, como posso passar ao lado das situações sem deixar que me salpiquem, como posso passar ao lado da vida dos outros sem que eles passem de figurantes de um filme que tem o meu próprio umbigo como actor principal.
Tudo porque, consciente ou inconscientemente, escolhi não olhar.

Acredito que o verdadeiro fundamento do AJUDA é justamente esse: educar o olhar. Fazer ver, fazer reparar, fazer notar que à nossa volta existem pessoas que vivem uma condição social diferente, que têm diferentes horizontes, diferentes limitações, e sonhos e expectativas e futuros que, à partida, sem que por isso sejam responsáveis, condicionam as suas vidas. E que, à partida, sem que por isso sejamos responsáveis, condicionam as nossas vidas. Mas que, à chegada, todos somos responsáveis pelas vidas uns dos outros.

Hoje acordei com esta vontade de reeducar o meu olhar.
Creio que é um bom desígnio para o Advento.
Talvez desta forma consiga reparar naquele que veio para me encontrar.


20111122


Há dias assim: loucos. Total e absolutamente loucos. Que normalmente se seguem a semanas igualmente loucas, que estas coisas nunca vêm sós. Acontecem sempre quando menos preciso delas, quando anseio por um pouco de tempo para fazer o que tenho mesmo que fazer sem ter que correr. Mas é inevitável. Parece que o vento assola justamente quando precisava que amainasse. E isso é sempre uma lição de humildade para mim. Quando penso que tenho tudo devidamente organizado, controlado até ao mínimo pormenor, quando vou adiando as coisas confiando que terei tempo para tudo, em suma, quando me armo aos cágados, é quando as coisas acontecem. Um telefonema, uma convocatória, um programa que não estava no programa mas ao qual não posso fugir e lá ando eu com as calças na mão, a contar os dias, as noites e as horas que vou roubar à cama.

Nestes dias assim, loucos, a minha adrenalina dispara para valores pouco aconselháveis. Sinto-me capaz de caminhar daqui até aos confins, sabendo contudo que meia dúzia de passos depois já não posso com uma gata pelo rabo, porque a adrenalina não mata mas mói e sei que daqui a pouco vai-me doer tudo.

Neste preciso momento anseio por um pouco de calma, por acabar o meu curso e me permitir ler um bocado ou fazer coisa nenhuma sem sentir culpa alguma por fazer coisa nenhuma. Anseio pelos meus livros, pelos meus filmes, pelos meus podcasts, pela minha música, pelos meus inúmeros artigos que, todos eles, me esperam impacientemente enquanto eu ando ocupado com outras coisas. Anseio por poder caminhar ou correr ou vegetar no sofá no final de cada dia de cabeça livre para a libertar ainda mais. Anseio por namorar, de mão dada, junto à Foz ou no Parque da Cidade. Anseio por umas boas sardinhas assadas - que este ano, por causa de Moçambique, foram escassas - na Casa Serrão, recheadas por uma boa conversa e seguidas por um excelente filme "arrebenta corações".

Anseio por isto tudo e muito mais. Mas ansiar mais não faz que me indicar o norte. Porque o caminho, esse, é sempre em frente. E, espero, sempre a subir.

Bambora

  Não é estranho que nos digam que «ser homem é muitas vezes uma experiência de frustração». Mas não é essa toda a verdade. Apesar de todos ...